“Consciência”: um olhar complexo

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(Traduções do autor, salvo Freud da S.E., quando uso a da Imago, com o original em nota ao pé.)

Resumo

Neste texto é retomada uma idéia de Freud pouco mencionada, seguindo os passos de Mark Solms (1997) e na qual ele, Freud, afirma ser a atividade mental inteiramente inconsciente, sendo a consciência apenas uma percepção parcial, limitada e não confiável do que realmente se passa na mente. Examinando-a à luz do paradigma da complexidade, parece ser uma postura compatível com idéias de Espinosa, Maturana, Varela e outros pensadores provenientes de campos tão dispares quanto física, matemática, cibernética e neurociências. Um histórico destes outros campos mostra que a psicanálise influenciou e foi influenciada por eles, participando na evolução de conhecimentos sobre a mente humana. É discutido o pressuposto de que a consciência tem o mesmo estatuto de outros sentidos, como visão e audição, não havendo distinção entre “corpo” e “mente”, pois são expressões de uma unidade funcional. Aceitar a mudança de paradigma, a rigor, poucas diferenças trará na prática psicanalítica, desde sua origem impregnada das noções de complexidade, mas a compreensão dos fenômenos estudados, sim, merecerão novas abordagens e explicações decorrentes da impossibilidade de “transmissão de conhecimentos” o que leva a trazer à baila a constituição interna dos participantes e suas respectivas autopoiéses.

Descritores

Consciência, complexidade, autopoiese, psicanálise como experiência autopoiética.

Abstract

In this text, reading Mark Solms, the A. returns to Freud’s idea about the mental life being completely unconscious and only a part of it is untrustworthily perceived as conscious. Confronting it with the Complexity Paradigm, it seem compatible with ideas of Spinoza, Maturana, Varela and other present scientists from so disparate fields as physic, mathematic, cybernetics, and neurosciences. Revising these entire field shows that psychoanalysis affected and was affected by all, considering participation about human mind knowledge. The A. discuss about the conscious having the same statute of other senses, as vision and hearing without distinction between mind and body by the simple reason that they are expressions of the same functional unity. Accepting the Complexity Paradigm change will cause few differences to psychoanalytical technique, because Psychoanalysis deals with complexity from its beginning. The comprehension of phenomena, yes, this must be rethought, as it is now well established that there are no “transmission of information”, so what matters is the internal constitution of subjects and their respective autopoiesis.

Keywords

Conscience, complexity, autopoiesis, psychoanalyse as autopoietic experience

Resumen

En este texto es retomada una idea de Freud poco mencionada, siguiendo los pasos de Mark Solms (1997) y en la cual Freud afirma ser la actividad mental enteramente inconsciente, sendo la conciencia apenas una percepción parcial, limitada e no confiable de lo que realmente se pasa en la mente. Examinándola a la luz del paradigma de la complejidad, parece ser una postura compatible con ideas de Espinosa, Maturana, Varela e otros pensadores actuales provenientes de campos tan dispares cuanto física, matemática, cibernética y neurociencias. Un histórico de estos otros campos muestra que la psicoanálisis ha influenciado y fue influenciada por ellos, participando en la evolución de los conocimientos sobre la mente humana. Es discutida el presupuesto de que la conciencia tiene el mismo estatuto de otros sentidos, como visión e audición, no habiendo distinción entre “cuerpo” y “mente”, pues son expresiones de una unidad funcional. Aceptar el cambio de paradigma, a rigor, pocas diferencias traerá en la practica psicoanalítica, desde su origen impregnada de las nociones de complejidad, pero la comprensión de los fenómenos estudiados, si, merecerán nuevas abordajes y explicaciones decurrentes de la imposibilidad de “transmisión de conocimientos” lo que lleva a traer a la baila la constitución interna de los participantes y sus respectivas autopoiesis.

Palabras llave

Conciencia, complejidad, autopoiesis, psicoanálisis como experiencia autopoietica.

Introdução

Após séculos de conflitos sobre a natureza da consciência, da divisão dualista que se inicia com os gregos e culmina com Descartes, parece que hoje em dia se pode pensar de modo diferente, redimensionando o problema e extinguindo o paradoxo pela mudança de vértice de observação. Em primeiro lugar, é necessário resgatar o pioneirismo da Psicanálise como ciência complexa a partir da inclusão de um objeto de estudo complexo, o inconsciente, e da concepção de multi-causalidade das neuroses, que Freud adotou desde cedo em suas pesquisas como solução para a insuficiência explicativa da cadeia de causa única – efeito único. Mais uma vez somos obrigados a nos render à sua genialidade e reconhecer que idéias tidas como sendo muito atuais, já haviam passado por sua mente: a consciência como estatuto do resultado de um sentido dirigido ao interior é uma delas e será abordada neste texto. Logo, é necessário também levar em conta o fato de que a ciência é uma só, embora as diversas denominações de seus aspectos particulares. Com isso, incluo aí os achados recentes  das neurociências, biologia cognitiva, cibernética e processamento de imagens, assumindo sempre o meu lugar de psicanalista.

