Desde Cartigliano (Italia) até Porto Alegre (Brasil)
Autoanálise: construindo minha subjetividade
Por Luiz Pellanda
“Nunca mais fomos os mesmos depois de tropeçar na pedra do meio do caminho.”
— Mario Quintana, glosando Drummond…
(Artigo publicado na Revista de Psicanálise da SPPA, v. 30, n. 1, p. 1-27, abril 2023.)
Resumo
Esse trabalho trata do meu processo de subjetivação com implicações na minha prática psicanalítica ao longo de sessenta anos à luz do paradigma da complexidade. Na perspectiva da complexidade, que substitui o paradigma da fragmentação, meu olhar junta as diferentes dimensões da realidade e assim, minha subjetividade é inseparável de minha práxis e do meio ambiente do qual fiz parte, a SPPA.
This paper deals with my process of subjectivation with implications in my psychoanalytic practice over sixty years in the light of the complexity paradigm. From the perspective of complexity, which replaces the fragmentation paradigm, my gaze joins the different dimensions of reality, and thus my subjectivity is inseparable from my praxis and the environment of which I was a part, the SPPA.
Este trabajo aborda mi proceso de subjetivación con implicaciones en mi práctica psicoanalítica a lo largo de sesenta años a la luz del paradigma de la complejidad. Desde la perspectiva de la complejidad que sustituye al paradigma de la fragmentación, mi mirada une las diferentes dimensiones de la realidad y por lo tanto mi subjetividad es inseparable de mi praxis y el entorno del que formaba parte, la SPPA.
Descrevo aqui o percurso de uma análise, que se inicia tradicional, baseada na modernidade de um paradigma cartesiano e que, de susto em susto, vai percorrendo novos caminhos na descoberta da complexidade e da autopoiese, o que implica em levar em conta o fato de que todos os envolvidos são seres humanos vivos, obedientes às leis da biologia. Com isto quero mostrar o quanto a construção de si ocorre também pela ação no mundo e com o mundo.
O paradigma da Complexidade, definitivamente instalado em meados do século passado, embora muitos de nós ainda não o reconheçamos, muda basicamente a proposta Newtoniana-Cartesiana de como ocorre o “conhecer”: muda o ponto de vista desde o sujeito que observa uma realidade externa a ele para aquele do observador incluído no fenômeno observado. Há uma nova epistemologia a ser desvendada, a ser construída. “Tudo o que é dito, é dito por um observador para alguém que pode ser ele mesmo” (Maturana, 1978, p. 128) e como tal, proponho, a seguir, algumas linhas para me situar como um observador incluído ao me observar a mim mesmo, enquanto ia tomando conhecimento dessas novas que a todos modificavam de dentro para fora.
Relato um caso de psicanálise que se desenrola intrinsecamente ligado com a história de nossa sociedade por ser parte importante do meio ambiente em que vivo: o meu caso, e com isto fico autorizado a quebrar o sigilo de mim mesmo. Pretendo uma revisão do caminho que fiz desde os morros do Partenon até esta provecta idade atual como membro jubilado da SPPA. Será um resumo de mim mesmo, necessariamente um texto em primeira pessoa. Faço aqui a cartografia das relações afetivas que me construíram, na minha intra, inter e trans subjetividade, inclusive no desenrolar de uma simbiose com minha parceira de sessenta anos de convívio, com a construção de nossa “inteligência coletiva” e coautoria.
Freud entrou lá em casa pelas mãos de minha mãe, ainda antes de ela fazer o curso de Psicologia na primeira turma da PUC-RS e mesmo antes de completar o de Filosofia (1945), também na primeira turma da mesma Universidade, e que fez depois de bacharelar-se em Direito (1939) naquela Faculdade que veio a formar o núcleo da UFRGS. Essa trajetória foi acompanhando as progressivas possibilidades que a então pequena Porto Alegre ia propiciando, visando um desejo íntimo de conhecimento da natureza humana, talvez impelida pelo fato de ter seis irmãos mais velhos, e ver nascer outros três depois dela e ainda, ao casar-se, faze-lo com um viúvo que tinha dois filhos então menores de dez anos. No fim daquele ano havia mais um na família: eu.
Meu pai, filho de imigrante italiano, nasceu no interior onde meu avô era “posteiro1” em uma fazenda, e fez sua vida em Porto Alegre onde estudou na Escola Superior de Comercio e logo entrou no Serviço Publico Estadual por concurso em que tirou primeiro lugar. Ao fim de sua curta vida (para meu gosto) era Professor Catedrático de Estatística Econômica e Financeira da Faculdade de Economia da UFRGS, além de jornalista, crítico de arte e historiador com diversas obras publicadas sobre imigração alemã e italiana no Rio Grande do Sul, algumas coletadas em www.pellanda.com.br/Ernesto.
A nossa era uma família da classe média que morava numa casa de madeira no fim-da-linha do bonde Partenon. Vivíamos com os modestos ganhos dos dois, de um fim-de-mês ao outro, sem maiores poupanças ou reservas. Sempre estudei em colégios públicos e nosso meio de transporte era o bonde. Houve mesmo um episodio em que me neguei a comprar um livro indicado no colégio, terceiro ou quarto ano primário “porque era fim de mês” e o dinheiro devia estar curto… Houvesse Twitter nessa época, teria virilizado o episódio, muito comentado entre direção e professores. Eles trabalhavam e nós outros, crianças, tínhamos um morro inteiro quase desabitado entre o Partenon e a Gloria e fazíamos uso dele jogando futebol morro acima e morro abaixo (mudança de lado no intervalo…), descendo gramados em trenós de madeira e colhendo frutas silvestres e vergamotas e ameixas amarelas num capão de mato existente nas margens de um regato que, na planície, formava a “fonte da Passarinha”, onde navegávamos em uma mala velha de madeira. Éramos felizes e sabíamos disso.
Adolescente, acompanhei meus pais em viagem de trabalho ao Rio de Janeiro e fui levado a fazer “Teste Vocacionais”, então muito em moda, na Fundação Getúlio Vargas, sob orientação do Dr. Mira y Lopes, psicanalista espanhol, a quem conheci nessa ocasião. Depois de semana inteira de testes ele me comunicou a decisão, para mim muito decepcionante, de que não havia contraindicação para nenhuma profissão e que eu poderia escolher a que desejasse. Muitos anos depois, em análise, fui entender que o que eu queria na verdade é que decidissem por mim, aliviando-me da responsabilidade de faze-lo. Na época as duas opções que se propunham era ou Engenharia ou Psicanálise e havia uma indicação de ter a primeira mais peso. Hoje penso que foi mais produtivo ter escolhido ser psicanalista profissional e “engenheiro prático não licenciado” do que o inverso… Mas, como veremos, isso teve consequências…
Enquanto a “engenharia amadora” se limitou a montar rádios de FM, selecionar aparelhos de “Hi-Fi” para os amigos e gravar os concertos do Trio Porto Alegre no Salão Mourisco da Biblioteca, aparentemente não houve maiores consequências, mas quando aderi ao novo campo da informática pessoal, depois de comprar meu primeiro computador em 1979, aí parece que algo de sagrado foi atacado. Como dizia um colega, velho companheiro de primeira hora nessas incursões, “Perdemos muito amigos, intimidados pela nova tecnologia e que nos viam como ETs perigosos para seus respectivos modos pacatos de viver”.
Aqui estou falando de “técnica” como integrante da experiência vivida, na autopoiese de cada um e não apenas como “prótese” de que falava McLuhan. Como diz Nicolelis, a bola faz parte do pé do Pelé, a raquete faz parte da mão do Gustavo Kuerten, passam a fazer parte do corpo na percepção do sistema nervoso central, do mesmo modo como o rastelo passou a fazer parte da mão do macaco (Nicolelis, 2011, p 290, p 341). Todo conhecimento amplia a capacidade de pensar sobre tudo – tudo é ligado com tudo.
Hoje, quase quarenta anos depois, reconheço que a ameaça era bem mais do que apenas ao pacato modo de viver: era posta em questão toda a estrutura paradigmática que sustentava os campos de poder intra e inter-societário, locais e extra muros… Serem excluídos desses campos levou a uns quantos coetâneos, movidos por ressentimentos e mal-entendidos, a desejar separar-se e criar novos grupos, para terem seus próprios mundos de poder, mas eu decidi permanecer onde estava e buscar meu espaço, porque descobri que saber é ser e ser é saber e o mais importante de tudo é esta satisfação pessoal ter haver construído uma relação amorosa entre aqueles que me cercam e que formam a família estendida. Descobri de forma autônoma, no próprio corpo, isso que Maturana (1996) tanto salienta: seres humanos são neotênicos, isto é, dependentes de amor pela vida inteira.
Aonde vou? Onde quero chegar?
Tenho uma formação psicanalítica standard, padrão IPA, treze anos de análise “didática” pessoal com Dr. Roberto Pinto Ribeiro, quatro sessões de cinquenta minutos por semana, onze meses por ano, e mais quatro anos de seminários teóricos e clínicos, e duas “analises de controle”, a primeira com o Dr. José Maria Santiago Wagner e a segunda com o Dr. Mario Martins, que era meu analista de eleição, mas que ponderou levaria muitos anos até que ele tivesse uma nova vaga para candidato, sugerindo “um colega mais novo”, no que resultou ser uma boa escolha. Fui o primeiro da minha época a ser qualificado como “psicanalista”, ao ser aceito como Membro Associado da SPPA, título obtido com a aprovação de trabalho clínico sobre paciente homossexual. Fiz uso de prerrogativa vigente, não só não imprimindo como tampouco o distribuindo previamente na assembleia onde apenas li o texto na íntegra, tudo para preservar a identidade do paciente, o que consegui. Aprendi muito com essa análise, especialmente no respeito à individualidade do paciente, bem como a necessária convivência com meus próprios aspectos “trans”, durante a autoanalise de meus preconceitos pessoais, verdade que com a ajuda de meu analista.
Ainda nessa condição de Membro Associado, que, à época, se equivalia estatuariamente a de Membro Efetivo, porque estes eram em número menor do que dez, fui eleito tesoureiro da SPPA numa chapa em que o presidente era o Dr. Santiago Wagner. Olhando retrospectivamente, essa experiência de participar do CTA da Sociedade, com seus segredos e mistérios, partilhar de intimidades dos mais velhos explicitou para mim um lado humano de meus heróis que eu ainda não estava preparado para ver e de algum modo deve ter resultado traumática, porque em nenhum momento posterior cheguei a pleitear qualquer cargo administrativo em nossa Sociedade.
Durante o meio século que se seguiu, descobri que a análise é mesmo interminável e tenho procurado uma reformulação necessária para adequar a teoria e prática da Psicanálise ao cambio de paradigma ocorrido no fim do século XIX e representado pela constatação da complexidade nos fenômenos humanos.
Parto do princípio de que o Paradigma da Complexidade muda profundamente o modo como nos relacionamos com a “realidade” que não está dada a priori, mas é construída ao viver: seres vivos são seres autopoiéticos, isto é, produzem a si mesmos, física e mentalmente, como um todo, no processo de viver. Para isto dependem de sua estrutura interna e de sua relação com seu meio, com o qual trocam energia, mas não informação. A estrutura muda com as trocas de energia (alcalose pós-prandial, por exemplo), mas a organização permanece. A luz solar que me faz pegar uma cor é a mesma que faz uma folha verde produzir açúcar e água na fotossíntese – é a estrutura do ser que proporciona o resultado e não o que costumamos chamar de “estímulo” externo. Ora, isso tem implicações epistêmicas importantes, pois o que vem de fora não determina qual o resultado, que depende da estrutura do ser vivo. Se ela, estrutura, ficar comprometida, o ser vivo adoece ou morre.
O sistema nervoso, formado por células independentes chamadas neurônios, do qual resulta o que chamamos “mente”, é um sistema fechado que só se comunica com o exterior por via de seus órgãos de sentido e placas neurais em glândulas e músculos. Tudo indica (Solms, 2021, Damásio, 1999) que o cérebro é uma máquina de antecipar resultados e corrigir o rumo ao funcionar, mas trata-se sempre de uma interpretação pessoal resultado da experiência prévia daquele ser em especial. “Só se pode ver o que se aprendeu a ver” (Maturana, 1984, 1994).
Existe uma experiência muito esclarecedora sobre isto: discípulos de Varela dividiram uma ninhada de gatinhos em duas metades: metade podia explorar o ambiente andando, outra metade era levada pelos primeiros em um carro atrelado a eles. Depois de certo tempo, postos todos sobre a mesa do laboratório, os primeiros eram gatinhos normais, os segundo se comportavam como se cegos fossem batendo nos objetos, caindo da mesa, se não impedidos disso. Varela (1991, p. 174/5) Conclusão: não basta ter olhos para ver, é necessário que se “aprenda” a fazer isto em ato. Mais, como somos dependentes de nossa estrutura, uma pessoa que nasceu cega ou surda, terá necessariamente um mundo interno diferente, onde os valores de tato ou sensibilidade cutânea, terão predominância sobre sua visão de mundo, com um acoplamento diferente dos que podem e sabem ver.
Tive oportunidade de constatar isso, muito antes de entender o que presenciava, com um amigo de meu pai, cego e absolutamente apto para viver, inclusive identificando em que ponto de uma rua estava pelos ruídos e cheiros locais. Seu relógio de bolso “batia as horas” ao se pressionar a coroa e ele ganhava sua vida cantando com bela voz de tenor.
Nenhum neurônio fica inativo, se o ser vivo for cego, a área correspondente é adjudicada a outra função vicariante, por exemplo maior acuidade do tato. Isto tem sido usado, por exemplo, para criar uma “visão artificial” (MIT – retina artificial)1 por projeção de estímulos elétricos de imagens simples sobre a pele ou por implantes no cérebro, como fez o pioneiro Miguel Nicolelis com Aurora, macaca que aprendeu a usar um joystick com os pensamentos (Nicolelis, 2011). Se o cérebro se organiza de modo diferente, como nos autistas ou áspergers, então, mais ainda, necessitamos compreender essa nova epistemologia necessária para acompanhar o que se passa com eles. (Pellanda, 2022)
Além disso, como salienta von Foerster (2003 é preciso levar em consideração o que ele chama de conceitos de segunda ordem: “compreender o compreender”, ver, não com os olhos, mas através deles. Embora tenhamos pontos cegos em ambos os olhos, vemos um campo contínuo, sem falhas ou lacunas, porque o processo de ver é resultado de ação secundaria do cérebro, o que levanta de pronto a questão platônica: “o que é a realidade”. Se a visão precede à “realidade”, então talvez cada um tenha a sua e particular realidade. Ele lembra trabalhos de Maturana, Uribe e Frenk (1968) que
“… demonstram a existência de fibras centrifugas que se originam na porção central do cérebro e se dirigem à retina, distribuindo-se ao longo desta de tal modo que exercem controle sobre o que a retina vê. Por conseguinte, a retina está sujeita a um controle central e é por isto que devemos crer para ver.”
Então isso que chamamos “informação” é o resultado do funcionamento do organismo em relação com o seu meio em um processo que Maturana chama de “acoplamento estrutural” de modo que para um observador externo “parece haver transmissão” de conhecimento, quando na verdade, ele é recriado por cada um em seu viver, de tal modo que ele afirma “Conhecer é viver, viver é conhecer” (Maturana, Varela, 1984). Se o ser vivo para de aprender, ele morre.
Duas consequências básicas para a Psicanálise: a diferença entre “análise” e “supervisão” se esfuma na medida em que se trata de um mesmo processo de aperfeiçoamento pessoal decorrente da relação com analista e supervisor. Outra é que o psicanalista deixa de ser o “autor” da análise, para ser o parceiro privilegiado num processo que é comum aos dois (Pellanda, 1996).
Certamente não sou um psicanalista freudiano ortodoxo, muito embora o profundo respeito que tenho por este senhor a quem, acompanhado por vários outros, atribuo o rompimento com o paradigma cartesiano, talvez apesar de si mesmo; não sou um psicanalista kleiniano, apesar de considerar esta senhora como uma pioneira chave no desenvolvimento do pensamento psicanalítico; tampouco sou um psicanalista bioniano, mesmo que considere este senhor da mesma estatura do fundador de tudo, Sigmund Freud; e muito menos sou um psicanalista lacaniano, porque penso que este senhor ao retornar à Freud, o fez de modo muito particular, fundado num estruturalismo que dispensa o sujeito e joga fora o nenê junto com a agua do banho, no dizer de Freud, ainda que em outro contexto. Aqui uma ressalva: nem todos os lacanianos de hoje em dia seguem à risca os preceitos estruturalistas da igreja dos primeiros tempos. É importante levar em conta o avanço das todas as ciências nesses mais de cento e vinte anos de existência da Psicanálise, inclusive dela própria. Eu sou psicanalista e pronto. É possível que a Psicanálise seja hoje uma Psicanálise “dois-ponto-zero”, mas isto é para outro momento3, entretanto, desde já reafirmando, a Psicanálise “ponto um” continua válida, tão válida quanto a Física Newtoniana o continua sendo em relação à Física quântica. Trata-se de uma questão do contexto em que se trabalha.
A pandemia de Covid trouxe um benefício secundário ao nos fazer pensar sobre nós mesmos, nossa trajetória de vida, perdas e ganhos. Foi aí que percebi que devo agradecer aos inimigos que tive, que foram poucos e cordiais, mas os tive, por me haverem bloqueado alguns caminhos tidos como obrigatórios para um sucesso profissional e que me teriam levado a tarefas para as quais não tenho gosto ou não sou propriamente apto. Meus primeiros textos eram rejeitados por alguns alegando serem “pouco psicanalíticos” (“Imagina! Ele cita Piaget!”), tendo mesmo ouvido que eram mais trabalho jornalísticos do que psicanálise (“parece que tu disfrutas dessas narrativas”, insinuando voyeurismo de minha parte…), como se fosse possível fazer algo de que não se goste. Aqui agradeço a Oliver Sacks haver restituído à medicina o “status científico” das narrativas clínicas, aliás, tão caras ao próprio Freud. Assim, restou-me seguir meu próprio caminho, que o fiz ao andar, como indica o poeta.
E, como disse antes, havia ainda mais uma estranha questão na minha biografia: em 1979, aproveitando o congresso da IPA em New York, comprei o que talvez tenha sido o primeiro computador pessoal a entrar no Brasil. Dos milhões de computadores que a Apple fabricou, o meu tinha número de serie 00949, ou seja, inferior a um mil (!) … e o manual que o acompanhava, o grosso “Livro Vermelho”, tinha páginas escritas à mão (!) impressas nele. Quando o mostrei para Steve Wozniak, criador do computador vendido pela Apple, durante um evento na PUC-RS, perguntando se a caligrafia era dele, disse “Wow – yes”, confirmando.
Esse computador, muito primitivo para os olhos de hoje, obrigou-me a me abrir para outras áreas do conhecimento que incluíam a cibernética com suas filhas mais velhas, a informática e as ciências cognitivas, mas não só, muito mais em decorrência da necessidade de criar os programas para fazê-lo funcionar: lógica, rigor cientifico, recursão, realimentação positiva e negativa, lógica não linear, a lógica paraconsistente de Newton da Costa (1980), a bi-lógica de Matte-Blanco (1975) me conectando com a Psicanálise e com a complexidade, fundando novo paradigma. Ainda a preconcepção de Bion (1962a) antecipando a moderna neuropsicanalise de Solms (2021) e a “embodied mind” de Varela (1991). E ainda, básico, mudar do ponto de vista do observador de fenômenos externos a mim, para esta outra posição de ser eu um observador incluído no fenômeno que observo, atendendo ao demonstrado por von Foerster (2003).
Neste momento, vejo a Psicanálise, uma ciência complexa, como sendo capaz de, para quem dela faz um uso adequado, propiciar a possibilidade de instalar em si um processo de complexificação individual que se dá simultaneamente a outro, o do psicanalista, numa iteração construtiva crescente para ambos. Lembra Bion que a mãe também se beneficia com a interação com seu bebê (Bion, 1962 a, p. 109) porque, do mesmo modo, se trata de um processo que inclui a ambos os autores. Penso mesmo que este seja o modelo do qual deriva posteriormente o que chamamos processo psicanalítico.
Com esta perspectiva muda toda a questão do “setting” o que explica porque tratamentos que continuaram via internet durante esta pandemia que nos assola seguiram sendo uteis a seus participantes, às vezes inclusive e paradoxalmente sentida como “mais intima” do que no consultório regular. (Pellanda, 2023). Manter o ritual do “setting” faz sentido porque estes mais de cem anos de experiência nos mostram que este ambiente é favorável a essa mudança que ocorre nas pessoas que se submetem ao processo psicanalítico, mas não é o uso do divã ou a frequência semanal que determinam a qualidade do processo, tanto que podem ser alterados sem prejuízo graves como demonstrado nesta pandemia corrente.
O “sistema operacional” desse processo é o da autopoiese, caracterizado pelo acoplamento estrutural ao meio e não pela adaptação a uma realidade externa dada. Em (Pellanda, 2019), trato mais extensamente dessa “desubstancialização” do setting, resumida acima, mas é necessário acrescentar que o conhecimento trazido pelas neurociências tem ratificado muitas intuições geniais de Freud, enquanto muito pouco tem se mostrado inadequado ou inexato, ainda que necessitando uma revisão dedicada. No contexto atual é possível buscar o entendimento que Freud abandonou em 1895 por falta de substrato de conhecimentos sobre fisiologia cerebral, hoje disponíveis, coisa a que Mark Solms se dedica explicitamente como se lê em seu livro “The Hidden Spring” lançado em 2021.
Um novo paradigma em meio à minha autoanálise…
É Thomas Kuhn quem diz que um novo paradigma se estabelece quando o anterior já não consegue abarcar fenômenos que estejam sendo estudados. Ele comenta que na medida que um paradigma não consegue explicar um determinado fenômeno, vai-se abrindo uma fenda por onde se infiltra um outro modo de explicar, um remendo, no paradigma vigente. Ao se acumularem, esses remendos acabam por instituir um novo paradigma que concorre com o anterior por validação (Kuhn, 2000). A troca se completa pelo desaparecimento dos velhos proponentes do antigo restando afinal apenas os do novo… Entretanto, números complexos, equações não lineares, física quântica e o objeto de estudo da Psicanálise, inefável e complexo, o inconsciente, decretaram a necessidade de um novo modo de considerar todos esses fenômenos, com uma rapidez e predominância que atropelou muitos “velhos” que não tiveram tempo para se adaptar aos novos tempos.
Tenho para mim que Sigmund Freud foi um pioneiro neste novo Paradigma da Complexidade, apesar de si mesmo, ao se pretender um cientista cartesiano4, mas, como introduziu um objeto de estudo inefável, o inconsciente, trouxe para cima da mesa um novo tipo de conhecimento, que não se podia reger pelos critérios lineares das ciências ditas “exatas”, que dependia de novos modelos para encarar a visão de mundo de cada um.
Em “O Caminho desde a Estrutura” ele (Kuhn, 2000) desenvolve e corrige seus próprios pontos de vista em relação ao que seja um “Paradigma” e como ocorre a substituição de um antigo por um novo. Ele chama à atenção para o fato de que “estar dentro do paradigma” é fundamental para perceber a coerência dos discursos, comentando de como achou Aristóteles “não apenas ignorante de mecânica como um físico terrivelmente ruim” (p. 26) até que percebeu que ao falar de “movimento” ele estava falando de “mudança” e, continua:
… subitamente, os fragmentos em minha cabeça rearrumaram-se de uma nova maneira e encaixaram-se todos juntos em seus devidos lugares. Meu queixo caiu, pois, de repente, Aristóteles parecia, na verdade, um físico realmente muito bom, mas de um tipo que eu jamais havia sonhado possível (p. 27)
Vejo este episódio como o relato honesto e sincero de um cientista se reconfigurando em um verdadeiro “insight”, em que “subitamente todos os fragmentos se encaixam”, indistinguível daqueles que ocorrem em uma sessão analítica. Aos puristas que pretendem reservar esta palavra apenas para esta última situação, lembro que o paradigma mudou, e com ele, o sentido das palavras, como segue demonstrando Kuhn, ao discutir a questão da “incomensurabilidade”, isto é, nas linguagens peculiares de cada teoria, eventualmente não passível de tradução direta uma em outra. Então, como neste novo paradigma estou considerando que se trata de um mesmo fenômeno de complexificação pessoal, penso que cabe usar a mesma palavra no mesmo sentido original, porque o que muda é o entendimento do fenômeno como sendo idêntico ao ocorrido no “setting”, mas que se entende como não dependente dele.
Meu exemplo pessoal preferido para este tema é de como não faz sentido falar em “estímulo” ou “inputs e outputs” se entendo que “o que vem de fora não determina”, isto é, que entendo ser a natureza do ser vivo o que determina o resultado. Até pode-se pensar em usar a palavra “estímulo” para dizer que houve uma mudança no ambiente externo, à qual deve reagir o ser vivo, mas implica em dois sentidos para a mesma palavra, o que, certamente, não contribui para a clareza do discurso.
Entre nós, vale lembrar o quanto foi preciso para que Bion fosse tomado a sério em nossa SPPA: ouvia-se, e não a sotto voce, que era pura bobagem isso de “não ter memória nem desejo” ou que “trata-se de uma aventura a dois” – “o paciente que chega hoje não é o mesmo que saiu daqui ontem” eram tratadas como desdém e arrogância de quem “sabe das coisas”. Ainda na recente (julho de 2022) Reunião Virtual que iniciou a comemoração dos 60 anos da Sociedade, ouviu-se claramente que houve quem questionasse essa abertura para o social, atualmente em curso com as atividades junto a pessoas carente e escolas municipais, alertando “para o perigo de desvirtuar a pureza da psicanálise”…
Como se deu a mudança do paradigma
Vendo retrospectivamente, já no fim do século XIX começam a surgir teorias que fogem ao determinismo newtoniano-cartesiano, como a noção de números complexos, as equações não lineares de Poincaré e a Psicanálise, e depois da virada para o XX, a Física Quântica, a cibernética e as neurociências. Como disse acima e repito agora, quando Freud inclui no estudo do ser humano o seu inconsciente, leva o problema para um outro patamar, pois, sendo inconsútil, o inconsciente não pode ser estudado pelos meios tradicionais de tentativas e erros, que, aliás, os condutistas-comportamentalistas continuam a tentar validar.
Freud usa seu próprio inconsciente como ferramenta para intuir o de seus pacientes, embora nos começos, o que ele chamou de “contratransferência” fosse tido como não desejável. Foi necessário esperar por Henrique Racker (1953) e Paula Heimann (1950) para que fosse reconhecido o potencial de poderosa ferramenta no entendimento do processo inconsciente de ambos, paciente e analista.
É interessante notar que vários psicanalistas já haviam intuído, de modo difuso, a necessidade de admitir uma mudança paradigmática, ainda que lhes tenha faltado este último passo de identificar qual o paradigma adequado para pensar a Psicanalise. John C. Foehl (2008, p. 1234), por exemplo, examina ideias de Edgar A. Levenson em que ele propõe que há sempre mútuas influências inconscientes entre analisando e analista durante o trabalho clínico. O autor reconhece a precedência de Racker em 1953 e outros, mas omite Paula Heimann, que lhe é anterior, dentro do eclipse que autores Kleinianos tem ou tinham na zona da “Psicologia do Ego”. Levenson, continuando, “sugere que uma mudança de paradigma oferece uma diferença fundamental no modo de pensar a experiência humana” e propõe, então, focar no processo e não na estrutura do que se pretende explicar, reconhecendo que o observador faz parte do fenômeno observado.
A Psicanálise seguiu seu curso de ciência independente, rejeitada pelo establishment e negada pela medicina, até que os médicos americanos se apropriaram dela, declarando que apenas médicos poderiam praticá-la, no que foram seguidos por muitos, mesmo que de forma pouco clara. Esta situação se resolveu após processo aberto por psicólogos que acusavam de monopólio a Sociedade Americana de Psicanálise, APsaA, e a International Psychoanalytical Association, IPA, processo este de longa duração e elevados custos de que cada um de nós, associados desta última, pagamos uma parcela.
No Brasil, cada Sociedade tinha sua própria posição, com São Paulo permitindo a “análise leiga” e Porto Alegre exigindo diploma de medicina, por exemplo. Fui dos primeiros a contestar essa posição, até por ter tido mãe profissional da área, não menos competente do que muitos dos que vi exibirem sua arrogância ao seguir impedindo a entrada de Psicólogos na SPPA, o que acabou acontecendo pela pressão econômica.
Também a Medicina de modo geral e a Biologia, em particular, seguiram suas evoluções no sentido de irem relatando situações que desafiavam o paradigma cartesiano. Por causa de estranha doença da filha do Sr. Macy, foram convocadas reuniões transdisciplinares que incluíam não só médicos, como físicos, engenheiros, biólogos, epistemólogos e mesmo um psicanalista, na tentativa de encontrar uma resposta ao sofrimento da moça. Essas conferências se repetiram a cada ano e ficaram conhecidas como as Macy’s Conferences. Delas resultou o que se conhece por “primeira cibernética” com a demonstração de mecanismos de realimentação e controle, basicamente por parte de von Neumann e Norbert Wiener.
Em um primeiro momento foi reconhecido o fenômeno de realimentação dos sistemas, de modo que um determinado fato repercutia no modo como de desenrolavam os seguintes, sendo que no caso de a influência ocorrer em partes anteriores do processo, resultava em um controle do fluxo processual, [feedback] ou profundas e inesperadas consequências se o efeito fosse a posteriori, [feedforward] podendo resultar em perda total do controle do sistema.
A entrada de Heinz von Foerster no grupo trouxe uma nova abordagem à questão dos sistemas porque passou a incorporar a percepção de que o observador está sempre implicado no sistema observado. “De que posso falar senão de mim mesmo?” (von Foerster, 2003, p 283). Desse momento em diante se pode falar de uma “Segunda cibernética”, caracterizada por ser o observador incluído no fenômeno observado e alterando a percepção por partir das experiências pessoais dele. Trata-se de uma “ciência complexa”, na verdade um conjunto de ciências, um saber transdisciplinar, que forma um dos pilares do que hoje se conhece pelo “Paradigma da Complexidade”.
Aqui uma questão derivada de fundamental importância – ética em Psicanálise:
No momento em que surge a noção de responsabilidade, temos a noção de ética. Vou então desenvolver a noção fundamental de uma ética que contradiz os princípios ordenadores que pretendem organizar o outro com o mandamento: “Tu deves”, e o substituir por um princípio organizacional, que implica organizar-se a si mesmo com o mandamento: “Eu devo” (op. cit., p 112 – ênfase minha).
Decorre daí que nem deveria ser posta a questão de ser obrigatória a análise pessoal para fazer a formação que leva a ser psicanalista – a obrigação tem que vir “de dentro”. É impossível ser psicanalista e praticar fraudes como aquela do “homo de Piltdown” ou se o analista desconsidera um impasse ideológico: neste momento eu não seria capaz de aceitar em meu divã um sujeito que se declare nazista, por exemplo: me dou o direito de não ter mais paciência com esse tipo de negacionismo patológico não suscetível a acesso racional ao menos para aquela dúvida inicial que permite discutir uma posição. Do mesmo modo, não é análise aquela em que o analisando esconde deliberada e sistematicamente uma falta de conduta ou atitude discriminatória. A sinceridade e transparência é condição básica de manutenção do processo psicanalítico.
Neste momento paradigmático em que passamos a considerar os sistemas e sua organização, em vez de estruturas fixas e funcionamento mecânico, convém lembrar que Freud ainda nos anos 1800s, no dizer de Sacks (1998): “ficou convencido de se necessitar de uma nova maneira de ver o cérebro. Um modo mais dinâmico de vê-lo foi tomando conta dele”. Dando ênfase na organização e não na diferença entre neurônios, Freud antecipa de um século os achados de Maturana que afirma ser a organização do ser vivo o que o torna tal e não a natureza de seus componentes.
O processo de complexificação na Biologia: o eixo Neurociências – Psicanálise
Penso que Neurociências e Psicanálise são ciências irmãs que partilham o mesmo objeto de estudo, o homem como ser autopoiético e não apenas nervos ou emoções. Sendo assim, partem de lados opostos sobre o mesmo eixo, uma vinda da biologia celular, outra do aporte das emoções que geram sentido e não há como não se encontrarem a meio caminho.
A Psicanálise, criada por um neurologista inconformado com as limitações terapêuticas de seu tempo, tem uma teoria sobre as mudanças que vão ocorrendo nos seres humanos ao longo de sua vida, decorrentes do desenvolvimento orgânico, inclusive do sistema nervoso central, e das relações com pais ou cuidadores. Inicialmente Freud pensou em termos de que zona erógena predominava em determinados momentos, e mostrou etapas de predomínio oral, anal ou fálico, com suas consequências na formação pessoal. Melanie Klein chamou a atenção para o fato de que existe um Ego primitivo desde um primeiro momento e focou nas defesas desse ego no lidar com suas ansiedades paranoides ou depressivas.
Mais tarde Freud em O Ego e o id (1966 [1923]) acrescenta um novo modo de organização da pessoa ao comentar que o Ego, sendo aquela parte da mente que se relaciona com o exterior, é influenciado pelo meio, como se num processo de oxidação, descrição que se aproxima, e muito, com a de Maturana e sua autopoiese.
Seres humanos parecem ter um modelo de rede no buscar suas identificações constituintes de si mesmo. Os nós da rede representando pais ou cuidadores certamente serão predominantes, mas nunca se sabe que tio ou avó vai ser decisivo no constituir um traço de caráter predominante mais adiante na vida. Diz Nize Pellanda (2022, p. 112) sobre elementos epistêmicos e ônticos:
O primeiro deles é o princípio da rede como modelo de tudo o que existe. Esse princípio é epistêmico e ontológico ao mesmo tempo, pois está relacionado com o processo de construção do conhecimento e de si, que passa, necessariamente, pelas interações e afecções.
Quando Aristóteles diz que o Homem é um animal político, ele não está falando de política partidária atual, mas do fato reconhecido de serem os humanos gregários e dependendo uns dos outros para construírem seus próprios modos de viver. Maturana retoma isso e afirma que humanos, em uma metáfora com animais que não completam sua metamorfose para a fase adulta, são “neotênicos”, dependentes de amor por toda a vida… Que seres humanos são amorosos e solidários, quando em pequenos grupos. Freud chama a atenção do como nos comportamos de modo muito diverso quando participamos de uma turba, seja num piquete ou na torcida por um jogo de futebol, como se constata hoje em dia, cada vez mais.
Este modelo de complexificação de cada um, essa história de vida, parece faltar às neurociências e um dos mais proeminentes de seus representantes, Mark Solms (2021), concluiu ser necessário ir para Londres fazer uma formação psicanalítica standard para integrar as duas em sua “Neuropsicanálise”. Os exames não invasivos que permitem inferir que zonas cerebrais estão mais ativas, nem por sonhos imagináveis no tempo de Freud, hoje trazem novos desafios para interpretarmos aquilo que esses exames nos dizem. As tractografias nos mostram os caminhos dentro do cérebro, que se comunica com o que, e, como sempre, as respostas são muito mais globais do que se supunha nos tempos dos “localistas” mais puros que estavam à procura de que neurônio guardasse a lembrança de “vovó”.
A Teoria de Santiago e o Movimento de Auto-organização extrapolaram seus propósitos iniciais que se referia a células vivas para incluir seres multicelulares, organismos complexos e, mesmo, sociedades vistas como entidades autônomas: onde há referência à vida, necessariamente está a autopoiese. Tentando desfazer um mal-entendido epistemológico: a questão não é negar a existência de um mundo material – (sim, se eu jogar um copo de vidro no chão ele se quebrará, com toda probabilidade) – mas de como nos relacionamos com esse mundo. Certamente não por “representação” dele (Mondrzac et all, 2013)
Aqui uma questão em aberto: se admitimos como correta a Teoria de Santiago ou, ao menos, adequada a este momento de evolução da ciência que postula não haver um mundo dado, lá fora, e tudo o que sabemos dele depende do acoplamento estrutural ao viver esse mundo, então penso que o mesmo ocorre em relação ao mundo interior, constituído pelo feedback da “autopoiese consigo mesmo”, ao aprendermos a nos distinguir dos demais. Entendo que os sonhos fazem parte deste acoplamento com o interno, contribuindo na elaboração dos conflitos inconscientes e antecipando decisões tomadas de modo inconsciente e só reveladas ao acordar… É celebre o sonho de Keculé com o símbolo do Uroboro, uma cobra comendo a própria cauda, e que o levou a criação da fórmula do anel de benzeno.
