Por que Internet, banda larga por quê

Acompanho esta revolução que vem acontecendo com a humanidade, sem que ela mesma perceba claramente, graças a um insight de que tampouco eu avaliei o alcance, mas que me levou a planejar em 1978 e a efetivar  no ano seguinte a compra de um computador pessoal por ocasião do Congresso da IPA em Nova York e a fundar um clube de usuários que existe até hoje. Ao longo destes anos todos, foi nele que encontrei exemplos de solidariedade não competitiva do tipo que Humberto Maturana afirma ser característica do legitimamente humano e que nos separa dos chipanzés e demais símios. Graças a isto vejo-me acompanhando de perto este novo Renascimento que agora não se limita a Florença ou a Itália, mas floresce no mundo inteiro de forma simultânea.

Pierre Lévy em sua “World Philosophie” diz:

“ O mundo que se edifica hoje em dia não é “perfeito”, no sentido de que não corresponde a nenhuma idéia pré-concebida. Não é nem assegurador nem protetor. Surpreendentemente, vive permanentemente no limite do caos e da desorganização, mas é exatamente nessa fronteira entre a ordem e o caos que se situa a invenção e a energia espiritual máximas.”

E, logo adiante:

“Mas a unidade da humanidade está hoje acontecendo. Depois de tantos esforços, eis que enfim ocorre a unificação da humanidade de um modo jamais sequer pensado: não se trata de um império, não é uma religião que a todos conquista, uma ideologia, uma raça pretensamente superior, uma ditadura qualquer, são imagens, as canções, o comércio, o dinheiro, a ciência, a tecnologia, as viagens, as mesclas, a Internet, um processo coletivo e multiforme que se espraia por toda parte. […] Tento discernir a unidade desta corrente que nos porta e dar um nome a esse processo: a expansão da consciência”.

(Pierre Lévy, 2000)

 Tenho repetido em meus textos que a ciência é uma só, que as divisões ocorrem por necessidades práticas de delimitar campos de atividade, mas que tem por conseqüência  limitar simultaneamente o pensamento do pesquisador. Estes novos paradigmas que agora vivemos retomam essa unidade do saber, em que vemos psicanalistas estudando física quântica e convivendo com o princípio da incerteza que nos remete a Bion e ao incognoscível que tende para “O”; em que vemos biólogos como Maturana postulando natureza da vida mental e propondo novas abordagens para a psicoterapia (1996). Este autor vai mais adiante e mostra a inseparabilidade do ser e seu meio, criando o conceito de autopoiese. Em muitos sentidos há uma retomada do Freud impossível do “Projeto”, agora com conhecimentos de fisiologia inexistentes então, em que se reafirma a genialidade de muitas percepções de nosso fundador, como por exemplo de que o “Ego é antes de tudo corporal”: as neurociências vem mostrando na atualidade como o processo psicanalítico modifica o cérebro, criando novas sinápses, alterando a estrutura proteica da rede neuronal (Vaughan, S. 1997). 

Com isto penso que agora podemos levar adiante a questão proposta por Strachey em 1934, quanto à “natureza da ação terapêutica da psicanálise” e concluir que ela decorre exatamente dessa reorganização da rede neuronal que dá o suporte para o que chamamos de “mente”, por consequência da metacognição que decorre do processo de pensar o pensamento. Como observa Maturana, muda a estrutura de forma congruente com o meio e se mantém a continuidade funcional.

A Internet libera o saber para uso de todos, rompendo os feudos dos que se pretendem donos da ciência e das práticas decorrentes. Assim como o tipo móvel de Gutenberg instrumentou a disseminação dos saberes da Idade Média e propiciou o Renascimento, a Internet agora instrumenta a mudança de paradigma e a disseminação das fontes de informação que geram o que Pierre Lévy chama de inteligência coletiva da humanidade, essa “noosfera” antevista por Teilhard de Chardin. Partilho de seu otimismo em relação à humanidade, também reafirmado por Humberto Maturana quando diz que “viver é fácil” e que “o ser  humano se caracteriza por ser neotênico”, isto é, dependente do amor por toda sua vida, mas reconheço que estamos falando em termos estatísticos, com Heisenberg, e que alguns indivíduos em particular são desviantes desse padrão, de onde o sofrimento e a doença.