A nossa experiência cotidiana de existir, ver, ouvir, estar consciente de si, faz com que pareçam banais e por demais conhecidas tais tipos de vivências, por serem comuns a todos nós. Mas basta um pouco de atenção para que comecem a aparecer as dificuldades. Algo tão simples como “olhar o poente”, por exemplo. Vejo o sol se pondo por detrás dos morros da cidade de Guaíba, refletindo-se nas águas barrentas do rio de mesmo nome, que não é rio, mas uma ria ou um lago, sinto emoções que a luz refletida nas nuvens me evoca de velhos tempos vividos nessa Porto Alegre de toda a vida. As cores que vejo são, na verdade, decomposição da luz branca do sol pelos prismas formados pela atmosfera sobre nós. Só isso? Tem mais: o fato de haver três tipos de células receptoras da luz leva a uma metáfora ligeira e fácil da tricromia das impressões em papel, mas uma coisa é depositar pigmentos sobre uma folha, outra o estimulo na retina, e outra ainda a percepção disto ao longo do trajeto percorrido desde aí, seguindo pelo córtex visual, onde cada elemento vai sendo destacado: cor relativa aqui, contraste mais adiante, a integração de todos os elementos no córtex frontal, que me dá a consciência do que estou vendo. Não há no cérebro um lócus onde se forme uma imagem como aquela na retina. Essa mesma é origem de comparações enganosas: tudo parece ser como em uma “câmera obscura”, mas a  retina está longe de ser um filme ou chip de CCD dos que hoje “sentem” a luz nas câmaras digitais modernas. É um sistema vivo que transmite impulsos, mas apenas isto não basta para que haja visão. Dependemos de ações sobre o real para desenvolver o que depois chamamos “visão”. Gatinhos privados de deambular por serem carregados em um carrinho por outros gatos comportavam-se como se cegos fossem, batendo contra objetos, caindo pelas bordas de seu tablado (Varela et al., 1993 pág. 174-5). Tinham olhos e cérebros funcionais mas não “sabiam” ver por haverem sido impedidos de mover-se e estabelecer relações de acoplamento com seu meio. Com isto, quero dizer que os órgãos dos sentidos são apenas parte do processo inteiro da percepção, dependentes de uma integração com o restante do organismo de forma complexa e inextrincável. Diz Solms (1997):

 “As comparações [que levam à visão] e seus resultados são propriedades do cérebro e não do mundo externo, mesmo que todas as informações necessárias para levar a cabo essas comparações estejam contidas no mundo externo.” 

Na perspectiva da Biologia da Cognição, poderíamos considerar que o estimulo externo não determina o efeito sobre o ser, mas sua estrutura o faz (Maturana e Varela, 1984, pág. 130), logo, nem todas as comparações estão no mundo externo, quem sabe, nem mesmo a maioria delas. Aceitar esta proposição como verdadeira implica em aceitar uma mudança de paradigma: já não há algo “lá fora” que eu descrevo objetivamente, mas tudo se passa na interação com o observador – desistimos de buscar um conhecimento “positivo” para buscar entender o fenômeno estudado desde o ponto de vista do observador implicado. “Tudo o que é dito, é dito por um observador” é outra máxima dos referidos autores, que expressa esta mudança de foco.

Um bom exemplo das dificuldades em se mudar paradigmas pode ser encontrado neste dialogo entre Gerald Edelman (1992, pg. 210) e Jacques Monod:

“Freud sugeriu que certos acontecimentos ameaçadores podiam ficar retidos na memória a fim de não estarem acessíveis à evocação consciente.

Não podemos esquecer que estes são termos psicológicos e não estruturais. O meu falecido amigo, o biólogo molecular Jacques Monod, costumava discutir energicamente comigo a respeito de Freud, insistindo que ele era anticientífico e muito possivelmente um charlatão. Eu tomei a posição de que, embora talvez não fosse um cientista no sentido que nós damos à palavra, Freud foi um grande pioneiro intelectual, particularmente nos seus pontos de vista sobre o inconsciente e o papel que ele desempenha no comportamento. Monod, de rígida formação huguenote, retorquia: “Sou absolutamente lúcido a respeito dos meus motivos e inteiramente responsável pelas minhas acções. Todas elas são conscientes”. Certa vez, exasperado,, acabei por lhe dizer: “Jacques, ponhamos as coisas então assim. Tudo o que Freud disse se aplica a mim e nada do que ele disse se aplica a ti”. Ele replicou: “Exactamente, meu caro amigo”.

Neste trabalho me proponho a discutir que, tendo a vertente dualista esgotado os esquemas lógicos de seus argumentos, a “complexidade” é um  caminho possível tendo em vista seu projeto de “juntar o que foi desconjuntado”, como diria Morin. (Morin, 1990)

A emergência da complexidade

A revolução paradigmática começou a se desenhar a partir dos anos 30 com os estudos de Alan Turing. Ele criou as condições lógicas  para a grande virada da cibernética dos anos 40 e 50, trazendo para a investigação científica objetos que até então estavam em mãos de meras especulações da filosofia. Objetos tais como a mente, a cognição e a consciência não eram investigados de forma sistemática e empírica com exceção feita aos estudos de Freud, estes mesmos pouco considerados entre os praticantes das “ciências duras”: Monod não estava só, na verdade, estava com a maioria…

A importância da “máquina de Turing” foi mostrar que o cogito cartesiano não era tão transparente assim, pois a resposta obtida em determinado passo dependia também do estado interno da maquina nesse momento.  Esse matemático brilhante causou uma verdadeira revolução conceitual ao oferecer soluções lógicas para a questão da relação entre a mente e a matéria, atingindo em cheio o dualismo clássico. Os cibernéticos vão usar esse apoio  a partir do princípio de que “o que a máquina é capaz de gerar está alem do mecânico” (Dupuy, 1994, p. 34). Assim nasceram a cibernética e, em sua esteira, as ciências cognitivas. Daí emergem também as condições para o desenvolvimento das neurociências de origem cibernética, o que as permitiu avançar em direções inusitadas e, com isso, possibilitar uma aproximação mais consistente em relação aos estudos da consciência.