Se nossos pacientes são seres humanos –vivos – então devem seguir as leis da biologia, incluindo, e principalmente, o fato de que somos seres autopoiéticos, logo sujeitos às leis gerais da biologia de tal modo que nada do que vem “de fora” é causa de uma modificação do ser, mas sua estrutura determina como e o que muda, como já disse e repito.
Além da Neuropsicanálise que tenta aproximar os aspectos funcionais do sistema nervoso com os conceitos psicanalíticos de Freud, por via de “voltar ao Freud do ‘Projeto’, mas com outras ferramentas”, como vimos, devemos agregar agora mais um elemento constituinte do humano, que é sua natureza biológica, que determina o como chegamos a mudar a nós mesmos e a nossos pacientes por via da análise. A mudança de paradigma, como já dito, impõe uma nova postura diante dos fatos que observamos na clínica, para incluir aí o modo como o organismo muda ao conviver com novos ambientes mentais proporcionados pelo “setting” que usamos desde um começo e que se mostrou adequado para nossos fins.
Faz diferença que uma compreensão possa ser quase instantânea e a incorporação desse saber no organismo, dependa de novas sinapses e mudança estrutural dos circuitos neuronais, o que demanda tempo para modificações proteicas complexas e que envolvem o sistema nervoso como um todo. A rigor, o que fazemos é proporcionar um ambiente amoroso e seguro para que cada um faça sua complexificação como ser humano, pelo acoplamento estrutural nesse novo ambiente propicio.
Para esse processo complexo e integrado, neurologia de um lado, psicanálise de outro, sustentados pela natureza biológica de nossa espécie, proponho o nome de Neurobiopsicanálise (Pellanda, L. 2022).
Como nos tornamos autônomos (que alguns chamam “adultos”) por acoplamento estrutural com nosso meio, que diverge substancialmente conforme o estrato social em que estamos, penso que o sistema econômico-político que nos rege está assim justamente para manter o “status quo”. Filho de marceneiro aprende a usar ferramentas ao natural, enquanto os filhos de intelectuais aprendem a usar “as letras” sem mesmo perceber que o estão fazendo.
Tenho para mim que a Neurobiopsicanálise tem um compromisso de romper com essa estrutura ao propor uma equalização de experiências desde os primeiros anos de ensino formal, propiciando a uns o uso das letras e a outros os instrumentos que vão necessitar para lidar com as lâmpadas e tomadas elétricas de sua casa… Entendo que experiências alternativas são importantes para que todos tenhamos oportunidade de conviver com um mundo diferente daquele que há em casa, propiciando uma formação pessoal mais rica. O período escolar inicial é o mais importante e deveria propiciar o maior número possível de oportunidades de contato com música vocal e instrumental, jogos da vida real e cibernéticos, de realidade aumentada, que tragam para dentro da escola algo que a maioria das crianças só teria mesmo aí, especialmente dando ênfase aos aspectos colaborativos em contraste com os competitivos. Muito mais importante do que “aprender conteúdos” é “aprender a aprender”, este sim, o verdadeiro papel da escola em qualquer nível. Na “Formação Psicanalítica” não lembro de haver sabido de algum local onde se discuta como escrever um trabalho publicável ou sobre ética do relacionamento entre os envolvidos no processo.
A Questão da Pesquisa em Psicanálise
Tanto Bion quanto von Foerster alertam para o fato de que ciências complexas não podem ser avaliadas pelos critérios reducionistas de Popper. Tratando-se de um processo, não cabe avaliação de “performance”, de haver mais ou menos sintomas ou alterações de conduta. Somente o próprio analisando pode dar conta de seu progresso em termos de sua complexificação estrutural e maior resiliência diante das vicissitudes da vida, medidas por critérios íntimos, pessoais. Precisamos de “Um metro para medir” essa complexificação, como proponho. (Pellanda, 2010)
Ainda, psiquismo não existe no ar, autônomo e independente do corpo físico que lhe dá vida. “O Ego é antes de tudo corporal” (Freud, 1966 [1923] p 27) – sempre me pautei por esta afirmativa liminar de nosso patrono. Agora, com Maturana e Varela e em seguida com Nicolelis e Solms, vamos entendendo como ocorre essa atividade do corpo que dá origem aos pensamentos e ações que nos caracterizam como seres vivos.
Então, que estamos fazendo quando fazemos pesquisa em Psicanálise? Aqui sigo com minha parceira de vida, Nize Pellanda (2022) que chama atenção para as cartografias como modo de conhecer o que se dá num fluxo – estamos cartografando o desenvolvimento de complexificações que nos vão constituindo ao longo do acoplamento estrutural com nosso meio.
Penso que, como cientista, não tenho o direito de ocultar minhas andanças pela construção de uma psicanálise que inclua o Paradigma da Complexidade no dia a dia do fazer psicanalítico, mas, ao contrário, tenho o dever de submeter minhas experiências ao crivo dos pares e me submeter às críticas bem-intencionadas ou nem tanto, como condição de validação delas. Então, aqui vai.
Muito do que penso já está publicado em periódicos científicos, como a Revista da SPPA e em apresentações em Eventos e Congressos, mas é importante ressaltar que sou também o resultado de minhas vivencias, seja nesta cumplicidade de sessenta anos com Nize Maria Campos Pellanda, seja nos encontros do Grupo de Estudos de Epistemologia Psicanalítica que formamos na SPPA sob comando da Viviane Mondrzak5, seja ainda na interação com meus analisandos que propiciam minha própria autoanalise. Sem eles não seria quem sou. Muito grato a todos.
Psicanálise é uma ciência complexa, mesmo transdisciplinar, na medida em que trata seres humanos que são complexos, e não apenas seus “inconscientes” ou suas “neuroses”, mas um todo mente-corpo que se pretende harmônico. Não advogo que se deva ser “expert” em física quântica, por exemplo, mas saber que existem fenômenos quânticos influindo no funcionamento do cérebro e, por tanto, no estado mental de um momento, pode nos proteger de uma atitude arrogante de “já saber tudo o que interessa”.
Tampouco penso que se deva ter Ph.D. em Neurociências, mas é fundamental saber que o cérebro é uma rede fechada de neurônios, que só se comunica com o exterior por via de seus órgãos de sentido ou seus efetores em músculos e glândulas. Disso decorre que não existe “transmissão de conhecimento”, mas o conhecimento é inevitável, logo o mecanismo tem que ser outro – e, desde Maturana e Varela (1984) sabe-se que é o “acoplamento estrutural” o responsável por isso.
Penso que não existe contradição entre este modo de ver e a “Neuropsicanálise” de Solms (2021) e outros, que retomam a tentativa de “engenharia reversa” de Freud quando imaginava que dispositivos neurológicos seriam necessários para desempenhar as tarefas conhecidas do viver diuturno. Há certamente, muito espaço para novas pesquisas que completem ou complementem o que se sabe correntemente. Portanto, além de psicanálise e neurologia cabe lembrar que seres humanos são, basicamente, seres vivos que compartilham com todos ou outros seres vivos algumas particularidades que são expressivas e estudadas na Biologia, que também é, assim, base de ambas, psicanálise e neurologia.
Por exemplo: “seres vivos” nessa concepção da Teoria de Santiago, são unidades autônomas, autopoiéticas que trocam energia com o meio, mas não trocam informação, que é criada dentro da unidade vivente como expressão de seu modo de viver, ou seja, recriar a roda é nosso modo de ser e viver. Isto implica necessariamente em levar sempre em conta nossa condição se seres vivos e sujeitos às leis da biologia, com especial ênfase ao fato de que dependemos de acoplamento estrutural para nos constituirmos como pessoas.
Qualquer pesquisa em Psicanálise não pode deixar de fora o ambiente onde ocorre, inclusiva as pessoas do analista e do analisando: formam um sistema que, em funcionamento harmônico, leva à complexificação de ambos e a mudanças no ambiente. De qualquer modo, como em outras ciências complexas, nunca se poderá descrever todas as variáveis, de modo que resultados serão sempre estocásticos, não lineares, não aptos para descrever o futuro, salvo nos termos de probabilidades.
Freud e a complexidade: que intuições seguem válidas hoje em dia?
Sobre “Projeto para uma psicologia científica” (Freud, 1950 [1895]): trata-se de anotações de próprio punho de Freud feitas durante 1895 numa tentativa de entender o funcionamento do cérebro a partir de seus elementos constituintes, os neurônios. Estes haviam sido descritos por Golgi, que pensava que eram parte de uma rede anastomótica, tipo rizoma, mas que Ramón y Cajal demonstrou não haver continuidade entre eles, confirmando a teoria Neuronal de Waldeyer, apud Sacks, (1998).
Neste momento de seu percurso pessoal, Freud tenta compreender o fluxo de energia que intuía fluir no cérebro, “como estados quantitativamente determinados de partículas materiais especificáveis, tornando assim esses processos claros e livre de contradições” [Freud, (1950 [1895]) Vol. I, p 295] chamando “Q” o que distingue repouso de atividade e tomando neurônios como partículas materiais.
Introduz o princípio da inércia neuronal consistente em que os neurônios tendem a se livrar de “Q” para permanecer em um estado de mínima excitação. Num sistema nervoso elementar o arco reflexo representa essa descarga diretamente no sistema músculo-esquelético. Na medida em que o organismo se complexifica, “existe espaço para o desenvolvimento de uma função secundária”. [p 296] ou seja, postergar o efeito do arco reflexo.
O sistema nervoso se constitui de neurônios distintos e similares uns aos outros, que se conectam por intermédio de uma substância alheia a eles, de tal modo que recebem excitações pelos dendritos e as entregam via axônio. Entretanto, deve-se admitir que haja resistências à descarga, provavelmente nos contatos entre eles, formando “barreiras de contato”.
Ao conduzir a excitação de um neurônio a outro ocorre modificação da substância protoplasmática que existe entre eles, de modo que uma futura passagem seja facilitada. Neurônios que disparam juntos tendem a reforçar sua ligação, noção esta que apenas décadas depois será retomada por Hebb (1949).
Por hipótese deve haver dois tipos de neurônio: um formado por elementos permeáveis “φ” e outro por elementos impermeáveis “ψ”, capazes de armazenar “Q”. Diz então: “Se isto se confirmar, não os teremos inventado, mas apenas descoberto o que já existia.”
Faz considerações sobre “quantidade” e “qualidade” dessa energia e tenta entender a dor como um excesso que ultrapassa os limites de controle do sistema. Seguindo com o desenvolvimento de sua teoria, Freud encontra que é necessário conceber um terceiro tipo de neurônios, “ω”, constituindo um sistema perceptivo e que teria algum papel no estabelecimento da consciência, entendida como a percepção subjetiva de uma parte dos eventos neurais.
Ainda que seja produto de um raciocinado muito sofisticado, Freud se declara desiludido com os resultados, especialmente pela dificuldade de explicar a consciência e abandona este projeto, inclusive fazendo de tudo para que não fosse publicado quando tomou conhecimento, em seus últimos dias, de que ele havia sobrevivido entre os papéis de Fliess.
Resta perceber quanto um projeto abortado pode ser entendido como fazendo parte de um percurso pessoal do autor, levando-o a outros patamares de formulação teórica. Inúmeras “notas ao pé” ao longo dos vinte e dois volumes de suas obras completas remetem à origem de suas ideias já esboçadas no “Projeto”.
Mark Solms (2021) retoma esse projeto com a vantagem de se situar 120 anos após, instrumentado por diversas tecnologias não invasivas de imagens de cérebros funcionantes, e reconhece que o afluxo de oxigênio nos locais de maior atividade cerebral não deixa de ser um aporte energético aos neurônios em funcionamento, o que, pelo menos em parte, confirma intuições geniais de Freud.
Como penso a formação psicanalítica – Sociedades Psicanalíticas são Guildas?
Se mudamos de paradigma, isto precisa ser explicitado nos cursos teóricos dos Institutos das diversas sociedades porque é necessário reconhecer a necessidade de uma nova epistemologia para dar conta de novos fenômenos ou novas maneira de os ver.
Pressupõe-se que os candidatos a serem psicanalistas já possuam conhecimentos razoáveis de humanidades e de processo científico, mas nada impede que se faça um seminário de discussões sobre cultura conhecimentos humanísticos no início da formação. Certamente além de Freud, Melanie Klein e Bion, devemos rever os seguidores mais destacados, mas é imprescindível incluir um seminário de Biologia do Conhecimento, básico para poder acompanhar o desenvolvimento deste novo paradigma da Complexidade, bem como noções de Neuropsicanálise ou Neurociências, se não quisermos nos comprometer com um aspecto particular desse desenvolvimento.
Ética, neste paradigma da Complexidade, como diz von Foerster (op.cit.), decorre da noção de responsabilidade pessoal no processo, de modo que é preciso substitui o “tu deves” por um “eu devo”. Colegas didatas que se casaram com candidatas foram postos em ostracismo pelos restantes, embora estes aspectos de ética nunca tenham sido discutidos abertamente durante a formação, ou ao menos não era, no tempo em que a fiz. Não discuto que possa haver sentimento legítimo entre analistas e pacientes, mas, assim como detentores de cargos públicos passam por um período de impedimento antes de poderem se candidatar a cargos eletivos, penso que um período de afastamento e, quem sabe, reanalise dos dois com outros colegas possam tornar aceitáveis estas questões. Como está fica uma afirmação de que tudo o que se passa entre analista e analisado é transferência, o que seria absurdo.
Ética tem que ser amplamente discutida, inclusive para poder identificar aquelas pessoas com distúrbios de caráter que os tornam inadequados para a prática da psicanálise. Há uma necessidade de estabelecer uma ponte entre Epistemologia e a Ética, segundo Bateson, mais ainda de se tratar de uma Epistemologia Psicanalítica, que necessita uma revisão para se adequar ao novo paradigma. Na nossa Sociedade tivemos um Grupo de Estudos de Epistemologia Psicanalítica que atuou por mais de três lustros e produziu trabalhos publicados na nossa e em noutras revistas, como por exemplo “Sobre Representar” apareceu em letra de forma na Revista da SPPA, 20, n. 3, e que foi ponto de partida para uma intervenção da IRED6
A pandemia de Covid-19 decretou o fim de reuniões presencias e arrefeceu o entusiasmo do grupo, mas não está fora de questão um reaquecer de atividades, diante dos novos desafios que a Psicanálise, como parte das conquistas humanas, vai certamente enfrentar junto com as demais ciências nessa questão da sobrevivência mesma dos seres que habitam este pedaço do Cosmos.
Quando Max Eitingon propõe o tripé de formação no Instituto da Sociedade de Berlim em 1925, estava antecipando o conhecimento trazido por Maturana e Varela (1984) de como ocorre a complexificação pessoas por intermédio do acoplamento estrutural com o meio. O “tripé” é caracterizado pelo conjunto de estudos teóricos nos seminários clínicos, embasados pela análise pessoal do analista em formação e pela sequência de tratamentos acompanhados por um supervisor qualificado, ou seja, pela ação de cada um numa relação consigo mesmo e com o seu meio, aprendendo por fazer.
Esse “tripé” vale para qualquer proposta de formação pessoal. Fico pensando em quanto disto tinham as “Guildas” medievais com seu modo de formação profissional pelo trabalho junto a um “Mestre” orientador. Que resultassem em um certo nepotismo, favorecendo pessoas de uma família para um determinado ofício, me parece mais a consequência de que eram os mais próximos os recrutados para integrar o “ofício”, filhos, primos, amigos da vizinhança, do que propriamente uma política de exclusão, embora o evidente desejo de preservação contra concorrentes desqualificados, algo como, hoje em dia, nos defendermos dos psicoterapeutas de TikTok e Twitter de hoje em dia…
Conhecimento decorre da ação sobre o meio. Se não existe “transmissão” de conhecimento, como ele necessariamente acontece? Sempre pergunto a meus analisandos: em que escola botaste teus filhos para que aprendessem a falar? Aprende-se por estar entre pessoas que falam. Para fornecer esse “meio ambiente” de partilhar ansiedades contratransferenciais, servem também as sociedades psicanalíticas aos psicanalistas proibidos por sua ética pessoal de “desabafar” com seus familiares em casa – recurso a supervisão não deve ficar limitada apenas aos casos de controle oficiais, recomenda David Rosenfeld (1992) sendo mandatória se o paciente mostrar componentes psicóticos importantes durante o processo psicanalítico.
Resultam serem as Sociedades Psicanalíticas ciosas da qualidade de seu saber, mantendo uma exclusão de quem não é do ofício, fazendo jus ao epíteto de torres de marfim. A escolha e quem está habilitado para partilhar conhecimentos, na chamada “Função Didática”, é outra questão a ser mais bem qualificada. Sabem de algum “didata” que tenha feito algum curso ou pós-graduação em Didática?
Repensando minha trajetória dentro da SPPA, penso que estes últimos anos foram os mais produtivos para mim, certamente por haver participado do Grupo de Estudos de Epistemologia Psicanalítica e ter tido uma acolhida afetiva que me faltava em tempos anteriores. Nas últimas décadas temos assistido a uma maior abertura para colaborações com entidades publicas em educação e saúde, propiciando uma melhor compreensão do que seja psicanalisar-se.
SPPA e abertura
No site da SPPA7, temos um belo exemplo de bom uso da internet e da necessidade de divulgarmos o que fazemos de modo mais afetivo e próximo dos leigos que nos procuram, ainda que apenas por curiosidade e mesmo que seja por um traço de curiosidade patológica, que também merece cuidados. Cabe a nós saber lidar com esses novos desafios das comunicações virtuais.
Recentemente uma parceria com universidades UFCSPA e UFRGS de Porto Alegre, via LIPSAM, Liga de Psiquiatria e Saúde Mental, que reúne profissionais e estudantes dessa área, fez conceitos de psicanálise chegar ao publico interessado, numa atividade pública muito produtiva. Parcerias SPPA-Pescar, SPPA-SMED, exibições de filmes e peças de teatro comentados por alguém da SPPA, Café Literário e o canal oficial no YouTube exemplificam essa abertura para o social.
O mais precioso desses serviços penso que seja o CAP – Centro de Atendimento Psicanalítico, que fornece possibilidade de analises a baixo custo para pessoas que dela necessitam. A SPPA possui uma Biblioteca bastante abrangente, mas as consultas são limitadas a membros da Sociedade. Ainda no site podem ser encontrados outros modos de interação com a sociedade, como contatos via aplicativos WhatsApp, Facebook, YouTube, Instagram e Twitter.
Revisando atas antigas que não estejam sob sigilo se poderá ver que cheguei a propor ao presidente, Dr. Roberto Pinto Ribeiro, ainda em 1986, que a SPPA comprasse um computador para fazer exatamente isso, mas nunca passou de projeto frustro, já que não foi encampado pelos da época.
Minha práxis complexa
Do mesmo modo como a análise é interminável, também a formação psicanalítica o é. Numa semana de abril de 2022 tive duas experiências contratransferenciais que me mostraram necessidade de supervisão de minha autoanálise, que, lamentavelmente, terei que fazer comigo mesmo, por falta de com quem fazer. Esse o ônus de seguir vivendo quando os mentores já deixaram de fazê-lo, e os que poderiam vir a ser ainda não se configuraram no meu horizonte.
Decidi, pôr em prática antigo plano concebido junto com minha mulher e anunciar minha intenção de parar de trabalhar em 18 de setembro do ano de 2022, data em que minha mãe faria 110 anos, numa aposentadoria voluntária, antes que uma compulsória se impusesse. Emoções e protestos eram esperados, mas a resposta de acting de um me surpreendeu pela primariedade de um golpe de internet em que se deixou envolver, como para me provar que não pode ser “abandonado na rua”, embora viesse há anos num progresso aparentemente consistente, muito embora sempre ressaltando “que nosso casamento era até que a morte nos separasse…” Não tive oportunidade de fazer o relacionamento de sua conduta com meu anúncio anterior, até porque foi só à posteriori, na minha auto supervisão, que percebi a ligação. Em sessões seguintes foi possível relacionar sua “ingenuidade” com a ameaça de abandono e pode retomar seu ritmo de aumento de autonomia, ainda que a contragosto… Seguem-se uma serie de episódios que reforçam esse sentido de uma chantagem afetiva para que eu não abandone o “pobre órfão desvalido”. Na medida em que vamos analisando essa conduta, vem mostrando um entendimento de que realmente prefere ser tutelado a tutelar e que por isso mesmo jamais se casou… Agora sua preocupação é com quem vai cuidar dele quando ficar sozinho…
Outra pessoa está em um ritmo crescente de percepções importantes a propósito de seu desenvolvimento precoce com mãe tóxica, eu diria que até com momentos psicóticos não identificados como tal pela família, e me percebi com pena de interromper esse andamento de sua análise… Relembrando aquela ocasião em que Freud deu um prazo para o “Homem dos Lobos” ficou evidente para mim que houve uma “aceleração” de todos os pacientes tentando uma elaboração prévia da separação. A sensação de abandono de uma, levou-a a recordar que não lembrava de ser olhada por sua mãe quando pequena, e que a sentia como tendo inveja dela, por ser a primeira neta dos avós e ter a atenção de todos na família, sentimento esse que despertava intensa culpa inconsciente, agora reconhecida como sendo a fonte de seus sentimentos de desvalia.
Não contei quantos foram os que estiveram em meu divã desde os tempos de analista principiante, mas sempre rebelde, até estes dias de mudança paradigmática em que tentei repassar esta questão de como e porque existimos, velha questão filosófica que não é responsabilidade da Psicanálise responder. Cabe a cada um, em sua autonomia, decidir qual trilha quer trilhar, quando e por quê. O analista é um ajudante nesse processo de complexificação pessoal, se ele próprio passou por essa experiência e tem consciência disso.
Propondo uma utopia complexa para um mundo distópico
Precisamos de uma Psicanálise que nos veja como entidades autônomas, inteiras, complexas, e não simplesmente um somatório de ossos, músculos e nervos. Seres profundamente ancorados em nossa biologia que agora sabemos condicionante de relações com nosso meio, de forma a construirmos a nós e a nosso mundo pela nossa autopoiese.
A ideia é resgatar o protagonismo dos seres humanos como agentes de sua própria transformação. Nessa perspectiva complexa é necessário tecer juntas as dimensões biológica, cognitiva e social da realidade humana.
Afirmo há muito que as ciências são na verdade uma só – o conhecimento – e que esta divisão em diversas disciplinas, se nos facilitou o entendimento de cada uma, tem impedido as sínteses que agora aparecem ainda com certa timidez. Mark Solms e seus companheiros propõem uma “Neuropsicanálise” em que os conhecimentos de uma e outra possam fertilizar o enriquecimento de cada uma. Mas, dada a fundamental relação com a biologia, pois todos os nossos pacientes são seres humanos vivos, como já disse, então acho que o adequado para este momento seria uma Neurobiopsicanálise, como propus.
Ao modo do Uroboro, retornando ao início ou, à guisa de conclusão
Como avisei lá no início, aqui se teria como que um resumo de mim mesmo, com todas as repetições e cabeçadas que me acompanharam ao longo deste percurso, mas que todas elas fizeram com que eu me tornasse isso que sou.
Os dinossauros viveram por aqui durante 140 milhões de anos, mas nossa humanidade provavelmente não chegue nem a meio milhão. Sempre pensei que esta humanidade fosse inviável na sua configuração atual e condenada a existir por muito menos tempo, basicamente por ser movida por ambições e prepotências, uma civilização baseada na concorrência e no lucro e não na solidariedade e consideração pelos demais. A guerra da Ucrânia está aí com sua ameaça de uso de armas atômicas, genocídios, sofrimentos inauditos e ódios disseminados, como que para ilustrar este parágrafo.
Estaremos mesmo muito perto desse desfecho final, caso se persista na ignorância da necessidade de viver em consonância com a Natureza. Ou achamos os dez homens justos ou damos adeus a Sodoma e Gomorra, “Terra nostra”.
Ultimamente, tendo conhecido, por seus livros, a Francisco Varela e Mark Solms, e pessoalmente, a David Rosenfeld, Marcelo e Maren Viñar, Humberto Maturana, a Pierre Levy do Fogo Liberador e da Inteligência Coletiva, a Peter McLaren, um educador de primeira e apreciador do Chê em plenos Estados Unidos, a Lia de Oliveira, Jorge Collus e Rosa Fontes da Equipe com que trabalhamos em Braga, Portugal, e mais a Karla Demoly, a Deisimer Gorczevski e a Maria de Fátima, sem esquecer esta turma toda de amorosos colegas do Grupo de Estudos de Epistemologia Psicanalítica da SPPA, citados acima, começo a pensar que talvez eu não tenha sabido valorizar o suficiente a quantidade de gente amorosa que existe neste mundo. E nem citei os que ainda estão por aqui e os que já se foram, pessoas muito queridas, médicos, amigos e colegas que são muito numerosos para individuar, mas que sou igualmente grato a todos.
É com gente como essa que conto para construirmos uma Psicanálise que dê conta das complexidades atuais, científicas, políticas e sociais.
Este é um texto que não termina enquanto eu próprio não terminar. Minha intenção até aqui foi mostrar que é possível viver no fluxo sem exigir uma “base sólida” para nos proteger das incertezas necessárias de um processo que está em constante mudança.
Aqueles que atravancam meu caminho, Eles passarão… Eu passarinho
— Mario Quintana, glosando não ser eleito para a Academia de Letras.
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1 Posteiro – Regionalismo gaúcho para empregado de estância que mora na periferia dela, encarregado de cuidar das cercas e impedir o extravio do gado.
3 Revista de Psicanálise da SPPA, v. 29, n. 2, p. 1-21, agosto 2022
4 Interessante notar que também Spinoza dizia seguir estritamente a Descartes ao demonstrar sua Ética “à moda dos geômetras”.
5 O grupo inclui ainda Alice Lewkowicz, Eneida Iankilevich, Gisha Brodacz, Anna Luiza Kauffmann, Sérgio Lewkowicz, Idel Mondrzak e Gustavo Soares, além de Viviane e eu, mas incluiu também outros colegas que participaram por algum tempo.
(Traduções do autor, salvo Freud da S.E., quando uso a da Imago, com o original em nota ao pé.)
(Artigo publicado na Revista de Psicanálise da SPPA, v.15, n.3, p.421-439, dezembro 2008.)
Resumo
Neste texto é retomada uma idéia de Freud pouco mencionada, seguindo os passos de Mark Solms (1997) e na qual ele, Freud, afirma ser a atividade mental inteiramente inconsciente, sendo a consciência apenas uma percepção parcial, limitada e não confiável do que realmente se passa na mente. Examinando-a à luz do paradigma da complexidade, parece ser uma postura compatível com idéias de Espinosa, Maturana, Varela e outros pensadores provenientes de campos tão dispares quanto física, matemática, cibernética e neurociências. Um histórico destes outros campos mostra que a psicanálise influenciou e foi influenciada por eles, participando na evolução de conhecimentos sobre a mente humana. É discutido o pressuposto de que a consciência tem o mesmo estatuto de outros sentidos, como visão e audição, não havendo distinção entre “corpo” e “mente”, pois são expressões de uma unidade funcional. Aceitar a mudança de paradigma, a rigor, poucas diferenças trará na prática psicanalítica, desde sua origem impregnada das noções de complexidade, mas a compreensão dos fenômenos estudados, sim, merecerão novas abordagens e explicações decorrentes da impossibilidade de “transmissão de conhecimentos” o que leva a trazer à baila a constituição interna dos participantes e suas respectivas autopoiéses.
Descritores
Consciência, complexidade, autopoiese, psicanálise como experiência autopoiética.
Abstract
In this text, reading Mark Solms, the A. returns to Freud’s idea about the mental life being completely unconscious and only a part of it is untrustworthily perceived as conscious. Confronting it with the Complexity Paradigm, it seem compatible with ideas of Spinoza, Maturana, Varela and other present scientists from so disparate fields as physic, mathematic, cybernetics, and neurosciences. Revising these entire field shows that psychoanalysis affected and was affected by all, considering participation about human mind knowledge. The A. discuss about the conscious having the same statute of other senses, as vision and hearing without distinction between mind and body by the simple reason that they are expressions of the same functional unity. Accepting the Complexity Paradigm change will cause few differences to psychoanalytical technique, because Psychoanalysis deals with complexity from its beginning. The comprehension of phenomena, yes, this must be rethought, as it is now well established that there are no “transmission of information”, so what matters is the internal constitution of subjects and their respective autopoiesis.
Keywords
Conscience, complexity, autopoiesis, psychoanalyse as autopoietic experience
Resumen
En este texto es retomada una idea de Freud poco mencionada, siguiendo los pasos de Mark Solms (1997) y en la cual Freud afirma ser la actividad mental enteramente inconsciente, sendo la conciencia apenas una percepción parcial, limitada e no confiable de lo que realmente se pasa en la mente. Examinándola a la luz del paradigma de la complejidad, parece ser una postura compatible con ideas de Espinosa, Maturana, Varela e otros pensadores actuales provenientes de campos tan dispares cuanto física, matemática, cibernética y neurociencias. Un histórico de estos otros campos muestra que la psicoanálisis ha influenciado y fue influenciada por ellos, participando en la evolución de los conocimientos sobre la mente humana. Es discutida el presupuesto de que la conciencia tiene el mismo estatuto de otros sentidos, como visión e audición, no habiendo distinción entre “cuerpo” y “mente”, pues son expresiones de una unidad funcional. Aceptar el cambio de paradigma, a rigor, pocas diferencias traerá en la practica psicoanalítica, desde su origen impregnada de las nociones de complejidad, pero la comprensión de los fenómenos estudiados, si, merecerán nuevas abordajes y explicaciones decurrentes de la imposibilidad de “transmisión de conocimientos” lo que lleva a traer a la baila la constitución interna de los participantes y sus respectivas autopoiesis.
Palabras llave
Conciencia, complejidad, autopoiesis, psicoanálisis como experiencia autopoietica.
Introdução
Após séculos de conflitos sobre a natureza da consciência, da divisão dualista que se inicia com os gregos e culmina com Descartes, parece que hoje em dia se pode pensar de modo diferente, redimensionando o problema e extinguindo o paradoxo pela mudança de vértice de observação. Em primeiro lugar, é necessário resgatar o pioneirismo da Psicanálise como ciência complexa a partir da inclusão de um objeto de estudo complexo, o inconsciente, e da concepção de multi-causalidade das neuroses, que Freud adotou desde cedo em suas pesquisas como solução para a insuficiência explicativa da cadeia de causa única – efeito único. Mais uma vez somos obrigados a nos render à sua genialidade e reconhecer que idéias tidas como sendo muito atuais, já haviam passado por sua mente: a consciência como estatuto do resultado de um sentido dirigido ao interior é uma delas e será abordada neste texto. Logo, é necessário também levar em conta o fato de que a ciência é uma só, embora as diversas denominações de seus aspectos particulares. Com isso, incluo aí os achados recentes das neurociências, biologia cognitiva, cibernética e processamento de imagens, assumindo sempre o meu lugar de psicanalista.
A nossa experiência cotidiana de existir, ver, ouvir, estar consciente de si, faz com que pareçam banais e por demais conhecidas tais tipos de vivências, por serem comuns a todos nós. Mas basta um pouco de atenção para que comecem a aparecer as dificuldades. Algo tão simples como “olhar o poente”, por exemplo. Vejo o sol se pondo por detrás dos morros da cidade de Guaíba, refletindo-se nas águas barrentas do rio de mesmo nome, que não é rio, mas uma ria ou um lago, sinto emoções que a luz refletida nas nuvens me evoca de velhos tempos vividos nessa Porto Alegre de toda a vida. As cores que vejo são, na verdade, decomposição da luz branca do sol pelos prismas formados pela atmosfera sobre nós. Só isso? Tem mais: o fato de haver três tipos de células receptoras da luz leva a uma metáfora ligeira e fácil da tricromia das impressões em papel, mas uma coisa é depositar pigmentos sobre uma folha, outra o estimulo na retina, e outra ainda a percepção disto ao longo do trajeto percorrido desde aí, seguindo pelo córtex visual, onde cada elemento vai sendo destacado: cor relativa aqui, contraste mais adiante, a integração de todos os elementos no córtex frontal, que me dá a consciência do que estou vendo. Não há no cérebro um lócus onde se forme uma imagem como aquela na retina. Essa mesma é origem de comparações enganosas: tudo parece ser como em uma “câmera obscura”, mas a retina está longe de ser um filme ou chip de CCD dos que hoje “sentem” a luz nas câmaras digitais modernas. É um sistema vivo que transmite impulsos, mas apenas isto não basta para que haja visão. Dependemos de ações sobre o real para desenvolver o que depois chamamos “visão”. Gatinhos privados de deambular por serem carregados em um carrinho por outros gatos comportavam-se como se cegos fossem, batendo contra objetos, caindo pelas bordas de seu tablado (Varela et al., 1993 pág. 174-5). Tinham olhos e cérebros funcionais mas não “sabiam” ver por haverem sido impedidos de mover-se e estabelecer relações de acoplamento com seu meio. Com isto, quero dizer que os órgãos dos sentidos são apenas parte do processo inteiro da percepção, dependentes de uma integração com o restante do organismo de forma complexa e inextrincável. Diz Solms (1997):
“As comparações [que levam à visão] e seus resultados são propriedades do cérebro e não do mundo externo, mesmo que todas as informações necessárias para levar a cabo essas comparações estejam contidas no mundo externo.”
Na perspectiva da Biologia da Cognição, poderíamos considerar que o estimulo externo não determina o efeito sobre o ser, mas sua estrutura o faz (Maturana e Varela, 1984, pág. 130), logo, nem todas as comparações estão no mundo externo, quem sabe, nem mesmo a maioria delas. Aceitar esta proposição como verdadeira implica em aceitar uma mudança de paradigma: já não há algo “lá fora” que eu descrevo objetivamente, mas tudo se passa na interação com o observador – desistimos de buscar um conhecimento “positivo” para buscar entender o fenômeno estudado desde o ponto de vista do observador implicado. “Tudo o que é dito, é dito por um observador” é outra máxima dos referidos autores, que expressa esta mudança de foco.
Um bom exemplo das dificuldades em se mudar paradigmas pode ser encontrado neste dialogo entre Gerald Edelman (1992, pg. 210) e Jacques Monod:
“Freud sugeriu que certos acontecimentos ameaçadores podiam ficar retidos na memória a fim de não estarem acessíveis à evocação consciente.
Não podemos esquecer que estes são termos psicológicos e não estruturais. O meu falecido amigo, o biólogo molecular Jacques Monod, costumava discutir energicamente comigo a respeito de Freud, insistindo que ele era anticientífico e muito possivelmente um charlatão. Eu tomei a posição de que, embora talvez não fosse um cientista no sentido que nós damos à palavra, Freud foi um grande pioneiro intelectual, particularmente nos seus pontos de vista sobre o inconsciente e o papel que ele desempenha no comportamento. Monod, de rígida formação huguenote, retorquia: “Sou absolutamente lúcido a respeito dos meus motivos e inteiramente responsável pelas minhas acções. Todas elas são conscientes”. Certa vez, exasperado,, acabei por lhe dizer: “Jacques, ponhamos as coisas então assim. Tudo o que Freud disse se aplica a mim e nada do que ele disse se aplica a ti”. Ele replicou: “Exactamente, meu caro amigo”.
Neste trabalho me proponho a discutir que, tendo a vertente dualista esgotado os esquemas lógicos de seus argumentos, a “complexidade” é um caminho possível tendo em vista seu projeto de “juntar o que foi desconjuntado”, como diria Morin. (Morin, 1990)
A emergência da complexidade
A revolução paradigmática começou a se desenhar a partir dos anos 30 com os estudos de Alan Turing. Ele criou as condições lógicas para a grande virada da cibernética dos anos 40 e 50, trazendo para a investigação científica objetos que até então estavam em mãos de meras especulações da filosofia. Objetos tais como a mente, a cognição e a consciência não eram investigados de forma sistemática e empírica com exceção feita aos estudos de Freud, estes mesmos pouco considerados entre os praticantes das “ciências duras”: Monod não estava só, na verdade, estava com a maioria…
A importância da “máquina de Turing” foi mostrar que o cogito cartesiano não era tão transparente assim, pois a resposta obtida em determinado passo dependia também do estado interno da maquina nesse momento. Esse matemático brilhante causou uma verdadeira revolução conceitual ao oferecer soluções lógicas para a questão da relação entre a mente e a matéria, atingindo em cheio o dualismo clássico. Os cibernéticos vão usar esse apoio a partir do princípio de que “o que a máquina é capaz de gerar está alem do mecânico” (Dupuy, 1994, p. 34). Assim nasceram a cibernética e, em sua esteira, as ciências cognitivas. Daí emergem também as condições para o desenvolvimento das neurociências de origem cibernética, o que as permitiu avançar em direções inusitadas e, com isso, possibilitar uma aproximação mais consistente em relação aos estudos da consciência.
