Y2K – Um novo mito moderno

(Artigo publicado no jornal Zero Hora.)

Que o “bug do milênio” existe, nenhuma dúvida. Nada comparável aos homenzinhos verdes marcianos ou aos discos voadores que Jung identifica como “Um Mito Moderno” pelas suas características de lenda universal. O terreno aqui está mais para Freud e Bion*: sobre um substrato de limitação tecnológica instala-se uma histeria coletiva catastrofista – Vai faltar luz no mundo! Os sistemas bancários mandam pagar todo o mundo, ou não pagam mais ninguém! Os computadores incluidos nos aparelhos médicos se confundem e retornam aos tratamentos de 1900 em vez de dispensar os do novo milênio!

Publicidade de conhecido fabricante explora este viés: Hall, o computador de 2001 conversa com seu dono: “Dave, você se lembra do ano 2000, quando os computadores começaram a funcionar mal e se perderam, causando prejuízos incalculáveis? A culpa não foi nossa, Dave, estávamos mal preparados. Só os Macintosh estavam livres desse “bug” e salvaram bilhões de unidades monetárias. Dave, você gosta mais de seu Macintosh do que de mim, não? Dave?! Está me ouvindo, Dave?…” Faz parte de nossa natureza “personificar” os objetos, num resquicio de animismo que persiste nesta humanidade recém-civilizada. Designamos com um nome os objetos mais queridos: meu primeiro automóvel se chamava “Adélia” , corruptela de “Adler” a marca rara de um ante-diluviano (isto é, de antes da guerra…). Atribuimos sentimentos aos computadores: o ciúme de Hall, a turrice do PC que se recusa a obedecer ao que penso que estou comandando… Ele não “entende” que eu queria ponto, embora tenha teclado vírgula… É a dissociação entre criador e criatura, sujeito e objeto que proporciona esse distanciamento, como se a tecnologia não fosse estensão do humano, mas outra coisa. Disto decorre um temor de que um dia os computadores sejam mais inteligentes do que nós e dominem o mundo… No fundo, ainda o desejo infantil de não crescer, de possuir alguém (a mãe, o pai, nem que seja o pai do céu) que tome conta de nós sem que necessitemos nos responsabilizar pelas conseqüências de nossos atos.

Se a data é “00” o que ele vai “entender”? Dois mil? Mil e novecentos? Não vai entender nada? Cada caso é um caso, nada é tão cartesiano quanto zero-zero igual a dois mil. Estamos interpretando o que o computador vai “pensar” sem saber como eles são na verdade. Muitos determinam a data contando os dias a partir de um dia pré-determinado (aquele famoso 6 de junho de 1956 que aparece nos computadores com a pilha da placa descarregada…) e, eventualmente, vão seguir contando sem problema (como os Macintosh), desde que não tenha sido pré-programada sua obsolescência: a lógica atual é que você já deve ter jogado fora seu “quatro-oito-meia” e atualizado a máquina para um “pentium qualquer coisa” porque não apenas a data, mas tudo o mais não funciona tão bem ou tão rápido quanto o “indispensável” para este momento da civilização. Num certo sentido, os publicitários, porque pragmáticos, conhecem melhor os meandros da alma humana do que os psicanalistas: usam e abusam do “princípio do prazer” que vigora nas profundezas do inconsciente, apelando para as compras por impulso, enquanto os psicanalistas tentam penosamente fazer seus analisandos amadurecerem para viver segundo o “principio da realidade”, o que termina por ser dificultado pela realidade que anda por ai…

Este é o objetivo de todos os mitos: esconder uma realidade difícil por dura ou por incompreensível, aterrorizadora: prefiro atribuir o apagão a um raio e os raios a Zeus ou Tupã do que admitir que não sei de onde vêm ou porque. Bion mede a maturidade de seus pacientes pela tolerância deles à incerteza e mostra quanto é angustiante o “não saber”, investigando cientificamente o que os filósofos já diziam sobre as religiões serem curto-circuitos para encobrir o desconhecido. É muito mais fácil afirmar que os maus serão punidos e os bons recompensados no céu ou na próxima encarnação, do que realmente punir os corruptos nesta de agora. Aquela “pobreza com dignidade” que nossos avós tiveram, acabou-se: agora é mesmo “cada um por si”, “não existe isto que vocês chamam sociedade”; é a miséria da competição desenfreada, eventualmente ajudada por bombardeios que destroem tudo, inclusive a vida.

E o bug do milênio, o que esconde? Basta olhar os noticiários de TV ou ouvir os das rádios… Ainda que estejamos vivendo um momento de grandes descobertas (como por exemplo a da riqueza da vida emocional dos fetos dentro do útero!) com conseqüentes mudanças de paradigma, uma época que talvez os pósteros identificarão como um “Novo Renascimento”, ainda assim os atuais parecem ter pouco de que se orgulhar por pertencer a esta família de “homo sapiens”, mas que não são sábios o suficiente para conviver em paz.

E o “bug”, afinal, vai existir mesmo? Sim, vai acontecer em algumas casas com velhos PCs: os programas de contabilidade doméstica talvez se atrapalhem, os e-mails vão para o lugar errado na seleção por data, e pouco mais. Vocês acham que algum banco vai pagar cheque em dólar com a cotação de 1900? E também acreditam em Papai Noel e nas histórias da carochinha?

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* Wilfred Bion – Psicanalista inglês que levou às últimas conseqüências os achados de Sigmund Freud e Melanie Klein, estudando o psiquismo dos grupos e os aspectos mais primitivos do inconsciente, trazendo o místico (diferente de religioso!) para o campo da investigação científica.