A primeira fase da cibernética, que surgiu com o projeto de estudar as questões de comunicação e controle em máquinas e seres vivos, ainda está muito próxima do behaviorismo. No entanto, se distingue deste por praticar uma lógica não-linear, conseqüência do principio da recursividade. A chegada de Heinz von Foerster ao grupo, anos mais tarde, determinou uma outra virada conceitual, que é conhecida como “cibernética de segunda ordem” e cujo núcleo lógico é a presença do observador como parte integrante do sistema observado. Há uma mudança evidente e profunda na ciência que passa dos sistemas observados para os sistemas observantes. Aliás, essa intuição já estava presente em Freud ao tratar das relações analista/analisando, transferência/ contratransferência, confirmando seu pioneirismo nas ciências complexas.

Os desdobramentos da complexidade e os estudos da consciência

Em tempos de complexidade, cabe a nós conferir em que ela altera nosso modo de ver a Psicanálise. Podemos discordar do diagnóstico que Freud faz, por exemplo, do “Homem dos Lobos”, mas sua descrição minuciosa nos permite outras hipóteses derivadas de diferentes pontos de vista. Isto não invalida o que ele disse, mas completa ou complexifica, na maioria dos casos. Freud era um cientista que tinha presentes as limitações da tecnologia disponível em seu tempo, afirmando aceitar a hipótese de que um dia se poderiam curar neuroses de uma forma diferente, quem sabe com mediadores químicos. Nos dias que correm, os exames não invasivos de seres vivos nos aproximam de seu ideal de criar uma “Psicologia Científica”, mas ainda estamos longe de concluir a tarefa. É interessante notar que nosso pioneiro tinha uma idéia clara de que a mente não flutuava no ar, mas dependia de seu substrato anátomo-fisiológico: “O Ego é antes de tudo corporal” é uma de suas frases mais citadas. Se ele abandonou este viés foi justamente por sentir a fragilidade dos conhecimentos de fisiologia cerebral disponíveis em sua época, optando então por uma abordagem puramente psicológica. A rede neuronal que ele concebe no “Projeto” tem características computacionais de excitação e inibição que só vão fazer sentido muitas décadas depois.  É somente em 1943 que McCulloch apresenta

“um modelo de cérebro sob a forma de uma rede de neurônios idealizados. Cada neurônio recebe ou não de seus vizinhos impulsos e ele próprio é acionado se e somente se uma soma ponderada do 1 ou 0 que codificam a existência ou ausência de um impulso nas sinapses aferentes for superior a um certo limiar, chamado limiar de excitação.” (Dupuy, op.cit. pág. 60)

Uma aproximação desse tipo é feita por Humphrey (2000):

“… cérebros humanos e mente são […] um único estado do mundo material que, de fato, em principio, pode ser completamente descrito em termos de seus componentes micro-físicos. Assumimos que todo e cada um dos estados mentais é idêntico a um estado do cérebro, estado mental m = estado cerebral c, significando que o estado mental e o estado do cérebro expressam a mesma coisa neste nível micro-físico.”

A discussão que se segue é que, mesmo admitindo essas correlações de estado, isto não nos aproxima do porque ocorrem, havendo mesmo quem duvide que sejam algum dia acessíveis à mente humana. (McGinn, 1989, apud Humphrey).

“Um estado mental é um estado cerebral. Assumindo isto, o recordar de um determinado evento na memória poderia ser descrito também como a atividade simultânea de um determinado, ao menos determinável, conjunto de neurônios.” (Harth, pág. xxi, 1993)

Harth continua afirmando que esta seria uma descrição que agradaria a um físico clássico, mas a Física também mudou, incluindo agora a Física quântica e a Relatividade, fazendo que alguns declarem que o “materialismo está morto” – “A máquina que funciona com precisão determinística como se fosse um relógio perfeito não é mais uma descrição adequada para a maioria dos processos na natureza.” E isto se aplica também ao cérebro.

Ele faz uma pesada critica aos behavioristas mostrando que muitas vezes podemos observar situações em que há apenas ou “inputs” ou “outputs”, ou ainda nenhum dos dois, ainda que, evidentemente, o cérebro esteja funcionando a pleno, como expresso na figura de um “Pensador”. Chama ainda a atenção para o fato de que não existem neurônios isolados, todos pertencem a redes muito complexas onde se observam trajetos de realimentação entre grupos funcionais. O córtex visual occipital, que recebe informações da retina e remete para o córtex frontal, dele também recebe um “feedback” que permite ligações com o “já visto”, a experiência de vida. Como este “loop”, milhares de outros, que ele designa como os “Creative loops”, culminam na percepção de si mesmo – na consciência – segundo seu modo de ver.

“A consciência tem limites imprecisos e tentar impor nitidez não acrescenta insight.” (op.cit.) Mas reconhece pelo menos dois sentidos distintos: após um trauma grave, podem ocorrer diferentes níveis de perdas de consciência, ou, numa segunda acepção, “posso estar consciente da presença de algo ou alguém”. Neste sentido é chamada de “subjective awareness” – sem que tenhamos uma tradução suficientemente boa para esta locução.