A primeira fase da cibernética, que surgiu com o projeto de estudar as questões de comunicação e controle em máquinas e seres vivos, ainda está muito próxima do behaviorismo. No entanto, se distingue deste por praticar uma lógica não-linear, conseqüência do principio da recursividade. A chegada de Heinz von Foerster ao grupo, anos mais tarde, determinou uma outra virada conceitual, que é conhecida como “cibernética de segunda ordem” e cujo núcleo lógico é a presença do observador como parte integrante do sistema observado. Há uma mudança evidente e profunda na ciência que passa dos sistemas observados para os sistemas observantes. Aliás, essa intuição já estava presente em Freud ao tratar das relações analista/analisando, transferência/ contratransferência, confirmando seu pioneirismo nas ciências complexas.
Os desdobramentos da complexidade e os estudos da consciência
Em tempos de complexidade, cabe a nós conferir em que ela altera nosso modo de ver a Psicanálise. Podemos discordar do diagnóstico que Freud faz, por exemplo, do “Homem dos Lobos”, mas sua descrição minuciosa nos permite outras hipóteses derivadas de diferentes pontos de vista. Isto não invalida o que ele disse, mas completa ou complexifica, na maioria dos casos. Freud era um cientista que tinha presentes as limitações da tecnologia disponível em seu tempo, afirmando aceitar a hipótese de que um dia se poderiam curar neuroses de uma forma diferente, quem sabe com mediadores químicos. Nos dias que correm, os exames não invasivos de seres vivos nos aproximam de seu ideal de criar uma “Psicologia Científica”, mas ainda estamos longe de concluir a tarefa. É interessante notar que nosso pioneiro tinha uma idéia clara de que a mente não flutuava no ar, mas dependia de seu substrato anátomo-fisiológico: “O Ego é antes de tudo corporal” é uma de suas frases mais citadas. Se ele abandonou este viés foi justamente por sentir a fragilidade dos conhecimentos de fisiologia cerebral disponíveis em sua época, optando então por uma abordagem puramente psicológica. A rede neuronal que ele concebe no “Projeto” tem características computacionais de excitação e inibição que só vão fazer sentido muitas décadas depois. É somente em 1943 que McCulloch apresenta
“um modelo de cérebro sob a forma de uma rede de neurônios idealizados. Cada neurônio recebe ou não de seus vizinhos impulsos e ele próprio é acionado se e somente se uma soma ponderada do 1 ou 0 que codificam a existência ou ausência de um impulso nas sinapses aferentes for superior a um certo limiar, chamado limiar de excitação.” (Dupuy, op.cit. pág. 60)
Uma aproximação desse tipo é feita por Humphrey (2000):
“… cérebros humanos e mente são […] um único estado do mundo material que, de fato, em principio, pode ser completamente descrito em termos de seus componentes micro-físicos. Assumimos que todo e cada um dos estados mentais é idêntico a um estado do cérebro, estado mental m = estado cerebral c, significando que o estado mental e o estado do cérebro expressam a mesma coisa neste nível micro-físico.”
A discussão que se segue é que, mesmo admitindo essas correlações de estado, isto não nos aproxima do porque ocorrem, havendo mesmo quem duvide que sejam algum dia acessíveis à mente humana. (McGinn, 1989, apud Humphrey).
“Um estado mental é um estado cerebral. Assumindo isto, o recordar de um determinado evento na memória poderia ser descrito também como a atividade simultânea de um determinado, ao menos determinável, conjunto de neurônios.” (Harth, pág. xxi, 1993)
Harth continua afirmando que esta seria uma descrição que agradaria a um físico clássico, mas a Física também mudou, incluindo agora a Física quântica e a Relatividade, fazendo que alguns declarem que o “materialismo está morto” – “A máquina que funciona com precisão determinística como se fosse um relógio perfeito não é mais uma descrição adequada para a maioria dos processos na natureza.” E isto se aplica também ao cérebro.
Ele faz uma pesada critica aos behavioristas mostrando que muitas vezes podemos observar situações em que há apenas ou “inputs” ou “outputs”, ou ainda nenhum dos dois, ainda que, evidentemente, o cérebro esteja funcionando a pleno, como expresso na figura de um “Pensador”. Chama ainda a atenção para o fato de que não existem neurônios isolados, todos pertencem a redes muito complexas onde se observam trajetos de realimentação entre grupos funcionais. O córtex visual occipital, que recebe informações da retina e remete para o córtex frontal, dele também recebe um “feedback” que permite ligações com o “já visto”, a experiência de vida. Como este “loop”, milhares de outros, que ele designa como os “Creative loops”, culminam na percepção de si mesmo – na consciência – segundo seu modo de ver.
“A consciência tem limites imprecisos e tentar impor nitidez não acrescenta insight.” (op.cit.) Mas reconhece pelo menos dois sentidos distintos: após um trauma grave, podem ocorrer diferentes níveis de perdas de consciência, ou, numa segunda acepção, “posso estar consciente da presença de algo ou alguém”. Neste sentido é chamada de “subjective awareness” – sem que tenhamos uma tradução suficientemente boa para esta locução.
Entretanto, foi um psicanalista (!), na época neurologista, quem chamou a atenção para:
“Esses loops haviam sido postulados pelo neurologista Lawrence Kubie já em 1930, num artigo publicado na revista Brain, com o titulo “A theoretical application to some neurological problems of the properties of excitation waves which move in closed circuits”. […] Em 1941, Kubie, que se tornara psicanalista, conjecturou que o rebaixamento neurofisiológico das neuroses reside nesses circuitos fechados reverberantes, em que as seqüências de impulso se deixam cair na cilada de um circulo sem fim.” (Dupuy, op.cit.)
Kubie era o único psicanalista participante das “Conferências Macy”* e foi saco de pancadas dos cibernéticos, que consideravam a psicanálise uma “disciplina amaldiçoada”. Mas a inversa também é verdadeira em certa medida, pois psicanalistas como o próprio Kubie, além de Emanuel Peterfreund e outros que se interessavam por cibernética, sempre foram tidos como malditos entre os psicanalistas… De qualquer forma, convém ressaltar que a Psicanálise estava representada nesse momento de virada epistemológica das ciências.
Um salto de setenta anos e chegamos ao nosso compatriota Miguel Nicolelis (2008), que ficou mundialmente conhecido por implantar um conjunto de eletrodos na região volitiva motora do cérebro de uma macaca, Aurora, de modo a registrar a atividade de centenas de neurônios simultaneamente. Logo passou a usar esses registros para comandar simultaneamente os movimentos de um braço robótico. Aurora usa um joystick para comandar um jogo eletrônico, mas logo percebe que pode dispensar o joystick e comandar o jogo apenas pelo pensamento.Se ela tem ou não “consciência” do que faz é uma outra questão. A idéia básica é poder utilizar estes conhecimentos de “interface cérebro-máquina” para permitir que um paraplégico comande algum tipo de robô, como um exoesqueleto, que o auxilie em seus movimentos.
Em janeiro de 2008, em seu laboratório nos EUA, o Dr. Nicolelis (op.cit.) observou um macaco, que tinha um conjunto de eletrodos implantados no cérebro, ao caminhar sobre uma esteira rolante, controlar remotamente um robô que caminhava sobre uma outra esteira em Kyoto, no Japão. O macaco podia ver o robô caminhando sincronicamente com ele em uma tela. Desligada a esteira do macaco, o robô continuou caminhando por minutos, apenas pela “intenção” do macaco, como se aquele fosse uma extensão de si mesmo. Imagino o quanto Francisco Varela gostaria de saber disto: parece mais uma evidencia de sua intuição sobre “enação”. Voltarei a isto mais adiante.
É o próprio Nicolelis quem diz que dentro do crânio temos tantos neurônios quantas estrelas existem no céu, de onde devemos procurar conhecer este universo interno ainda tão pouco entendido. Mas algo já sabemos. Por exemplo, sabemos que se trata de uma rede neuronal fechada, que só se comunica com o exterior pelos sentidos de um lado e pelas placas motoras de músculos e glândulas de outro (Maturana, 1996). Disto decorre que qualquer padrão de atividade que seja observado no cérebro, não é “o” mundo externo, nem sua representação, mas o resultado do acoplamento estrutural entre este ser vivo e o meio em que vive. Ademais, se “mente” implica em rede neuronal, ela não está adstrita ao crânio, pois existem neurônios fora dele e fibras nervosas que mapeiam toda a superfície do corpo e de órgãos internos, inclusive vasos sanguíneos. Disso resulta o “mapa do corpo” de que nos fala Damásio (1999) e que é componente dessa percepção de nós mesmos, que resulta em ser consciente de si. Maturana (1996, pág. 605) chama a atenção de que se tratam de fenômenos recorrentes, que ele diferencia de repetidos:
“Ocorre uma recursão sempre que o observador puder afirmar que a reaplicação de uma operação ocorre em conseqüência de sua aplicação prévia. Há uma repetição sempre que o observador possa afirmar que uma dada operação é realizada independente das conseqüências de sua previa realização. […] …sempre que o observador vê uma repetição, verifica que tudo continua o mesmo, mas sempre que vê uma recursão, vê a aparição de um novo domínio fenomenológico. Exemplo: se as roda motoras de um carro giram e ele não se move, permanece no mesmo lugar, o observador vê o mover das rodas como repetitivo. Entretanto, se as rodas do carro rodam de modo que os pontos de contato com o solo mudam e, em cada novo giro as rodas o iniciam em um novo ponto, diferente do anterior, o observador vê um novo fenômeno, o movimento do carro, e considera o movimento das rodas como recursivo.”
Essa distinção é fundamental para seu conceito de consciência:
“…considero que consciência ocorre como uma dinâmica relacional particular, quando um organismo opera como participante em um domínio de distinções recursivas na linguagem, e que isso não é uma entidade ou propriedade de uma entidade.” (op. cit., pág. 601)
Damásio (1999) diz que para entender a consciência é preciso entender dois problemas relacionados:
“O primeiro é entender como o cérebro no organismo humano engendra os padrões mentais que denominamos, por falta de um termo melhor, as imagens de um objeto. Objeto designam aqui entidades tão diversas quanto uma pessoa, um lugar, uma melodia, uma dor de dente, um estado de êxtase; imagem designa um padrão mental em qualquer modalidade sensorial, como, por exemplo, uma imagem sonora, uma imagem tátil, a imagem de um estado de bem-estar. Essas imagens comunicam aspectos das características físicas do objeto e podem comunicar também a reação de gostar ou não gostar que podemos ter em relação a um objeto, os planos referentes a ele que podemos ter ou a rede de relações desse objeto em meio a outros objetos. […] e o problema de como obtemos um “filme no cérebro […] nessa metáfora tosca…”
Mais adiante:
“Como, paralelamente ao engendramento de padrões mentais para um objeto, o cérebro também engendra um sentido do self no ato de conhecer?” E na pagina seguinte: “…vejo com certo ceticismo a idéia de resolver o problema da consciência.”
Aparentemente ele persiste em um paradigma dualista no qual, realmente, não há solução para o problema da consciência. Não concordo com Edelman (1992) que pensa que o Freud “tardio” praticava um certo dualismo, não de substância, mas de propriedades, ao considerar que propriedades psicológicas devem ser consideradas exclusivamente nos seus próprios termos. Restringir-se aos aspectos psicológicos, naquele momento, era na verdade uma estratégia decorrente das poucas informações disponíveis sobre a fisiologia cerebral.
A Psicanálise chega ao problema vinda da direção oposta, e, quem sabe, está na hora de podermos partilhar nossos achados com os demais cientistas da área. Para isso, é imprescindível que façamos uma abertura em direção aos grupos multi- e trans-disciplinares, sob pena de ficarmos isolados em nosso discurso. Qual a nossa contribuição, então? Temos uma longa experiência em lidar com objetos complexos, mesmo que eventualmente não nos tenhamos apercebido disto. Quando Freud introduz o inconsciente como tema de estudo, lança a base do rompimento com o paradigma Cartesiano, ainda que tentando ser fiel a Descartes. Se o inconsciente não reconhece contradições, se não admite a negação, se tempo nele não há, e distância, tampouco, como nos mostra Matte-Blanco (1975), então estamos diante de um objeto complexo, mesmo na raiz de nossa disciplina. Os primeiros discípulos também perceberam isso, tanto que propuseram o nome “complexo” para o conjunto de fatores causais de determinado quadro clínico. Freud não gostava desta palavra, temendo que seu uso dispensasse a procura pelos detalhes das múltiplas causas, dentro da idéia de que se “algo tem nome, então é porque se sabe o que é…” Na verdade, enquanto estudamos o inconsciente o fazemos com a convicção de que faz parte de um sujeito que é na verdade o nosso objeto de estudo, ainda mais complexo, portanto.
Ampliando a idéia de Solms (op.cit.), penso que a consciência é uma propriedade do mesmo estatuto da visão e da audição: um sentido dirigido para o interior e que faz uso do mapa do corpo e outras fontes ainda não bem estudadas†, para organizar estas imagens internas que chamamos pensamento. Esta idéia é compatível com a posição de Maturana (1996) quando ele diz que a consciência se produz na interação do funcionamento da rede neuronal. É interessante lembrar aqui que já Espinosa pensava ser a consciência uma “idéia das idéias”. (Dupuy, op.cit. pág. 61), de onde Freud ao pretender ser Cartesiano, na verdade estava sendo Espinosiano… Que outro mundo muito melhor teríamos hoje se o sistema filosófico dominante tivesse sido o deste autor excomungado…
Consciência e Educação
Uma questão que se acrescenta aqui é o de quanto de consciência se necessita para educar. Nicolelis (2008) parece concordar com Maturana e Varela (1984) ao propor a criação de “Cidades de Ciência” onde jovens de regiões as mais pobres e discriminadas do Brasil são incluídos em projeto de “Fellowship for life”, de comprometimento por toda a vida (ver http://www.natalneuro.org.br/). Quando os últimos demonstram que não há “transmissão de conhecimento” mas este só ocorre por ação do sujeito em interação com seu “milieu”, estão afirmando que “conhecer é viver” e “viver é conhecer”. Uma criança aprende a falar em cerca de dois anos apenas por estar imersa em um meio amoroso que a acolhe. Neste sentido o cérebro é uma verdadeira “máquina de apreender” e com isso “aprende”, isto é, muda, modifica-se sujeito e mundo. Na verdade aprendemos frequentemente “apesar dos professores” como diz, de certo modo, Kernberg (1996) ao relacionar trinta maneiras de impedir a criatividade dos candidatos em Institutos de Psicanálise, ou como afirma Pellanda, N. (1996, pág. 227) ao descrever uma professora que reclamava de um aluno que desenhara uma árvore: “Mas onde se viu árvore roxa?”, quando bastava olhar pela janela da sala de aula para observar um lindo jacarandá inteiramente coberto de flores roxas.
Ou ainda, como eu disse em Rovereto (2007):
“Não há transmissão de conhecimento como uma transmissão de um programa de TV que é capturado em um aparelho de TV. Conhecimento é re-criado cada vez, dentro da mente de cada aprendiz, por meio da ação de cada sujeito, e é extremamente dependente dos afetos que existem em sua origem. Fazendo isto os seres vivos mudam a si mesmos – inclusive a nível das proteínas: fazendo novas sinapses, mudando a arquitetura de seu cérebro – de um modo que descobrimos estar o poeta Mario Quintana cheio de razão quando diz “Já não somos os mesmos depois de tropeçar na pedra do meio do caminho”. Sim, mudamos física e emocionalmente. Sim, nós re-inventamos a roda cada vez que acrescentamos um algo mais em nossa memórias”.
De modo que, na verdade, para que ocorra aprendizado, o fundamental é a existência de um ambiente propicio, onde as perguntas não estejam já respondidas e onde a curiosidade seja incentivada em vez de criticada. Estamos longe disto em quase todas nossas escolas públicas e privadas e também em nossos Institutos (como nos afirma Kernberg, acima). Volto a ressaltar a importância de iniciativas como a de Nicolelis, sensibilizando a comunidade internacional de modo a obter fundos expressivos para concretizar a sua já vitoriosa proposta de inclusão social por via do ensino de ciências.
Quanto a nós, o fato de que exista na SPPA um Grupo de Estudo de Epistemologia Psicanalítica, entre outros, mostra a evolução em direção a uma visão de ciência mais abrangente e integradora.
O lugar da Psicanálise na complexidade e a questão da consciência
Consciência, consciente, estar consciente, são palavras que parecem expressar coisas de nossa experiência cotidiana, que não necessitam maior esclarecimento. Entretanto, compreender o que seja mesmo “consciência” tem resistido a uma descrição cientifica rigorosa. Que haja uma relação entre consciência e atividade cerebral, parece evidente. Que o aparecimento de consciência entre os seres vivos seja uma decorrência da evolução no sentido da complexificação dos seres, não parece haver dúvida entre os cientistas de hoje. Que existe uma relação entre o aumento do cérebro e a progressiva capacidade computacional dele, tampouco. Que seres humanos possuem um status único entre os seres vivos, menos ainda. Mas o porque e o como são ainda temas de muita discussão.
Das inúmeras vezes que Freud usou a palavra “consciência” em seus escritos, não parece que tenha havido alguma para definir o que seja, sendo que em muitas das vezes a usou no sentido de “consciência moral”. Como tantos outros, deu por assentado que consciência todos conhecíamos por experiência própria, sendo necessário advogar pela existência de um inconsciente, considerado impossível por definição, uma vez que “pensamento só podia ser consciente”, segundo a psicologia vigente no fim do século dezenove. Que “consciência” seja um axioma primário em psicanálise parece ser indicado também pelo fato de que Etchegoyen (1987) não tenha achado necessário usar esta palavra no titulo de nenhum dos sessenta capítulos ou 409 sub-capítulos de seu monumental tratado. Mas é evidente que quando um psicanalista dirige uma interpretação a seu analisando, o faz para o consciente deste, ainda que visando efeitos inconscientes. Ainda hoje isto causa desconforto para alguns cientistas que preferem admitir “processos mentais não conscientes” evitando usar o termo “inconsciente” que remete a Freud.
Mark Solms (op.cit.) chama atenção de que Freud tinha uma concepção diferente de atividade mental, partindo de que se tratava sempre de algo inconsciente e apenas indiretamente percebido, de forma secundaria e distorcida, pela consciência. Citando Freud (s/d):
“Na psicanálise, não temos outra opção senão afirmar que os processos mentais são inconscientes em si mesmos, e assemelhar a percepção deles por meio da consciência à percepção do mundo externo por meio dos órgãos sensoriais”.‡
“Essas duas descobertas — a de que a vida dos nossos instintos sexuais não pode ser inteiramente domada, e a de que os processos mentais são, em si, inconscientes, e só atingem o ego e se submetem ao seu controle por meio de percepções incompletas e de pouca confiança”.§
A continuação desta citação talvez contenha um indício de porque esta parte tenha sido tão negligenciada: Freud segue: “—, essas duas descobertas equivalem, contudo, à afirmação de que o ego não é o senhor da sua própria casa. Juntas, representam o terceiro golpe no amor próprio do homem, o que posso chamar de golpe psicológico.” (ênfase do autor)¶
Provavelmente esta é uma de suas cinco frases mais citadas na literatura e nas revistas de divulgação cientifica em todo o mundo, tendo servido para reforçar as defesas contra este choque no narcisismo de todos nós. Entretanto, Solms faz uma afirmação surpreendente ao dizer que
“A proposição fundamental da psicanálise não é meramente que uma região da mente é inconsciente. É que a atividade mental é inconsciente em si mesma [ênfase minha]. Isto implica que a consciência não é meramente uma porção da atividade mental; mas um reflexo da atividade mental, ou a percepção da atividade mental (que é em si mesma inconsciente). De acordo com esta proposição, a atividade mental não consiste em uma cadeia causal continua, com alguns elos conscientes e outros não, antes, a proposição é de que a atividade mental consiste em uma cadeia causal continua que é inconsciente em sua essência, e que a consciência representa este processo de uma forma ‘incompleta e não confiável’.” (Solms, 1997)
Logo antes afirmara que não partilha da opinião de que estados mentais particulares resultam em consciência:
“Espero mostrar que a questão ‘Como exatamente os processos no cérebro causam a consciência?’ contem uma concepção fundamentalmente falha da natureza da consciência. Como resultado disso, a pergunta deste modo nunca poderá ser respondida.”
Neste momento ele abandona, como Freud já o fizera, qualquer tentativa de unir os dois campos, ainda que afirmando pretender fazer uma contribuição a ele, desde um ponto de vista psicanalítico. Na minha opinião, não há conflito entre estas duas propostas, desde que sejam vistas do vértice proposto por Varela (1993), como resultado de uma “enação”: este autor afirma que o conhecimento ocorre por ação sobre o mundo, como referido no exemplo dos gatinhos “cegos” por não haverem aprendido a ver, ou melhor, não haverem constituído o aparelho de ver em sua plenitude. “Na construção de sua teoria, ele defende a noção de cognição como sendo um produto tanto da vivência ontogenética, quanto das possibilidades inatas advindas da herança filogenética.” (Terra et al. 2004) Nossa estrutura no momento atual é resultado de uma evolução filogenética, que nos deu olhos sensíveis a três cores, por exemplo, (diferente de pássaros ou outros animais que possuem olhos para duas ou quatro cores primarias) e nossa evolução ontogenética: aprendemos a ver com esses olhos que nos foram dados com nossa ação sobre o mundo.
Sacks (1984) dá uma descrição vigorosa desse fenômeno ao relatar as seqüelas de um acidente sofrido por ele mesmo, onde rompeu o tendão do quadríceps crural fugindo de um touro, ao escalar uma montanha na Noruega. Distante de socorro medico, levou dias até ser operado e muitos outros até ser liberado para mover-se pelo cirurgião que o atendia. Relata então a experiência aterrorizante de sentir como alheia sua perna engessada, imóvel. Somente percebeu que se tratava dele mesmo ao “jogar aquilo para fora da cama” e resultar que ele foi junto e caiu no chão. Vinte anos depois aconteceu-lhe de ter seccionado o tendão do quadríceps da outra perna, desta vez em Nova York, com pronto atendimento e deambulação precoce. A ausência do efeito de estranheza lhe fez repensar o fato anterior, deduzindo que a imobilidade “apagara” a existência de sua perna do “mapa do corpo” (Damásio, 2000), ou do “Homúnculo de Penfield” motor. A nova percepção, então, é de que esse “homúnculo” não é estático, mas altamente dinâmico, bastando a oclusão arterial de um membro por alguns minutos, obtida com um esfigmo-manômetro, para que se produza essa sensação de estranheza. A percepção de nós mesmos depende de estarmos em movimento, porque estes é que acionam os mecanismos de “feed-back” que mentem o mapa atualizado. Esta é mais outra evidencia, na minha opinião, do quanto a “mente é corporificada” (embodied), de quanto não só o ego, mas todo o resto é “antes de tudo, corporal”.
Ainda hoje a maioria dos que tratam deste tema procuram evitar uma “definição” de consciência, exatamente por se tratar de fenômeno complexo que abrange muitas dimensões, nem sempre fáceis de explicitar.
A grande novidade da Psicanálise foi explorar os aspectos inconscientes da mente, advindo daí seu principal mérito. Freud, como já dito, tampouco se dá o trabalho de definir o que seja “consciente” ou “consciência” mas faz uso dessas palavras com o sentido que o dicionário dá, por exemplo, quando diz que o Ego é consciente e possui uma parte inconsciente, e o Super-Ego é totalmente inconsciente. Na década de cinqüenta do século passado havia, tanto na SPPA onde testemunhei, quanto na maioria de outras Sociedades, uma divisão nítida entre os professores que afirmavam assim como escrevi acima e outros que diziam que o Super-Ego possuía uma parte consciente, identificada com a consciência moral, o que insinuava o livre-arbítrio, e outra inconsciente que promovia a repressão.
Receio que nós, psicanalistas, quando dizemos que não nos interessa isso de neurociências, que só psicanálise é psicanálise e o resto é o resto, ou seja, nada, receio que estejamos tendo uma atitude à lá “o que não conheço não existe”. Mas já Freud (s/d) dizia
“A dificuldade do trabalho de pesquisa em psicanálise demonstra-se claramente pelo fato de ser-lhe possível, apesar de décadas inteiras de observação incessante, desprezar aspectos de ocorrência geral e situações características, até que, afinal, elas nos confrontam sob forma inequívoca.”#
A Psicanálise nascida na Viena do século dezenove, tem lugar neste admirável mundo novo? A resposta depende de os Psicanalistas estarem dispostos a abandonar seus refúgios seguros de uma teoria puramente filosófica, mental, para aceitar que a mente não existe sem o corpo. Não se trata de saber qual a relação “mente-corpo”, como se fossem duas entidades independentes, separadas, capazes portanto de estabelecer uma “relação”. Mas se considerarmos, por exemplo, que se trata de diferentes manifestações de uma mesma coisa, não cabe mais tal questão. A pergunta correta então é outra: como faço para conhecer isto que chamamos “mente”?
Perspectivas
Ao mudarmos de vértice de observação e passarmos e ver o mundo pela perspectiva da complexidade, o que muda na Psicanálise? Provavelmente menos do que se poderia esperar, pelo simples fato de que a psicanálise já lida com a complexidade desde seu inicio. Muda certamente a maneira de explicar certos fenômenos mentais, de compreender as dificuldades de assumir a autoria de si que vemos em nossos analisandos, muda a compreensão de que nossa interpretações são na verdade perturbações que exigem deles uma reorganização autopoiética que leva a construção de conhecimento e portanto, conhecimento de si. Mas isto não as exime de consistência teórica em relação ao rigor epistemológico do referencial praticado pelo analista. Convém sempre lembrar como faz Klimovsky (1987, pág. 276):
“por muito que uma hipótese haja tido boas conseqüências praticas, clinicas e observáveis, isso não a demonstra como certa; a razão é que os lógicos sabem que, infelizmente, raciocinando corretamente, do falso se pode deduzir o verdadeiro.[…mas…] a lógica não garante nada em relação ao que ocorre se alguém parte de falsidades.”
Com isto quero dizer que estes cento e tantos anos de experiência acumulada em casos clínicos descritos com rigor, estes subsistem, ainda que eventualmente tenhamos que reformular os “porquês” de porque tenham dado certo ou errado. O fato é que o “setting” como proposto tradicionalmente, tem evidenciado ser uma ambiente propicio para as mudanças autopoiéticas de amadurecimento pessoal e de ampliação da autonomia por parte de ambos os participantes de uma análise. Do mesmo modo como se pode aprender “apesar” do professor, pode-se “curar” um sintoma “apesar” do psicanalista, embora, evidentemente, não seja esta a situação desejável. De qualquer modo o importante é ter sempre presente que é a estrutura do analisando que é determinante para sua percepção de seu psicanalista e que ambos formam um “time” que ou aprende a trabalhar em conjunto ou está determinado a estancar como processo. Cada interpretação, cada intervenção ou até mesmo a ausência de ação só adquire sentido pela elaboração autopoiética do analisando, na medida em que ele mimeticamente reproduz os processos mentais que intui estarem acontecendo na mente do analista. Por sua vez, as respostas, conscientes ou não, supra e subliminares do analisando propiciam a realimentação do sistema fazendo progredir a auto-analise do analista, que se desdobra em conjunto com a do analisando (Pellanda, L.E., 1996), num processo que Maturana chama de “acoplamento estrutural”.
Retomando o inicio, realimentando o processo de complexificação iniciado por Freud ao romper com o cartesianismo, mesmo apesar de si, podemos afirmar que já não cabe esperar que interpretações, mutativas ou não, sejam capazes de, por si só, determinar o desenvolvimento de uma psicanálise. Hoje vemos esse processo como determinado pelas estruturas de analisando e analista, em um interjogo de perturbações que desencadeiam as modificações pessoais pela autopoiese de cada um. Sendo a atividade mental inconsciente e a consciência apenas uma informação parcial e distorcida dos processos que ocorrem no organismo inteiro, deixa de haver a dicotomia “mente-corpo” na medida em que o observador implicado percebe uma totalidade indivisível.
Bibliografia
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N.B. – Este trabalho é um capítulo de um projeto maior sob o titulo geral de “Psicanálise em tempos de Complexidade” e inclui insights obtidos ou ampliados no seio das discussões do Grupo de Estudos de Epistemologia Psicanalítica da SPPA, bem como nos 45 anos de construção de saberes que partilho com Nize, o que faz dela uma co-autora autopoiética de tudo o que escrevo. Grazie a tutti.
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Com o nome de The Macy Conferences, aconteceu, entre os anos de 1946 e 1953, uma série de dez conferências interdisciplinares que levou à fundação do que hoje conhecemos como cibernética. Sob os auspícios da Josiah Macy Foundation, uma organização filantrópica dedicada a problemas do sistema nervoso, foi promovido o encontro de importantes cientistas da época em um vasto leque de áreas para discutir causalidade circular e feedback em sistemas biológicos e sociais – Circular Causal and Feedback Mechanisms in Biological and Social Systems. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Macy_conferences)
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Como por exemplo, o papel dos neurônios espelho no aprendizado humano, provavelmente importantes também para a possibilidade de “pôr-se no lugar do outro”, identificar-se com o outro.
‡
“In psycho-analysis there is no choice but for us to assert that mental processes are in themselves unconscious, and to liken the perception of them by means of consciousness to the perception of the external world by means of sense-organs [S.E. 1915, p. 171]
§
“But these two discoveries – that the life of our sexual instincts cannot be wholly tamed, and that mental processes are in themselves unconscious and only reach the ego and come under its control through incomplete and untrustworthy perceptions” [S.E. 1917, p. 143].
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these two discoveries amount to a statement that the ego is not master in its own house”. Together they represent the third blow to man’s self-love, what I may call the psychological one (op.cit.)”(ênfase do autor).
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“The difficulty of the work of research in psycho-analysis is clearly shown by the fact of its being possible, in spite of whole decades of unremitting observation, to overlook features that are of general occurrence and situations that are characteristic, until at last they confront one in an unmistakable form.” [S.E. 1923, p. 141]
Aspectos gerais da colonização italiana no Rio Grande do Sul
Por Ernesto Pellanda
In: Álbum Comemorativo do 75º Aniversário da Colonização Italiana no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora do Globo, 1950 (pg. 34 – 64)
Nota: Conservou-se a grafia da época, na medida do possível. Solicita-se comunicação de eventuais erros remanescentes.
A terra e o povoamento anterior
FIG.1 Aspecto da região colonial italiana poucos anos depois de ocupada pelos agricultores.
Não se fez ainda do Rio Grande do Sul, ao que saibamos, o estereorama exato indispensável a um conhecimento mais objetivo e generalizado do relevo e da natureza do solo, o que faz com que até nos compêndios e mapas corram falsas noções de sua fiisiografia. Uma delas é a da continuidade em nosso território da Serra do Mar, equívoco que, apesar de indesculpável, pois já em 1819 o Visconde de São Leopoldo o corrigia, continua até hoje repetido. Dizia então o nosso primeiro historiador que o Continente era dividido em duas partes quase iguais “pela Serra Geral do Brasil que, acompanhando a costa nas primeiras vinte e sete léguas desde o Araranguá (limites da época), até a latitude austral de 29û 41′, pouco mais ou menos, volta a oeste mais de oitenta léguas”.
A Serra do Mar, realmente, afunda-se no oceano na altura de Santa Marta, no vizinho Estado. Dela só nos restam como amostra os montículos das Torres. Uma de suas antigas ramificações, cujo elo desapareceu em época geológica recuada, é que surge, muito para o interior do continente, na Coxilha das Lombas, em Viamão, percorre o município da capital, fende-se amplamente para deixar passar o Guaiba e continua para o sul, formando o Escudo Rio-grandense, conjunto de serranias graníticas de pequeno vulto que vão ao encontro da Coxilha Grande de um lado (Herval, Encruzilhada, Caçapava, Itababeraquá) e da República Oriental, de outro (Tapes, Santo Antônio, etc.).
Na faixa litorânea são as praias rasas, os albardões e os cômoros que por duzentos anos vedaram a aproximação da costa. A barra, “invisível do mar”, incerta até poucos anos, era mais um obstáculo que fator favorável à entrada portuguesa.
Não admira assim ao estudante do nosso passado que as primeiras explorações do território viessem aqui ter por terra. Desde as bandeiras de Manoel Preto (l600) e de Rapôso Tavares (l631) que se sabia que a terra era generosa e fértil. De ponto mais ao sul, em 1669, dera noticia de riqueza de suas vacarias, Matias de Mendonça, que estivera em Maldonado. Demais, fundadas em 1680, Laguna e a Colônia do Sacramento, esta nas margens do Prata, urgia a Portugal ocupar o espaço intermediário. De Laguna, último pôsto avançado da gente de Piratininga, viria, de ordem de Francisco de Távora, a patrulha exploradora dos Brito Peixoto (l7l5) e, com ânimo definitivo, a frota de João de Magalhães (l725). De São Paulo mandaria o Governador Rodrigo César de Meneses abrir a estrada que, por Curitiba, descia o vale do Araranguá, acabada por Cristóvão de Abreu Pereira em 1722 e pela qual viria ao local do Rio Grande de São Pedro o Tte. Gal. David Marques Pereira para estudar a viabilidade de ali “se fazer povoação”. Era isso em 1727, já ocupada portanto por João Magalhães a terra entre o Guaíba e o mar. Mas o Tte. Gal. queria ir além e do pôsto em que se achava, contratou com os capitães Estácio Pires e João da Costa a prática das primeiras “razias” oficiais no “Pampa de Vacaria”.
Quando, afinal, em 19 de fevereiro de 1737, aporta Silva Pais à Barra para a fundação de um “presídio”, já ali encontrou à sua espera, a mando do Conde de Sarzedas, Governador da Paulicéia, o árdego sertanista português que abrira as duas estradas de então, para São Paulo — a da Costa do Mar e a da Serra Velha — aquele mesmo Coronel Cristóvão de Abreu Pereira, à frente de 160 cavalarianos em 4 companhias comandadas pelos capitães Francisco Pinto, João de Mendonça, José de Melo e Nuno Álvares Pereira, tenentes Francisco Manoel de Souza, Valério de Mendonça, Manoel Tavares, Francisco Tavares e alferes Anselmo Gonçalves, Manoel Pinto, Antônio Gonçalves e Manoel Pinto Bandeira, dos quais proviriam os primeiros campeadores gaúchos.
Fixado o domínio militar da península do sul, mais necessária se fez a posse do hinterland. Para isso dizia Silva Pais em carta de 12 de abril: “O ponto é criar gente de cavalo que saiba fazer o serviço como cá se costuma”. E aos patriotas de Cristóvão Pereira juntou 37 cavalarianos que trouxera na esquadra, criando o núcleo do primeiro regimento de dragões que viemos a possuir. Para êle mandou-lhe Gomes Freire 38 dragões de Minas Gerais e 56 homens do Rio de Janeiro “capazes de se exercitarem na cavalaria”, ordenando ainda que se tirassem mais 70 praças do destacamento da Bahia e de Pernambuco para aquele fim. Queixava-se, porém, Silva Pais que os cavalos que havia reunido Cristóvão Pereira não bastavam, “sem que por agora nos possamos valer dos potros, que êsses são redomões e é preciso primeiro amansá-los e muito mais para os nossos soldados não costumados a montar, por cuja razão estão caindo sempre que o fazem e as selas e arreios se fazem em pedaços”. “Baianos” …
Criou a estância real do Bojuru e entregou-a a Cosme da Silveira, português povoador de Viamão, para remediar as faltas de montarias e ali, em junho de 1738, já existiam 1500 éguas e 2500 vacas, além de 8000 outras já arrebanhadas com aquêle destino. Sucedendo-lhe no comando do presídio André Ribeiro Coutinho, despediu a Cosme, mas continuou a “habilitar gente ao serviço daquelas campanhas que é só o meio de as conservar e de adquirir maior extensão”. Do Rio envia-lhe então Gomes Freire 67 pessoas de casais refugiados de Colônia para ínício do povoamento. Silva Pais, ao substituir o futuro Conde de Bobadela no govêrno do Rio, remete voluntários para os dragões, 4 ou 5 casais – e várias mazuellas, “mulheres desimpedidas que aqui poderiam tomar estado e lá tinham a de desenvoltas”. Vem depois, a partir de 1752, a imigração açoriana que se fixou às margens do São Gonçalo e dos principais formadores do Guaíba, alcançando, para os lados da campanha, Rio Pardo; ao centro Taquari e ao sul, Piratini. De Triunfo se espalhariam pelo Caí atingindo suas estâncias as terras do Pareci e do Bonfim.