Dentro dessa globalização seria demasiada onipotência pretender manter o monopólio da psicanálise apenas porque nossa IPA foi “fundada por inspiração Freud” e nossa formação é mais rigorosa (por que parâmetros, mesmo?) do que as demais que se dizem psicanalíticas. Muitos dos que fizeram suas formações dentro de nossas sociedades hoje militam em outras entidades e os conflitos seguem se alastrando e fazendo baixas. Atitudes simplistas de afirmar que são colegas mal analisados ou que necessitam re-análise não mudam em nada os fatos.

E a Internet, onde entra nisto tudo? Justamente como instrumento de construção de conhecimento que globaliza sem preconceitos, onde todos podem fazer parte de uma comunidade de comunicação que já está sendo explorada por outros mais atentos: vários de nós receberam notícia de estatísticas de acesso ao site de uma outra entidade que também, como nós, se intitula psicanalítica, com números expressivos de “hits” no mês de agosto deste ano: total de acessos: 128.737, média por hora: 17, máximo em um dia: 6.202.

E nós, nossa ABP? Ainda estamos discutindo. Nossos membros pouco usam a comunicação por correio eletrônico, muitos sequer conferem sua caixa postal ao menos uma vez por dia, não falando daqueles que se recusam a tê-la. Dados os altos custos de nos mantermos psicanalistas, a Internet é opção muito econômica para buscar a formação continuada de que necessitamos, bastando possuir o critério para saber separar o joio do trigo nesse mundo infinito da www e nisto pretendemos auxiliar por via de um “portal” de serviços, em fase de organização, que fornecerá subsídios para as discussões científicas e espaço para que possamos trocar experiências, como centenas de grupos atuantes o fazem pela rede todos os dias.

Computador é feito para estar ligado vinte e quatro horas, como a geladeira ou relógio, por exemplo, (se o monitor está escuro como o deixam certos “salva-telas”, o consumo de energia elétrica é absolutamente desprezível, da ordem de centavos por mês), e deve ser mantido conectado à Internet via “banda larga”, isto é, aquela que permite a passagem de grande quantidade de dados por unidade de tempo e que independe de discar o telefone a cada vez que se deseja checar e-mail ou navegar (e ainda: não paga minuto conectado, mas uma taxa geral por mês que resulta muito mais barata do que a tradicional). Nessas condições ele estará sempre pronta para acolher uma idéia que ocorre, como o velho bloco que deixávamos ao lado da cama para anotar os sonhos. Foi bem isso que me aconteceu hoje quando às quatro acordei com a idéia deste texto e às cinco voltei a dormir com a consciência tranqüila de que não o perderia para o recalcamento…  Minha velha tia Morena, que faleceu aos 95 anos de idade, não se conformava de ver acesa a luzinha do freezer, queria desliga-la para “poupar luz” — quantos de nós estamos ainda atados a preconceitos semelhantes? Minha experiência pessoal é de que a conta do telefone diminuiu de 400 para 100 reais depois do “Turbo” que é a marca comercial da ligação ADSL por aqui. Mas de qualquer modo que se chame é a opção que deve ser preferida por todos os que desejam entrar a sério nessa aventura do conhecimento que é navegar pela rede.

Precisamos oferecer serviços dignos de nossas pretenções científicas a nossos clientes, sejam eles os psicanalistas que buscam apoio na ABP (e os há por todo este interior imenso do Brasil) ou sejam os potenciais clientes de nossos divãs que temos a obrigação de orientar bem para que saibam reconhecer um Psicanalista com “P” maiúsculo, distinguindo-o das aves de arribação que proliferam por ai.  Para começar por nós mesmos, façamos uma campanha por generalizar entre nós o uso deste instrumento já indispensável que é a Internet e em banda larga, por favor!

Bibliografia

Lévy, P. (2000) World Philosophie, Editions Odile Jacob, Paris.

Maturana, H. (1996a) Biologia e Psicanálise: o amor como interface. In: Pellanda, N. & Pellanda L. E. Psicanálise Hoje: Uma Revolução do Olhar. Ed. Vozes, Petrópolis.

Vaughan, S. (1997) A Cura pela Fala . Tradução de “The Talking Cure – The Science behind Psychotherapy” por T.B. Santos. Objetiva, Rio, 1998.

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Este texto esteve publicado na pagina da SBP (http://www.abp.org.br) durante mais de seis meses em 2002.