Entretanto, foi um psicanalista (!), na época neurologista, quem chamou  a  atenção para:

“Esses loops haviam sido postulados pelo neurologista Lawrence Kubie já em 1930, num artigo publicado na revista Brain, com o titulo “A theoretical application to some neurological problems of the properties of excitation waves which move in closed circuits.  […] Em 1941, Kubie, que se tornara psicanalista, conjecturou que o rebaixamento neurofisiológico das neuroses reside nesses circuitos fechados reverberantes, em que as seqüências de impulso se deixam cair na cilada de um circulo sem fim.” (Dupuy, op.cit.)

Kubie era o único psicanalista participante das “Conferências Macy”​*​ e foi saco de pancadas dos cibernéticos, que consideravam a psicanálise uma “disciplina amaldiçoada”. Mas a inversa também é verdadeira em certa medida, pois psicanalistas como o próprio Kubie, além de Emanuel Peterfreund e outros que se interessavam por cibernética, sempre foram tidos como malditos entre os psicanalistas… De qualquer forma, convém ressaltar que a Psicanálise estava representada nesse momento de virada epistemológica das ciências.

Um salto de setenta anos e chegamos ao nosso compatriota Miguel Nicolelis (2008), que ficou mundialmente conhecido por implantar um conjunto de eletrodos na região volitiva motora do cérebro de uma macaca, Aurora, de modo a registrar a atividade de centenas de neurônios simultaneamente. Logo passou a usar esses registros para comandar simultaneamente os movimentos de um braço robótico. Aurora usa um joystick para comandar um jogo eletrônico, mas logo percebe que pode dispensar o joystick e comandar o jogo apenas pelo pensamento.Se ela tem ou não “consciência” do que faz é uma outra questão. A idéia básica é poder utilizar estes conhecimentos de “interface cérebro-máquina” para permitir que um paraplégico comande algum tipo de robô, como um exoesqueleto,  que o auxilie em seus movimentos.

Em janeiro de 2008, em seu laboratório nos EUA, o Dr. Nicolelis (op.cit.) observou um macaco, que tinha um conjunto de eletrodos implantados no cérebro, ao caminhar sobre uma esteira rolante, controlar remotamente um robô que caminhava sobre uma outra esteira em Kyoto, no Japão. O macaco podia ver o robô caminhando sincronicamente com ele em uma tela. Desligada a esteira do macaco, o robô continuou caminhando por minutos, apenas pela “intenção” do macaco, como se aquele fosse uma extensão de si mesmo. Imagino o quanto Francisco Varela gostaria de saber disto: parece mais uma evidencia de sua intuição sobre “enação”. Voltarei a isto mais adiante.

É o próprio Nicolelis quem diz que dentro do crânio temos tantos neurônios quantas estrelas existem no céu, de onde devemos procurar conhecer este universo interno ainda tão pouco entendido. Mas algo já sabemos. Por exemplo, sabemos que se trata de uma rede neuronal fechada, que só  se comunica com o exterior pelos sentidos de um lado e pelas placas motoras de músculos e glândulas de outro (Maturana, 1996). Disto decorre que qualquer padrão de atividade que seja observado no cérebro, não é “o” mundo externo, nem sua representação, mas o resultado do acoplamento estrutural entre este ser vivo e o meio em que vive. Ademais, se “mente” implica em rede neuronal, ela não está adstrita ao crânio, pois existem neurônios fora dele e fibras nervosas que mapeiam toda a superfície do corpo e de órgãos internos, inclusive vasos sanguíneos. Disso resulta o “mapa do corpo” de que nos fala Damásio (1999) e que é componente dessa percepção de nós mesmos, que resulta em ser consciente de si. Maturana (1996, pág. 605) chama a atenção de que se tratam de fenômenos recorrentes, que ele diferencia de repetidos:

“Ocorre uma recursão sempre que o observador puder afirmar que a reaplicação de uma operação ocorre em conseqüência de sua aplicação prévia. Há uma repetição sempre que o observador possa afirmar que uma dada operação é realizada independente das conseqüências de sua previa realização. […] …sempre que o observador vê uma repetição, verifica que tudo continua o mesmo, mas sempre que vê uma recursão, vê a aparição de um novo domínio fenomenológico. Exemplo: se as roda motoras de um carro giram e ele não se move, permanece no mesmo lugar, o observador vê o mover das rodas como repetitivo. Entretanto, se as rodas do carro rodam de modo que os pontos de contato com o solo mudam e, em cada novo giro as rodas o iniciam em um novo ponto, diferente do anterior, o observador vê um novo fenômeno, o movimento do carro, e considera o movimento das rodas como recursivo.”