Em 1803 a população total do Rio Grande do Sul, inclusive 8000 índios das Missões, se elevava a 59.142, dos quais 3.927 habitantes de Pôrto Alegre. Em 1822 calculava-se a população da Província em 106.000 habitantes. Pôrto Alegre fôra elevada à categoria de cidade; eram vilas: Rio Grande, Rio Pardo, Santo Antônio da Patrulha e Cachoeira, e pequenas freguesias criadas: as de Vacaria, Aldeia dos Anjos, Triunfo, Taquari, Encruzilhada, Santo Amaro, Mostardas, Estreito, Piratini, Canguçu e Pelotas. O território estava, porém, integrado nos seus limites atuais, as raias meridionais e do poente definitivamente traçadas, graças àqueles dragões de São Pedro, de fundo paulista, carioca e mineiro, depois transferidos para Rio Pardo, de onde sairiam os conquistadores das Missões e os dominadores das coxilhas.
Ao Norte ficava a região de Cima da Serra, e os campos de Vacaria, isto é, o Planalto que, dos Aparados, a mais de 1.000 metros de altitude, desce gradualmente para oeste, até quase beirar as margens do Uruguai. Um degrau ora abrupto, ora em quebrados sucessivos, a “Serra Geral”, termina aqui o altiplano brasileiro cortando de leste a oeste o nosso território. Largas fraturas deixam fluir os rios que vêm ter ao Guaíba. Os contrafortes da Serra cobriam-se de mata virgem, só em dois pontos transposta até meados do século passado. Em São Martinho, porta do Território das Missões e na “estrada” que de Viamão demandava Sorocaba pelo vale do Rolante e atual município de S. Francisco de Paula, cortando o Tainhas, o Camisas e o Antas para atingir a “Guarda de Santa Vitória” no Pelotas, junto à embocadura do Touros.
De 1824 em diante, com a colonização alemã, começaria a ocupação da mata dos primeiros contrafortes da Serra. Após o térmo da Revolução Parroupilha, reiniciada a imigração germânica que estivera interrompida desde 1830, as suas levas se foram aproximando das encostas do imenso degrau: pela Feliz (l846), Santa Cruz (l849), Estrêla e Lajeado (l853), Maratá (l856), Santo Ângelo (Cachoeira) (1858), Monte Alverne (1861), Candelária (l863), Arroio do Meio (l869) e Cerro Branco (l875). Assim, o grande arco formado pelo antemural da Serra e que vai do Itacolomi às margens do Alto Jacuí, fui sendo paulatinamente ocupado. Povoaram-se os vales do Cadeia, do Caí, do Taquari, do Rio Pardo e do Pardinho e de seus tributários. E as ricas matas de madeira de lei que os séculos haviam criado, cediam lugar à lavoura semeada entre os troncos que o fogo não consumira. Em consequência do avanço da colonização, já em 1846 pensava-se porém numa estrada mais curta para o Nordeste. Nesse ano foi incumbido o Alferes David Pereira Dias de abrir uma picada de ensaio da “Linha dos Alemães” até os Campos da Vacaria, encurtando de 30 a 40 léguas o caminho. No ano seguinte abria-se uma estrada do Mundo Novo à Serra. Em 1848 contrata-se outra de Rio Pardo à Cruz Alta e projeta-se melhorar a picada de Santo Antônio para Cima da Serra pela “Serra Velha”.
O povoamento progredira. O recenseamento de 1872 viria a encontrar na Província 446.962 habitantes, dos quais 30.583 em Pôrto Alegre. Do total geral efetivamente apurado nas listas devolvidas se verificara porém a população de somente 430.878 indivíduos, dos quais eram brasileiros 389.472 e 41.406 estrangeiros. Partindo desses dados pode-se bem afirmar que cêrca de 5/6 da população se radicavam na Depressão Central, no Litoral e na Campanha e em menor número em Cima da Serra, e 1/6 nas colônias germânicas. Contava a Província 28 municípios subdivididos em 73 paróquias. Destas, afora as da capital, eram mais populosas a de Pelotas, com 21.756 habitantes, Rio Grande com 16.883, Bagé com 15.037, São Gabriel com 13.872, Cachoeira com 11.899, Rio Pardo com 11.571 e Livramento com 10.233.
No atual Planalto do Nordeste, as paróquias de Vacaria, São Francisco de Paula e Lagoa Vermelha, contavam, respectivamente, 5.755, 5.360 e 4.744 habitantes. Soledade, Passo Fundo e Cruz Alta ocupavam os campos do Planalto Médio, contando, respectivamente, 9.177, 8.368 e 8.402 almas.
Esta enumeração que parecerá ao leitor ociosa, pretende apenas demonstrar que a população oriunda de paulistas e açorianos, os primeiros povoadores do “Continente D’EI Rei”, aprendera as lições dos cavalarianos de Cristóvão Pereira e de Silva Pais e realizara, em campo limpo, as previsões de Ribeiro Coutinho: adquirira em pouco mais de 60 anos (até 1801) e conservava firmemente em seu poder, “a maior extensão daquelas campanhas” dominadas a pata de cavalo. Os alemães, e em pequeno número outros imigrantes, se iriam fixando mais tarde, de preferência nas matas da encosta da Serra Geral, de um lado, e nas da Serra dos Tapes, de outro. Marcavam-se assím duas zonas perfeitamente diferenciadas à expansão das duas indústrias básicas do Rio Grande: a agricultura e a pecuária.
Hic sunt barbari
À semelhança dos velhos mapas da África, a carta do Rio Grande da época assinalava não o “Hic sunt leonis” da legenda, mas extensas áreas de matas em que se poderia escrever “Hic sunt barbari”. Eram os pinheirais nativos que, no outono, alimentavam as tribos indígenas com seu fruto, por isso mesmo disputadissimo.
Pelos altos vales dos rios, desde as bordas do planalto até além do Rio das Antas na região entre o Caí e seus formadores e o Alto Taquari, tal como nos matos “Castelhano” -“Português” no planalto médio e mais além no vale do Uruguai e do Pelotas, dominavam as copas da araucária e, entre elas, alguns campestres semeavam ilhas dispersas no oceano verde-negro da floresta.
Eram terras devolutas. O temor dos índios e das feras mantinha afastada dali a população continentina interessada apenas nos campos de criação.
A colonização alemã, por sua vez, parara junto às fontes do Caí-Santa Cruz e seus tributários, do Pinhal, do Farromeco e do Maratá; e se subira o primeiro contraforte da serra em Nova Petrópolis e na Feliz, em Santa Maria da Soledade e no Maratá, fugiria de escalar o muro áspero que defrontavam os seus últimos lotes, indo espalhar-se pelo Taquari e pelo Rio Pardo.
Em 1869/70, o Govêrno da Província querendo continuar a colonização, embora as dificuldades que lhe opunham os Estados da Alemanha e supondo preenchidos pelas colônias de Santa Cruz, Santo Ângelo (Cachoeira), Nova Petrópolis e Monte Alverne as 36 léguas quadradas das terras que lhe doara em 1848 o Govêrno Geral para colonizar, pedia a êste que lhe concedesse, nas terras devolutas do planalto, dois territórios de quatro léguas em quadro ou sejam 32 léguas quadradas. Deferida a solicitação, mandou-os a Província discriminar e dividir em lotes, gastando nesse trabalho a soma, em moeda da época, de 69:450$768. A concessão não fôra porém gratuita; exigia o Govêrno Geral o preço de l real por braça quadrada medida e, mal iniciado o povoamento, teve a Província, exausta de recursos, que devolver tudo ao Império, pois só o custo da terra se elevaria dessa forma a 288:000$000, ou seja 1/6 da sua receita geral.
Mas não foi só êsse o seu prejuízo. Enquanto se providenciava na medição, por ato de 24 de maio de 1870, o Presidente Dr. João Sertório criava nos territórios em aprêço as Colônias “Conde D’Eu” e “D, Isabel” e o Presidente Conselheiro Francisco Xavier Pinto Lima, a 29 de abril de 1871, assinava a Lei número 749 autorizando o executivo a firmar contrato com Caetano Pinto & Irmão e Holtzweissig & Cia. para a “introdução de 40.000 colonos industriosos, jornaleiros e principalmente agricultores, no prazo de 10 anos”.
Fig. 2 Paisagem típica da zona colonial italiana, onde o aproveitamento da terra para as lavouras é levado ao máximo possível.
Devolvidas as terras, viu-se também a Província obrigada a rescindir, logo depois, o contrato, cujas principais cláusulas, aliás, jamais haviam sido cumpridas pelos concessionários, pois que um dos motivos de suas dificuldades estava na concorrência do próprio Govêrno Imperial que, no contrato que fizera com Mackai Son & Co. e Guilherme Hasfield, de Londres, se comprometia a pagar mais que êles, por imigrante adulto (Rs. 70$000).
Realmente estipulava a lei condições a que os contratantes nunca puderam atender, entre elas: – A da introdução anual de 2.000 colonos no mínimo e 6.000 no máximo e a de não exceder de 10 % das levas o número de não agricultores.
Além disso assumia a Província, nesse passo, com a empresa, compromisso superior às suas fôrças: Propunha-se pagar aos contratantes 60$000 réis por indivíduo maior de 10 anos e 25$000 pelos de l e 10, valores que representavam a diferença entre os preços das passagens da Europa para o Brasil e para os Estados-Unidos. Os empresários deveriam empregar essa soma na equiparação dos preços das passagens para os imigrantes.
O pagamento lhes era porém feito 1/3 em títulos da dívida provincial, ao juro de 7% ao apresentarem as listas dos imigrantes embarcados na Europa; 1/3 nas mesmas condições ao serem entregues no pôrto de desembarque (Rio Grande) e o têrço restante em dinheiro, também nesse ato.
Ficara a cargo da Província ainda a recepção e hospedagem dos colonos no pôrto de Rio Grande, transporte e alimentação até a capital e daqui até a colônia provincial a que se destinassem. (Ficando em Pôrto Alegre, só tinham direito a acomodações e alimentos por 5 dias).
Poucos eram os que de início aceitavam o destino das colônias novas e desertas: preferiam seguir para as particulares que então floresciam, ou ficar nas antigas. É certo que a lei previa nesses casos a indenização dos gastos feitos. Como, porém, cobrá-los?
Mas, voltando ao território cedido, cujo perímetro medira o Major José Maria da Fontoura Palmeiro: Situava-se a ambos os lados do pique que do Maratá seguia para o Rio das Antas. Conde D’Eu situava-se à esquerda do caminho, confinando ao norte e a leste com aquêle rio e ao sul com terras devolutas. Dona Isabel, colocada à direita da “estrada”, tinha ao norte o rio e ao sul terras que permaneciam virgens, cedidas pelo Govêrno Imperial a Inácio José de Moura, Luiz Antônio Feijo Júnior e a um cidadão Machado, e a leste terras devolutas.
O que era essa “estrada” limitante dos dois núcleos, di-lo o relatório de 1873 do agente intérprete da colonização, o “inteligente Sr. Luiz Kraemer Walter”, segundo expressão oficial da época, e que passamos a resumir:
“Uma das mais palpitantes necessidades para essa colônia (Conde D’Eu), a limpeza daquela parte da estrada do Maratá que fica aquém do Rio das Antas, foi devidamente considerada pelo Conselheiro Figueiro de Melo que mandou contratar com o capitão João Jacinto Ferreira êsse importante serviço, que acaba de ser concluído.” “Além da limpeza da estrada, carece também tratar-se de melhorar alguns pontos dela que oferecem perigo à passagem dos cargueiros.”
“Medeando entre a colônia Conde D’Eu e o último ponto habitado da colônia particular do Maratá, uma distância de quase cinco léguas de terras devolutas, por onde atravessa a estrada para cargueiros, de cuja limpeza falei, é óbvio que o principal impedimento para a sua prosperidade está no abandono em que os proprietários deixam aquelas terras intermediárias, abandono que tanto contribui para que aquela estrada, por mais que se conserte, nunca possa considerar-se franca, porque quando as chuvas não destruírem o trabalho feito, temos a floresta de ambos os lados de uma estrada de poucos pés de largura, que não deixa penetrar os raios de sol nem as lufadas do minuano, êsses outros inspetores de nossas estradas do interior que tão bons serviços soem prestar.
“Torno a repetir, concluía, que nada se poderá esperar da colônia Conde D’Eu sem uma estrada de rodagem, que lhe dê comunicação com os pontos habitados da Colônia do Maratá.”
Quanto ao outro núcleo, escrevia: “Nada direi aqui da colônia D. Isabel por estar ainda inteiramente desocupada e apenas com o perímetro medido.”
Na mesma época tentava-se uma outra saída para o Conde D’Eu: uma estrada que a ligasse à margem direita do Taquari. Pediu a Província auxílio do Govêrno Geral para tanto, mas, em aviso de 17 de dezembro de 1872, dizia o Ministro da Agricultura que nada podia dar sem um orçamento prévio e os trabalhos técnicos indispensáveis.
O contrato Caetano Pinto e a imigração italiana
Vimos as esperanças fundadas pelos governds provinciais no maior contrato de introdução de imigrantes que já se fizera no Rio Grande do Sul com particulares: Caetano Pinto & Irmão e Holtzweissig & Cia.
A Alemanha impunha então à imigração obstáculos formais. Em 1870, pouco antes, portanto, só haviam aportado ao Rio Grande 471 imigrantes, todos espontâneos. Por essa modalidade de imigração, batia-se aliás o agente intérprete Lothar de La Rue, cidadão culto e dedicado aos interesses do país, que foi quem sugeriu que se pagasse aos mesmos a diferença do preço da passagem para os EstadosUnidos, como meio de atraí-los para nós. Em 1871, totalizaram 477 os colonos entrados.
Mas, firmado o contrato Caetano Pinto a 31 de janeiro de 1872, o mínimo nele previsto já se não verificaria no primeiro ano. Aumentou, sim, o número de entradas, mas não foi além de 1.354.
O célebre contrato estava sendo um fracasso. Já no primeiro ano de vigência, quando aparentemente tivera melhor êxito que os simples esforços oficiais, reclamava Luiz Kraemer Walter o fato de ao lado de 1.049 alemães, terem vindo 100 portugueses com apenas 6 mulheres, sendo na quase totalidade solteiros ou casados sem família. Ficaram todos no Rio Grande e a propósito acrescenta o agente intérprete: – “Já reclamei a Vossa Excelência que não entendia de ser êsse o sentido do contrato celebrado com aquêles senhores, pois que nêle se especializava a introdução por famílias, prevendo em proporção ao número delas vir um solteiro para cada uma”. E concluía: “homens solteiros creio que recebemos sempre na Província, vindos de Portugal, sem estipêndio do govêrno e será sempre improdutiva semelhante despesa”.
Em 1873 os empresários introduziram 1.607 imigrantes, vindo ainda 259 por conta do Govêrno Geral para a colônia de Santa Maria de Soledade.
Da relação oficial consta terem entrado 892 alemães, 643 austríacos, 174 franceses, 101 portugueses, 36 suíços, 10 belgas e 10 suecos.
Comentando o assunto, o presidente Carvalho de Morais, depois de dizer à Assembléia que os contratantes conseguiram introduzir mais 512 imigrantes que no ano anterior, acrescentava: “Entretanto continuam a lhes ser opostos na Alemanha os mesmos embaraços que tem contrariado os seus esforços. Infelizmente, igual espírito de oposição manifestam os governos de outros países da Europa e assim acontece que a imigração para o Brasil encontra maiores obstáculos à medida que se tornam mais conhecidas a prosperidade crescente do Império e as suas condições favoráveis para o estabelecimento dos imigrantes europeus”. Afirma que isso acontece em virtude do antagonismo de interesses entre o nosso país e os da Europa, e acrescenta:
“É porém convicção minha que dessa luta pacífica, mas porfiada, devemos sair vencedores, como sairam os Estados-Unidos da que sustentaram, desde que dermos boa direção aos nossos esforços e a mantivermos com perseverança”.
Em 1874, a quota de imigrantes fornecida baixou para 580 (os restantes entrados vieram por conta do Govêrno Geral para Santa Maria da Soledade), descendo, ainda, como vimos, no ano seguinte para 315. Em tôdas as levas, até aí, predominaram os alemães, austríacos e franceses. Não se falava absolutamente em italianos.
Não é sem surprêsa assim que lemos na “Fala” do presidente Dr. José Antônio de Azevedo Castro à Assembléia, na abertura da segunda seção da 16ª legislatura (l876), a seguinte resenha de entradas na Província, de 1859 a 1875, que afirma tirada dos registros da repartição especial de terras públicas:
Nacionalidades
Número
Alemães
8.412
Austríacos
1.452
Italianos
729
Franceses
648
Suíços
263
Outras
1.050
TOTAL
12.563
Imigrantes entrados de 1859 a 1875
Êsse número deve corresponder apenas aos vindos por conta da Província ou estará errado para menos em 1.096 imigrantes cujas entradas constam das cuidadosas pesquisas que realizamos para “Colonização Germânica no Rio Grande do Sul”.
O milagre porém está ali naquele número de italianos que, quase diríamos, entrou de contrabando… O mais provável é que tenham figurado como austríacos nas relações de imigrantes.
Há, aliás, nos documentos oficiais da época silêncios e hiatos inexplicáveis em assunto da maior importância. Assim só indiretamente ficamos sabendo que entre 1875 e 1876 passaram as colônias D. Isabel e Conde D’Eu para o domínio do Govêrno Geral.
De fato, tratando o agente intérprete em seu relatório de 1876 da Colônia Monte Alverne, tem lá esta passagem: “O Ministério da Agricultura por aviso nº 56 de 27 de outubro do ano passado anuiu ao pedido que em data de 18 de julho passado dirigi à Presidência para que fôsse a Províncla compensada das 32 léguas de terras que abrangem as colônias de Conde D’Eu e D. Isabel, ora ocupadas por colonos do Estado”. Mas, desde quando? Não nos foi possível apurar.
Do mesmo modo, só indiretamente se descobre o fato do povoamento do núcleo dos fundos de Nova Palmeira por colonos italianos a partir de 25 de outubro de 1875, data em que parte daquela gleba (68 lotes coloniais) foi anexada à Santa Maria da Soledade.
De fato, naquela nossa primeira colônia mista, dividida em quatro distritos, havia então a seguinte população escolar apurada, segundo minudente relatório de Carlos Jansen:
No distrito Silveira: .- 134 crianças descendentes de alemães, e holandeses. Idioma predominante o alemão.
No distrito Montravel: .- 50 descendentes de franceses, suíços e espanhóis. Idioma predominante o francês.
No distrito Coelho: – 99 descendentes de italianos, alemães e suíços. Idioma predominante o alemão.
No distrito de Barcelos: .- 86 descendentes de alemães.
Aos fundos de Nova Palmeira: – 52 filhos de alemães e italianos, com predominância daqueles.
Havia, ao todo, 49 italianos nesse ano naquelas terras que foram depois anexadas a Caxias e hoje pertencem a Farroupilha. A separação desse núcleo de Santa Maria era já aconselhada por Jansen – devia, a seu ver, ser anexado à lª e 2ª léguas do núcleo vizinho, formando uma colônia independente.
A grande imigração italiana viria porém a seguir, em 1876 e 1877, e, após um intervalo de quatro anos fracos, se intensificaria para atingir a máximos impressionantes em 1885, quando alcançou a 7.600 entradas, em 1889 quando se elevou a 9.440 e em 1892 no qual totalizou 7.523.
Verifica-se assim que é possível, embora não esteja provado, que o contrato Caetano Pinto & Irmão e Holtzweissig & Cia., tenha dado origem à imigração italiana, como se tem afirmado. Mas, fora de dúvida, é que só quando rescindido êle e entregue o trabalho de colonização ao Govêrno Geral é que a corrente se intensificou, alcançando volume antes desconhecido na história da colonização da Província.
Essa passagem de domínío, e atribuições se fêz aliás com prejuízo dos registros da época, tornando obscura a destinação dos colonos entrados e a história dos primeiros anos da colonizacão italiana.
Para encaminhar de início os imigrantes às colônias do planalto, sabe-se que contratara o Govêrno Provincial os serviços de José Antônio Rodrigues Rasteiro, o qual, na qualidade de agente da colonização em Montenegro, se encarregava de receber e encaminhar a destino os colonos chegados àquele porto fluvial pelos vapores do governo. Seus vencimentos eram de 600$000 anuais. No Caí (Pôrto dos Guimarães) exercera o mesmo cargo o Tte. Cel. Antônio José da Silva Guimarães, substituido depois por Lourenço Alencastro Guimarães, e no Maratá, por algum tempo, Pedro Schreiner.
A imigração, na época, era recebida no Rio Grande por um agente do govêrno, agente que foi por muitos anos Carlos Miller. Dali eram encaminhados a Pôrto Alegre, cuja hospedaria se localizava no edifício que seria depois o quartel da Brigada Militar, no Cristal, a cujo trapiche atracavam diretamente os pequenos barcos de então. Ainda por via fluvial, como vimos, eram os colonos encaminhados a Montenegro de comêço e ao Caí depois, seguindo dali para as colônias, nos primeiros tempos a pé.
A repartição de colonização só dispunha de um Inspetor Geral que era o diretor, de um amanuense e um colaborador. Pode-se assim imaginar as dificuldades com que lutava, não só para uma escrituração regular, mas para atender e entender o pessoal das levas imigratórias, determinar-lhes o destino, a que nem sempre obedeciam, e regularizar as dívidas.
Em 1878 foi extinto o lugar de inspetor geral e dispensado o agente no Caí, ao mesmo tempo que mandava o governo imperial proceder-se a rigorosa inspeção nas colônias, designando para isso o engenheiro José Tomé Salgado. Teve êste o auxílio dos funcionários provinciais Norberto Vasques e Afonso Hebert, servindo de intérprete Ângelo Giuseppe Baron. O resultado foi uma das derrubadas costumeiras de então. Em Caxias foram exonerados o engenheiro diretor e dois agrimensores, o encarregado do serviço da 3ª légua; em Silveira Martins, a pedido, o chefe da comissão de terras; em Conde D’Eu e D. Isabel os diretores, o engenheiro chefe da comissão de estradas, um agrimensor e dois auxiliares de engenheiros.
Explica-se assim por que entre 1875 e 1889, época em que a Província contou com 33 presidentes em 14 anos, sejam raros e incertos os dados sôbre a imigração e colonização. De 1882 em diante, entretanto, existe apuração da corrente imigratória relativamente exata, podendo-se calcular a entrada de aproximadamer-te 41.500 imigrantes italianos até a proclamação da República. De 1890 a 1914, entraram no Estado mais 32.500 imigrantes italianos, o que nos dá um total de 74.000. A população colonial de ascendência italiana era já então calculada em 250.000 habitantes.
Vênetos e lombardos na Europa e no Rio Grande
Afirmamos, de uma feita, e houve quem estranhasse, que as três grandes correntes povoadoras do Rio Grande do Sul: açorianos, alemães e italianos da Lombardia e do Vêneto, pertencem originariamente aos mesmos troncos indo-europeus. Dos açorianos parece pacífica hoje a aceitação de sua ascendência flamenga. Dos alemães todos conhecem as raízes. Só dos vênetos e lombardos há entre nós pouco conhecimento histórico. Parece-nos, por isso oportuno, retraçarmos uma breve síntese de suas origens:
Dos vênetos conheceu a antiguidade duas tribos: uma na Gália Céltica que deu muito trabalho a César obrigando-o a acuá-la nos seus pântanos e ilhas para vencer a coligação que chefiava; outra na Gália Cisalpina. Da etnografia desta sabe-se que observava o culto ariano, usava um alfabeto misto de grego e etrusco e era grande comerciante. Durante a segunda guerra púnica sofreram, os vênetos, a dominação romana e em 89 a.C. Gnaeus Pompeius Strabo os colocou sob o jus latinum. Sob Augusto a Venétia constituiu com a Ilíria a 10ª região da Itália, com capital em Aquiléia. Durante os últimos tempos do Império foi devastada pelos bárbaros, tendo muitas das suas cidades destruídas por Átila. O resto é história moderna.
Dos lombardos ou longobardos, sabe-se que era um povo do baixo Elba, do qual deriva a atual Bardengau ao sul de Hamburgo. Aparecem na história no ano V da nossa era quando foram batidos por Tibério. Talvez sob o ímpeto de novas invasões do norte vamos depois encontrá-los em 487 na Baixa Áustria. Em 546 o Imperador Justiniano os convidou a se fixarem na Panônia e a seu lado tomaram parte na batalha dos Apeninos contra os ostrogodos de Tótila, em 553. No ano de 568 deixaram a Panônia aos Avaros e foram fixar-se no norte da Itália, estendendo-se pela Ligúria e chegando até a Toscânia. Sob os Papas Gregório III e Adriano I, temerosos estes do poder que iam tomando na península os lombardos, chamaram, para combatê-los, os francos de Pepino e Carlos Magno que os dominaram, estabelecendo-se após o reino franco-lombardo na região que fizera parte, sob a República, da Gália Transpadana, e constituíra, sob Augusto, com o Piemonte (Piedmont) a 11ª região itálica. Vemos assim que a Itália de além-Pó se compunha de povos celtas e germanicos latinizados. Daí se encontrarem entre os imigrantes pelo menos três tipos étnicos distintos: o mediterrâneo de estatura média ou abaixo da média, moreno, de cabelos escuros lisos ou ondeados, remanescente do Homo Meridionalis; o tipo alpino de procedência celta, estatura acima da média, braquicéfalo, claro, de olhos azuis ou cinzentos, e o tipo dinárico, predominante no Vêneto, longillneo, branquicéfalo, de cabelos castanhos ou brunos. Não muito raro é igualmente o tipo nórdico, embora sejam os seus caracteres todos rescessivos e tendam a se fundir na massa bruna, como acontece com os alemães de Baden e da Baviera, de idêntica ou semelhante mistura étnica.
A região foi realmente, durante séculos, um imenso cadinho em que se fundiram as correntes invasoras, e, conforme o domínio de um e outro povo, foram-se ali formando dialetos diversos, desde o genovês e o milanês, parentes próximos do francês, até o macio vêneto, idioma ciciante, tão inimigo dos sons ásperos que chega a abrandar os che e ghe do italiano, a língua musical por excelência.
Não precisamos falar de certo do espírito marítimo de Gênova e de Veneza, as grandes repúblicas dominadoras por séculos do comércio do Oriente, e das lutas com que encheram a Idade Média, chegando Veneza a constituir na Ilíria, na Dalmácia, na Albânia e na Grécia continental e insular, um vasto império a que acrescentou na península as conquistas de todo o Vêneto retomado aos Carrara de Gênova, de Brescia e Bergamo, tiradas a Milano e de Rovigo e Polésine, vencidas na guerra de Ferrara.
Do descobrimento da América à Revolução Francesa, depois de grande e admirável rescimento artístico, entrou Veneza a decair. Em 1815, passou todo o norte da Itália ao domínio da Austria, domínio que só findaria para a Lombardia em 1859 e para o Vêneto em 1866.
De ambas essas regiões da Itália, agrícola e industrialmente adiantadas, mas principalmente do Vêneto, província de grande densidade demográfica, proveio a imigração para o Brasil, de comêço para o Rio Grande clo Sul e depois para S. Paulo, onde, no dizer de Luiz Amaral, possibilitou a abolição da escravatura, pois só a prova do rendimento do trabalho livre realizado pelo braço do imigrante italiano teria convencido os fazendeiros escravocratas que dominavam a política, da possibilídade, senão da vantagem, da extinção da mesma. No Rio Grande do Sul onde, desde 1824, a colonização se fêz à base da pequena propriedade, o imigrante italiano, embora sem as vantagens da gratuidade da terra de que gozaram os alemães, fêz-se desde início dono de sua lavoura e do lucro do seu esfôrço, como recompensa natural aos seus sacrifícios dos primeiros tempos. Conquistou a terra e a prosperidade geral que vale bem mais, certamente, que as grandes fortunas acidentais dos Crespi e dos Matarazzos. Aliás a destinação do imigrante italiano para a agricultura era tão tradicional no mundo português como a da navegação marítima dos Perestrelo, dos Colombo, e dos Vespuci.
A cana de açúcar fora da Sícília para a Madeira por sua mão e dali viera para São Vicente trazida, entre outros, por um José Adorno. No Rio Grande do Sul há igualmente um precursor na pessoa de João Batista Orsi que, em 1825, nos fôra enviado com carta autógrafa de D. Pedro I para a cultura da vide, de que trazia bacelos na mala. Estabelecido nos limites dos atuais municípios de S. Leopoldo e Caí, próximo a Nova Petrópolis, em váríos lotes coloniais, cumpriu perfeitamente a sua missão. Subdivididas depois as suas terras, deram lugar à linha S. Jacob, mas, no ,mapa do Caí, ainda que desfigurado para Orsi, lá está o seu nome a atestar uma atividade fecunda.
Adorno e Orsi já não se ligam a antropônimos itálicos, tal como os Accioli, os Cavalcanti, os Amador, os Corvinel, os César, os Dória, os Espíndolas, os Gentil, os Jacome, os Montenegro, os Nápoles, os Moreu, os Vivaldo, os Morgante, os Peçanha, os Secco, os Toscano, os Della Costa, os Bordini, os Maia, além de muitos outros, radicados há séculos em Portugal ou no Brasil e nas ilhas da Madeira e Cabo Verde.
Sucedeu-lhes o mesmo que aos Lins não italianos (Lintz), aos Vanderlei (Van der Lay), os Dutra e outros que se aportuguesaram (alguns se traduziram como os Silveiras) embora batavos e flamengos.
E se êstes e os intelectuais alemães, sobretudo os que nos vieram em 51, se fundiram por completo na população brasileira, não há que duvidar do poder de assimilação da nossa gente.
Como temos procurado demonstrar, a assimilação se faz sempre que há contato cultural prolongado e só não se processou entre nós lá onde isolado e inteiramente entregue às solicitações mesológicas, o camponês europeu seguiu sem contraste a sua tendência para a rotina e a imutabilidade de costumes.
Como aos alemães, tem-se acusado injustamente os italianos de resistirem à assimilação, sem se considerar a impossibilidade de ela se efetuar no isolamento em que ficaram. Mas se vênetos e lombardos são celtas e germanos latinizados, evidente é que se encontram já mais próximos de nós que os nórdicos de fala.
É certo que 393.934 pessoas, ou 11,86 % da população rio-grandense, falavam o alemão no lar em 1940, e que 295.995, ou 8,91 %, falavam dialetos italianos.
É ainda certo que o Rio Grande do Sul concentra 47,60 % dos que falam no Brasil uma língua estrangeira no trato das coisas familiares. Mas dêsses próprios dados se infere o rápido desuso da língua paterna pelos descendentes de italianos, de vez que mais nova e maior a imigração itálica que a germãnica. Concorrem para esse resultado não só a semelhança dos idiomas latinos, mas também o maior contato com as populações nacionais da serra e das próprias colônias antigas, com cujos habitantes só se podiam entender em português.
fig. nº 5 “Já o nosso vinho não teme, por algumas de suas marcas mais reputadas, o confronto com o estrangeiro comum; tamém o tipo corrente de vinho em barris melhorou consideravelmente. A produção vem se mantendo nos últimos anos acima de 50 milhões de litros.” O clichê mostra dornas-pipas para a elaboração de vinhos brancos de alta classe.
Demais, êsses números só podem impressionar aos que ignoram que se isso acontece em tal proporção, será menos por culpa dos colonos que dos governos provinciais que jamais lhes deram as vias de comunicação — as escolas que sempre nos reclamaram. É aliás evidente, por outro lado, o fracasso da resistência ultramentana movida pelos governos totalitários no sentido de prender à pátria de origem dos pais, os filhos aqui nascidos. Domenico Bartolotti, um dos caixeiros-viajantes do fascismo que por aqui andou por volta de 1930, se assinalava que só em Caxias do Sul funcionavam 40 escolas dirigidas por “italianos”, dos quais 17 subvencionadas pelo govêrno de Roma, teve de recorrer à injúria à memória de um morto ilustre para apresentar aos seus patrões o nosso inesquecível Júlio Rafael de Aragão Bozano como “morto pela sua terra adotiva após conquistar nela um lugar de destaque!”
Aliás, sobre a tentativa do chamamento à “italianitá” dos filhos de italianos, podemos historiar aqui um dos seus fracassos mais decisivos, verificado muito antes que se procurasse entre nós nacionalizar o ensino, e que testemunhamos de perto.
Desesperando, ao que parece, da ação italianizante da escola primária cujo efeito logo desaparecia ao contato da vida nacional, resolveu o fascismo subvencionar um Instituto Médio para influir especialmente sôbre os adolescentes. Veio para isso da Itália um casal de mestres mais bem preparado que os simples “insegnanti” das primeiras remessas. E Augusto Menegatti e d. Linda Menegatti, professôres laureados na Península, fundaram entre nós o “Dante Alighieri” onde ao lado do italiano e da “Storia di Roma” se ensinava contabilidade, francês, português, matemática e outras matérias do curso médio comercial.
Ao cabo de poucos anos, a inutilidade da tentativa se patenteou. A rapaziada do internato onde só se falava o italiano e se exaltava a glória romana, alguns desta capital, mas a maioria vinda de Garibaldi, Caxias do Sul, de Bento Gonçalves, de Guaporé, não se deixou contagiar. E quando o enérgico “maestro” lhes falava à mesa nos séculos de civilização latina, depreciando o Brasil, se levantavam todos e, sem comer, firmes na posição de sentido, metidos nos seus uniformes de “alpini”, protestavam em silêncio contra a injúria. Eram os Michielon, os Sassi, os De Carli, os Mottin, os Pilla, os Lubisco, eram os brasileiros da 1ª geração de nome itálico diante do diretor autoritário e estrangeiro, a jurar muda fidelidade à patria legitima e única.
E já numa atitude de revolta dos alunos o “Instítuto Médio Dante Alighieri”, cortada que lhe fôra a subvenção estrangeira, passou a ser apenas o “Instituto Médio Ítalo-Brasileiro A. Menegatti’ para encerrar, logo após, sem o menor resultado, a sua tentativa de italianização.
Anos depois fomos encontrar em Caxias do Sul o casal Menegatti, excelentes e distintas pessoas, de resto, como ecônomos do Clube Juvenil, numa função muito aquém da sua capacidade e da sua cultura, mas conformados em servirem e admiravelmente, diga-se de passagem, aos seus ex-alunos “brasiliani”, substanciais pratos da Península.
Igual fracasso coroou a obra do cônsul e escritor Mario de Carli ao tentar, criar em 1932/3 nas escolas italianas de Pôrto Alegre corpos de “balilas” e de “avanguardisti”. Denunciada por nós, pelas colunas do “Diário de Notícias”, a manobra de desnacionalização das crianças brasileiras, a tentativa foi abandonada. Mas a denúncia servira. Transferido para Nova York, lá não teve exequatur o cônsul do “fascio”.
Era por demais transparente no caso a inabilidade da pretendida italianização de crianças e adolescentes das cidades. Houvesse se exercido à socapa no âmago das colônias, talvez surtisse efeito, embora se possa bem duvidar dos resultados visto a conhecida ojeriza do imigrante vêneto pelo italiano do sul e pelos seus patrícios em geral, que lhe ridicularizam a fala e a quem em boa parte não entende. Se conservou êle sempre ardente a veneração pela grande “Itália ridenta” de cuja reconstituição histórica fôra testemunha presencial, salvo, é claro, raras exceções, sentiu-se entre nós dono do seu destino e independente do jugo romano, como o atestam as autoridades consulares, queixosas sempre do seu desapêgo às determinações do govêrno da península.
