Glosando o mote

(Carta ao Editor – Boletim da ABP)

Desejo cumprimentar os editores de “ABP Notícias” Ano XI, Nº 35 pelo belo trabalho apresentado e pelas instigantes questões levantadas. Tantas que não consigo me furtar de tentar uma continuação: acho que todos nós estamos “deitando fora o nenê junto com a água do banho” na medida em que seguimos ignorando as mudanças de paradigma que ocorrem em torno de nós e nos afetam, queiramos ou não.

Aristóteles dizia que as coisas caiam porque era da natureza delas quererem cair, logo algo mais pesado cairia mais depressa do que uma leve. Nisso acreditamos por mais de um milênio, até que o chato do Galileu jogou duas bolas de mesmo tamanho mas de diferentes materiais pelo bordo da Torre de Pisa e… tanto a de ferro quanto a de madeira caíram igualmente velozes. Descartes dizia que mente e corpo são de diferentes naturezas e que somente “res extensa” pode ser objeto de ciência, enquanto a outra, “res cogitans” só o pode ser da Filosofia. Mesmo em seu tempo já Espinosa discordava, mas não só não foi ouvido como foi providenciado para que não pudesse sê-lo: excomungado, posto no Índex, impedido de publicar… Ainda assim, hoje cá estamos a nos perguntar como teria sido o mundo se, em vez de Cartesiano, tivesse podido ser Espinosiano… Einstein, que após dar início à revolução quântica, rejeitava as conseqüências de seus estudos, afirmando que “Deus não joga dados”, levou seu amigo Niels Bohr a contestar: “Einstein, pare de dizer a Deus o que fazer”. Ou seja, não é a “autoridade” de quem diz que estabelece o que é “verdade”.

Freud, querendo ser um cientista (e isso implicava em ser Cartesiano) na verdade rompeu com esse paradigma ao introduzir um objeto complexo, o inconsciente, no âmbito de seus estudos, tornando a Psicanálise uma pioneira nesse novo campo. Ele dizia que a verdade acaba por se impor ao cientista sério, mesmo que passe por ela inúmeras vezes sem o perceber. A “verdade” neste contexto é que já não podemos esconder que conhecimentos não se transmitem e, portanto, necessitamos encontrar respostas a “como se aprende”. Isso a que chamamos “Escolas” ensinam apesar delas, porque na verdade estão programadas para transformar todos em seres uniformes e submissos, além de acabar com qualquer veleidade ao “novo”, isto é, ao progresso. Kernberg relacionou trinta maneiras de impedir a formação de candidatos, mas a questão é ainda mais grave: muitos de nossos ensinadores nem percebem que os candidatos aprendem “apesar” da autoridade deles que se intitulam “professores”, isto é professam uma cartilha de sujeição.

Então, se transmitir conhecimento é impossível, mas aprender acontece como acontece? O novo paradigma representado pelo “Movimento de auto-organização” (MAO) do qual fazem parte os que estudam a “Teoria da Autopoiese” tem uma resposta a ser considerada. Este movimento possui muitos focos, inclusive o representado por Prigogine e seus estudos dos sistemas longe do equilíbrio, que lhe valeram o Nobel, e Maturana e Varela que cunharam o termo “Autopoiese” para designar o modo como os seres vivos se organizam espontaneamente em congruência com seu meio envolvente do qual dependem e com o qual co-evoluem, criando novidade. Como exemplo basta lembrar que a atmosfera atual é o resultado de milhões de anos de produção de oxigênio por bactérias cianofíceas inicialmente e plantas verdes depois. Neste sentido, importa menos a natureza do estímulo do que a estrutura do ser: a mesma luz solar que causa fotossíntese em folhas verdes é a responsável por queimadura em peles humanas claras.

Mostram os neurocientistas que o cérebro é uma “maquina de aprender” em dois anos, apenas por estar imerso em um ambiente propício, uma criança aprende os rudimentos de sua língua materna, suas regras de formação de palavras e é capaz de criar novas (se a parte de traz de um carro é a traseira, então a outra parte éa “frenteira”…). É assim que se aprende: estando imerso por tempo suficiente em um ambiente que favoreça o uso das ferramentas inatas de que dispomos e que se baseiam principalmente na curiosidade pelo que o outro faz, mobilizando nossos neurônios-espelho, criando novas sinapses nessa rede neuronal que nunca está pronta, está sempre em construção. Igualmente nossos pacientes melhoram (aprendem) muito mais por partilhar vida conosco no “setting” do que pelo poder mágico de nossas interpretações mutativas…

Que muda na Psicanálise com esse novo Paradigma? Nada e tudo. Nada que este século de observações bem descritas nos mostram serem consistentes; tudo, porque podemos re-interpretar muitos dos fenômenos estudados à luz da complexidade que é inerente a eles, acrescentando uma “nova camada” de compreensão a esta cebola de significados que somos todos os seres humanos.