Essa distinção é fundamental para seu conceito de consciência:

“…considero que consciência ocorre como uma dinâmica relacional particular, quando um organismo opera como participante em um domínio de distinções recursivas na linguagem, e que isso não é uma entidade ou propriedade de uma entidade.” (op. cit., pág. 601)

Damásio (1999) diz que para entender a consciência é preciso entender dois problemas relacionados:

“O primeiro é entender  como o cérebro no organismo humano engendra os padrões mentais que denominamos, por falta de um termo melhor, as imagens de um objeto. Objeto designam aqui entidades tão diversas quanto uma pessoa, um lugar, uma melodia, uma dor de dente, um estado de êxtase; imagem designa um padrão mental em qualquer modalidade sensorial, como, por exemplo, uma imagem sonora, uma imagem tátil, a imagem de um estado de bem-estar. Essas imagens comunicam aspectos das características físicas do objeto e podem comunicar também a reação de gostar ou não gostar que podemos ter em relação a um objeto, os planos referentes a ele que podemos ter ou a rede de relações desse objeto em meio a outros objetos. […] e o problema de como obtemos um “filme no cérebro […] nessa metáfora tosca…”

Mais adiante:

“Como, paralelamente ao engendramento de padrões mentais para um objeto, o cérebro também engendra um sentido do self no ato de conhecer?” E na pagina seguinte: “…vejo com certo ceticismo a idéia de resolver o problema da consciência.”

Aparentemente ele persiste em um paradigma dualista no qual, realmente, não há solução para o problema da consciência. Não concordo com Edelman (1992) que pensa que o Freud “tardio” praticava um certo dualismo, não de substância, mas de propriedades, ao considerar que propriedades psicológicas devem ser consideradas exclusivamente nos seus próprios termos.  Restringir-se aos aspectos psicológicos, naquele momento, era na verdade uma estratégia decorrente das poucas informações disponíveis sobre a fisiologia cerebral.

A Psicanálise chega ao problema vinda da direção oposta, e, quem sabe, está na hora de podermos partilhar nossos achados com os demais cientistas da área. Para isso, é imprescindível que façamos uma abertura em direção aos grupos multi- e trans-disciplinares, sob pena de ficarmos isolados em nosso discurso. Qual a nossa contribuição, então? Temos uma longa experiência em lidar com objetos complexos, mesmo que eventualmente não nos tenhamos apercebido disto. Quando Freud introduz o inconsciente como tema de estudo, lança a base do rompimento com o paradigma Cartesiano, ainda que tentando ser fiel a Descartes. Se o inconsciente não reconhece contradições, se não admite a negação, se tempo nele não há, e distância, tampouco, como nos mostra Matte-Blanco (1975), então estamos diante de um objeto complexo, mesmo na raiz de nossa disciplina. Os primeiros discípulos também perceberam isso, tanto que propuseram o nome “complexo” para o conjunto de fatores causais de determinado quadro clínico. Freud não gostava desta palavra, temendo que seu uso dispensasse a procura pelos detalhes das múltiplas causas, dentro da idéia de que se “algo tem nome, então é porque se sabe o que é…” Na verdade, enquanto estudamos o inconsciente o fazemos com a convicção de que faz parte de um sujeito que é na verdade o nosso objeto de estudo, ainda mais complexo, portanto.

Ampliando a idéia de Solms (op.cit.), penso que a consciência é uma propriedade do mesmo estatuto da visão e da audição: um sentido dirigido para o interior e que faz uso do mapa do corpo e outras fontes ainda não bem estudadas​†​, para organizar estas imagens internas que chamamos pensamento. Esta idéia é compatível com a posição de Maturana (1996) quando ele diz que a consciência se produz na interação do funcionamento da rede neuronal. É interessante lembrar aqui que já Espinosa pensava ser a consciência uma “idéia das idéias”. (Dupuy, op.cit. pág. 61), de onde Freud ao pretender ser Cartesiano, na verdade estava sendo Espinosiano… Que outro mundo muito melhor teríamos hoje se o sistema filosófico dominante tivesse sido o deste autor excomungado…

Consciência e Educação

Uma questão que se acrescenta aqui é o de quanto de consciência se necessita para educar. Nicolelis (2008) parece concordar com Maturana e Varela (1984) ao propor a criação de “Cidades de Ciência” onde jovens de regiões as mais pobres e discriminadas do Brasil são incluídos em projeto de “Fellowship for life”, de comprometimento por toda a vida (ver http://www.natalneuro.org.br/). Quando  os últimos demonstram que não há “transmissão de conhecimento” mas este só ocorre por ação do sujeito em interação com seu “milieu”, estão afirmando que “conhecer é viver” e “viver é conhecer”. Uma criança aprende a falar em cerca de dois anos apenas por estar imersa em um meio amoroso que a acolhe. Neste sentido o cérebro é uma verdadeira “máquina de apreender” e com isso “aprende”, isto é, muda, modifica-se sujeito e mundo. Na verdade aprendemos frequentemente “apesar dos professores” como diz, de certo modo, Kernberg (1996) ao relacionar trinta maneiras de impedir a criatividade dos candidatos em Institutos de Psicanálise, ou como afirma Pellanda, N. (1996, pág. 227) ao descrever uma professora que reclamava de um aluno que desenhara uma árvore: “Mas onde se viu árvore roxa?”, quando bastava olhar pela janela da sala de aula para observar um lindo jacarandá inteiramente coberto de flores roxas.

Ou ainda, como eu disse em Rovereto (2007):

“Não há transmissão de conhecimento como uma transmissão de um programa de TV que é capturado em um aparelho de TV. Conhecimento é re-criado cada vez, dentro da mente de cada aprendiz, por meio da ação de cada sujeito, e é extremamente dependente dos afetos que existem em sua origem. Fazendo isto os seres vivos mudam a si mesmos – inclusive a nível das proteínas: fazendo novas sinapses, mudando a arquitetura de seu cérebro – de um modo que descobrimos estar o poeta Mario Quintana cheio de razão quando diz “Já não somos os mesmos depois de tropeçar na pedra do meio do caminho”. Sim, mudamos física e emocionalmente. Sim, nós re-inventamos a roda cada vez  que acrescentamos um algo mais em nossa memórias”.