E isto se explica facilmente não apenas com a tradição de independência das repúblicas do norte, mas com a falta de escolarização italiana da maioria. Estava muito viva ainda no espírito dos velhos a opressão da escola austríaca, e os novos – dada a deficiência da escola pública italiana da época não tinham sido de todo conquistados para nova mentalidade pátria que se inaugurava. Avultado era o número de analfabetos nas levas imigratórias, e, pode-se afirmar com segurança, poucos os portadores, já não diremos de instrução primária completa, mas de um conhecimento elementar do toscano elevado à língua oficial do reino..
Na média geral do recenseamento de 1871 se verificara ali entre maiores de 20 anos, 60,17% de homens e 77,18% de mulheres sem instrução alguma, melhorando no ano de 1881 para níveis ainda insatisfatórios: 53,89%, para os homens e 72,93%, para as mulheres. A frequência média da escola italiana era aliás, mesmo em 1913, depois de vários decênios de obrigatoriedade, “davero umilianti per noi”, como confessa Filippo Virgili, professor da Universidade de Siena, no seu compêndio de estatística, pois só era superior à da Rússia e provavelmente à de Portugal e da Turquia, na Europa.
Daí que, apesar de tôdas as graves falhas da nossa instrução, pudessem os filhos de italianos, como antes acontecera aos de alemães, sobrepujar de logo em conhecimentos de leitura e escrita elementar os seus velhos pais, como por várias vêzes demonstramos.
O regime de colonização do Rio Grande
É sabido que a colonização do Rio Grande do Sul, por açorianos, alemães e italianos tem longínqua origem no despacho do Conselho Ultramarino da metrópole lusa, de 22 de junho de 1729, no qual dizia “conveniente que, se não instalando no sul, nas povoações da Colônia e outras, casais de ilhéus, e quando êstes forem insuficientes, se podiam conseguir casais estrangeiros, sendo alemães ou italianos e de outras nações que não sejam castelhanos, inglêses, holandeses e franceses”.
A êsse conselho obedeceu a metrópole ao povoar o Rio Grande com casais das ilhas, obedeceram D. João VI e D. Pedro I na fase da colonização alemã e a êle voltaria o império de D. Pedro II ao recorrer à imigração italiana quando a primeira corrente estrangeira já quase estancara e se estava revelando insuficiente.
O sistema de colonização adotado no país, desde o inicio, foi o chamado Walkefield que constituía na distribuição de um lote de terra, ferramentas, animais e sementes aos agricultores e no pagamento de módicos subsídios para a alimentação dos colonos no primeiro ano do estabelecimento.
Ao tempo do contrato Caetano Pinto & Irmão e Holtzweissig & Cia., essas condições se achavam porém muito modificadas. O colono pagava a passagem até o Rio Grande e devia indenizar, no prazo de 5 anos, as despesas feitas com sua introdução. Continuava porém o regime da diária para alimentação que era na época de 500 réis para os adultos e de 250 para os menores, prestando em troca, o imigrante, serviços na construção de estradas e caminhos vicinais.
A terra no regime imperial pertencia ao país. Dêsse modo a colonização só poderia ser promovida, de início, como o foi, pelo Govêrno Geral. Em 1848 porém cedeu esta, como já vimos, a cada uma das províncias 36 léguas quadradas de terras devolutas, destinadas exclusivamente à colonização, não podendo, na expressão textual do artigo primeiro da lei: “ser arroteados por braços escravos”.
O Rio Grande do Sul foi talvez a província que melhor aproveitou esta dádiva. Fundou, imediatamente após, a colônia de Santa Cruz. De começo tentou, pela lei nº: 229, manter o sistema de doação gratuita de terras, estipulando a área de 100.000 braças quadradas para cada lote. Corriam ainda por conta da Provlncia o transporte, as ferramentas e sementes. Já em 1854, a lei 504 mudaria por inteiro essa orientação: a colonização se faria daí por diante na base de venda da terra e da indenização das despesas nos cinco anos subsequentes ao estabelecimento e foi êsse o regime que veio entre nós encontrar a colonização italiana.
Referimos já a incerteza então-dominante quanto ao domínio das terras coloniais. Nas seis léguas em quadro da concessão imperial tinha a Província estabelecido e povoado Santa Cruz, Santo Ângelo (Cachoeira), Nova Petrópolis e Monte Alverne.
Mas, dizia a respeito, em 1882 o presidente Rodrigo Azambuja Vilanova:
“Acresce que desde a sua fundação e durante o seu desenvolvimento houve o mais lamentável descuido, que deu em resultados não saber-se hoje qual a área territorial que ocupara e conseguintemente de que parte da concessão citada já se utilizou a Província.”
Narra a confusão criada a respeito do Conde D’Eu e D. lsabel, que só puderam ser povoadas pelo Govêrno Geral e o andamento das indenizações pretendidas, para acrescentar: “De então em diante cresceu a incerteza sôbre a posse da Provlncia, não se sabendo, em casos dados, de que terras se tratavam”, pois não ocorrera a ninguém a verificação da área ocupada pelas colônias provinciais. Mandou aquêle presidente fazer-se essa avaliação, mas apenas Nova Petrópolis foi inspecionada. Entretanto, concluía ele:
“De tôdas as informações colhidas pode-se presumir que as 36 léguas da lei de 1848 não foram preenchidas; cálculo mais fidedigno porém e exato, só se terá quando houver sido feita a delimitação das colônias e avaliada a sua superfície. Então será tempo, se já não o é, de liquidar o direito da Província à inde-nização das despesas (com a discriminação dos núcleos do planalto) ou tratar-se de estabelecer que terras mais possui ela, além das 36 léguas quadradas,
“Do exposto, continuava, deve-se tirar a convicção de que em má hora e sem fundamento algum, abandonou a Província o serviço de colonização.
“A província cometeu um grande êrro confiando ao Estado o cuidado da introdução de imigrantes para o povoamento do seu solo; deixando de aumentar a área dos seus núcleos coloniais e de fundar novos; finalmente, abandonando a obra começada e resolvendo vender as suas terras, ainda não perfeitamente discriminadas, a empresas particulares.
“O resultado era para ser previsto: o Govêrno Geral fundou apenas algumas colônias, que ainda sustenta, é verdade: mas por um dêsses casos tão comuns em nosso país, com as mudanças de ministros vêm também as mudanças de plano e a imigração que de preferência e com assentimento do Govêrno procurava esta Província, tomou outro rumo, encaminhando-se hoje quase na sua totalidade para S. Paulo, sendo insignificante, o número dos que buscam a Província.”
Começara, êste é o caso, o fluxo e refluxo migratório da mão-de-obra, com o auxílio da qual o Govêrno Geral e o de São Paulo procuravam preparar a libertação da escravatura. Eram levas de trabalhadores rurais assalariados que aproveitando as diferenças das estações nos dois hemisférios embarcavam durante o inverno europeu para colher café em São Paulo e trigo na Argentina, regressando após à pátria. Vinham “fazer a América”, como diziam.
Ao contrário, porém, do que supunha o presidente Vilanova, a imigração de famílias dispostas a se tornarem proprietárias e se fixarem entre nós, continuaria para os estados do sul, registrando recordes, antes imprevisíveis, em 1890 e 1891.
É certo que a Província não mais retomaria a iniciativa a respeito. Todos os núcleos daí por diante aqui fundados, até o último daqueles anos, o foram pelo Govêrno Geral ou por particulares. Só em 1892, três anos depois da mudança do regime, o Estado entraria a cuidar do assunto.
Mas da literatura oficial do fim do império, uma página há sôbre colonização que merece ser salva das traças. É um capítulo da “Fala” do Dr. Joaquim Pedro Soares, na sessão inaugural da 19ª legislatura de que nos permitimos retirar apenas alguns períodos que ferem questões administrativas a que já aludimos.
Reflete ela, não é preciso dizer, uma reação ao descaso com que a Província estava encarando a colonização, ao abandono do problema a que chegara. E embora não se possa concordar com todos os conceitos daquele presidente, como os que entende emitir por exemplo sôbre a língua nacional, interessante é a nosso ver a exumação que aqui fica:
“É a colonização o problema de cuja solução depende essencialmente a grandeza, riqueza e poder de nossa pátria.
“Essa solução ainda não foi dada. É uma destas necessidades sociais que se não pode acudir de pronto: depende de modificações profundas nas condições da sociedade brasileira.
Fig. 6 Desbravando a mata, cultivando o solo, espalhando Lavouras, o colono italiano tem sido também plantador de cidades. A foto apresenta uma vista de Veranópolis.
“É necessário preparar o terreno para receber e fixar a torrente imigratória, para ligar ao solo com o ânimo de nêle fixar residência permanente o estrangeiro.
“Nos seus relatórios ao parlamento, o govêrno lhe dá conta de esforços feitos em bem da imigração. Gastam-se somas consideráveis com êsse melhoramento e a população do Império pouco ou nada cresce. Qual a razão desse malogro? É necessário dizê-lo com franqueza e lealdade.
“Os estrangeiros não nos tem procurado por motivos que nenhum dinheiro pode abalar.
“Abandonados, a sua vida é uma luta insana e de todos os dias, de tôdas as horas e de todos os momentos; Eles lutam com a nossa ignorância, com os nossos escravos, com os nossos costumes, com as nossas moléstias, com as nossas necessidades, com as nossas instituições.
“Para coroar todos esses males falta-lhes a primeira das liberdades: a liberdade religiosa, e a primeira das proteções, a proteção ao trabalho.
“Como todos os países, temos cometido grandes erros sobre colonização.
“Avultadíssinia despesa temos feito com êsse serviço e se não temos compensação correspondente a essa enorme despesa, contudo bastantes lucros já auferimos do grande sacrifício que temos feito.
“Os Estados-Unidos que nos ministram o exemplo dos prodigiosos resultados da colonização em país grande e novo como o nosso, também só gradual e dificilmente puderam colocar a colonização em condições de dar de si maravilhosos resultados.
“Começaram recebendo escassa imigracão espontânea, tendo atravessado um período de 20 anos, de 1790 a 1810, em que a média anual dos imigrantes introduzidos não excedeu de 6.000, tendo-os mandado buscar na Alemanha e Inglaterra.
“Só depois de longos anos, depois da independência, pôde obter os resultados que o mundo inteiro hoje admira. O malôgro dos nossos ensaios sôbre colonização, provém de várias causas, das quais as principais são as seguintes:
– O govêrno em matéria de colonizaçào se tem guiado por um princípio ilusório, uma falsa economia que não resiste ao menor exame.
– Tem estabelecido os centros coloniais em terras devolutas pertencentes ao Estado, as quais em geral são situadas em desertos, regiões longínquas onde faltam todos os recursos de que carecem os colonos para as suas necessidades primeiras.
“O governo da metrópole pela imprevidência com que durante o nosso regime colonial procedeu na distribuição de terras, a avidez que os nossos antepassados se apoderaram de vastos territórios que não podiam cultivar e a largueza com que foram concedidas estas terras, que presentemente seriam mais aptas para a colonização, eis a primeira causa geral das dificuldades com que temos lutado em matéria de colonização.
“O receio de grandes aglomerações de estrangeiros no Império tem sido um êrro que gradualmente tem embaraçado a colonização entre nós.
“Mesmo nesta província, em que uma civilização mais adiantada, a altivez, energia e valor de seus habitantes tornam mais fraco êsse anacrônico receio dos estrangeiros, êle se manifestou até em alguns presidentes da província em referência à ex-colônia de São Leopoldo, a ponto de aconselharem que não se admitissem mais colonos para aquele núcleo que se tinha constituído um Estado no Estado.”
“Entre nós tem-se acusado os colonos de não se quererem naturalizar, apesar das faculdades que para isso lhes foram dadas: de conservarem sistematicamente o uso da sua língua para não se confundirem na massa da população do país; não se prestarem ao serviço da guarda nacional e resistirem ao recrutamento e finalmente não mandarem os filhos para as escolas nacionais.
“Estas queixas não podem autorizar motivos de acusação contra a colonização e nem autorizar o receio dos estrangeiros.
“Não tem havido cuidado na nomeação de autoridades quer judiciárias quer administrativas para as circunscrições que compreendem os nossos núcleos coloniais.
“Em geral, para êsses lugares não são nomeados os melhores juízes, nem as mais distintas autoridades administrativas como devia ser.
“Nomeados em geral professôres quase analfabetos, que só conhecem e muito mal a língua nacional, para ensinar os filhos dos colonos que, mesmo nascidos no Império, em geral e muito naturalmente não falam a língua nacional, não tem podido suas aulas ser frequentadas pelos colonos.
“Nem o mestre poderia entender aos discípulos e nem êste àquele.
“Não é porque os colonos não queiram falar a língua nacional, que seus filhos não frequentam as escolas nacionais e sim porque os professôres que as regem não falam senão o português e muito mal ensinam esta língua mesma.
“O Estado tem certamente interesse em que os membros da mesma comunidade falem a mesma língua e uma há que deve ser sempre considerada como língua oficial; mas o Estado não pode obrigar a que os descendentes de uma nacionalidade diversa deixem de aprender a língua de seus pais, e sobretudo quando essa língua tem uma literatura tão rica como a alemã. E, além disso, a língua não cunstitui a nacionalidade e povos há que os nacionais falam mais que uma língua, dando-se até mais pronunciado patriotismo às vezes naqueles que falam língua diferente da oficial, como alsacianos, que falando o alemão deram exuberantes provas do mais entranhado amor à França quer antes, quer depois de deserdados daquela pátria.
“O que se dá entre nós a este respeito também dá-se em todos os países euja população é formada de raças diversas, como nos Estados-Unidos, no Canadá, no México, na Austrália, na Rússia Meridional, na Bessarábia, na Hungria, na Argélia, etc.”
“Não são as circunscrições constituídas pelos núcleos coloniais as mais apetecidas pelos juízes, nem pelas autoridades administrativas e nem pelos brasileiros, importantes, pela sua inteligência ou pela sua riqueza.”
“Assim é que o fôro, nestas circunstâncias, organiza-se muitas vezes com maus juízes, maus funcionários, de tôda a espécie que desgostam aos colonos e lhes fazem conceber maus conceitos de nós, maus conceitos que durante muito tempo transmitiam para os seus parentes, desacreditando a colonização para o império nestes centros de imigração.
“É necessário guardar o maior cuidado na escolha do funcionalismo que deve servir nas circunscrições coloniais, convindo mesmo que maiores vantagens atraíssem para aquêles pontos o melhor pessoal do funcionalismo.
“As posses e domínio de terras dadas e vendidas aos colonos não foram constituídas definitivamente porque pessoas imperitas foram, em geral, encarregadas de proceder à demarcação dessas terras o que tem sido origem de inumeráveis questões entre colonos, causando-lhes graves prejuízos e desgostos.
“O povo das colônias, ativo como é no trabalho, não conta nem facilidades, nem cômodos, nem garantias que devia gozar.
“De um lado faltam-lhe as vias de comunicação, falta-lhe o crédito, faltam-lhe as máquinas, os canais, as pontes e todos os mais auxiliares do trabalho. De outro a guarda nacional e o alistamento para o exército são verdadeiros gênios de extermínio que de vez em quando têm atacado a casa dos pobres, paralisando o movimento e a vida que encontram e deixando após si a desolação da miséria e da ruína.
“Eis mais uma grande dificuldade oposta à colonização.
“Não é exato dizer-se que a geração nova das colônias manifesta antipatia pelo espírito nacional; pelo contrário, observa-se que ela tem um certo orgulho de estar ligada ao país pelos laços do nascimento.
“Muitos dêsses colonos tomaram parte na guerra civil; nas paradas onde dominava o espírito católico, abraçaram a causa da rebelião, enquanto que os protestantes pertenceram à legalidade.
“Muitos descendentes de colonos ocupado postos e lugares importantes, na guerra do Paraguai contam-se muitos bravos teuto-brasileiros, como Niederauer que sucumbiu gloriosamente e para cujos descendentes a nação paga uma pensão.”
“Só grandes benefícios tem trazido a esta província a colonização e muito nlaiores dela ainda esperamos.”
“Pôrto Alegre e o norte da província ostentam hoje um futuro grandioso devido à colonização.”
“Não lamentemos pois as despesas que temos feito com a imigração e não façamos espécie dos nossos erros, que têm tido compensação de vantagens que os faz esquecer.
“0 Dr. Engel, Diretor da Repartição de Estatística, em Berlim, avaliando o custo de um trabalhador, faz o cálculo seguinte:
“Divide em três períodos a vida econômica de cada indivíduo; dois improdutivos e um produtivo. O primeiro período compreende a criação e educação de um indivíduo. Seguramente esse período tão é sómente improdutivo, ele é, também dispendioso porque causa desembôlso.”
“O segundo se estende de quinze a cinquenta e cinco anos; é único período produtivo. O terceiro, que vai dos sessenta até a extrema velhíce, é também, improdutivo. A êsses três períodos chama êle o 1º – juvenil, o 2º – do trabalho, e o 3º – senil.
“Avaliando o custo de um operário manual na Alemanha, estima em 40 táleres anuais nos primeiros cinco anos; sendo a média de cinquenta táleres por ano, vem a ser o custo total do operário 750.
“O Sr. Kaap nos Estados-Unidos, revendo êste cálculo e tendo em atenção o elevado preço dos objetos ali, calcula no dôbro, isto é, em 1500 táleres, equivalentes a 1500 dólares em papel, ou em moeda 1:590$000 réis. Sendo computado em metade dêsse valor o custo de um operário do sexo feminino por se prestar em idade mais tenra aos seirviços domésticos, serve a média do custo dos trabalhadores compreendidos em ambos os sexos, 1:462$500.
“Já se vê pois qual o avanço que se faz ao capital nacional promovendo a introdução de braços trabalhadores.
“Por estas razões tendo o Govêrno Geral ordenado, peremptoriamente que nenhuma despesa fôsse feita, com os colonos espontâneos, por conta do tesouro nacional nesta província, ordenei que fôssem êles aqui alojados e alimentados até as colônias de seus destinos por conta dos cofres provinciais a fim de aproveitar o resultado dos trabalhos já feitos, promovendo o aumento dessa corrente de imigração espontânea que ultimamente nos tem dado magníficos colonos”.
São, como se terá visto, as que ficam transcritas, palavras incomuns nos relatórios, e, embora não tivessem outro efeito, revelam corajosa franqueza.
Abandonada a colonização provincial, sobretudo por recusar-se o Govêrno Geral a permitir o loteamento de novas glebas sem ficar antes apurado se haviam sido ou não utilizadas as 36 léguas da concessão de 1848, entrou a florescer no Rio Grande a indústria da legitimação de posse. Só no período decorrido de 30 de novembro de 1885 a 15 de novembro de 1889, nada menos de três bilhões de metros quadrados foram declarados pertencentes a posseiros que, na maioria dos casos, mal conheciam de vista as terras requeridas.
Facilitava essa delapidação do patrimônio público o regime que, como vimos, negava à Província o que, pela autoridade desta, concedia a terceiros.
Curioso, sem dúvida, é o fato de esta legislar a respeito com liberalidade maior do que a das condições que lhe eram impostas pelo govêrno do centro. Assim, o ato n.º 30, de abril de 1886, consolidando disposições sôbre a venda de terras pertencentes à Província (note-se que esta não sabia se tinha qualquer domínio territorial liquido) dispunha, por exemplo, que as terras situadas em zonas não colonizadas, e que não fôssem contíguas às colônias, poderiam ser vendidas a preços entre um terço e um oitavo do real por metro quadrado, mediante pagamento à vista, a companhias ou particulares que se obrigassem a colonizá-las.
Sabendo-se que nas terras junto às colônias se cobrava um real por metro quadrado, obrigando-se o colono a indenizar as despesas de medição e demarcação, bem se pode imaginar o estímulo à fraude que essa legislação representava.
Proclamada a República, continuou, não obstante, como vimos, a colonização a cargo do govêrno do centro até 1891. Só daí pordiante, atribuídas, pela Constituição de 24 de fevereiro as terras devolutas às Unidades Federativas, passou o Estado a cuidar da respectiva discriminação e povoamento, embora continuasse a ser promovida e estipendiada pela União a corrente imigratória.
O primeiro ato do Rio Grande republicano relativo à colonização é de l892 e firmado por Barros Cassal. Nêle se determina que nos territórios adjacentes ou próximos dos lotes coloniais não se conceda área maior de 30 hectares, preferindo-se, para os lotes nestas condições, nacionais ou estrangeiros com família já residentes nos núcleos e “cujos antecedentes e costumes afianciem o aproveitamento das terras pretendidas”.
Dispunha ainda que nenhuma concessão de terras seria maior de cem hectares, se destinada à lavoura e de 400 se destinadas à colonização, caso em que teriam de ser divididos em lotes e entregues a colonos nacionais ou estrangeiros no prazo de 5 anos, sob pena de reverterem ao Estado.
Resguardava outrossim as zonas privilegiadas das estradas de ferro, uma faixa de 20 km em cada margem dos rios navegáveis e das estradas de rodagem, para a formação de núcleos coloniais que se destinariam a brasileiros e imigrantes.
Em virtude da crise financeira consequente à revolução de 1893, foram suspensos, logo a seguir, todos os favores concedidos à imigração. Foi por conseguinte um período difícil o que atravessaram os colonos, a propósito dos quais dizia, em 1896, o engenheiro João José Pereira Parobé, Secretário das Obras Públicas:
“É sobejamente conhecido que os imigrantes chegados a êste Estado, onde vêm procurar nova pátria e constituir-se nela um dos fatores mais importantes de seu progresso e adiantamento, são quase que exclusivamente proletários, não trazendo recursos de ordem alguma e por conseguinte compelidos a lutar com dificuldades insuperáveis até que obtenham a primeira colheita de suas plantações. Privados dos meios de subsistência e do teto provisório para se abrigarem nas matas virgens das nossas colônias, muitas vêzes desanimam, abandonando os lotes à procura de outro meio de vida. Sómente nos dois últimos semestres ficaram nesta capital 972 imigrantes que não quiseram seguir para as colônias”.
Facilitava-se então aos colonos unicamente o transporte, e dava-se-lhes trabalho nas estradas durante 15 dias por mês, mediante paga de 500 réis por metro corrente construido.
Sob tal regime fundaram-se as colônias Maciel e Guaporé, constituídas principalmente de italianos, além de várias outras, na Serra.
Afinal, em 1899, pôde o Estado legislar em definitivo a respeito. A lei nº 28 esclareceu o conceito de terras devolutas e tratou de defender as matas naturais da devastação que Sofriam. Regulou, ademais, exaustivamente, a formação de núcleos, a recepção e o encaminhamento dos imigrantes, o preço das terras, a cobrança da divida colonial, as obrigações dos colonos, etc.
Esforçava-se então o Estado pelo estabelecimento da imigração espontânea, chegando a registrar, em 1900, 71 % e, em 1902, nada menos de 77 % de imigrantes voluntários, na maioria agricultores de algumas posses.
A partir de 1903, porém, começou a Diretoria do Povoamento do Solo a remeter-nos por conta da União grandes levas de imigrantes, sem nenhuma escolha. Estabeleceu-se nesta capital uma Inspetoria de Povoamento do Solo que passou a adiantar aos imigrantes 250$000 para a casa e 150$000 para ferramentas e sementes. Visando regularizar essa vultosa corrente firmou o Estado, em 1908, um convênio com a União, pelo qual se obrigava esta a não remeter mais de 400 imigrantes por mês e a pagar ao Estado as despesas de hospedagem, à razão de 1$500 por dia e por pessoa, dar aos colonos transporte por estrada de ferro, quando fôsse o caso, e a entrar para os cofres do Estado com o já citado auxílio de 400$000 por família, para casa, ferramentas e sementes. Por sua vez obrigava-se o Estado a devolver à União 150$000 por fam’ília estabelecida, à medida que fôssem liquidando estas os seus débitos.
Alegando, porém, que não podia desfazer as levas constituídas na Europa por parentes e amigos, já no primeiro mês de vigência do Convênio remetia a União 1.361 imigrantes em vez de os 400 convencionados.
Pode-se imaginar as dificuldades e atropelos daí resultantes e que perduraram até 1914, quando foi rescindido pelo Estado o convênio em aprêço.
A 13 de julho désse ano, às vésperas da primeira grande guerra mundial, voltava assim o Estado ao regime de imigração e colonização espontânea, pago o lote de 25 hectares um têrço à vista e o restante ao prazo de 5 anos.
Justificando a medida o então presidente Dr. A. A. Borges de Medeiros, afirmava “não ter o Estado necessidade de introdução de grande número de imigrantes, por ser a sua população agrícola já bastante elevada, representando mais de 1/3 da população total e com capacidade de produção que se pode tornar dez vezes maior se o consumo o exigir”. “É preferível, dizia em ofício ao Ministro da Agricultura, voltar ao regime da colonização exclusivamente por imigrantes espontâneos estabelecidos pelo Estado, e cujas vantagens são superiores às da colonização por colonos aliciados, sem seleção, que pode convir quando apenas se quer povoar o solo, mas não quando se pretende colonizar com elementos que, identificando-se conosco, tornem-se fatôres do nosso progresso, sem inspirar receios de qualquer natureza”.
A intenção era das melhores, como se vê; o resultado foi porém o de fazer com que o excesso daquela população, “com experiência e conhecimento colhidos em largo tirocínio de trabalho agrícola”, a que se reservara a venda das terras do Estado, ir na maior parte povoar o Contestado e outras regiões de Santa Catarina e do Paraná, emigrando também para a Argentina. E o que então perdemos, foi na quase totalidade, a prolífica gente itálica, saída das velhas colônias, mas, principalmente de Alfredo Chaves, Nova Prata e Guaporé.
Os primeiros núcleos coloniais povoados de italianos
Falamos já de Conde D’Eu e de D. Isabel, a primeira colônia provincial a ser povoada na década de 70. Situou-se em terras relativamente pobres, pois pertencem, como as demais do planalto, à formação triássica, apresentando, sôbre o grés da série de Botucatu, largo derrame de basalto e meláfiro. O terreno é acidentado e, embora situado a 650 m de altura, fende-se em fundos vales por onde correm arroios tributários dos rios das Antas e Caí. Os principais dentre êles têm os nomes de Boa Vista, Marrecão e Burati.
O povoamento se fêz de início com muita dificuldade, dada a deficiência das comunicações. No já citado relatório de 1873, o agente intérprete Luiz Kraemer Walter menciona a existência de 80 lotes medidos, dos quais apenas 20 “prazos” tinham cultura efetiva, havendo mais 30 concedidos, mas desocupados, e outros 30 devolutos. E acrescenta: “tendo lembrado em meu relatório desta colônia a conveniência de se proceder à medição de mais prazos coloniais neste núcleo, entendeu S. Excia. o Sr. Conselheiro Figueira de Meio dever contratar, com o Sr. Major Palmeiro, a medição de 500 lotes. Acho êsse número exorbitante e por certo quando aconselhei aquela medição, fundado em que muitos imigrantes do contrato Caetano Pinto ali se fôssem estabelecer (o que infelizmente não tem acontecido devido a distância em que se acham dos pontos habitados), não julguei que se mandassem medir mais de 50 a 100”.
E em 1875, retomando ao assunto, nos diz que o número de lotes cultivados diminuíra de 1, pois só havia 19. Ao todo, havia ali 74 pessoas, das quais 38 católicas e 36 protestantes, 27 casadas e 47 solteiras, e, acrescenta: “Pelos motivos já externados em meus precedentes relatórios, não têm estas colônias podido prosperar, apesar da uberdade de seu solo e da ‘sua excelente situação”.
“Para se poder povoar esta colônia com alguma probabilidade de sucesso, será necessário não só aperfeiçoar a estrada que últimamente foi aberta a partir da colônia de Santa Maria da Soledade, a fim de que os colonos recém-chegados alcancem os seus prazos passando sempre por terrenos habitados; assim como que se crie uma diretoria na própria colônia com casa de moradia para o diretor, etc., enfim, que se coloque a colônia no mesmo pé em que se acham suas irmãs, oferecendo assim ao imigrante as comodidades e garantias de que tanto carece em uma colônia nova”.
Sonhava-se na época com uma estrada de ferro que partindo de Montenegro atingisse a Feliz. Seria, ao ver do agente intérprete, a salvação não só das novas colônias do planalto, mas de Nova Petrópolis, cujo desenvolvimento se via peado pela falta de boas estradas carroçáveis.
Em Montenegro continuava como agente Colonial José Antônio Rodrigues Rasteiro, que se esforçava em vão para atrair para Conde D’Eu famílias de colonos das velhas picadas. “Não tem porém sido bem sucedido – diz Walter – nem o será enquanto a colônia se achar tão segregada de outros núcleos habitados”.
Esse pessimismo se modificaria em breve. O fato é que já em dezembro de 1875 os núcleos do planalto começaram a receber novos imigrantes e em março do ano seguinte já podia o presidente José.Antônio de Azevedo Castro anunciar a existência ali de 348 lotes medidos e demarcados, e uma população de 790 pessoas, das quais 48 franceses que diz terem sido mandados “para servirem de núcleo”. Esses povoadores, dos quais infelizmente não se guardaram os nomes, se achavam estabelecidos ao longo da estrada geral e na linha Figueira de Melo. Entre êles deveriam estar aqueles 729 italianos noticiados pelo presidente e a respeito dos quais nada absolutamente dizem as listas de imigração, como fizemos notar.
De uma breve resenha histórica feita pelo Sr. Júlio Lorenzoni para o volume comemorativo do cinquentenário da imigração italiana, consta, entretanto, a seguinte lista dos imigrantes chegados a D. Isabel a 24 de dezembro de 1875: Isidoro Agostini, Cristóvão Ambrosi, João Batista Bata, Leonardo Copat, Domingos Gasperi, Pedro Dorigatti, Antônio Enel, Abraão Gado, José Giacomoni, Antônio Giovanini, João Giovanella, José Lunedi, Tomaz Pintarelli, Nicolau Pozza, José Rampanelli, Carlos Ranzi, Felix Refatti, André Slomb, Domingos Tomazinni e Mateus Valduga, todos do Trentino.
Como primeiro diretor da colônia aparece o capitão João Jacinto Ferreira, nomeado -3m agôsto de 1874, do qual, diz o relatório, “tem preenchido muito a contento a administração de seus deveres”. A 1º de fevereiro de 1876 nomeava o govêrno para o cargo de guarda-livros e professor da colônia D. Isabel o cidadão Manoel Batista Lisboa Bittencourt, percebendo a gratificação mensal de 200$000, servindo o mesmo “enquanto não tiver casa para morar e lecionar, de ajudante de diretor da colônia”.
Informa ainda o presidente Azevedo e Castro que “sendo de urgente necessidade a abertura de uma estrada na Linha Figueira de Melo e a construção de um galpão na mesma linha para receber os colonos”, ordenara ao engenheiro Sales Tôrres Homem que organizasse o respectivo orçamento.
Confessa assim o administrador, que linhas antes dissera ser uma injúria ao nosso caráter hospitaleiro os embaraços de parte dos governos europeus à imigração e afirmara ter o da província “empregado os maiores esforços, dispendendo quantiosos capitais para engrossar a corrente da imigração, já facilitando os meios de transporte, já provendo com o necessário para a subsistência o estabelecimento daqueles que demandam as nossas plagas”, que não possuía sequer um barracão para abrigar as primeiras levas remetidas a Conde D’Eu e D. Isabel, nem estava aberta a picada da linha Figueia de Melo.
Literalmente jogados no mato é que foram êsses primeiros imigrantes como daí se depreende. Não obstante, o otimismo que passara a dominar os responsáveis pela colonização afirmava em letra de fôrma que -“No curto espaço de 4 meses apresentam eIas aspecto florescente”.
E bem se pode imaginar que aspecto seria êsse quando é o mesmo presidente quem observa que, entre os imigrantes desabrigados, como vimos, “apareceram alguns casos de varíola, porém dei imediatamente as necessárias providências, remetendo ao diretor algumas lâminas de pus vacínico, e não se propagou o mal”.
D. José Barea, o eminente prelado de Caxias do Sul, no seu minucioso estudo sôbre a “Vida Espiritual da Colônia Italiana”, elaborado para o volume comemorativo do cinquentenário da imigração, nos afirma que um dos primeiros, senão o primeiro imigrante italiano estabelecido em Conde D’Eu, teria sido Cirilo Zamboni que então (l925) ainda vivia, com 83 anos de idade, que teria chegado àquele núcleo a 15 de novembro de de 1875, ali já encontrando algumas famílias, suíço-francesas. Em fins do mesmo ano e começos de 76, lá chegaram, acrescenta, numerosas famílias tirolesas, cremonesas, bergamascas, e vênetas que, transportadas de Montenegro em carretas até a casa do cidadão Cristoffel, além de Maratá, dali se dirigiram ao seu destino parte a pé, parte a cavalo, por Campestre e Poço das Antas, através de caminhos quase impraticáveis.
O mesmo ilustre.pesquisador informa que os primeiros imigrantes, estabelecidos na Estrada Geral de D. Isabel, ali chegaram a 24 de dezembro de 1875, o que concorda com o relatório do presidente Castro e com a relação do Sr. Lorenzoni.
No ano seguinte, passados os dois núcleos ao govêrno geral, cessam a seu respeito as notícias nos documentos provinciais.
Não obstante do relatório com que o presidente Américo de Moura Marcondes de Andrade passou o govêrno ao Dr. Felisberto Pereira da Silva se verifica que a situação ali não seria das melhores. O govêrno imperial recomendara a que a execução de qualquer obra pública, mesmo em benefício da colonização, só fôsse empreendida após autorização do Ministério da Agricultura. Subentendeu-se que mesmo os trabalhos dos caminhos vicinais em que se empregavam os imigrantes recém-chegados até que pudessem contar com os alimentos da primeira colheita estavam suspensos.
Em telegrama de 12 de dezembro de 1878 ponderava o presidente a inconveniência da medida que poderia até perturbar a ordem reinante nas colônias, de vez que grande número de imigrantes estava na dependência dêsse subsídio. Logo após, em ofício, transmitia ao Ministro as ponderações do engenheiro José Tomé Salgado, ex-diretor de D. Isabel, em que se demonstravam os prejuízos resultantes da paralisação da construção de, estradas, “principal elemento de progresso de estabelecimentos da ordem dos que se trata”.
Ao que parece, teria havido confusão respeito à ordem em aprêço, dado que o Ministro respondia a 20 de janeiro de 1879, declarando que o regulamento em vigor “não obrigava o governo a dar trabalho aos colonos, não o havendo”, mas autorizando a presidência da Província “a marcar prazo dentro do qual receberiam êles salário para se alimentarem, contanto que trabalhassem nos seus lotes”.
Pelo referido motivo ou, quem sabe, como resultado da grande sêca de 77, o fato é que setenta e tantos colonos de D. Isabel se dirigiram à capital alegando falta de recursos. Providenciando a respeito o cônsul da Itália, mandou o presidente recolhê-los ao barracão de recebimento de imigrantes e alimentá-los.
Verificando após que se tratava de colonos antigos que já haviam recebido os subsídios do primeiro ano, mandou intimá-los a regressarem aos seus lotes, ao que não acederam, sendo por isso excluídos dos quadros coloniais, exceção feita de Chitoline Pio que regressou às suas terras.
Para Conde D’Eu e D. Isabel, onde, parece, os ânimos não estavam tranquilos, fêz o governo seguir destacamentos de 10 praças para a manutenção da ordem.
Daí por diante escasseiam ainda mais as notícias sôbre as colônias a cargo do govêrno geral, limitando-se as “Falas” dos presidentes a referir as mudanças ocorridas na administração das mesmas.
Apenas em 1881 volta-se a tratar de ambos os núcleos para noticiar-se, então, que seu diretor, o engenheiro João de Carvalho Borges Júnior, chamava a atenção da presidência da província para a difícil posição em que se encontrava pela falta de recursos, prevenindo que em fevereiro daquele ano, por não haver crédito, teriam de ser suspensas as obras da estrada de rodagem de S. João de Montenegro, “de inevitável necessidade para a emancipação que intenta o Govêrno Geral de ditos estabelecimentos”.
