Psicanálise “sem Ego” e supervisão como parte integrante da análise pessoal

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(Tradução do texto de pôster apresentado ao Congresso Internacional de Psicanálise de Barcelona, 1997.)

O conceito de Ego progressivamente desaparece da obra de Melanie Klein, em função de seu crescente interesse nas relações de objetos na vida interna de infantes e adultos. O antigo pensamento oriental e a moderna biologia apoiam esta posição (Varela et al, 108, 1991). Estes, presentemente, vem questionando a noção de um “self” ou Ego localizado, de modo semelhante à Melanie Klein. Não há Ego ou self independente do objeto.

Revisando o conteúdo de uma revista científica dedicada aos “Mistérios da Mente”, encontramos muitos engenheiros, matemáticos, doutores em ciências da computação e em física. O físico F. Davis Peat (1991, pg 5) clama pela unificação da física e da psicologia. Porque? Ele explica: porque necessitamos “uma nova ciência que possa explorar (…) o lado objetivo da consciência humana e o lado subjetivo da matéria”. Os novos paradigmas já estão aqui: não ha mais fronteiras entre as ciências, entre fora e dentro, sujeito e objeto; não há ponto fixo de onde mover o universo – tudo são relações, todas as observações dependem do observador.

O rumo do fluxo de conhecimento afasta-se mais do modo tópico-cartesiano de ver os fenômenos psíquicos em direção a um modo holístico (no sentido de completude) pelos trabalhos de Wilfred Bion e Ignacio Matte-Blanco. A totalidade de uma pessoa não pode ser seccionada em pedaços, em orgânico e psíquico, consciente e inconsciente, etc., mesmo que apenas para descrição didática. Não é mais um absurdo descrever a “cura psicanalítica” como um processo que envolve tanto analista quanto analisando, transferencia e contratransferencia, de modo que posso dizer (1995, 1996), como muitos o fazem, que este processo existe não apenas durante a sessão, mas persiste vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, que é terminável como relação bi-pessoal, mas interminável como processo. Como diz Bion, é a “função psicanalítica” o que resgatamos em nossos pacientes. Se bem sucedidos, dura pela vida inteira, pois se trata de capacidade humana que todos possuímos e devemos desenvolver.

Um passo mais, e lembramos que a maneira como se organiza a formação de novos psicanalistas tem um tom construtivista desde os anos vinte no Instituto de Berlim, com o conhecido tripé: análise pessoal, supervisão e cursos teóricos, e muito antes que Piaget cunhasse esse termo. A palavra “formação” já indica a totalidade dos procedimentos que levam uma pessoa a amadurecer para se tornar psicanalista.

Nesta linha de raciocínio, o passo seguinte e obrigatorio, é considerar a supervisão como como uma parte integral da análise pessoal de cada candidato. É ainda um pecado dizer tais coisas em nossos espaços cartesianos de discussão, mas já Ferenczi e Rank (1924) pensavam que “Kontroll-Analyse” deveria ter a tarefa de lidar com os complexos não resolvidos do candidadto (…)”, mostrando que esta é uma discussão antiga. A voz corrente, seguindo a opinião de Eitingon, é de que não se deve interferir com os candidatos e que o supervisor deve abster-se de interpretar. Mas quando se mostra ao supervisionando, como fez Ralph Greenson (1967, pg. 220), que ele deixou de perceber uma manifestação do paciente e ele compreende e exclama “Era um ponto cego meu, eu tenho isto ou aquilo de muito semelhante com o paciente… (e sabemos que estas semelhanças determinam pontos cegos do terapêuta) … o que mesmo está fazendo o supervisor, senão interpretando?

Não posso obrigar alguém a saber como é o gosto de guaraná, para mim, ainda que este alguém já o tenha provado também. Experiencia não pode ser transmitida. Constrói-se pela ação sobre a realidade, mudando a ambos, sujeito e objeto. Em várias oportunidades tive ocasião de constatar ser a supervisão uma parte integrante da análise pessoal, a começar pela minha própria, mas uma paciente forneceu-me o melhor exemplo que poderia encontar. Durante um período de sua análise ela tinha “apenas” três sessões semanais, por diversas racionalizações, inclusive as financeiras de costume. Supervisionava com um colega que não só era velho amigo como partilhava comigo diversos pontos de vista teóricos, mas estes detalhes ela ignorava. Como com todos seu supervisionandos, ele é muito criterioso ao ajudá-la a entender seus pacientes, e, eventualmente, não podia deixar de assinalar seus pontos cegos, quem sabe até com palavras próximas das que eu usaria em situação semelhante. Na sessão seguinte comigo, ela costumava dizer que tudo se passava como se a supervisão fosse a quarta sessão, “que faltava”, pois obtinha insights não apenas sobre aspectos do tratamento de seu paciente como dela própria em sua contratransferência. Quando assumiu a quarta sessão, a supervisão passou a funcionar como uma quinta sessão, à la british, mesmo que com outro supervisor.

Reconhecer que o supervisor é também um “co-analista” (e não um rival edípico) pode nos ajudar a entender muitas relações perturbadas entre analistas, como tem sido salientado em tantos textos e contextos. Possivelmente os pontos cegos neste assunto sejam mais uma questão de poder e política do que algo mais. Estou convencido que este tema merece mais tempo de elaboração, quem sabe em um grupo de discussão em um segmento da Internet patrocinado pela IPA, como o que existe correntemente dirigido pelo Dr. Sandler para o International Journal.

Se observarmos sistematicamente como ocorrem os fenômenos, talvez cheguemos mais próximo de como a vida é e de como a Psicanalise deveria ser.

Bibliografia

David Peat, F. (1991) The Philosofer’s Stone. Chaos, Synchronicity and the Hidden Order of the World. Bantam Books, New York and Toronto.

Ferenczi, S., Rank, O. (1924) Die Entwicklungsziele der Psychoanalyse cit. by Fleming, J. & Benedek, T. (1966) Psychoanalytic Supervision. Grune & Stratton, New York and London., pg 11.

Greenson, R.R. (1967) The Technique and Practice of Psychoanalysis, Vol I, Int. Universities Press, New York.

Pellanda, L. E. (1995) Auto-análise pós Psicanálise IN Psicanálise Brasileira, Outeiral, J. & Thomas T. (org) Artes Médicas, Porto Alegre.

—————– (1996) Psicanálise hoje: ainda uma revolução? IN Psicanalise Hoje: Uma Revolução do Olhar. Pellanda, Nize, Pellanda L.E. (org) Vozes, Petropolis. http://www.portoweb.com.br/pessoal/olhar

Varela, F, Thompson, E., Rosh, E. (1991) The embodied Mind. The MIT Press. Cambridge, Massachusetts and London, England.