Ernesto Pellanda, bisnono


Para os olhos de Marina

Minha querida neta:

Haveres nascido no dia em que eu completava sessenta anos de vida foi muito mais do que simples coincidência. Foi um presente teu e de teus pais que não só me comoveu profundamente como me fez recordar todos aqueles que vieram antes de nós e que, mesmo sem pensar nisto, determinaram nosso destino.

Quando um dia estiveres lendo estas linhas saberás que houve um homem com esse nome, Ernesto Pellanda, que foi o teu bisavô; bisnono, como dizem na terra de onde veio o meu, que se chamava Luiz. Agora já sabes também porque me chamo Luiz Ernesto.

Ernesto nasceu em 1896, num 19 de maio, poucos anos depois que Luiz e seu pai Celeste chegaram ao Brasil, vindos do Vêneto Italiano. Lá havia muita dificuldade para se conseguir trabalho e a região, empobrecida por guerras, não podia mais sustentar seus cidadãos. A mãe dele se chamava Carlota Belitz, Pellanda depois de casada, e já havia nascido no Brasil; tinha descendência germânica e algum sangue bugre. Esta talvez seja uma das razões que levaram Ernesto, mais tarde, a escrever tantas e tão belas páginas sobre a colonização italiana e germânica do Rio Grande do Sul.

Nascido e criado no interior do município de São Gabriel, veio cedo para a Capital. Aqui estudou e ajudou no sustento da família, pois o vô Luiz teve um acidente vascular cerebral que o deixou sem poder falar ou se mover com desenvoltura durante os últimos quinze anos de sua vida. Por isto sempre o ouvi dizer que não queria envelhecer, que desejava ir-se enquanto válido, para não repetir o destino do pai. Mas isto é o fim da história, e estamos apenas no início.

Na Capital cursou a Escola Superior de Comércio, que mais tarde ajudou a transformar na Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS. Na época este curso o autorizava a ser contador e a advogar causas comerciais. Acho que data desta época uma certa ogeriza pelos advogados pouco sérios e nada éticos que conheceu em suas atividades nos tribunais. Não lembro que tivesse algum amigo íntimo advogado, salvo Tio Peri, que havia sido seu cunhado. Isto entretanto não influiu no apoiar sua jóvem terceira esposa a estudar Direito, profissão que ela jamais exerceu… mas já estou de novo antecipando os fatos.

Durante esse curso, Ernesto desenvolvia intensas atividades no Grêmio Estudantil, participando da feitura de jornais e revistas. Esta foi uma atividade que persistiu pela vida toda: sempre escrevia, primeiro para jornais como o Diario de Notícias, onde além de uma coluna diária com assuntos da cidade, publicava com frequência notas de crítica de arte, tanto de música como de exposições de pintura, depois e paralelamente, para os livros que publicou e para a tese que defendeu em concurso de cátedra. Fazia parte da “intelligenza” de Porto Alegre, um grupo de intelectuais que se reuniam na Livraria do Globo, fonte de tantos livros notáveis, de autores nacionais como Erico Veríssimo, Reinaldo Moura, Mario Quintana, Gomes da Silveira e tantos outros, bem como de cuidadosas traduções de clássicos como Somerset Maugham, Proust, Balzac, feitas por estes e outros tradutores “de luxo”.

O primeiro casamento de Ernesto ocorreu quando ele ainda não havia chegado aos 21 anos, dependendo então de um processo na “Vara de Casamentos” (sim, havia uma naqueles tempos!) onde o Juiz o autorizava a casar face depoimentos de cinco testemunhas que o declaravam capaz para tanto e da permissão expressa do pai dele, Luiz Pellanda. Casou-se então com D. Carmem de Mello, mas não teve filhos. Mais tarde, já viuvo, casou-se novamente, agora com D. Maria Brasil, filha de Zeferino Brasil, um poeta gaúcho muito apreciado. Com ela teve dois filhos, Ério, que nasceu em 1924 e Enio, em 1926. Certa ocasião foi designado para um trabalho no interior do Estado, pois era funcionário concursado, com brilhante folha de carreira. Enquanto trabalhava, sua mulher adoeceu de tifo, uma doença terrível nesses tempos em que não havia nem antibióticos nem quimioterápicos e, antes que podessem entrar em contato com ele, ela veio a falecer.

Ele tinha 38 anos e era viúvo duas vezes quando conheceu minha mãe, tua bisavó Elmira, que todos chamamos “Vó Goia”. Foi numa exposição de um pintor italiano que se havia radicado por aqui que eles se viram pela primeira vez e em seu atelier conversavam com os muitos amigos dele. Chamava-se Ângelo Guido e foi o padrinho do novo casamento. Depois da cerimonia foram todos para perto da fonte de um campinho que havia nos fundos da casa da rua Rocha Pombo, ocasião em que Ângelo pintou um pequeno quadro em que se via a escolinha onde Elmira lecionava, na rua Pedro Velho, juntamente com uma paineira em flor: era o mês de março de 1935.

Eu cresci nessa rua, com o nome já trocado para “Guilherme Alves”, então com poucas casas, um campinho onde jogávamos futebol, limitado de um lado por um mato nativo onde colhíamos pitangas, amoras e outras frutas silvestres. Havia uma cerca viva cuja flor possuia um néctar adocicado que apreciavamos muito. A casa vivia cheia de primos, especialmente aos domingos, quando era servido um almoço inesquecível de massa feita em casa, com molho que só muitos anos depois fiquei sabendo chamar-se “à bolonhesa”, mas feito com um capricho que nunca mais encontrei nos restaurantes por aí… Era uma cerimônia que começava no sábado, com a farinha e os ovos para fazer a massa, esticada e deixada secar até o domingo, quando o próprio Ernesto fazia questão de enrolar e cortar na largura certa aqueles “panos” arredondados em que se haviam tranformado os ingredientes misturados. O molho era outra ciência à parte, que se iniciava por dourar na frigideira uma cebola bem picadinha, depois a massa de tomate a por fim os cubinhos de carne que haviam sido cortados antes e refogados em separado.

Nestas poucas páginas certamente não poderei esgotar esta história, que merecerá muitos outros capítulos, que serão oportunidades para te contar, por exemplo, como estudávamos juntos a “Geografia de Dona Benta”, que ele ia corrigindo a cada linha, em todas as páginas, tantas eram as bobagens escritas. No fim era um outro livro… Para te contar também de como ele era bom companheiro nas conversas dos longos serões daquela época em que a TV não monopolizava as atenções, simplesmente porque não existia. Ou porque há uma rua com o nome dele.

Então, até o próximo capítulo!

Com um beijo do avô que muito te quer,

Luiz Ernesto Cabral Pellanda