Sabemos, por outro lado, que o povoamento dos lotes coloniais dos “Fundos de Nova Palmira” teve início em 1875 desde que anexado, em parte, à colônia de Santa Maria da Soledade, ali se verificara no fim daquele ano a existência de 49 italianos.
Para as primeira e segunda léguas de Caxias do Sul dirigiu-se a imigração logo a seguír. D. José Barea aponta como primeiros habitantes do território de Caxias do Sul três famílias milanesas de Monza: Stefano Crippa, Luigi Speráfico, e Tomazzo Radaelli, que realmente o foram, mas não só elas. É provável que a respeito tenha havido esquecimento da tradição oral.
O fato é que os componentes da primeira leva chegada a Caxias do Sul, a 30 de setembro de 1875, eram 110, como consta do registro de concessão de lotes. Segundo os nomes de família, assim se classificavam:
1º Radaelli, Giovanni e Maria com 9 filhos; e Tomazzo e Maria, casal sem filhos. Contava u primeiro 52 anos e o segundo apenas 39. Daí talvez o fato de só se recordar o nome do mais moço. ,
2º Crippa, Pietro (44 a.) e Maria, com 4 filhos; Emílio (41 a.) e Maria, casal sem filhos; Stefano (22 a.) e Natalina (l8 a.) de certo recém casados; Carlo e Antônia, casados, e Caetano, com 27 anos, solteiro.
3º Speráfico, Luigi (38 a.) e Ângela, com 5 filhos.
4º Casaghi, Carlo (43 a.) e Colomba, com l filho.
5º Berreta, Franeesco (29 a.) e Emilia.
6º Boratti, Giovanni (22 a.) e Teresa – Francesco (56 a.) e Adelaide, casais sem filhos; Carlo (50 a.) e Carolina, com 2 filhos.
7º Sachine, Natale (30 a.) e Luigia, com l filho.
8º Gaviraghi, Ângelo (40 a.) e Petronilia, e Luigi (26 a.) solteiro.
9º Brambiglia, Pascoale (33 a.) e Rachelle; Luigi (33 a.) e Giuliana com 2 filhos.
10º Castaldi, Paolo (23 a.) e Bambina.
11º Barbieri, Giovanni (52 a.) e Luigia, com 4 filhos.
12º Ratoti, Giacomo (38 a.) e Ângela.
13º Benedetto, Tomazzo (38 a.) viúvo, Giorgio e Eugênia, sem filhos.
14º Boccardi, Carlo (42 a.) e Catarina, com 3 filhos.
15º Mauri, Carlo (39 a.) e Luigia, com 4 filhos.
16º Colombo, Ângelo (33 a.) e Maria, com l filha; Giovanni, Mateus, Antônio, e Ambroggio, maiores, solteiros.
17º Mariani, Antônio (20 a.) e Giuseppina (l7 a.) que constituíam o casal mais novo.
Além dos rapazes solteiros, já agrupados segundo os nomes de família, figuravam ainda entre os primeiros povoadores de Caxías do Sul os seguintes: Eugênio Pegoreti, Giacomo Lamperti, Colli Ferruzzi, Luigi Porta, Zacarias Missaglia, Pietro Mame, Ângelo Maggine, Carlo Pergoni, Luigi Gervasoni, Francesco Maggine, Carmelo e Alessandro Andregoni, Agostino Salmori, Francesco Santo Agostino, Filippo Colonni, Gaspare Sardo, Natale Bonadeo, Giacomo Ferrari, Severino Conzi, Eurico Sangagli, Giuseppe Angeli, e Angelo Faccionello.
Como se observa da relação, imigravam famílias inteiras, como os Radaelli, os Crippa, os Boratti, mas também jovens casais em plena lua de mel, como aqueles Mariani que somavam ambos 37 anos e rapazes que vinham à aventura constituir aqui famílias. Teriam, é claro, que esperar novas levas, pois nessa primeira as meninas mais idosas eram Rosa Barbieri e Luigia Radaelli que contavam respectivamente 14 e 12 anos.
Certo nem tôdas essas famílias e rapazes se perpetuaram em numerosos descendentes. Mas, em geral, a família do colono era rica de filhos e D. Barea cita como exemplo a de Francesco Basso, chegada a D. Isabel em 1879 com mulher e 7 filhos e que já em 1925 se compunha de mais 63 netos, 98 bisnetos e 7 trinetos no total de 177 pessoas; a de Giusepe Mariani que, chegado com a espôsa em 1876 em Nova Milano, contava no ano do cinquentenário 80 descendentes, e a de Giovanni Barea que totalizava 102.
Em julho de 1876 começaram a chegar os imigrantes’ao Campo dos Bugres, ou seja aos lotes das 5ª, 6ª e 7ª léguas. A sede da que seria depois chamada “A PÉROLA DAS COLÔNIAS” teve a sua planta aprovada pelo Presidente Marcondes de Andrade a 10 de janeiro de 1879, o qual autorizou o diretor a providenciar na construção da igreja, no local assinalado no plano referido, pela quantia de Rs. 2:000$000, já concedida pelo Ministério da Agricultura.
Mal terminara a divisão dos lotes urbanos ali se estabeleceram Felice Laner, Luigi di Canali, Giovanni Paternoster, tiroleses; Giuseppe Sassi, e família, e Daniele Benetti, mantuanos, e Roberto Lunardi, toscano. A primeira casa construída foi a de Laner, feita de troncos de pinheiros superpostos, com a aparência de verdadeira fortaleza.
O desenvolvimento da colônia foi rápido, e aos 10 anos de sua criação contava já 13.818 habitantes.
O quarto núcleo de população italiana no Rio Grande do Sul, em ordem cronológica, mercê de sua situação no centro do Estado, do seu desenvolvimento por três municípios distintos, da vizinhança do grande centro ferroviário que é Santa Maria, não logrou o destino da maioria dos outros: constituir-se município autônomo.
Iniciada a colonização de Silveira Martins em começos de 1877, a ela foi dirigida uma leva de 70 famílias que navegou até Rio Pardo e fêz o restante do percurso em carretas, durante 15 dias, para chegar ao destino — o Barracão de Imigrantes, no Val de Buia. Dela faziam parte, segundo o Cav. Ancarani, antigo vice-cônsul em Santa Maria, Prospero Pippi, Pedro Salla, Francisco Mezzomo, Domingos Panis, Antônio Fantineli, Domingos e Guerrino Rech, Pedro e Guerrino Lucca, Valentim Zambonato, David Monaco, Matteo Borrin e vários ramos de família Dotto, compreendendo cêrca de 40 pessoas. Chefiavam-na Lorenzo Biassus e Giovani Frota. Uma segxinda leva composta de 70 famílias chegaria logo após, e no ano seguinte mais 170 viriam se alojar em seus lotes.
A colônia, atingindo em pouco o planalto, se estendeu rapidamente por novos núcleos entre os quais Vale Vêneto, Vale Veronese, Nova Palma, Norte, Nova Treviso e Dona Francisca, situados nos municípios de Santa Maria, Júlio de Castilhos e Cachoeira, além de Arroio Grande, na baixada, à margem da Estrada de Ferro.
Vale Vêneto dista cinco quilômetros da sede de Silveira Martins e 22 léguas de Cachoeira. Vale Veronese pertence igualmente, em parte, ao referido município, embora fique apenas a 12 quilômetros de Silveira Martins. Dona Francisca e Nova Treviso ficam a 36 quilômetros da sede da antiga colônia e pertencem hoje a Cachoeira e Júlio de Castilhos, respectivamente. Nova Palma, o núcleo mais distante, fica 39 quilômetros.
Do comércio de Silveira Martins e Santa Maria saíram as famílias Callage, Rosário, Cauduro, Di Primio, Aita Lôndero, Toffoli Cullau, Sartori, Fogliatto, e muitas outras que se difundiram pelo estado ganhando projeção e relêvo.
Além dessas colônias italianas que constitulram os núcleos iniciais do povoamento das matas da borda do planalto, muitas outras se estabeleceram na Província e depois no Estado, com rápido e notável desenvolvimento.
Entre os núcleos formados de italianos fundados pelo Govêrno Geral colocam-se os de Alfredo Chaves, em 1884; São Marcos, que data de 1885, estabelecido então no território de São Francisco de Paula; Barão do Triunfo e Vila Nova, ambos de 1888, nos municípios de São Jerônimo e de Santo Antônio da Patrulha; Antônio Prado, iniciado em maio de 1889; Ernesto Alves, então no município de Santiago, em 1890, e Marquês do Herval no de Osório, de 1891; fundadas pelo Estado contam-se as colônias: Guaporé, iniciada em 1892, Chimarrão, no município de Lagoa Vermelha (l897), Anta Gorda, então em Lajeado e Itapuca, em Soledade, dos quais provém o município de Encantado, e Maciel nos municípios de Canguçu e Pelotas, tôdas de 1902.
Das colônias particulares povoadas por imigrantes italianos a mais antiga é a de “Vila Nova”, nos arredores desta capital, fundada por Vicente Monttegia; “Visconde de Rio Branco” em Cruz Alta e “São Paulo” na Soledade, tôdas de 1898. Seguem-se-lhe os de São Miguel (Cachoeira) e Dörken & Cia., (Guaporé) em 1899, os núcleos de Araçá (8/3/l9Ol), Cacique Doble (3/4/l9Ol), Sananduva (l/6/1902), e São Ricardo (9/5/1904), todos em Lagoa Vermelha, e os lotes de Bastian & Cia. (l9O6), Deodorópolis (l9O8), e Ed. Palassin (l9ll), em Guaporé.
Nas grandes colônias mistas do vale do Uruguai, é notável a contribuição do elemento italiano ao povoamento de Erechim, colônia fundada por proposta da Diretoria de Terras e Colonização de 6 de outubro de 1908, começada a povoar em fevereiro de 1910 com a chegada ali da primeira leva composta de quatro famílias com 28 pessoas e 8 solteiros e emancipada em 30 de abril de 1918, já com 32.000 habitantes.
Vinho, pão e produtos suínos
Colonizado o Rio Grande por povos habituados a beber vinho por água, desde cedo desenvolveu esforços no sentido de produzir, o seu próprio vinho. Já na Capitania o capitão-mor Manoel Bento da Rocha, fabricava em Pelotas de 5 a 6 pipas e Manuel Macedo, em Rio Pardo, chegou a produzir 15 pipas num ano, merecendo honrosa provisão da Junta de Comércio do Rio de Janeiro.
Os imigrantes renanos traziam igualmente alguma tradição enológica e aqui chegados com as suas vides, entraram a cultivá-las para o consumo.
Pode-se, entretanto, atribuir a João Batista Orsi, pois que viera especialmente para isso, a fundação da viticultura colonial, em 1825.
Não progrediu esta, porém, como seria de desejar.
E se é certo que se ia procluzindo para o consumo, só muito mais tarde começa o vinho a aparecer na pauta de exportação com quantidades ínfimas e sob o título de “Vinho Nacional de São Leopoldo”. Em 1872 há, por exemplo, anotados 8 barris, e em 1881 já se apontavam 23.
Narra o Dr. Celeste Gobatto que desde os primeiros anos o imigrante italiano procurou adaptar à nova terra os bacelos que trouxera da Europa. Preocupado com o insucesso que, em geral, experimentou, não sabia como dar-lhe remédio.
Mas, descendo de suas montanhas com os primeiros produtos para venda no Caí, depara nas imediações de Feliz as belas latadas de Isabel do calono germânico e desta entrou a fazer a base da vinicultura rio-grandense, dada a sua robustez e grande resistência mesmo às geadas tardias, visto que rebrota carregada de cachos.
Por volta de 1896 o Govêrno do Estado entrou a animar a iniciativa do colono italiano no sentido de obter vinho nacional de boa qualidade. Importou bacelos, fundou uma Estação Experimental de Agronomia, na qual se fizeram as primeiras análises dos vinhos produzidos, aconselhando-se a correção do mosto e outras medidas indispensáveis, sobretudo, à conservação do produto.
Em 1898 mandou vir 25.000 bacelos por intermédio da Casa João Adolfo da Fontoura Freitas e os fêz distribuir aos colonos de Caxias do Sul, Antônio Prado, São Marcos, Alfredo Chaves, Ijuí, Bento Goncalves, e também a agricultores de São Leopoldo, da Tristeza e a proprietários de chácaras nesta capital, com o que dispendeu Rs. 3:199$760, mais 42$500 de embalagens e carretos. No ano seguinte importou do Uruguai mais 20.000 bacelos, gastando a quantia de Rs. 2:751$878 com os mesmos e 175$500 com o seu transporte para as colônias. Enquanto isto, a Estação Agronômica estudava a adaptação de viníferas e comparava os produtos das castas finas e das comuns, realizava enxertos etc. Dêsse modo já em 1901 podia distribuir 8.800 bacelos de produção própria, o que continuou a fazer até 1910, quando foi cedida à Escola de Engenharia.
Por essa época estabelecera o Estado em Guaporé um pôsto agronômico que, sob a direção de Lucanno Conedera, entrou a enxertar castas finas e aconselhar a substituição de Isabel por estas, ensinando o processo de enxertia mais ao alcance dos colonos.
O próprio pôsto produziu, em 1910, 250 litros de vinho de Vernácia branca, 250 de Cabernet, 250 de Merlot, 500 de Marta e 250 de Isabel.
Coube a Antônio Pierucinni e Abramo Eberle, agricultores e industriais caxienses bem conhecidos, a introdução do vinho riograndense em São Paulo. O primeiro conduziu em lombo de burro os primeiros barris a São Simão onde os vendeu, e o segundo, dois anos depois, em 1900, se arriscou a levar à própria cidade de São Paulo, vinho e graspa que encontraram aceitação.
Criou-se assim para a colônia italiana um mercado certo, como incentivo à produção. Aos poucos foram conquistados outros mercados brasileiros, mas não a ponto de evitar a superprodução que, afinal, se manifestou, ameaçando de ruína a nossa vitivinicultura, por volta de 1928.
Fundou-se então o Sindicato Vinícola, depois transformado em Instituto Rio-grandense do Vinho, com o fim de regular a produção e obter a progressiva melhora da qualidade do artigo através da substituição da Isabel por castas de viníferas e híbridas. Ao lado do organismo oficial de defesa que, então, só congregava os industrialistas, organizaram-se, sob a orientação entusiasta do agrônomo do Ministério da Agricultura, Dr. Paulo Mosetsohn Monteiro de Barros, dezenas de cooperativas de produtores.
Da ação de ambos os grupos e sobretudo graças aos valiosos trabalhos da estação Experimental de Viticultura e Enologia, de Caxias do Sul, resultou que, embora se esteja longe da total substituição de cepas que se faz necessária, já o nosso vinho não tema, por algumas de suas marcas mais reputadas, o confronto com o estrangeiro comum; também, o tipo corrente de vinho em barris melhorou consideravelmente.
A produção vem-se mantendo nos últimos anos acima de 50 milhões de litros. Em 1946 atingiu precisamente a 57.291.637 litros no valor de Cr$ 117.209.604,00, números sem dúvida altamente expressivos, se tivermos em conta que se verificam em apenas 15 municípios nos quais predomina a colonização italiana.
A maior produção vinícola é a de Caxias do Sul que registrou naquele ano 24.352 Hl no valor de 55,6 milhões de cruzeiros; segue-se-lhe Garibaldi, com 9,159 Hl e 12,4 milhões e Bento Gonçalves com 8,610 Hl e 20,2 milhões.
A base da alimentação do camponês lombardo ou vêneto é a “polenta”. Uma larga fatia dêsse substancial bôlo de farinha, de milho cozido, algumas fôlhas de salada e um litro de vinho, constitui, quase sempre, a sua refeição matinal. E a polenta acompanha os demais repastos como elemento principal, a menos que haja “pasta sciuta”, o conhecido talharim ou macarrão, de farinha de trigo.
Necessàriamente, assim, seria a do milho a lavoura de base da região, visto que, servindo ao homem, serve também à criação doméstica e é consequentemente dupla fonte de produtos alimentícios. Quem diz milho diz também aves, ovos, porcos, banha, produtos de salsicharia, etc.
Lavoura que admite largo tempo para sementeira, pois esta se pode estender de agôsto a janeiro; de pouca exigência quanto ao preparo da terra, foi iniciada logo após a primeira coivara, e prossegue intensa até hoje, aproveitando ladeiras íngremes e grotões até o esgotamento do terreno que se deixa então repousar, crescendo a capoeira para nova queimada. Afirma o Dr. Gobatto que nas terras recém-desmatadas chegou-se a semear de 8 a 10 vêzes no mesmo lugar o precioso “grano-turco”.
Daí que, tomando-se a produção dos 15 municípios de maior população colonial descendente de italianos, se verifique que colhem 42 % do milho produzido no Estado. Dentre os povoados compostos exclusivamente de colonos peninsulares, são maiores produtores os de Nova Prata com 66.000 toneladas no valor de 35 milhões de Cruzeiro e de Guaporé com 63.900 toneladas no valor de 32 milhões.
Ao lado do milho, plantou o colono, empiricamente, o trigo para o próprio consumo, usando sementes importadas. A partir, porém, de 1900 entrou o Govêrno do Estado a incentivar o aumento das sementeiras, animando o plantio, sobretudo, nas colônias novas. Das sementes distribuídas inicialmente aos colonos, em 1901, pequena foi a colheita em virtude da sêca.
Mas, aos poucos a lavoura tritícola se foi desenvolvendo. Em 1909 colhiam-se 15.250 toneladas, em 1913 já a colheita se elevava a 53.694, para ultrapassar em 1923/24 de 110.000 toneladas. Destas, cêrca de 70 % provinham da zona colonial italiana, principalmente de Alfredo Chaves que era o principal produtor, Caxias do Sul, Guaporé, Bento Gonçalves, Garibaldi e Antônio Prado.
À vista dos bons resultados colhidos, estabeleceu o Govêrno Federal em Alfredo Chaves, com a colaboração do Govêrno do Estado, que doou as terras necessárias, a Estação Fitotécnica na qual já em 1922 existiam 40 variedades de trigo em seleção e estudo.
Hoje, que a produção de trigo no Rio Grande do Sul se eleva a 260 mil toneladas, colhem os municípios da velha região 64 mil, ou seja 1/4 da produção total do Estado.
No conjunto, somados os demais núcleos produtores, pode-se afirmar, com segurança, que cerca de 60 % da produção rio-grandense de trigo é obra do colono italiano e seus descendentes, avaliando-se em 370 milhões de cruzeiros o respectivo valor.
Com pão e vinho em abundância consolidou a colônia italiana a sua prosperidade. Mas não só de pão e vinho vive ela. Outras lavouras florescem em suas terras, sem porém assumirem a importância das enumeradas. Mesmo assim têm vulto relativo as culturas de feijão, batata doce, cana, cevada e mandioca.
Recentemente, a partir de 1933, outra lavoura promissora entrou ali a se desenvolver, graças à fácil adaptação do agricultor peninsular — portador de larga tradição linífera — ao seu amanho. O colono, aliás, sempre plantou linho para fibras com que alimentava as roças domésticas. Durante a primeira guerra européia, incentivada a cultura por industriais do Rio de Janeiro e estabelecida em Farroupilha a usina de beneficiamento de Gomes & Cia., chegou esta a tratar 230 toneladas de palha. Mas, deficientemente a fibra obtida, sobretudo pela falta de sementes apropriadas e pela colheita tardia com que se pretendia obter ao mesmo tempo sementes em abundância para venda às fábricas de óleo de linhaça, mal paga a palha, desapareceu em breve o interesse pelo utillissimo têxtil.
Este voltaria porém quando, importando sementes da Holanda, entrou a empresa A. J. Renner desta capital a se interessar pelo produto. Posteriormente selecionou o professor José Grosmann, da Escola de Agronomia desta capital, por solicitação, daquela emprêsa, variedades mistas de línho têxtil, adaptadas às condições locais. E resolvido pela ciência e pela técnica o problema de base, inauguradas pela firma Renner & Beltrami, usinas para o tratamento da palha, de início em Farroupilha e a seguir em Veranópolis, a cultura do linho têxtil constitui hoje rendosa lavoura de inverno, ao lado do trigo. As plantações de linho se desenvolvem igualmente em Erechim onde uma terceira e moderna usina para o preparo de fibras foi há poucos anos inaugurada por aquela indústria do vestuário.
Dêsse modo assegurou-se ao colono, ao lado da produção da uva e do milho, culturas permanente uma, e de verão a outra, duas lavouras hibernais de grande rendimento e de segura e compensadora colocação no mercado, garantindo-se-lhe a tranquilidade e a relativa abastança em que vive, pois dificilmente poderá haver crise contemporaneamente dos quatros produtos em que se funda hoje o seu trabalho fecundo.
Para quem acompanhou de perto, como conosco aconteceu, a crise colonial de 1928/30, motivada pela superprodução vinícola, a situacão atual se pode considerar lisonjeira. A produção se vai diversificando, como vimos, e já o milho e o trigo superam em valor do vinho, tendendo o trigo a se fixar como principal lavoura anual da região.
Sobrevoando hoje o planalto em tôrno do Vale do Rio das Antas pela quadra final da primavera, o viajante se surpreende ante o número e a extenção dos losangos de ouro que se incrustam nas encostas e nos cimos, atestando a atividade fecunda da região e a sua riqueza. São os trigais aqui, as lavouras de linho ali, a madurar ao sol as messes fartas.
Tomada em conjunto a produção agrícola – exceto a de uva – dos municípios da chamada zona velha da colonização italiana, obtém-se o seguinte quadro extraído das apurações do Departamento Estadual de Estatística:
Municípios
Area plantada – Ha
Produção – Ton.
Valor Cr$ 1000
Antônio Prado
19.840
21.677
35.398
B. Gonçalves
16.853
18.842
28.603
Caxias do Sul
17.039
21.521
32.037
Encantado
24.702
41.921
39.274
Farroupilha
10.1359
13.907
19.286
F. da Cunha
5.578
7.195
9.661
Garibaldi
11.430
16.384
23.141
Guaporé
69.265
106.475
72.299
Nova Prata
53.545
93.923
60.452
Veranópolis
16.635
60.096
32.429
Soma
245.546
401,941
352.580
Por sua vez, a produção pecuária que tem no rebanho suíno o maior valor na região. assim se representa nos seus municípios:
Município
Quantidade – Kg
valores – (1.000 Cr$)
Antônio Prado
315.452
2.161
Bento Gonçalves
547.103
3.899
Caxias do Sul
4.654.219
52.807
Encantado
5.274.749
63.462
Farroupilha
506.443
2.538
Flores da Cunha
224.826
931
Garibaldi
417.498
1.834
Guaporé
5.541.033
56.386
Nova Prata
2.536.328
26.590
Veranópolis
2.562.308
33.631
Soma
22.579.959
245.239
Quando se manipulam algarismos como os que aqui ficam consignados é que se pode calcular o quanto vale a assombrosa tenacidade do agricultor italiano localizado, em regra, em lugares de difícil acesso e desprovidos de meios de comunicação com os centros consumidores, por largos decênios. Vimos a propósito o que foi de início a luta das colônias de borda do planalto, luta que se prolongou até 1910, ano em que foi inaugurada a via férrea de Montenegro a Caxias do Sul. Outras, porém, continuaram isoladas, e em 1911 dizia o Diretor de Terras e Colonização do Estado, Engenheiro Torres Gonçalves, em relação a Guaporé, estas palavras de quase descrença no seu progresso:
“Por falta de Viacão conveniente, a maior parte da região agrícola do Estado não tem o desenvolvimento que poderia ter.”
“Para citar um caso de mais característicos, Guaporé, por exemplo, onde as terras se prestam bem à cultura do trigo, não pode desenvolvê-la por que o frete de um saco dêsse cereal de lá a Pôrto Alegre, custa mais de 3$000 e o trigo argentino vale na cidade do Rio Grande cêrca de 6$000, limitando-se por isso a produzir para o consumo. Em relação aos poucos gêneros que consegue produzir em condições de suportar o onerosíssimo frete por exemplo, a banha, acontece entretanto, nas ocasiões de grandes sêcas, como sucedeu ainda neste ano, ficar o produto esperando meses na barranca do rio, no pôsto de General Osório, aguardando que as águas cresçam e até lá sujeitos à deterioração e às oscilações de preços, acarretando enormes prejuízos. Assim em muitos casos.
“Quer dizer, a maior parte dos municípios agrícolas do Estado tem ainda o seu desenvolvimento atrofiado por falta de vias de transporte barato.”
“Muitas riquezas, e me refiro só às exploradas, ficam ai perdidas sem proveito para a comunhão.”
Em relatório subsequente fala-nos do surpreendente progresso de Ijuí e Erechim, graças à Estrada de Ferro, e volta a mostrar a situação contrastante de Guaporé, paralisada em seu desenvolvimento pela ausência de comunicações fáceis com a Capital. Enquanto pela Viação Férrea um saco de feijão ou de milho, pagava de frete de Erechim até Pôrto Alegre 920 réis, de Guaporé até aqui, num percurso quatro vêzes menor, era o mesmo volume onerado de 3$500.
Era isto em 1912, e certo não imaginava o Diretor de Terras o enorme vulto que tomaria o transporte rodoviário, uma vez tornadas realmente “de rodagem” as estradas coloniais.
Colonos industriosos e ativos
Como assinalamos já, as levas imigratórias de vênetos e lombardos, além de famílias de agricultores, traziam igualmente artífices e rapazes ainda sem rumo fixo na vida, mas “industriosos”, nos termos do contrato Caetano Pinto.
Como por tôda a parte na Europa, na Itália do Norte, o camponês devia conhecer as artes e ofícios mais comuns, dada a necessidade de se bastarem a si próprias as famílias, em regra numerosas.
Vimos assim, desde o início, ficarem nas cidades principalmente os solteiros e vimos também deixarem a agricultura muitos chefes de família, apenas acumulada alguma economia, para se dedicarem, nos centros urbanos, aos ofícios menos incertos e talvez mais lucrativos.
De um grupo de rapazes de Cartigliano, província de Bassano – Vêneto – sabemos, por exemplo, que se fixou nesta capital em 1887. Trabalharam todos, de início, como pedreiros e serventes de obras, como construtores das linhas de carris urbanos e depois como empreiteiros dos serviços mais variados. Um dêles se foi para o interior, empreitando construções ou nelas trabalhando, como na Charqueada do Paredão, na Estrada de Ferro de Cacequi a Uruguaiana, onde, em consequência da revolução de 1893, perdeu quanto ganhara, com a fuga dos engenheiros antes de medido o trabalho executado. Outros aqui ficaram e acabaram por se fazerem comerciantes, prosperando.
Entre os prédios que edificaram nesta capital conta-se a primeira sede da Cervejaria Bopp, na rua que era então realmente da Floresta e o palacete da Independência esquina da rua da Conceição, hoje de propriedade do dr. Eurico de Oliveira Santos, que foi a primeira casa residencial de estilo neoclássico, construída em Porto Alegre. Foram esses práticos os predecessores dos Tomatis, dos Ferlinis, dos Toigo, dos Geremia, dos Cauduro, de dezenas de engenheiros-construtores, antigos ou atuais. Entre êsses imigrantes havia Pillas, Marinos, Antonellos, e Pellandas e essa é a razão por que lhe conhecemos a história desde a primeira morada no Morro do Céu que, com o Morro do Carneiro, hoje desaparecidos, eram os únicos pontos habitados da atual avenida, do Beco do Barbosa e da Rua Aurora, vale dizer da Rua Barros Cassal, para diante.
Nas sedes coloniais, igualmente, as primeiras oficinas, os primeiros negócios, as construções, os trabalhos das estradas, foram, em regra, obra do imigrante solteiro sem direito a concessão de lotes rústicos, como então se dizia.
Na colônia Barão do Triunfo, por exemplo, já no 5º ano do povoamento encontravam-se os 578 italianos ali então existentes, produzindo 10.320 quilogramas de banha, 77 dúzias de tábuas, 185 pares de calçados, 11.070 quilogramas de erva-mate, etc.
Em Jaguari, onde a população italiana se distribuía pelos núcleos Jaguari, Ernesto Alves e Toroquá, existia moinho e serraria a vapor, 23 engenhos hidráulicos, 16 sapatarias, 8 ferrarias, 9 marcenarias, 2 selarias, l funilaria, etc. Mesmo em Vila Nova, no municlpio de Santo Antônio, os italianos concentrados no Bocó, na Baixa Grande, e no Caraá, possuíam moinhos e três casas comerciais.
Não admirará assim que nas colônias mais prósperas e mais antigas o desenvolvimento comercial e industrial já se fizesse notar pela sua importância.
Caxias do Sul, por exemplo, contava, em 1892, nada menos de 10 serrarias hidráulicas e três a vapor, 2 moinhos a vapor e 50 hidráulicos, 7 curtumes, 7 fábricas de cerveja e três de licores, uma de gasosa, três de chapéus, uma de obras de vime, uma de pó inseticida, duas de sabão, 14 ferrarias, 5 funilarias, 8 marcenarias, 25 sapatarias, 12 alfaiatarias, l tanoaria, 2 selarias e 2 lombilharias, 26 alambiques, 3 teares, além de numerosas casas de comércio.
Mas não apenas ali a prosperidade do italiano se fêz notar. Por todo o Estado espalhou-se a corrente imigratória de artífices e comerciantes. Lamentàvelmente o censo de 1890 não classificou os estrangeiros por municípios. Mas fê-lo o de 1920, e dêle vimos que os italianos estavam presentes em tôdas as cidades e vilas então existentes. Afora os municípios constituídos dos territórios das antigas colônias, encontravam-se italianos em elevado número nos de Cachoeira (l.198), Erechim (l.680), São Vicente, atualmente General Vargas (1.114), Ijuí (825), Júlio de Castilhos (l.176), Lagoa Vermelha (l.921), Passo Fundo (l.767), Pôrto Alegre (5.587), Rio Grande (937), Santa Maria (l.636), São Francisco de Assis (737), São Francisco de Paula (683), Soledade (544) e Vacaria (649).
Do “Guia da Exportação do Estado”, impresso em 1933, vê-se que das 32 fábricas e oficinas de Alegrete, 9 pertenciam a pessoas de nome italiano; das 56 existentes em Bagé, 11 eram mantidas por gente itálica; em Uruguaiana das 36 registradas 12 estavam em mãos de italianos ou descendentes; em Santa Vitória das 12 existentes 5 tinham nomes peninsulares e no outro extremo, na distante Palmeira, não faltava um Bindo com engenho de erva-mate, um Toniolo com moinho de trigo ou um Salton com fábrica de produtos suínos.
Por todos os quadrantes do Rio Grande os industriosos imigrantes que, dia a dia vão desaparecendo, deixaram traços do seu espírito de iniciativa e de emprêsa. Até mesmo na mais nacional das indústrias — a do charque — poder-se-ia anotar as firmas de Arcanjo A. Petrarca em Ibaré e de Natale Conte em Guaíba e Caxias do Sul.
Fazendeiros, criadores de bovinos e ovinos, ali mesmo em Lavras do Sul em pleno coração do Estado, se poderiam contar além do mesmo Betrarca (outro construtor de estradas de ferro, feito gaúcho) um José Chiapetta, um David Mazzinni, ou na farroupilha Caçapava, um Mandelli ou um Stefani, como na tradicional Cacimbinhas um Trapazza, um Brizolla e um Mariani.
Contudo isso sobrou gente para povoar o vale do Rio do Peixe, a região de Xapecó em Santa Catarina e o sudoeste do Paraná, de agricultura e indústrias transferidas para novas terras pelos filhos dos primeiros colonizadores do planalto gaúcho.
Já Lothar de La Rue, um dos agentes intérpretes da colonização observava, em 1871, que a indústria é filha primogénita daquela. E isso, realmente, se observa no Rio Grande do Sul onde grande parte da indústria tem base no artesanato rural, que recebemos com as levas imigratórias.
Em tôdas as grandes indústrias estabelecidas no Estado por emprêsas nacionais figuram nomes aqui fixados pelas torrentes imigratórias européias, sobretudo por alemães e italianos, as mais numerosas.
Se passarmos em revista cada um dos ramos da indústria rio-grandense, nêle veremos em destaque os nomes italianos acompanhando de perto, em número e importância, os oriundos da corrente mais antiga. Assim na metalurgia onde se destacam Abramo Eberle e Amadeu Rossi; na fiação e tecelagem em que se contam estabelecimentos como a Cia. Italo-Brasileira de Rio Grande e a fábrica criada por Hércules Galó no bairro que tem o seu nome; na indústria do couro, que em Caxias do Sul e Guaporé conta com grandes curtumes; na de produtos alimentícios em que há frigoríficos como os de Risso o Della Pasqua & Duvina; na de materiais de construção em que aparecem Ghisolfi e muitos outros; na de máquinas agrícolas, na de lacticínios de que foi expoente Vitório Bonfanti, na de produtos químicos, na de refratários, em todos enfim surgem os trabalhadores e dirigentes, como que por milagre, tirados da massa de agricultores imigrados para o simples amanho da terra.
Do cadastro de emprêsas industriais organizado pelo Senai, em que figura a maioria por designação e não por firmas, as prefeituras municipais, inúmeras sociedades anônimas ou por quotas, com designação específica, além de empresas mistas, contamos 1.439 firmas de italianos e descendentes, contra 1.861 de nomes germânicos. Números sem dúvida expressivos dada a diferença de 50 anos entre uma e outra Colonização.
Mas embora dêem até certo ponto a medida do desenvolvimento tomado pela indústria da zona de colonização italiana, não dizem tudo, visto a dificuldade ocorrente de, na maioria dos casos, identificar-se pela origem dos sócios, as denominações usadas.
Mais completa e talvez mais elucidativa será decerto a estatística industrial apurada pelo Departamento do Estado, classificada por municípios, da qual, em relação, aos que compõem a chamada velha região colonial italiana, se apura:
Municípios
Nº de Estabelecimentos
Capital – Cr$ 1.000
Nº de Operários
Antônio Prado
62
3.467
87
B. Gonçalves
145
22.045
646
Caxias do Sul
442
126.940
5.660
Encantado
185
19.115
467
Farroupilha
187
10.312
556
F. da Cunha
52
3.639
526
Garibaldi
161
12.101
512
Guaporé
320
25.043
1.119
Nova Prata
253
19.001
527
Veranópolis
113
7.246
345
Totais
1.912
248.909
10.525
O que impressiona no quadro acima não é a soma geral que, confrontada com a dos velhos municípios da região da Encosta da Serra, apenas chega à metade de seus índices industriais pela simples razão de que contam aquêles também metade da população dêstes; é o notável desenvolvimento do parque industrial caxiense que, mal situado em relação aos portos de embarque, mais novo, e sem dúvida mais mal provido de combustíveis e de energia elétrica, pôde superar muitos velhos centros como Novo Hamburgo, Montenegro, Santa Cruz ou Lajeado. E se não supera São Leopoldo no número de estabelecimentos ou de operários, igualava-o, entretanto, já em 1946, no capital empregado na indústria.
O fato é tanto mais de notar quanto é certo que São Leopoldo não só dispõe de facilidades incomparáveis de situação, mas conta ainda com maior área territorial e população maior que a da Pérola das Colônias, tendo ainda atraído para o seu território indústrias fundadas na zona colonial do planalto, mercê da energia elétrica abundante com que conta.
O confronto, sem desmerecer em absoluto da capacidade e do admirável espírito de iniciativa do colono alemão e de seus descendentes, serve para desmentir a pretendida indolência dos latinos e, em parte, a suposta superioridade de visão econômica de que gozariam os povos protestantes sôbre os católicos.
De fato, na história da colonização do Rio Grande do Sul, em mais de uma oportunidade tiveram idênticos meios e possibilidades iguais, protestantes e católicos, nórdicos e latinos e lá mesmo de onde desapareceram irlandeses, suecos, holandeses e imigrantes de outras nacionalidades menos preparados para a emprêsa econômica, como poloneses e russos, vingou a colonização italiana e prosperou ao ponto que hoje contemplamos.
Fôrça é assim reconhecer na colonização italiana, entre nós, qualidades idênticas e equivalentes, na capacidade de adaptação e de esfôrço, na produção, na tenacidade e na inteireza moral, às que distinguem a alemã.
Em relação a ambas se pode felicitar o Rio Grande por havê-las atraído conseguindo fixá-las a seu solo fértil, fato que se foi causa da prosperidade econômica do imigrante, não o tem sido menos do progresso geral do Estado e do Brasil.