De modo que, na verdade, para que ocorra aprendizado, o fundamental é a existência de um ambiente propicio, onde as perguntas não estejam já respondidas e onde a curiosidade seja incentivada em vez de criticada. Estamos longe disto em quase todas nossas escolas públicas e privadas e também em nossos Institutos (como nos afirma Kernberg, acima). Volto a ressaltar a importância de iniciativas como a de Nicolelis, sensibilizando a comunidade internacional de modo a obter fundos expressivos para concretizar a sua já vitoriosa proposta de inclusão social por via do ensino de ciências.

Quanto a nós, o fato de que exista na SPPA um Grupo de Estudo de Epistemologia Psicanalítica, entre outros, mostra a evolução em direção a uma visão de ciência mais abrangente e integradora.

O lugar da Psicanálise na complexidade e a questão da consciência

Consciência, consciente, estar consciente, são palavras que parecem expressar coisas de nossa experiência cotidiana, que não necessitam maior esclarecimento. Entretanto, compreender o que seja mesmo “consciência” tem resistido a uma descrição cientifica rigorosa. Que haja uma relação entre consciência e atividade cerebral, parece evidente. Que o aparecimento de consciência entre os seres vivos seja uma decorrência da evolução no sentido da complexificação dos seres, não parece haver  dúvida entre os cientistas de hoje. Que existe uma relação entre o aumento do cérebro e a  progressiva capacidade computacional dele, tampouco. Que seres humanos possuem um status único entre os seres vivos, menos ainda. Mas o porque e o como são ainda temas de muita discussão.

Das inúmeras vezes que Freud usou a palavra “consciência” em seus escritos, não parece que tenha havido alguma para definir o que seja, sendo que em muitas das vezes a usou no sentido de “consciência moral”. Como tantos outros, deu por assentado que consciência todos conhecíamos por experiência própria, sendo necessário advogar pela existência de um inconsciente, considerado impossível por definição, uma vez que “pensamento só podia ser consciente”, segundo a psicologia vigente no fim do século dezenove. Que “consciência” seja um axioma primário em psicanálise parece ser indicado também pelo fato de que Etchegoyen (1987) não tenha achado necessário usar esta palavra no titulo de nenhum dos sessenta capítulos ou 409 sub-capítulos de seu monumental tratado. Mas é evidente que quando um psicanalista dirige uma interpretação a seu analisando, o faz para o consciente deste, ainda que visando efeitos inconscientes. Ainda hoje isto causa desconforto para alguns cientistas que preferem admitir “processos mentais não conscientes” evitando usar o termo “inconsciente” que remete a Freud.

Mark Solms (op.cit.) chama  atenção de que Freud tinha uma concepção diferente de atividade mental, partindo de que se tratava sempre de algo inconsciente e apenas indiretamente percebido, de forma secundaria e distorcida, pela consciência. Citando Freud (s/d):

“Na psicanálise, não temos outra opção senão afirmar que os processos mentais são inconscientes em si mesmos, e assemelhar a percepção deles por meio da consciência à percepção do mundo externo por meio dos órgãos sensoriais”.​‡​

 “Essas duas descobertas — a de que a vida dos nossos instintos sexuais não pode ser inteiramente domada, e a de que os processos mentais são, em si, inconscientes, e só atingem o ego e se submetem ao seu controle por meio de percepções incompletas e de pouca confiança”.​§​

A continuação desta citação talvez contenha um indício de porque esta parte tenha sido tão negligenciada: Freud segue: “—, essas duas descobertas equivalem, contudo, à afirmação de que o ego não é o senhor da sua própria casa. Juntas, representam o terceiro golpe no amor próprio do homem, o que posso chamar de golpe psicológico.” (ênfase do autor)​¶​

Provavelmente esta é uma de suas cinco frases mais citadas na literatura e nas revistas de divulgação cientifica em todo o mundo, tendo servido para reforçar as defesas contra este choque no narcisismo de todos nós. Entretanto, Solms faz uma afirmação surpreendente ao dizer que

“A proposição fundamental da psicanálise não é meramente que uma região da mente é inconsciente. É que a atividade mental é inconsciente em si mesma [ênfase minha]. Isto implica que a consciência não é meramente uma porção da atividade mental; mas um reflexo da atividade mental, ou a percepção da atividade mental (que é em si mesma inconsciente). De acordo com esta proposição, a atividade mental não consiste em uma cadeia causal continua, com alguns elos conscientes e outros não, antes, a proposição é de que a atividade mental consiste em uma cadeia causal continua que é inconsciente em sua essência, e que a consciência representa este processo de uma forma ‘incompleta e não confiável’.” (Solms, 1997)

Logo antes afirmara que não partilha da opinião de que estados mentais particulares resultam em consciência:

“Espero mostrar que a questão ‘Como exatamente os processos no cérebro causam a consciência?’ contem  uma concepção fundamentalmente falha da natureza da consciência. Como resultado disso, a pergunta deste modo nunca poderá ser respondida.”

