Complexo de Édipo

(Artigo publicado no jornal Zero Hora, em 14/5/2000.)

Os psicanalistas que nos visitam ficam admirados de como os conceitos básicos de nossa ciência são de conhecimento geral da população. Qualquer brasileiro sabe que “complexo de Édipo” corresponde aos complexos sentimentos que ligam o garotinho à sua mãe, fazendo com que inconscientemente deseje matar o pai para ficar com ela. Chocante, dito assim, não? Chocante porque uma simplificação de um olhar de adulto sobre a mente de uma criança.

Conta Ernest Jones, o biógrafo oficial de Freud, que este, certa vez, recebeu um paciente com as seguintes palavras: “Já sei que tiveste pai e mãe. Agora me conta o resto.” O que cada um de nós faz desse “resto” é que marca a diferença. Que este resto era muito complicado, logo ficou evidente. Diferentemente da física onde uma causa era sucedida por um efeito que por sua vez era causa de um efeito seguinte, em Psicologia, esse modelo não se aplicava e muitas causas colaboravam para um determinado efeito que junto com outros resultavam em influências mais adiante, ou seja, muito antes da “complexidade” entrar em moda com Edgard Morin, já a Psicanálise convivia com esses conceitos, embora Freud mesmo não gostasse da expressão “complexo”, usando-a apenas na situação edípica.

Certos conhecimentos são condição para a aquisição de outros: de início o nenê não percebe que é um ser separado de sua mãe. Precisa entender que ela é outra pessoa para poder sentir sua falta (o que sente “antes” disto, é outra questão). Só depois de perceber que mãe e pai são pessoas diferentes pode optar por um ou outro, conforme o momento. O amadurecimento ocorre por etapas sucessivas, mas sem a linearidade que os positivistas lhe atribuem. É perfeitamente comum amadurecer-se em uma área enquanto outra permanece “infantilizada”.

Freud chamou a atenção para o fato de que o desenvolvimento é diferente para meninos ou meninas, e se ocupou principalmente do primeiro, confessando (cerca de 1930) que a feminilidade era um continente desconhecido para ele. Achava que os meninos deviam competir com o pai para com ele se identificar, aprendendo com a frustração de não conseguir batê-lo. Uma francesa, Chasseget Smirgel, mostrou a participação de certas mães que tomam seus meninos como se fossem realmente seus companheiros, passando uma mensagem sub-liminar de que não é preciso crescer, ser adulto, para conquistá-las, mantendo-os infantilizados. A relação amorosa de ambos os pais leva este conflito a outro desfecho: o menino descobre que pode “ser como o pai” sem precisar “ser o pai”, ocupar o lugar dele na realidade factual, buscando então outros objetos de amor, mais adequados, nas meninas de suas relações.

Já com as meninas ocorre uma complicação a mais: da ligação primeira com a mãe, deve deslocar seu interesse para “o sexo oposto” em uma etapa de seu desenvolvimento edípico. Hoje em dia em que as crianças são mais ouvidas, fica se sabendo de algumas tiradas de efeito, como daquela filhinha de um colega que lhe propôs casamento. “E que fazemos com mamãe”, ele lhe perguntou. E ela, “Ora, um churrasquinho!…” No mundo de magia em que se encontra o desenvolvimento de sua mente, pode-se fazer um churrasquinho com ela agora, e daqui a pouco pedir para ela fazer a mamadeira… Nada tem essa transcendência e gravidade que os adultos põem nas palavras.

Como diz Humberto Maturana, somos todos animais dependentes do amor pela vida inteira. Ninguém morre de excesso de amor, mas de falta, certamente.