Aspectos culturais da colonização
A primeira verificação a que se chega no confronto dos resultados dos últimos recenseamentos do Estado é a de que vai, rápida e progressivamente, diminuindo o númerer de estrangeiros da nossa população.
Vale dizer que as baixas sofridas pelos componentes das antigas levas imigratórias não tem sido preenchidas, pois existindo em 1920 no Estado 151.025 estrangeiros, só dêles se encontravam 90.710 em 1940.
No que diz respeito aos italianos o decréscimo se fêz violento nos últimos vinte anos de intervalo censitário. Em 1900 se registraram 58.466. Reduziram-se a 49.136 em 1920 e dêstes restavam em 1940 apenas 18.785. Como é natural, a diminuição se fêz maior nos núcleos mais antigos. Em Bento Gonçalves reduziram-se de 2.813 a 610, apenas; em Garibaldi de 1767 a sómênte 434. Municípios há de onde quase desapareceram, restando apenas 2 em Herval, 3 em Aparados da Serra, Bom Jesus do Triunfo, Encruzilhada do Sul, General Câmara e Taquari, 4 em Rio Pardo e 5 em Caçapava e São Lourenço. Caso único de manutenção do mesmo número se verificou em Santa Cruz do Sul, onde existiam, nos dois censos, 29 italianos.
É provável, certo mesmo, que não seja apenas consequência da mortalidade o decréscimo registrado. A emigração para Santa Catarina, para o Paraná e para a Argentina deve ser responsável pelo despovoamento de centenas de lotes coloniais de Guaporé e Veranópolis, por exemplo, municípios que, no recenseamento de 1940, se verificou haverem sofrido um maior desfalque populacional.
Contava o segundo em 1920 nada menos de 32.395 habitantes, dos quais 4.911 italianos. Em 1940 a população descera para 16.600 habitantes que, somados aos 23.000 de Nova Prata, desmembrado de seu território, totalizavam apenas 39.600, entre os quais 1.103 italianos remanescentes. Tambem Guapore aumentou apenas de 39.380 para 45.400, enquanto que Caxias do Sul, que contava em 1920 só 33.773 habitantes, passóu a 62.800, somados os de Farroupilha e Flores da Cunha de lá emancipados.
O abandono da terra se fêz ali mais vultoso em razão da dificuldade de transportes a que aludimos noutro capítulo, do ônus dos impostos e da exaustão do solo, dado o processo indígena de sua exploração. Nas colônias novas de Santa Catarina, situadas à margem ou à pequena distância da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, além da terra virgem se oferecia ao colono a isenção de impostos por 15 anos com, a finalidade de atraí-lo. Famílias inteiras transferiram se para ali. E o mesmo espetáculo de desconfôrto, que caracterizara as levas vindas da Europa, se verificou à saida dos numerosos cortejos de retirantes que, entrouxada a roupa de uso, se punha a caminho de prometidas Canaãs. Por mais de uma vez nos sucedeu encontrar ocupada a vasta gare de Santa Maria por levas de imigrantes, desfeitos de cansaço e cobertos de poeira das estradas, a aguardar as novas composições ferroviárias que haveriam de conduzi-las a mais uma tentativa de prosperidade.
E no lugar do destino, pois que nada de fato aprenderam de agricultura racional na mais ou menos longa permanência do Rio Grande, novas derrubadas nas encostas íngremes dos vales e novas coivaras estão destruindo a terra que, no caso, ainda não chegaram a amar.
O Professor Orlando Valverde, numa excursão por São Leopoldo, Caí, Farroupilha e Caxias do Sul, em que se fêz acompanhar dos professôres Leo Waibel e Nilo Bernardes, aquêle mestre de geografia econômica e agrária, em trabalho que diz influenciado pela observação do primeiro, caracteriza os hábitos culturais do colono italiano, nos períodos que aqui resumimos:
Na área de colonização italiana, diz êle, a agricultura usa métodos rotineiros exceção feita da cultura da vinha. Na faixa cortada pela estrada de ferro já se não empregam porém métodos primitivos; é antes uma área de agricultura comercial.
“Nos lugares mais afastados, que ficam ao norte e a leste da cidade de Caxias do Sul, as comunicações com os centros mais adiantados são escassas; as populações vivem isoladas culturalmente. Em consequência, o sistema agrícola ai usado manteve o caráter primitivo. Apresenta notável semelhança com o sistema adotado pelos alemães na parte superior da Encosta da Serra. À medida que os Contatos culturais vão sendo feitos nas cidades mais importantes e ao longo das principais estradas, êste sistema agrícola vai sendo gradualmente removido de suas redondezas. Entretanto é chocante observar como a primitiva rotação da terra tem-se mantido mesmo nas proximidades de Caxias do Sul, ao lado da cultura da uva.
“Os instrumentos agrícolas utilizados, daí em diante, são o arado pequeno e a enxada.
“Descendo alguns vales, acrescenta, vê-se que o perfil transversal dos mesmos se assemelha aos dos vales da encosta da serra. Também há semelhanças no aproveitamento da terra. As encostas são cultivadas a tal ponto que só se vêem restos de mata onde a escarpa é quase vertical. A lavoura é tipicamente indígena; não há o menor indício de proteção à natureza, defesa contra a erosão, ou coisa que se assemelhe. Da ponte da Estrada Federal sôbre o rio São Marcos, chegamos a ver roças de milho cultivadas em declives de 60 graus!”
Descrevendo tecnicamente estes vales, diz o professor Valverde que nos maís largos, dada a resistência que cada lençol de trapp oferece à erosão, as encostas nunca são regulares, formam sempre uma sucessão de patamares e escarpas que terminam no fundo, muitas vêzes, por um verdadeiro caño.
“Quase tôdas as escarpas estão recobertas por uma faíxa de mata cuja parte superior marca com certa precisão, o rebôrdo de cada terraço. Este aspecto dá uma aparência bizarra às fotografias aéreas. Tem-se a impressão de que o tipo de agricultura da região é muito avançado porque os “debruns” de mata parecem trabalhos de terraceamento para a defesa contra a erosão.
“Infelizmente isso não é verdade.
“Há porém os vales estreitos, profundamente entalhados em forma de V, alguns formando verdadeiros cañons.
“Aí é o sertão, o predomínio absoluto das matas apenas interrompidas por uma ou outra rocinha acanhada, nos lugares onde o declive é menos abrupto.”
Felizmente, acrescentaríamos, nós, pois bem se pode imaginar o que seriam as enxurradas nesses “cañons” se fôssem desmatados.
Da transcrição feita terá visto o leitor que se atribui ali ao isolamento cultural, em que ficaram italianos e alemães, o atraso agrícola que ambos por igual apresentam logo além dos limites suburbanos das cidades e vilas. É a verdade contra a qual lutaram em vão os agentes intérpretes e inspetores de imigração e os diretores das colônias, sem que jamais lograssem ser ouvidos dos presidentes que se sucediam no poder sem tempo sequer de ler o relatório do predecessor. “Estradas e escoIas” era o binômio que viviam êles a apresentar aos instáveis governantes provinciais, sem capacidade para resolvê-lo.
Não foi diferente, na república, manda a verdade que se diga, o procedimento dos responsáveis pela educação.
É de 1890 a reclamação do diretor de Terras e Colonização a respeito das colônias italianas: “Grande, dizia êle, é a necessidade da criação de escolas onde possam os filhos dos colonos aprender a nossa língua, que deveria ser a dêles, evitando se reproduzir o que acontece nas antigas colônias alemãs”. De 1892 é a observação reiterada. “É deficiente o número de aulas de Antônio Prado e São Marcos, maximé neste”. De 1902 é o alarma de Guaporé, com 20.000 habitantes já e apenas com 2 aulas. Em 1912 dizia o diretor de Guarani: “Chego ao ponto mais triste do meu relatório, com mágoa o digo, porém a verdade deve ser ainda mais dura do que a lei, para ser verdade: há na colônia apenas 4 aulas públicas para 3.000 crianças”.
Dos núcleos de Anta Gorda e Itapuca dizia o diretor: “A única escola existente a da sede “Carlos Barbosa” em Anta Gorda, mesmo assim regida por um professor sem aptidões. e uma escola particular subvencionada pelo município de Lajeado”.
Erechim tinha por essa época 12.000 habitantes e também uma só escola. Passaria logo depois a contar 14, das quais 6 públicas e 8 particulares; ensinavam 7 destas apenas o alemão e l o polonês.
Longo seria citar exemplos, através do tempo, de reclamo sempre igual. Basta dizer que ainda em 1946 havia na Secretaria de Educação mais de uma centena de pedidos de escolas para a maioria das colônias novas no norte do Estado, até hoje desatendidos por falta de recursos e de professôres.
Mais numerosas ainda eram as solicitações de estradas, vias de transportes dos produtos e da imprescindível comunicação cultural que enseja a miscegenação.
Nestas condições de isolamento e de ausência da obra educacional, como imaginar a possibilidade de aprender a língua e adquirir conhecimento de técníca agrícola o colono de poucas letras, senão analfabeto?
O aprendizado de qualquer técnica mais apurada só poderá ser feito em qualquer das zonas antigas de colonização pela prática e pelo exemplo. Para êsse recurso tiveram de apelar a Cia. Souza Cruz quando desejou aperfeiçoar o cultivo do fumo em Santa Cruz e Santo Ângelo, e a Cervejaria Continental quando introduziu entre nós a cultura da cevada cervejeira. Do mesmo modo, ao lado das instruções impressas foi a demonstração in loco que garantiu a observância dos métodos convenientes à expansão da lavoura linífera nas antigas colônias do planalto.
Na vitivinicultura, igualmente, mais que as publicações entre as quais um excelente livro do Dr. Celeste Gobatto, produziram resultados os exemplos dos Irmãos Maristas, de Garibaldi; de Armando Antunes na Granja São Luiz; da Cia. Vinícola, na Granja União, e as demonstrações da Estação Experimental de Caxias do Sul. E se o professor Orlando Valverde pôde louvá-la lá mesmo onde a cultura do trigo ainda se faz “segundo o modêlo dos índios de Guatemala” como afirma, é porque tais exemplos e demonstrações se propagaram de lote em lote, enquanto que em relação ao trigo nunca as repartições ou os moinhos se interessaram em comprovar aos olhos dos colonos as vantagens de uma cultura racional.
A propagação e os conselhos da imprensa não atingem, em regra, as linhas e prazos coloniais, e do mesmo modo os boletins e folhetos não movem à compreensão o agricultor tradicionalista e, em geral, mal disposto a receber tudo o que vem da cidade, maximé das repartições do governo.
Para demonstrá-lo, em relação ao imigrante italiano, basta ver que a sua própria imprensa nunca passou realmente de um bi-semanário (isto nos melhores tempos) nesta capital e de um semanário em dialeto, de caráter religioso, editado em Garibaldi, ambos de pequena circulação. De “Stella di Italia” onde pontificou a bela cultura jornalista de Adelchi Colnaghi e do qual foi durante 23 anos gerente, distribuidor, tipógrafo e impressor o boníssimo Benevenuto Crocetta, basta que se diga que nunca teve circulação maior de 1.500 exemplares.
O mais foram tentativas efêmeras, como a da “Tribuna d’Italia” de Aliprandi e Aldo Dieci, em 1925, ou pasquinadas sem qualquer significação no panorama cultural da colônia.
De Adelchi Colnaghi, disse o seu mais íntimo colaborador “que à causa da italianidade e dos interesses dos italianos neste Estado dedicou abnegadamente “tuto sé stesso”. Foi um estrênuo sustentáculo das instituições coloniais, principalmente das escolas e autêntico porta-voz de 22 sociedades itálicas que o constituíram seu representante ao Congresso dos Italianos do Exterior, realizado em Roma no ano de 1911″.
Está por fazer-se o estudo do que foi a influência dessas associações o dessas escolas em o meio colonial. Das sociedades que conhecemos, podemos afirmar que se destinavam ao auxílio mútuo e ao culto romântico de tradições e a difusão do ensino e da literatura peninsular, sobretudo a de teatro, em nosso meio. Era, por exemplo, o que fazia a “Elena de Montenegro”. Se com o fascismo chegaram a desvirtuar essas finalidades, não o sabemos; mas, o certo é que tanto as sociedades como as escolas jamais conseguiram atrair os descendentes de italianos, ao menos aqui na capital, para a “italianidade” visada pelos adeptos de Mussolini que, diga-se para honra da colônia, foram pouquíssimos entre nós. No Rio Grande do Sul os maiores admiradores do fascismo e de suas ações no sentido da recomposição do Império Romano, não eram italianos ou descendentes dêles e se entre os signatários de telegramas de apoio e os agraciados com comendas do governo de Roma, havia gente de estirpe itálíca, seriam dois ou três desejosos apenas de notoriedade.
Das escolas particulares, convém que se díga, se supriram a falta de escolas públicas com que ainda hoje lutamos, concorrendo para reduzir-se o número de analfabetos na própria colônia e no Estado que se orgulha do seu índice a respeito, nunca foram além do ensino das operações elementares de aritmética, de uma péssima leitura e estropiada escrita. O mesmo se pode dizer das escolas municipais que, na falta de professôres, lançavam mão, como ainda agora, de meros soletradores de um português quase irreconhecível.
Privamos muito com o assunto para isso poder afirmar. De uma feita, aberto concurso em Caxias do Sul para a efetivação dos mestres municipais interinos, apareceram-nos professôras desejosas de algumas lições elementares de leitura, escrita e contas. Algumas não iam além da soma de números dígitos e liam segundo a ortografia da época – “parmácia” — e coisas tais. Apesar disso, foram aprovadas. Em Erechim ainda há pouco existiam professôres que, regendo escolas colocadas sob a invocação de grandes nomes nacionais, escreviam “Olavo Bilacky”, “Helmes Dafonseca” etc.
Mas, agem os coitados por necessidade, lá onde não chega o ensino estadual ou chega intermitentemente e mal, e, por que não dizê-lo, incapaz de servir às necessidades do meio e absolutamente em desacôrdo com os costumes, as crenças, a “cultura” local.
Não fôra porém êsse ensino particular e municipal insuficiente, senão inepto, e a situação de obscurantismo das linhas coloniais “italianas” como das “alemãs”, seria, sem a menor dúvida, além de alarmante, perigosa.
Na verdade, a alfabetização de que o Estado se orgulha é, em grande parte, obra sua. Mais numeroso ( O Estado, em 1946, só contava 1.484 unidades escolares, contra 4.099 municipais e 1.512 particulares e com 146.243 alunos contra 274.515 das escolas municipais e particulares), mais estável, melhor ambientado, dêle se pode afirmar que é o único que atua de fato nas zonas rurais do Estado.
E é graças a êle, ao enorme desejo de aprender das populações insuladas no interior dos municípios coloniais, que pode a estatística registrar índices de matrícula efetiva superior ao da população escolar obrigada em Flores da Cunha (l24,8), em Farroupilha (ll3,1), em Garibaldi (ll3), em Veranópolis (l08,1), em Nova Prata (l07,8), em Bento Gonçalves (l0l,8) e em Caxias do Sul (l00,l).
Imagine-se daí o que poderia ser a cultura da zona agrícola do Planalto se dotada de escola rural que merece!
Nas cidades, nem sempre essas taxas se mantêm. É o caso de Antônio Prado, de Bento Gonçalves e de Caxias do Sul, onde talvez as dificuldades da vida e as solicitações do trabalho impeçam uma maior permanência na escola ou a sua frequência por uma boa parte da população escolar.
Essa alta escolaridade característica do elemento de origem imigrantista é que permitia que já em 1925, no cinquentenário da colonização do planalto, figurassem os seus municípios com indices de alfabetização superior aos trazidos da Europa pelos seus povoadores. De fato, e tomando-se apenas os dados relativos aos homens (os das mulheres eram muito mais altos), verificamos que os analfabetos que não puderam firmar a ata nupcial totalizavam na Itália, em 1871 – 57,79 %, em 1881 – 48,29 %, em 1894 – 38,99 % em 1902 – 32,56 enquanto que no cômputo geral (noivos e noivas incluídas) as percentagens de analfabetos em nossa região colonial no ano do einquenteiiário não ultrapassavam de 12 % em Bento Gonçalves, 18 % em Nova Prata, 19 % em Veranópolis, 21 %, em Garibaldi, 22 % em Caxias’ do Sul e Guaporé, 23 %, em Flores da Cunha e 26 % em Antônio Prado e Encantado.
Não temos à mão dados mais recentes, mas bastam os que figuram no Anuário Demográfico do Rio Grande do Sul de 1942, para demonstrar o enorme progresso realizado na matéria, em apenas 17 anos, pela população colonial do planalto.
Realmente, dela se vêem índices dos mais confortadores em matéria de alfabetização de nubentes, índices que chegaram a 99,3 % em Farroupilha, 98,2 % em Garibaldi, 97,2 % em Caxias do Sul, 95 %, em Bento Gonçalves, 93,3 % em Nova Prata, 92,3 % em Veranópolis, 92,2 % em Flores da Cunha, 91,7 % em Encantado, 90,7 % em Guaporé. Essas percentagens, superiores algumas à da própria capital do Estado onde não ia além de 94,09 % sobem de mérito quando comparadas às de municípios vizinhos ao da sede do nosso govêrno, uns modestos 82 % para Canoas, 81,6 % para Guaíba, 70,6 % para Viamão e apenas 66,6 % para Gravataí.
Não é preciso assim dizer que a população de origem colonial mais recente nivela-se rapidamente à alemã e que ambas ultrapassam de muito em conhecimento do alfabeto aos descendentes daqueles heróicos açorianos e bandeirantes do primeiro povoamento, e isso por um esfôrço próprio que, se houvesse sido bem compreendido e melhor orientado pelo Estado, poderia ter produzido resultados assombrosos no adiantamento cultural do meio e na completa assimilação dos filhos de imigrantes, cuja marginalidade, onde existe, é crime que só a nós próprios devemos imputar, já que nenhum esfôrço fizemos por evitá-la.
Não admira pois que seja a Encosta da Serra a zona fisiográfica mais produtiva do Rio Grande. Ao lado da maior densidade demográfica, há nela, como acabamos de ver, maior alfabetização, e como faz notar o professor Valverde, abundância de mão-de-obra especializada nos mais diversos misteres, de onde o surto de sua industrialização.
Incalculável é, por certo, o prejuízo do Estado por não ter proporcionado a essa gente admirável escolas práticas de agricultura, escolas técnicas, capazes de difundir, sem exigências livrescas excessivas, as boas normas de trabalho rural e industrial.
Certo a capacidade de produção da Encosta da Serra e o Planalto Médio, pode ser decupllcada a qualquer momento, como dizia em 1914 o Sr. Borges de Medeiros.
Mas, teria centuplicado efetivamente, não seria apenas potencialidade, se desde então se houvesse proporcionado aos seus habitantes, como a todos os rio-grandenses, a escola rural apta, as escolas profissionais capazes, que ainda esperamos ver estabelecidas por tôda a parte para o preparo indispensável da nossa gente e para a completa fraternidade dos habitantes da gleba comum, sem as odientas discriminações em que se comprazem alguns nativistas, dêsses que em vez do “patriotismo de vida, de solidariedade e de cooperação” que Alberto Tôrres desejaria ver implantado entre nós, sentem e se orgulham de o sentir, “um patriotismo de feição medieval com traços da hostilidade dos primitivos: de ódio tribal e gentílico; patriotismo agressivo em cuja liga o sentimento adverso ao estrangeiro sobreleva sentimento de amor pelo compatrício”.
Certo êsse patriotismo primitivíssimo é, em grande parte, oriundo da incompleta educação que pôde proporcionarmos até aqui a escola primária. Mas, se reponta ainda em pessoas cultas, sobretudo nos representantes do patriciado rural em manifestações insólitas, como vimos ainda há pouco a propósito da projetada cultura do trigo em campos de Bagé, tende a se modificar nas cidades e vilas nas quais a instrução pública estadual vai atendendo ao maior número de crianças em idade escolar.
Dispondo de um professorado numeroso (embora não tanto quanto seria de desejar), mas sobretudo capaz, no qual, numa admirável prova de perfeita identidade cultural e patriótica se solidarizam em dedicação e esforços descendentes de açorianos, de alemães, de italianos, de israelitas etc., a escola estadual cumpre a sua finalidade máxima e só é pena que a ação de iguais professôres não se faça sentir também nas áreas mais remotas dos municípios do Rio Grande.
Dentre êles, 833 moças portadoras de nomes alemães e 775 de origem italiana, afirmam aos descrentes do nosso ativlssimo melting-pot a sua completa assimilação e a sua decisão de bem servir a pátria e a humanidade.
Per finire
Compulsando-se o volume com que a coletividade italiana do Rio Grande do Sul comemorou há 25 anos o cinquentenário da imigração, encontram-se elementos valiosos para caracterizar o seu estado de espírito em relação ao país que os acolheu e à inevitável perda de sua descendência para a brasilidade de coração e de fato contra a qual quiseram lutar improficuamente, como vimos, alguns poucos arrivistas.
Benevenetto Crocetta, o seu saudoso organizador, sentindo na própria carne o espinho de isolamento da sociedade nacional, procurava explicar o porquê do fato que lhe doía: “É verdade, dizia, que a Itália enviou ao Brasil apenas braços: uma multidão de trabalhadores e de operários enquanto que a Inglaterra, a França e até a pequena Bélgica, enviavam-lhe milhões de esterlinos e de marengos. Por isso os italianos ouviram não poucas vêzes serem taxados de servis, dobrando-se aos ofícios mais humildes, remissivos, pacientes e capazes de suportar qualquer humilhação”.
Mas, acrescentava, ignoram os fáceis censores que essa maravilhosa adaptabilidade italiana às piores dificuldades é que foi o melhor instrumento de proteção do povo, durante as incursões dos bárbaros e a dominação estrangeira, permitindo-lhe a glória da Renascença.
“Todos êsses caracteres que nos atiravam ao rosto como desonrosos foram os coeficientes mais úteis da nacionalidade italiana; sem êles o nosso gênio não teria podido ascender à dominação universal com o comércio, com a filosofia, com a ciência, com as letras e com as artes”.
“A característica psicológica dos italianos, acrescenta, aquela que os seus caluniadores transformaram em servilismo, é a grande modéstia, a fôrça de iniciativa e de resistência de que deram prova os colonos abandonados às solidões confinadas e pavorosas da Serra Geral.
“Se não fôsse individualista o nosso colono, diz mais adiante, não teria resistido à colonização desmetódica, irracional, desapiedada, dos primeiros tempos. A fôrça de resistência do colono italiano e da mulher que o acompanhava era assim um capital precioso, sem o qual a terra teria constituído para sempre uma riqueza passiva e não lhe teria pertencido.
“Quem pode negar, então, conclui, que não tenha sido obra de civilização a levada à cabo pelo colono italiano, idêntico sob todos os céus de alheias pátrias?” “Assim se explica o triunfo das “multidões constantes e tolerantes”, como define Lória a nossa imigração, melhor e superior a qualquer outra no mundo”.
Também o Dr. Lorenzo Cichero condena a forma de colonização sem nenhum plano de que foram vítimas os italianos. Preferiria que o imigrante tivesse aqui aportado em grupos organizados e encontrassem as colônias estabelecidas em lugares acessíveis, dotadas de boas estradas de rodagem,e facilidades de comunicações. Assim, concluía, “nenhum artifício poderia falsear ou de qualquer forma diminuir a grande contribuição que tais grupos de imigrantes teriam trazido ao progresso econômico e social desta sua Pátria de adoção. Os seus filhos, se levados pela inclinação, inteligência, atividade e fortuna, a se afastarem dos povoados nativos, chegassem ao ápice da riqueza e das honras, pensariam então sempre com admiração nos companheiros de seus genitores, pois veriam neles não “pobres imigrantes”, mas pioneiros, fatôres de riqueza, de progresso e de civilização, e se gloriariam de haver nascido na vilazinha por êles fundada, como de um título de nobreza”.
Era êsse marginalismo de imigrante que aí transparece, essa desconfiança de serem mal vistos pelos próprios filhos que, evidentemente, influía no jornal, nas sociedades e nas escolas italianas.
Os filhos de italianos assim porém não não pensavam e não sentiam, como se verifica do próprio volume em que D. José Barea, Francisco de Leonardo Truda, Mansueto Bernardi e Ernani Fornari, decantam em prosa e verso, a latinidade, a glória da Itália e a obra dos italianos em nossa. terra. Nem será preciso dizer que não era por desaprêço aos “companheiros de seus genitores” que os rapazes do Instituto Menegatti, por exemplo, não quiseram reconhecer como necessário “para continuar estudos superiores”, “conservarne lingua e cognizioni d’ Itália”; e disseminar “i frutti di una completa coltura e di un’educazione italianissima”.
Fig. 7 – Mapa da região de colonização.
Nota do Editor: o cartografista, Sr. H. Thofehrn, como que numa ironia do destino, comete exatamente o erro de chamar “Serra do Mar” aos Aparados da Serra, confirmando assim o dito no primeiro paragrafo deste texto…
Queriam apenas ser brasileiros, porque o eram de fato e de direito e desejavam educar-se para servir o Brasil e não a Itália.
Hoje que tal conflito de mentalidades desapareceu, ao menos nos centros urbanos, verifica-se não só o reconhecimento geral do muito que devemos à colonização italiana do sul do país, mas uma inteligente mudança de atitude da própria autoridade consular que, em lugar de estimular a manutenção de círculos sociais fechados e ao esfôrço perdido de ensinar italiano às crianças nacionais, prestigia o Instituto Cultural Italo-Brasileiro, entidade capaz, sem dúvida, de aproximar brasileiros e italianos e de nos fazer amar a ciência, a história e a arte do grande povo mediterrâneo.
A democracia italiána atual parece consciente do seu formidável ascendente moral de mãe latina e já de Roma não partem ameaças e gritos, mas as bênçãos a que a destinou o Cristo, e só com as quais lhe compete “imperare orbi universo”.
Já podemos assim – os filhos e netos de italianos – dela nos aproximar reverentes e amigos, como os pracinhas que a ajudaram a reerguer-se, e dizer-lhe com Fornari:
Teu nome enche de luz minhas pupilas,
E os meus ouvidos de canções de avenas:
Itália, Itália, a que mistério acenas,
Que ao teu aceno animam-se as argilas? …
Do Lácio vem meu sangue, das serenas
Regiões das tardes diáfanas, tranquilas,
Onde é mais branco o mármore das "vilas",
E há mais unção no côro das novenas!
Sangue latino - sol fluido, aurora
Que me ilumina o peito, e onde, sem calma,
Delira um Buonarroti e um Dante chora,
Teu ritmo é a luz com que alvoradas ponho
Nas praias de Sorrento da minh'alma,
Nos canais de Veneza do meu sonho!
Novos paradigmas do conhecimento em início de milênio
Por Nize Pellanda
1. Introdução
Vivemos uma tragédia humana sem precedentes na História da
Humanidade: dois terços da população mundial passam fome e um terço
desperdiça comida e matéria prima. Vivemos uma cultura de violência
generalizada. A vida de nossos jovens é dizimada pelo consumo de drogas.
O desemprego, considerado “natural” pelos defensores do modelo
hegemônico, tira dos seres humanos o sentido existencial do trabalho,
fundamental para a construção dos sujeitos, e joga no desespero milhões
de famílias em todo o mundo. O processo de exclusão sustentado pelo
neoliberalismo é brutal. Chegamos ao paroxismo da “luta de todos contra
todos” como o produto mais horrendo do processo da modernidade.
Como se chegou a esta situação? Há realmente saída para este caos?
Como sair disso? Procurarei trazer para vocês aqui alguns elementos
para pensarmos juntos este profundo processo de fragmentação que
resultou nesta situação tão dramática e também alguma contribuição para a
questão das saídas possíveis.
2. Um pouco de História
Nada acontece por acaso. A História não é algo que paira sobre nós
como uma entidade vinda de fora. O processo histórico é constituído pela
ação dos homens e mulheres concretos e portanto, responsabilidade
nossa. Por isso, proponho pensarmos nos mecanismos de poder responsáveis
por tantos sofrimentos e como eles se gestaram historicamente..
Não podemos mais pensar em fatos isolados. Os sábios de todos os
tempos sempre souberam que há uma harmonia intrínseca no Universo. Há
uma conexidade fundamental onde cada elemento do todo, vivo e não-vivo,
tem a ver com o funcionamento de tudo. Um provérbio chinês expressa
muito bem este espírito:
” É IMPOSSIVEL MOVER UM DEDO SEM INCOMODAR UMA ESTRELA.”
Pois bem, este é o eixo de minha fala aqui: uma conectividade
profunda que dá sentido a tudo o que existe e, na ausência destas
conexões, o processo de desagregação e sofrimento humanos que segue como
consequência.
Se analisarmos os fatos de hoje numa perspectiva histórica podemos
vislumbrar uma mudança de uma visão mais integrada do cosmos para uma
visão disjuntora e fragmentadora a partir dos séculos XVII e XVIII. Na
contemporaneidade aparece uma tentativa de resgate de um cosmos
integrado, já num outro patamar de complexidade devido ao
desenvolvimento da ciência, com o advento de uma visão sistêmica e ao
surgimento de uma filosofia de ecologia profunda. (Capra, 1996)
Como dizia nosso saudoso Paulo Freire é preciso fazer “a dialética
da denúncia e do anúncio”. Por este motivo, não quero trazer aqui
somente a denúncia da tragédia mas propor também uma “revolução do
olhar” para que possamos vislumbrar novos horizontes de luta e, Por que
não? de utopias.
Vivemos um momento de rupturas paradigmáticas. O velho paradigma da
modernidade começa a ruir e, em seu lugar, está surgindo já há algum
tempo, algo muito perturbador. Uso o termo perturbador num sentido
muito positivo como uma sacudida geral de nossas potências de vida
adormecidas por um paradigma que é considerado ” a doença do olhar”.
A crise que estamos vivendo é resultado de séculos de amputação de
nossas faculdades de percepção. É, antes de mais nada, uma crise do
sujeito que está sendo desde há muito impedido de conhecer se
entendermos conhecimento como percepção, como aprendizagem de vida, como
aprendizagem de ser.
Pois bem, vamos dar nome aos bois. A crise atual tem raizes
profundas no aniquilamento dos sujeitos destroçados por um paradigma
científico que os fragmentava até as últimas consequências existenciais.
O paradigma cartesiano que surgiu na modernidade é, por definição, o
paradigma da disjunção. Tudo é condenado à separação: corpo, alma e
emoções, sujeito e objeto, ser humano e natureza, interioridade e
exterioridade, eu e outro e asssim sucessivamente. A ciência moderna
sistematizada por Descartes e consolidada por Newton expulsava da
investigação científica o subjetivo, a emoção e o desejo como
atrapalhadores do conhecimento. Assim, o ser humano perdeu-se de si
mesmo e foi condenado a uma solidão terrível. Nesta fragmentação, a
própria ética separou-se da religião e do processo de construção do
ser humano.
Como disse, é preciso dar nome aos bois. A ciência moderna surgiu
com o modelo capitalista de produção o que não foi por acaso. Era
preciso uma ordem econômico-político- social que legitimasse uma
exploração da natureza e do ser humano com o objetivo de lucros cada vez
maiores.
A Revolução Francesa que seguiu-se à Revolução Industrial formalizou
este estado de coisas e garantiu por séculos a dominação da classe
econômica dominante- a burguesia.
A Revolução Francesa representa o triunfo da burguesia. Os donos do
capital, os burgueses, apesar de todo o seu sucesso econômico com a
Revolução Industrial, ainda permaneciam sem poder político até o final
do século XVIII. Eles estavam sujeitos a uma aristocracia decadente e
inativa que vivia do trabalho dos proletários e do dinheiro dos
burgueses. A Revolução Francesa dá um duro golpe na aristocracia e
instaura o regime constitucional que espalha-se pelo mundo. Durante a
Revolução Francesa é promulgada a Primeira Declaração Universal dos
Direitos do Homem e do Cidadão que, apesar de seu mérito incontestável
de criar o conceito de direitos para todos, tem muitas limitações. É a
origem do direito burgues e do liberalismo. E aqui, podemos fazer um
rápido parêntesis para localizar a origem do liberalismo e também as
raizes mais remotas do neoliberalismo para podermos entender o
funcionamento destes dois modelos políticos e sua influência profunda na
modernidade e na contemporaneidade. É muito importante nós pensarmos
um pouco sobre estes fundamentos para acompanharmos o processo evolutivo
que veio dar no neoliberalismo.
Os direitos universais pregados pela Revolução Francesa entusiasmava
mas, historicamente, mostrou-se como uma ilusão porque, na verdade, o
que a história revelou foi que a estrutura jurídica e política criada
tratou de consolidar uma simbiose entre o Estado e a coisificação das
relações sociais da sociedade civil. (Flickinger, 1986).
A Revolução Francesa, que implantou o liberalismo, coloca nas
legislações que lhe seguiram a figura de um sujeito abstrato do direito
separado de seus vínculos e de suas emoções. Este era também um sujeito
abstraído das condições materiais. Portanto, não era um sujeito de
carne, osso, alegria e sofrimentos. Neste momento histórico, percebemos,
uma vez mais, a normatização da sociedade que se expressa numa
juridificação cada vez mais intensa da vida cotidiana. É mais um passo
para a “institucionalização da liberdade” (Idem, 1986)
Na verdade, a liberdade do liberalismo é a liberdade de um grupo- os
detentores do poder econômico. O mercado, hoje sabemos muito bem, não é
para todos. A liberdade das revoluções burguesas era a liberdade dos
proprietários. Os trabalhadores, as mulheres e as crianças não tinham
direitos.
Neste Estado de Direito, o formalismo triunfa sobre o Estado de
fato. Na legislação civil podemos perceber, portanto, o indivíduo como
abstração sem seus vínculos famíliares, comunais, etc. A burguesia teve
e tem tido um sucesso tremendo no seu esforço filosófico para
administrar o seres humanos para o seu projeto.
No seu trabalho de construir uma arquitetura da dominação, a
burguesia construiu mecanismos ideológicos de manipulação destinados a
permanecerem ocultos o que se constituiria em maior efetividade de
poder. Acabamos de ver alguns deles. Um outro mecanismo utilizado na
legislação da época e embutido no senso comum foi a questão de “direito
natural” ou de fatos naturais de modo geral. A propriedade era
considerada algo “natural” e, com este pressuposto a burguesia pretendia
a não discussão dos fundamentos da riqueza de uns em detrimento da
pobreza da maioria. Muitas outras coisas eram consideradas naturais. Os
idealizadores do neoliberalismo na década de 70 defendiam uma taxa
“natural” de desemprego. Mas “nada é natural na História”, tudo é um
processo de construção humano pela ação. E assim, com este mecanismo, as
pessoas eram persuadidas a não agir, a não reagir e aceitar as coisas
como se apresentavam, com “naturalidade”.
Não é somente a ciência portanto, que é atingida por um novo
paradigma mas este paradigma têm também uma dimensão social e pessoal
atingindo as regiões mais profundas da existência humana. O Universo foi
desencantado e despojado das suas características mais significativas
que dão sentido à vida como um todo. Sobre isto acho importante fazer
uma escuta das palavras de Olgária Matos:
“Desencantamento do mundo: em Descartes, ele se encarna no sujeito
abstrato do puro pensamento de si – aquele que não tem dor a mitigar,
nem esperanças a realizar. Tanto o pensamento platônico como o
cartesianismo, por razões diversas, implicaram num universo
desinfeitiçado, demitizado, “sem qualidades”, racional- No universo
místico e mágico, ao contrário, “nada é natural na natureza”, tudo é
sagrado”. (Matos, 1993, p.74)
É exatamente este mágico, este sagrado que o racionalismo moderno
quer eliminar de qualquer jeito porque a imaginação e o olhar são males a
serem conjurados. Daí a doença cognitiva da modernidade provocada pela
negação do olhar e da imaginação. Voltaremos a isso quando fomos tratar
da questão do conhecimento.
A História não é linear, mas um processo vivo e dialético. Muitas
foram as reações e realizações contra este estado de coisas por parte de
trabalhadores, oprimidos em geral e de muitos pensadores, artistas e
cientistas. Estes movimentos contra a opressão e o desencantamento
trouxeram conquistas emancipatórias muito importantes.
Mas no meio desta crise existencial radical está havendo uma
revolução instigante. Esta revolução também não acontece por acaso .