Neste momento ele abandona, como Freud já o fizera, qualquer tentativa de unir os dois campos, ainda que afirmando pretender fazer uma contribuição a ele, desde um ponto de vista psicanalítico. Na minha opinião, não há conflito entre estas duas propostas, desde que sejam vistas do vértice proposto por Varela (1993), como resultado de uma “enação”: este autor afirma que o conhecimento ocorre por ação sobre o mundo, como referido no exemplo dos gatinhos “cegos” por não haverem aprendido a ver, ou melhor, não haverem constituído o aparelho de ver em sua plenitude. “Na construção de sua teoria, ele defende a noção de cognição como sendo um produto tanto da vivência ontogenética, quanto das possibilidades inatas advindas da herança filogenética.” (Terra et al. 2004) Nossa estrutura no momento atual é resultado de uma evolução filogenética, que nos deu olhos sensíveis a três cores, por exemplo, (diferente de pássaros ou outros animais que possuem olhos para duas ou quatro cores primarias) e nossa evolução ontogenética: aprendemos a ver com esses olhos que nos foram dados com nossa ação sobre o mundo.

Sacks (1984) dá uma descrição vigorosa desse fenômeno ao relatar as seqüelas de um acidente  sofrido por ele mesmo, onde rompeu o tendão do quadríceps crural fugindo de um touro, ao escalar uma montanha na Noruega. Distante de socorro medico, levou dias até ser operado e muitos outros até ser liberado para mover-se pelo cirurgião que o atendia. Relata então a experiência aterrorizante de sentir como alheia sua perna engessada, imóvel. Somente percebeu que se tratava dele mesmo ao “jogar aquilo para fora da cama” e resultar que ele foi junto e caiu no chão. Vinte anos depois aconteceu-lhe de ter seccionado o tendão do quadríceps da outra perna, desta vez em Nova York, com pronto atendimento e deambulação precoce. A ausência do efeito de estranheza lhe fez repensar o fato anterior, deduzindo que a imobilidade “apagara” a existência de sua perna do “mapa do corpo” (Damásio, 2000), ou do “Homúnculo de Penfield” motor. A nova percepção, então, é de que esse “homúnculo” não é estático, mas altamente dinâmico, bastando a oclusão arterial de um membro por alguns minutos, obtida com um esfigmo-manômetro, para que se produza essa sensação de estranheza. A percepção de nós mesmos depende de estarmos em movimento, porque estes é que acionam os mecanismos de “feed-back” que mentem o mapa atualizado. Esta é mais outra evidencia, na minha opinião, do quanto a “mente é corporificada” (embodied), de quanto não só o ego, mas todo o resto é “antes de tudo, corporal”.

Ainda hoje a maioria dos que tratam deste tema procuram evitar uma “definição” de consciência, exatamente por se tratar de fenômeno complexo que abrange muitas dimensões, nem sempre fáceis de explicitar.

A grande novidade da Psicanálise foi explorar os aspectos inconscientes da mente, advindo daí seu principal mérito. Freud, como já dito, tampouco se dá o trabalho de definir o que seja “consciente” ou “consciência” mas faz uso dessas palavras com o sentido que o dicionário dá, por exemplo, quando diz que o Ego é consciente e possui uma parte inconsciente, e o Super-Ego é totalmente  inconsciente. Na década de cinqüenta do século passado havia, tanto na SPPA onde testemunhei, quanto na maioria de outras Sociedades, uma divisão nítida entre os professores que afirmavam assim como escrevi acima e outros que diziam que o Super-Ego possuía uma parte consciente, identificada com a consciência moral, o que insinuava o livre-arbítrio, e outra inconsciente que promovia a repressão.

Receio que nós, psicanalistas, quando dizemos que não nos interessa isso de neurociências, que só psicanálise é psicanálise e o resto é o resto, ou seja, nada, receio que estejamos tendo uma atitude à lá “o que não conheço não existe”. Mas já Freud (s/d) dizia

“A dificuldade do trabalho de pesquisa em psicanálise demonstra-se claramente pelo fato de ser-lhe possível, apesar de décadas inteiras de observação incessante, desprezar aspectos de ocorrência geral e situações características, até que, afinal, elas nos confrontam sob forma inequívoca.”​#​

A Psicanálise nascida na Viena do século dezenove, tem lugar neste admirável mundo novo? A resposta depende de os Psicanalistas estarem dispostos a  abandonar seus refúgios seguros de uma teoria puramente filosófica, mental, para aceitar que a mente não existe sem o corpo.  Não se trata de saber qual a relação “mente-corpo”, como se fossem duas entidades independentes, separadas, capazes portanto de estabelecer uma “relação”. Mas se considerarmos, por exemplo, que se trata de diferentes manifestações de uma mesma coisa, não cabe mais tal questão. A pergunta correta então é outra: como faço para conhecer isto que chamamos “mente”?

Perspectivas

Ao mudarmos de vértice de observação e passarmos e ver o mundo pela perspectiva da complexidade, o que muda na Psicanálise? Provavelmente menos do que se poderia esperar, pelo simples fato de que a psicanálise já lida com a complexidade desde seu inicio. Muda certamente a maneira de explicar certos fenômenos mentais, de compreender as dificuldades de assumir a autoria de si que vemos em nossos analisandos, muda a compreensão de que nossa interpretações são na verdade perturbações que exigem deles uma reorganização autopoiética que leva a construção de conhecimento e portanto, conhecimento de si. Mas isto não as exime de consistência teórica em relação ao rigor epistemológico do referencial praticado pelo analista. Convém sempre lembrar como faz Klimovsky (1987, pág. 276):

 “por muito que uma hipótese haja tido boas conseqüências praticas, clinicas e observáveis, isso não a demonstra como certa; a razão é que os lógicos sabem que, infelizmente, raciocinando corretamente, do falso se pode deduzir o verdadeiro.[…mas…] a lógica não garante nada em relação ao que ocorre se alguém parte de falsidades.”

