Psicanálise e Pensamento Complexo

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O Paradigma Newtoniano-Cartesiano reinou de forma absoluta desde o Século XVII até o início do vigésimo, ocasião em que se tornou cada vez mais evidente que não podia dar respostas aos fenômenos complexos.

Freud descobre e tenta mapear o inconsciente; há uma explosão de conhecimento do mundo infinitesimal; a emergência do conceito de “auto-organização” que remete à inversão da entropia nos seres vivos (que não seguem a segunda lei da termodinâmica – na verdade nem deveriam – pois são sistemas FORA do equilíbrio); tudo isto abala o edifício do velho paradigma. Aparecem então as ciências da complexidade: Psicanálise, Física Quântica, Termodinâmica dos sistemas dissipativos (fora de equilíbrio), e assim por diante. A assunção básica de todas elas é a complexidade, cujo conceito, para Edgar Morin é “… aquilo … que é tecido junto”.

A vida é fenômeno complexo, mas o paradigma clássico tenta se aproximar dela com instrumentos cognitivos lineares. A Psicanálise segue outro paradigma porque o inconsciente possui uma lógica diferente (lógica simétrica, para Matte-Blanco) e muito distante da lógica formal (Aristotélica ou assimétrica, para o mesmo autor). Esta nova lógica é relacionada com o modelo de rede que caracteriza o paradigma da complexidade, a auto-organização e a autonomia, que interagem dinamicamente no inconsciente sem nem confundir-se uma com a outra nem se excluirem (Bi-lógica, para Matte-Blanco).

Este momento especial das ciências em expansão, para usar uma expressão tão querida por Bion, é um momento de turbulências que, ou nos permite construir uma metodologia do fenômeno complexo, dando à questão epistemológica uma aproximação psicanalítica, construindo sujeito e conhecimento ao mesmo tempo, interagindo no setting no tecer de narrativas, ou corremos o risco de permitir que a Psicanálise seja domesticada pela onda de neo-positivismo e caia de novo no formalismo que suga a vida do processo psicanalítico, como visto em algumas partes do mundo.