Com isto quero dizer que estes cento e tantos anos de experiência acumulada em casos clínicos descritos com rigor, estes subsistem, ainda que eventualmente tenhamos que reformular os “porquês” de porque tenham dado certo ou errado. O fato é que o “setting” como proposto tradicionalmente, tem evidenciado ser uma ambiente propicio para as mudanças autopoiéticas de amadurecimento pessoal e de ampliação da autonomia por parte de ambos os participantes de uma análise. Do mesmo modo como se pode aprender “apesar” do professor, pode-se “curar” um sintoma “apesar” do psicanalista, embora, evidentemente, não seja esta a situação desejável. De qualquer modo o importante é ter sempre presente que é a estrutura do analisando que é determinante para sua percepção de seu psicanalista e que ambos formam um “time” que ou aprende a trabalhar em conjunto ou está determinado a estancar como processo. Cada interpretação, cada intervenção ou até mesmo a ausência de ação só adquire sentido pela elaboração autopoiética do analisando, na medida em que ele mimeticamente reproduz os processos mentais que intui estarem acontecendo na mente do analista. Por sua vez, as respostas, conscientes ou não, supra e subliminares do analisando propiciam a realimentação do sistema fazendo progredir a auto-analise do analista, que se desdobra em conjunto com a do analisando (Pellanda, L.E., 1996), num processo que Maturana chama de “acoplamento estrutural”.

Retomando o inicio, realimentando o processo de complexificação iniciado por Freud ao romper com o cartesianismo, mesmo apesar de si, podemos afirmar que já não cabe esperar que interpretações, mutativas ou não, sejam capazes de, por si só, determinar o desenvolvimento de uma psicanálise. Hoje vemos esse processo como determinado pelas estruturas de analisando e analista, em um interjogo de perturbações que desencadeiam as modificações pessoais pela autopoiese de cada um. Sendo a atividade mental inconsciente e a consciência apenas uma informação parcial e distorcida dos processos que ocorrem no organismo inteiro, deixa de haver a dicotomia “mente-corpo” na medida em que o observador implicado percebe uma totalidade indivisível.

Bibliografia

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Varela, F. Thompson, E., Rosch, E. (1993) – The Embodied Mind.  Cambridge, MA: MIT Press.

Sacks, O. (1984) Com uma perna só. Companhia das Letras, Rio, 2003.

Solms, M. (1997) What Is Consciousness? Journal of the American Psychoanalytic Association, 45:681-703

Terra, D., Grandi, A. e Borges, H. (2004) A abordagem enaction para a cognição e suas implicações na modelagem de sistemas inteligentes.  Acessado em http://www.lsi.cefetmg.br/publicacoes/files/Terra-Grandi-Borges-SBRN-2004.pdf em janeiro de 2009.


N.B. – Este trabalho é um capítulo de um projeto maior sob o titulo geral de “Psicanálise em tempos de Complexidade” e inclui insights obtidos ou ampliados no seio das discussões do Grupo de Estudos de Epistemologia Psicanalítica da SPPA, bem como nos 45 anos de construção de saberes que partilho com Nize, o que faz dela uma co-autora autopoiética de tudo o que escrevo. Grazie a tutti.


  1. ​*​
    Com o nome de The Macy Conferences, aconteceu, entre os anos de 1946 e 1953, uma série de dez conferências interdisciplinares que levou à fundação do que hoje conhecemos como cibernética. Sob os auspícios da Josiah Macy Foundation, uma organização filantrópica dedicada a problemas do sistema nervoso, foi promovido o encontro de importantes cientistas da época em um vasto leque de áreas para discutir causalidade circular e feedback em sistemas biológicos e sociais – Circular Causal and Feedback Mechanisms in Biological and Social Systems. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Macy_conferences)
  2. ​†​
    Como por exemplo, o papel dos neurônios espelho no aprendizado humano, provavelmente importantes também para a possibilidade de “pôr-se no lugar do outro”, identificar-se com o outro.
  3. ​‡​
    “In psycho-analysis there is no choice but for us to assert that mental processes are in themselves unconscious, and to liken the perception of them by means of consciousness to the perception of the external world by means of sense-organs [S.E. 1915, p. 171]
  4. ​§​
    “But these two discoveries – that the life of our sexual instincts cannot be wholly tamed, and that mental processes are in themselves unconscious and only reach the ego and come under its control through incomplete and untrustworthy perceptions” [S.E. 1917, p. 143].
  5. ​¶​
    these two discoveries amount to a statement that the ego is not master in its own house”. Together they represent the third blow to man’s self-love, what I may call the psychological one (op.cit.)”(ênfase do autor).
  6. ​#​
    “The difficulty of the work of research in psycho-analysis is clearly shown by the fact of its being possible, in spite of whole decades of unremitting observation, to overlook features that are of general occurrence and situations that are characteristic, until at last they confront one in an unmistakable form.” [S.E. 1923, p. 141]