Trata-se de um processo histórico resultado de ações de homens em
mulheres ao longo da história deste século e até mesmo antes. Está
havendo uma grande virada paradigmática. Uma das causas mais importantes
desta transformação foi a absoluta incapacidade da física newtoniana de
dar conta do universo do mundo sub-atômico. Lá no mundo do
infinitamente pequeno os físicos procuravam os elementos útlimos da
matéria mas não encontravam a tal matéria, mas sim espaços de interação
relacionados com energia e condensação de luz. A matéria tão
perseguida, a chamada matéria densa apresentava-se como um espaço de
probabilidade onde reina a incerteza. Dependendo do observador, a
realidade observada apresentava-se ora como onda, ora como partícula. E
assim, ironicamente o sujeito varrido da pesquisa científca volta
exatamente através da física, uma ciência “dura”. Começa a ruir o
edifício newtoniano-cartesiano construido a partir da convicção de que
leis rígidas e imutáveis governariam o universo.
O físico David Peat critica profundamente esta concepção dizendo:
“Na verdade, perguntar por leis definitivas na natureza pode ser
similar a perguntar pelo resultado de uma obra de arte. Da mesma forma,
como o sentido e a interpretação de um poema ou de uma pintura nunca
pode ser esgotado, também não pode haver um trabalho definitivo que
prove a existência da matéria ou uma teoria final da ciência.” (Peat,
1991,p.53)
E arrasta na queda um dos seus pressupostos mais importantes
baseados na lógica formal- alguma coisa não pode ser e ser ao mesmo
tempo. Do paradigma da simplicidade passamos ao paradigma da
complexidade – as leis tem que ceder lugar ao evento, à bifurcação, ao
acaso. Tudo se constrói num processo histórico de interação. É preciso
romper a relação esquizofrênica que temos com a natureza e dialogar com
ela. Com isto, podemos reencantar o Universo desencantado pelo velho
paradigma de fragmentação entre os seres humanos e a natureza.
Mas a revolução não para aí. Em torno da metade deste século alguns
cientistas começam a desconfiar ainda mais da fragmentação imposta pelo
cartesianismo. Eles começam a descobrir que não somente as partes não
tem sentido como tambem não levam à comprensão da vida. Os biólogos
tiveram uma contribuição muito importante na mudança de paradigma porque
afirmavam a idéia de que os organismos vivos são sistemas integrados.
Com isto, eles insistem na idéia de que o todo é muito mais do a soma de
suas partes. Existe, portanto, algo mais que precisa ser buscado para
podermos entender a vida e o cosmos. E este algo mais, para estes
cientistas, não é material mas são padrões de relação. Descobrem eles
que tudo depende das interações e o que resulta são propriedades
emergentes que não estão pré-dadas mas que dependem das interações.
Chegam então à uma conclusão revolucionária: o padrão de tudo o que
existe, vivo e não-vivo é a rede.
Na esteira destas descobertas, pesquisas destas últimas décadas em
Biologia, principalmente os estudos dos chilenos Humberto Maturana e
Francisco Varela colocam uma pá de cal no velho paradigma. Estes
cientistas reafirmam a rede como o modelo da vida e sustentam que os
seres vivos são autopoiéticos, ou seja, são auto-construtores de si
mesmos. Trazem a idéia de uma autonomia criativa dos seres vivos na
medida em que não há realidade à priori mas tudo é inventado através da
interação nas várias redes que compõem o vivo. A partir daí, afirmam um
construtivismo radical no sentido em que não existe um mundo lá fora
responsável pela nossa evolução. O mundo externo é apenas perturbador,
cada um de nós aprendemos e vivemos de forma original. Temos que
inventar nossa vida e nosso viver. Com isto, há uma inseparabilidade
entre conhecer, ser e viver.
Ora, tudo isso é muito perturbador porque, se não existe um mundo
lá fora, se não existe separação entre sujeito e objeto não temos uma
realidade externa a ser repreesentada dentro de nós. Isso mexe
profundamente com as nossas posturas de ensinar e aprender. Na
modernidade fomos acostumados a acreditar que existe um mundo externo
que, como um espelho, nós reproduzimos dentro de nós. Este é portanto,
um momento muito instigante. Temos que nos reinventar, temos que
construir o mundo. Mas este também é um momento de potência que podemos
desenvolver para resolver nossos problemas e romper os limites que nos
aprisionam em nosso desenvolvimento humano.
Somos, portanto, seres virtuais. Uso virtual no sentido usado por
Pierre Lévy (1996) – virtualis – que vem do latim e quer dizer potência.
Se pensarmos na teoria de Maturana e Varela (1990) da autopoiesis
precisamos de atualizar constantemente nossos potenciais de ser através
da interação. Como já dissemos, não existe realidade pré-dada mas tudo
emerge a partir da ação. Emergência é pois uma palavra-chave para
entendermos tudo isso.
Neste momento podemos recuperar a utopia. Não uma utopia desgarrada
da realidade concreta e da própria ação cotidiana dos sujeitos mas uma
concepção de utopia impregnada da ação coletiva, pelo processo de tornar
atual o virtual, pelo processo de construção e invenção de cada um de
nós. Como sugeriu Ernst Bloch ao tratar da utopia, uma questão
fundamental em sua obra, a esperança é uma categoria cognitiva. (apud
Giroux e McLaren, 1990) Por isso, não podemos sucumbir à cultura da
desesperança que nos rodeia.
O eixo do novo paradigma da ciência organiza-se em torno da idéia
de rede. Pois bem, cada um de nós como um nó na rede pode potencializar
de forma muito forte esta organização desde que movida pela energia
construtora do amor. E aqui, mais uma situação absolutamente
revolucionária na ciência de hoje: as emoções banidas da ciência
clássica como atrapalhadoras do conhecimento são trazidas pela Nova
Biologia para o cerne da pesquisa científica. Para Maturana , o amor é
fundamental. Ele chega mesmo a afirmar que o “99% das doenças tem a ver
com a negação do amor”. (1991, p. 23) Ele justifica estas palavras ao
dizer que não afirma isto de forma vulgar mas a partir de mais de 20
anos de pesquisa em Biologia.
Apesar de todos estes avanços científicos, culturais e políticos em
termos da construção de um novo paradigma com percepções profundas sobre
a realidade, o conhecimento e a emancipação, a segunda metade do século
viu surgir e avançar um período muito obscuro para a história da
humanidade que negava fundamentalmente estas descobertas.
3. O Triunfo do Pensamento Ùnico
“Possa Deus nos proteger da visão única e do sonho de Newton.”
W. Blake
A modernidade foi a fase das grandes narrativas universalizantes,
das grandes sínteses. Estas metanarrativas tem a ver com o paradigma
cartesiano que varre da ciência a questão do singular e da diferença. Há
a tendência de um pensamento universalizante e consensual o que
restringe o poder das pessoas. A História que não é um processo linear
sempre teve os exemplos de resistência ao pensamento único. Ainda no
século XVIII alguns artistas como Blake e Goethe se insurgiam contra
isso. No século XIX os exemplos são inúmeros principalmente aqueles
ligados ao socialismo utópico e ao chamado socialismo científico de
Marx.
Os anos 60 do século XX viu nascer todo um movimento de luta pela
emancipação, pela diferença e singularidade. As revoluções de1968 foram
uma expressão desta luta. Agora começava a aparecer nas lutas o lado
subjetivo da revolução. Não era mais simplesmente lutas pela opressão
que somente aparecia externamente mas também contra o lado mais oculto
do poder.
A reação conservadora contra isso veio forte. Nos anos 70, surgem
novas formas de dominação. Uma grande crise do capitalismo fez com que
as classes dominantes, já assustadas com os movimentos de 68, reagissem
de forma violenta e rápida. Os donos do capital se reorganizaram e
impuseram um modelo de dominação ainda mais sutil e perverso contra os
trabalhadores e a população do mundo de modo geral. É o advento do
neoliberalismo que foi erguido a partir de alguns pilares fundamentais:
fragmentação, hiperindividualismo e homogenização. A junção destes
três dispositivos de poder tem consequências trágicas para a construção
de subjetividades e das sociedades. As dimensões subjetivas mais
profundas dos seres humanos foram atingidas. Por exemplo: a perda do
sentido do trabalho, o sentido de comunidade, de solidariedade através
do crescimento de um individualismo doentio e, novamente a presença
muito forte de um pensamento único.Tudo é arquitetado de forma a passar a
idéia de que fora do neoliberalismo não tem salvação. Por esta fratura
entra a dominação sutil desta nova fase do capitalismo.
Tudo isto tem como consequência política mais ampla o surgimento de
um processo de declínio da democracia. Perdemos autonomia, não somente
sob o ponto de vista pessoal com todos estes mecanismos de dominação que
estamos analisando aqui como também sob o ponto de vista do
Estado-Nação. O novo Estado, principalmente nos países emergentes, perde
autonomia porque é despojado de suas instituições estratégicas o que é
acompanhado de desindustrialização e inviabilização de soluções de
sustentabilidade. Com isto, fica submetido às instituições multilaterais
(FMI, Banco Mundial, etc.) que expressam o novo poder no mundo ou seja,
do Capitalismo Mundial Integrado.
Inicia-se, portanto, nos anos 70, a fase mais brutal do
capitalismo: conquistas históricas dos trabalhadores foram sendo
desmanteladas em favor de uma desregulamentação que acompanha o
encolhimento do Estado. No que diz respeito ao Estado, o neoliberalismo
se distingue do velho liberalismo. O grande objetivo é o Estado Mínimo,
ausente dos compromissos sociais. Mas no objetivo principal, a liberdade
do mercado, liberalismo e neoliberalismo se equiparam.
O Estado enxuto deixa desamparados os excluidos do sistema que
aumentam de forma avassaladora com os mecanismos de concentração de
renda e técnicas poupadoras de mão-de-obra. É o desemprego estrutural.
Para sustentar tudo isso, mecanismos ainda mais sofisticados de
dominação são concebidos. No Brasil, o desemprego não é somente
estrutural mas também conjuntural pois é uma decisão política do
governo.
Podemos aqui tomar a liberdade de, a partir das elaborações de
Deleuze (1998), fazer um paralelo entre as chamadas sociedades
disciplinares que acompanhavam o liberalismo e a revolução industrial
até o século XX e as sociedades de controle que marcam a atual fase do
capitalismo neoliberal. Se nas sociedades disciplinares, como mostrava
Foucault a punição dos que não se deixavam dominar se fazia por
castigos físicos e confinamentos (prisões, escolas, etc), na sociedade
de controle a vigilância se faz de dentro para fora. É o próprio
dominado que pratica a sua auto-dominação. O poder agora coloniza a alma
ao capturar os desejos.
Voltando aos três pilares de sutentação do neoliberalismo:
fragmentação, hiperindividualismo e homogenização podemos dizer que os
tres mecanismos estão profundamente interligados no processo de
dominação. Mas, na verdade, o processo de fragmentação prepara caminho
para os demais. Há um mecanismo que vai fragmentando tudo pela
dissociação o que tem consequências subjetivas profundas. Há toda uma
deformação de relação com o real na qual os sujeitos não se veêm como
parte integrante desta realidade. Tudo é fragmentado e, neste processo
não nos vemos como partes de um todo. O eu e o outro estão cindidos e,
por isso, o outro é sempre um ser perigoso do qual tenho que me cuidar. O
que fizeram os ideólogos deste modelo foi atingir os vínculos entre as
pessoas e daí este hiperindividualismo. Thatcher, na Inglaterra que foi
uma das principais agentes executoras do neoliberalismo, por ter sido
um dos primeiros chefes de Estado a aplicar o novo modelo, costumava
dizer aos trabalhadores ingleses: ” Isto que vocês chamam de sociedade
não existe, o que existe, são os indivídulos e suas famílias.”(Hall e
Jacques, 1990, p. 174). Como podemos notar, é um discurso desagregador
que desestimula as lutas coletivas e ataca o espaço público.
E aqui podemos pensar um pouco como educadores. Que tipo de
consequências podem ter estas fragmentações como o individualismo
cultivado e o pensamento único? Se considerarmos as pesquisas recentes
não somente da Biologia como das ciências cognitivas em geral que estão
apontando para a conectividade como condição básica de construção de
conhecimento e de sujeito, podemos pensar então que a educação que se
pratica hoje neste tipo de contexto, como uma violência destas
necessidades biológicas. Como resultado, disso surge uma doença
cognitiva na medida em que somente conhecemos ao construir a realidade
de forma original e, ao mesmo tempo, inventamos a nós mesmos neste
processo de construção. Está havendo um impedimento profundo de
construção de conhecimento e, portanto, de construção de ser.
Tudo indica um aprofundamento daquela crise de percepção da
modernidade que nos impede de ver, ou seja, a “modernidade como a doença
do olhar”. Por isso, não vemos o horror que nos rodeia. Por que não
vemos, por exemplo, o fato de que o patrimônio estratégico de Brasil
está sendo desmantelado e o BNDES destina apenas uma parte desprezível
deste recursos aos projetos sociais e uma quantia considerável aos
bancos privados? Como funcionam estes mecanismos de ocultamento de algo
tão dramático? O salário mínimo é vergonhoso enquanto a verba de
publicidade do governo, exatamente para encobrir estes fatos, é
gigantesca. E o Ministro da Fazenda declara que o valor do salário
mínimo “dá e sobra” como se educação e saúde fossem gastos absolutamente
supérfluos na vida do trabalhador. A política de desindustrialização
joga milhões de trabalhadores diariamente na exclusão. E, por aí segue o
processo de exclusão.
Como funcionam hoje estes mecanismos de poder responsáveis por
estas políticas? São usados rituais e dispositivos de poder que
colonizam os sujeitos comprometendo neles a singularidade, a autoria e a
diferença, fundamentais para o ser humano. A epistemologia da verdade
única vai fundo nos homens e mulheres deslegitimando qualquer elaboração
original dos sujeitos singulares: o presidente da República ironiza
sistematicamente as manifestações opostas às políticas de governo
afirmando que os brasileiros são “burros”, “caipiras”, “não-modernos”,
“vagabundos”, etc. O Ministro da Fazenda responde a Lula que criticava o
salário mínimo que o “Brasil não é para principiantes.” (1) É a
deslegitimação do trabalhador. Nossa capacidade de percepção da
realidade é apropriada pelo pensamento dominante, via mídia, e
colonizada de tal forma que somos invadidos pelo pensamento de outrem. O
espaço que sobra dentro de nós é muito pequeno. Este espaço é tão
reduzido que não conseguimos mais ouvir nossas próprias vozes. O que
fazemos é repetir as palavras do dominador fazendo com ele uma espécie
de identificação negativa. Sobre isso, podemos ouvir as palavras de
Corbusier:
“Convencido da superioridade do colonizador e por ele
fascinado, o colonizado, além de submeter-se, , faz do colonizador
seu modelo, procura imitá-lo, coincidir, identificar- se com ele,
deixar-se por ele assimilar. ” (…) “O colonizador se perde no outro,
se aliena.” (Corbusier, 1977,p.8)
A “doença cognitiva” portanto, é o produto destes mecanismos. Este
termo que tenho usado aqui foi cunhado por Kincheloe (1993) para se
referir às fragmentações do sujeito frente à realidade. Nas suas
próprias palavras:
“A fragmentação moderna e a educação “infectada” que ela produz
tem enfraquecido nossa habilidade para ver o relacionamento entre nossas
ações e o cosmos.” (Kincheloe, 1996, p.30)
Com isto, trazemos novamente aquela questão que coloquei: a
modernidade como uma crise de percepção e, portanto, de impedimento de
construção de sujeitos e de conhecimento. Se consideramos conhecimento
como algo que vai muito além do individual ou da aprendizagens formais
podemos afirmar que a modernidade atinge profundamente as condições de
conhecimento. O pensamento cartesiano privilegiou a razão, o individual e
o cérebro na questão do conhecimento. Nosso conhecimento do mundo está
limitado por categorias formais que, como uma camisa de força, nos
impede de ver um cosmo harmônico. Lembro aqui Don Juan, o mago mexicano e
seu discípulo o antrópologo Carlos Castanheda. Os dois passeavam por
regiões inóspitas do México. E Don Juan chamava a atenção de Carlos o
tempo todo: “olha Carlitos, olha”. Mas Carlos não conseguia ver nada
mais que um imenso mar de cactos. E o mago comentava que ele não via
porque somente se permitia ver o que pudesse explicar. Isto acontece o
tempo todo conosco neste universo desencantado. Nosso olhar doente não
consegue mais ver o sentido oculto das coisas.
A Biologia, no entanto, está nos mostrando que aprendemos na
verdade com a emoção pelo fato de estarmos conectados com outros de
forma afetiva. E isto implica em que todas as dimensões do ser, que é um
microcosmos dentro de um macrocosmos, está envolvido no processo de
ser, de amar e de conhecer.
Schumacher expressa muito bem este espírito:
“Desde de Descartes que nos sentimos inclinados a crer que tudo o
que sabemos sobre nossa existência vem apenas do pensamento centrado
na cabeça- cogito ergo sum- penso logo existo. Contudo, qualquer
artesão sabe que o seu poder de conhecer as coisas não vem apenas do
pensamento centrado na cabeça, mas também da inteligência do corpo: as
pontas dos dedos dos artesãos sabem coisas a que seu pensamento nunca
teve acesso. (…) O homem em sua globalidade é um instrumento de
cognição.” (Schumacher,1987, p.74)
A rede social vai se esgarçando cada vez mais. A vida somente tem
sentido em interação em redes que são sistemas de cooperação onde o
afeto tem um papel fundamental de conexão. E isto acontece não somente
ao nível do social mas em todos os níveis da vida: da vida de uma
célula, passando pelo funcionamento das redes neurais e imunológica até
as redes sociais e a Internet, tudo está interligado. O ataque aos
vínculos, o ataque à legitimidade , o ataque à singularidade dos
sujeitos representam ataques à vida e, portanto, à nossa capacidade de
ser e conhecer.
Tudo isso despotencializa os homens e mulheres de uma maneira muito
grave. Estamos desempoderados, fragilizados por este tipo de contexto
que procurei caracterizar aqui.
Neste momento, quero trazer novamente as questões que fiz no início:
Como se chegou a esta situação? Como sair disso? Há realmente saída
para este caos? A primeira questão – como se chegou a esta situação-
penso ter sido já pelo histórico apresentado, parcialmente respondida, o
resto é com vocês. Mas o que quero trazer aqui mobilizando o grupo para
que pensem junto comigo são as outras duas questões- há realmente saída
para este caos? e- como sair disso?
Em primeiro lugar, a situação que aí está não é natural, ela foi
criada por um grupo de pessoas na sociedade. É preciso, portanto, que
cada um resgate seu papel de agente para fazer frente a esta tarefa e
com isto ir se empoderando novamente.
Uma das primeiras providências então, para sair disto é resgatar
nossos vínculos rompidos e garantirmos as condições para nos
construirmos como seres humanos de forma plena. Ou seja, reconstruir
nossa conectividade.
É preciso também que recuperemos nossa sensibilidade liberando
nossas percepções e nossa intuição que nada mais é do que conhecimento
profundo. A tragédia que vivemos no mundo neste momento é pois,
resultado desta incapacidade de nos construir, construindo conhecimento
profundo.
Mas como temos visto tantas vezes aqui a realidade não está dada. É
preciso inventá-la coletivamente em redes solidárias. Mas o oposto
também é possivel que cada nó, cada sujeito a partir de seu lugar possa
com suas ações negativas porque despojadas de amor, fazer furos nesta
rede o que poderá levá-la a uma fragilização como está acontecendo
agora até limites imprevisíveis de destruição. Tudo é possivel.
Como pensar então nestas utopias concretas, não descoladas das
nossas ações cotidianas, de nossa vida de educadores nas salas de aulas
com nossos alunos, na nossa vida de profissionais agindo nestes redes da
vida?
Como sustentáculo para a nossas ações existe uma nova cultura que
está emergindo e que poderá nos servir de modelo de pensamento e ação
para a nossa práxis. Refiro-me, em primeiro lugar, às novas concepções
científicas nas quais encontramos a idéia de rede e a valorização das
questóes de solidariedade. Em segundo lugar, mas não menos importante
lembro a sociedade cibernética. Uma nova fase está surgindo com a
Informática. A cibercultura, como temos chamado, não tem a ver
simplesmente com o advento de um nova máquina que realiza várias
operações práticas de maneira cada vez mais veloz e eficiente. A
informática é muito mais do que isto. Ela muda profundamente nossa
maneira de pensar, de agir, de nos relacionarmos com os outros, de
aprender e assim por diante. Ela ultrapassou em muito os objetivos pelos
quais foi inventada. A informática pode ser apropriada com fins
emancipatórios para inventarmos uma nova sociedade onde a conectividade
impregnada pelo afeto possa ser o eixo e onde reforçando todo o resto os
tipos de conhecimento que oportuniza possa nos reconfigurar
reconfigurando toda a rede. Ignorar esta cultura pode representar para
as classes populares novamente a perda do trem da história, como
aconteceu nos anos 70 .
Entre estes tipos de conhecimento que a cibercultura proporciona
está o conhecimento por simulação que nos permite vivenciar a recriação
do cosmos e, ao fazê-lo, nos recriar a nós memos. Isto é de um potencial
epistemológico incrível. Um outro tipo de conhecimento é o associado ao
hipertexto entendido aqui no sentido da construção dinâmica de textos
coletivamente na rede onde cada autor, ao criar no coletivo vai se
potencializando potencializando toda a rede. Muitas outras
posssibilidades ainda poderíamos citar aqui mas o limite de nosso espaço
não nos permitiria. Tudo isso são “tecnologias intelectuais” para usar
o conceito de Pierre Lévy (1994) que são dispositivos para aumentar
nossa inteligência. Isto também nos capacita a viver uma nova fase da
história da humanidade – a sociedade informatizada – onde a
característica principal é o saber-fluxo em detrimento do
saber-substância.
O que importa aqui é pensarmos na necessidade e possibilidade de
construirmos nossa caixa de ferramentas para fazer frente a esta
opressão tremenda desta sociedade que nos impede, de todas as formas
possíveis, de caminharmos rumo à nossa emancipação pessoal e social.
Proponho então, que na nossa caixa de ferramentas coloquemos
“tecnologias amorosas”. Tomo a liberdade aqui com este conceito de
“tecnologias amorosas” de ampliar o conceito de “tecnologias da
inteligência” de Lévy para levar para toda a rede elementos fundamentais
da vida ampliando assim a consciência. E esta ampliação da consciência
que surge da densificação das relações afetivas porque solidárias na
rede tem muito a ver com o que Teilhard de Chardin pensa sobre o
processo de humanização da sociedade para se chegar a um “ultra-humano”
através de um processo que ele chamava poeticamente de “amorização”.
(Teilhard de Chardin, 1974). Teilhard foi um místico católico e
cientista que produziu grande parte de sua obra nos anos 50. Ele deixou
uma produção científica notável como paleontólogo e também como
filósofo.
O que pretendo com vocês a partir de agora é construir coletivamente
as ferramentas para esta caixa. A finalidade desta construção é o
desenvolvimento de nossas potências de ser, é a volta a uma verdadeira
estética da vida, ou seja, ” a vida como obra de arte”. Esta finalidade
é também a de pensarmos em termos de uma ecologia profunda. E ao
pensarmos numa ecologia profunda é preciso, como nos sugere Capra na
“Teia da Vida” (1996), formularmos questões profundas para sairmos
deste torpor de não ver, de não sentir, de não conhecer e de não ser. O
que afinal, é tudo a mesma coisa, é tudo parte de um mesmo processo.
Antes de partirmos para esta ação gostaria de, ao interromper para a
participação de vocês lembrar as palavras de Deleuze tantas vezes
lembrado aqui tanto pelas citações como sua presença nas entrelinhas:
“Acreditar no mundo é o que mais nos falta; nós perdemos
completamente o mundo, nos desapossaram dele. Acreditar no mundo
significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmo pequenos, que
escapem ao controle, ou engendrar novos espaços-tempos, mesmo de
superfície ou volumes reduzidos.” (Deleuze, 1998, p. 218)
Cada um de nós, como um nó, como um microcosmos, como uma rede de
redes dentro de uma rede maior, possa expressar-se potencializando-se ao
máximo praticando sua autoria, sua auto-criação potencializando a rede
ampliada e, com isso, contribuindo para uma nova cultura de justiça
social, de amor e de paz. Para que se consiga realmente esta cultura,
que nossa luta não seja, uma vez mais, feita de palavras vazias,
abstrações ou formalismos precisamos nos colocar por inteiro juntando as
partes amputadas pela fragmentação da modernidade.
Referências bibliográficas
CAPRA, Fritjof. A teia da vida. São Paulo, Cultrix, 1996.
CORBUSIER, Roland. Prefácio. In: MEMMI, A. Retrato do colonizado precedido pelo retrato do colonizador.
DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo, 34, 1996.
FLICKINGER, Hans-Georg. O paradoxo do liberalismo político. Filosofia Política 3. Porto Alegre, L&PM, 1986. pp. 117-130
GIROUX, H. and McLAREN, P. Paulo Freire, Postmodernism , and the
Utopian Imagination: A Blochian Reading. London, Routledge, 1994.
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KINCHELOE, Joe. Formação de professores: mapeando o pós-moderno. Porto Alegre, Artmed, 1997.
LÉVY, Pierre. O que é o virtual? São Paulo, 34, 1996.
— . As Tecnologias da Inteligência. São Paulo, 34, 1994
MATOS, Olgária. O Iluminismo Visionário: Benjamin, leitor de Descartes e Kant. São Paulo, Brasiliense, 1993.
MATURANA, Humberto. Emociones y lenguaje en Educacion y Política. Santiago, Hachette, 1991.
MATURANA, H. e VARELA, F. El árbol del conocimiento. Santiago, Universitária, 1990.
PEAT, F. David. The Philosopher´s Stone. New York, Bantam, 1991.
SHUMACHER, E.F. Um guia para os perplexos. Lisboa, Don Quixote, 1987.
Notas:
Folha de São Paulo – FSP- 06-04-2000
Freud era mesmo um mentiroso?
Por Luiz Pellanda
(Artigo publicado no jornal Zero Hora, em 4 de junho de 2000.)
Fico triste ao ver um conterrâneo, cujos escritos tanto
respeito, entrar nesse vagão do ataque indiscriminado a tudo o
que se move ou tem valor, tão ao gosto deste fim de
século. Não tenho procuração para
defender Freud, nem preciso: sinto-me suficientemente incluído
no ataque para agir em legítima defesa. É verdade que
Décio se diz apenas reprodutor do resenhador de um certo
holandês Israëls, um outro Borsh-Jacobsen. Dito assim,
parece apenas uma briga de família, mas o que está por
baixo é o mais grave: trata-se de um ataque sistemático
e orquestrado contra os avanços do conhecimento sobre a alma
humana, previsto desde o início pelo próprio Freud.
Freud advogava o silêncio como resposta a estes ataques,
alegando não serem estas pessoas capazes de perceber a
extensão das verdades psicanalíticas por não
disporem da experiência pessoal, única forma capaz de
gerar convicção. Até por isto foi acusado de
incluir o “insight” psicanalítico entre as
revelações religiosas… Rebater uma por uma das
acusações de “mendacidade” de Freud seria tudo o que
estes detratores desejariam: ficar-se-ia discutindo a rama sem
penetrar no cerne. Poucos cientistas, em todas as épocas,
tiveram suas vidas tão dissecadas quanto Sigmund Freud.
Pode-se acusá-lo de tudo: de ingênuo ao se despir
tão completamente diante de seu público, única
forma de mostrar a universalidade dos seus achados sobre a
existência do inconsciente. De idealista, ao tentar a
solução de tanto sofrimento humano com tão
poucos instrumentos. De pretensioso, ao se perceber em um campo
inteiramente novo, onde só ele foi o desbravador, a ponto de
até hoje não se poder escrever sobre qualquer tema em
Psicanálise que não tenha sido ele o primeiro a
abordar, mesmo que superficialmente, de modo que se hoje
avançamos bastante, o foi sobre a base que ele deixou. Mas,
mentiroso? Porque pensava ser “cura” o que hoje percebemos como etapa
em um desenvolvimento sem fim? Ele mesmo foi extremamente pessimista
em seus últimos escritos, como “Análise
terminável e interminável”, quanto a possibilidade de
uma “cura” real. Seria o mesmo que tachar de mentirosos os cientistas
que defenderam a existência do “éter” no espaço e
desconhecer todo o esforço de milhares de outros que
contribuíram para um melhor entendimento do tipicamente humano
em tantas áreas do conhecimento.
E que estranho edifício este da Psicanálise que a
tantos vem beneficiando, se construído sobre mendacidades… E
que belas mentiras estas, que permitiram o avanço da
humanidade na compreensão dos seus mecanismos mentais. Que
Deus tenha feito o mundo em sete dias também é uma
mentira… tomado pelo ponto de vista deste senhores. Mas que lindas
conseqüências o acervo destas e de outras, reunidas em um
Livro, pode gerar. Pode-se acrescentar, quem sabe, que mesmo sobre
isto avançamos e podemos re interpretar como simbólicas
essas “mentiras” o que delas faz outra coisa que não mentiras.
Se todas as “verdades” estão contidas em um único
livro, corremos o risco de que todos os outros sejam ou redundantes
ou deletérios, como já aconteceu em momentos desta
nossa humanidade. Por isto respeito o direito de “pensar diferente”
que todos temos, mas atacar por atacar é apenas tentar obter
um pouco da glória de quem atacamos, como o assassino de
Lincoln pretendia.
Freud é muito mais importante para a ciência em geral do
que apenas para a psicanálise: graças em grande parte a
ele foi possível a mudança paradigmática, vivida
hoje em dia, que rompe com a dicotomia cartesiana entre corpo e mente
e que considera a emoção um impedimento ao
conhecimento. Ele mostrou que, ao contrário, a
emoção é condição para saber, como
aliás vem sendo amplamente demonstrado pelas
neurociências modernas. De modo que, na minha opinião,
Décio não é um mentiroso, apenas se deixou levar
pela ilusão, conduzido ao engano num destes momentos de
obnubilação que nos acomete a todos, a alguns com maior
freqüência.
Complexo de Édipo
Por Luiz Pellanda
(Artigo publicado no jornal Zero Hora, em 14/5/2000.)
Os psicanalistas que nos
visitam ficam admirados de como os conceitos básicos de nossa ciência
são de conhecimento geral da população. Qualquer brasileiro sabe que
“complexo de Édipo” corresponde aos complexos sentimentos que ligam o
garotinho à sua mãe, fazendo com que inconscientemente deseje matar o
pai para ficar com ela. Chocante, dito assim, não? Chocante porque uma
simplificação de um olhar de adulto sobre a mente de uma criança.
Conta Ernest Jones, o biógrafo oficial de Freud, que
este, certa vez, recebeu um paciente com as seguintes palavras: “Já sei
que tiveste pai e mãe. Agora me conta o resto.” O que cada um de nós
faz desse “resto” é que marca a diferença. Que este resto era muito
complicado, logo ficou evidente. Diferentemente da física onde uma causa
era sucedida por um efeito que por sua vez era causa de um efeito
seguinte, em Psicologia, esse modelo não se aplicava e muitas causas
colaboravam para um determinado efeito que junto com outros resultavam
em influências mais adiante, ou seja, muito antes da “complexidade”
entrar em moda com Edgard Morin, já a Psicanálise convivia com esses
conceitos, embora Freud mesmo não gostasse da expressão “complexo”,
usando-a apenas na situação edípica.
Certos conhecimentos são condição para a aquisição
de outros: de início o nenê não percebe que é um ser separado de sua
mãe. Precisa entender que ela é outra pessoa para poder sentir sua falta
(o que sente “antes” disto, é outra questão). Só depois de perceber que
mãe e pai são pessoas diferentes pode optar por um ou outro, conforme o
momento. O amadurecimento ocorre por etapas sucessivas, mas sem a
linearidade que os positivistas lhe atribuem. É perfeitamente comum
amadurecer-se em uma área enquanto outra permanece “infantilizada”.
Freud chamou a atenção para o fato de que o
desenvolvimento é diferente para meninos ou meninas, e se ocupou
principalmente do primeiro, confessando (cerca de 1930) que a
feminilidade era um continente desconhecido para ele. Achava que os
meninos deviam competir com o pai para com ele se identificar,
aprendendo com a frustração de não conseguir batê-lo. Uma francesa,
Chasseget Smirgel, mostrou a participação de certas mães que tomam seus
meninos como se fossem realmente seus companheiros, passando uma
mensagem sub-liminar de que não é preciso crescer, ser adulto, para
conquistá-las, mantendo-os infantilizados. A relação amorosa de ambos os
pais leva este conflito a outro desfecho: o menino descobre que pode
“ser como o pai” sem precisar “ser o pai”, ocupar o lugar dele na
realidade factual, buscando então outros objetos de amor, mais
adequados, nas meninas de suas relações.
Já com as meninas ocorre uma complicação a mais: da
ligação primeira com a mãe, deve deslocar seu interesse para “o sexo
oposto” em uma etapa de seu desenvolvimento edípico. Hoje em dia em que
as crianças são mais ouvidas, fica se sabendo de algumas tiradas de
efeito, como daquela filhinha de um colega que lhe propôs casamento. “E
que fazemos com mamãe”, ele lhe perguntou. E ela, “Ora, um
churrasquinho!…” No mundo de magia em que se encontra o
desenvolvimento de sua mente, pode-se fazer um churrasquinho com ela
agora, e daqui a pouco pedir para ela fazer a mamadeira… Nada tem essa
transcendência e gravidade que os adultos põem nas palavras.
Como diz Humberto Maturana, somos todos animais
dependentes do amor pela vida inteira. Ninguém morre de excesso de amor,
mas de falta, certamente.
Y2K – Um novo mito moderno
Por Luiz Pellanda
(Artigo publicado no jornal Zero Hora.)
Que o “bug do milênio” existe, nenhuma dúvida. Nada comparável aos homenzinhos verdes marcianos ou aos discos voadores que Jung identifica como “Um Mito Moderno” pelas suas características de lenda universal. O terreno aqui está mais para Freud e Bion*: sobre um substrato de limitação tecnológica instala-se uma histeria coletiva catastrofista – Vai faltar luz no mundo! Os sistemas bancários mandam pagar todo o mundo, ou não pagam mais ninguém! Os computadores incluidos nos aparelhos médicos se confundem e retornam aos tratamentos de 1900 em vez de dispensar os do novo milênio!
Publicidade de conhecido fabricante explora este
viés: Hall, o computador de 2001 conversa com seu dono: “Dave, você se
lembra do ano 2000, quando os computadores começaram a funcionar mal e
se perderam, causando prejuízos incalculáveis? A culpa não foi nossa,
Dave, estávamos mal preparados. Só os Macintosh estavam livres desse
“bug” e salvaram bilhões de unidades monetárias. Dave, você gosta mais
de seu Macintosh do que de mim, não? Dave?! Está me ouvindo, Dave?…”
Faz parte de nossa natureza “personificar” os objetos, num resquicio de
animismo que persiste nesta humanidade recém-civilizada. Designamos com
um nome os objetos mais queridos: meu primeiro automóvel se chamava
“Adélia” , corruptela de “Adler” a marca rara de um ante-diluviano (isto
é, de antes da guerra…). Atribuimos sentimentos aos computadores: o
ciúme de Hall, a turrice do PC que se recusa a obedecer ao que penso que
estou comandando… Ele não “entende” que eu queria ponto, embora tenha
teclado vírgula… É a dissociação entre criador e criatura, sujeito e
objeto que proporciona esse distanciamento, como se a tecnologia não
fosse estensão do humano, mas outra coisa. Disto decorre um temor de que
um dia os computadores sejam mais inteligentes do que nós e dominem o
mundo… No fundo, ainda o desejo infantil de não crescer, de possuir
alguém (a mãe, o pai, nem que seja o pai do céu) que tome conta de nós
sem que necessitemos nos responsabilizar pelas conseqüências de nossos
atos.
Se a data é “00” o que ele vai “entender”? Dois mil?
Mil e novecentos? Não vai entender nada? Cada caso é um caso, nada é
tão cartesiano quanto zero-zero igual a dois mil. Estamos interpretando o
que o computador vai “pensar” sem saber como eles são na verdade.
Muitos determinam a data contando os dias a partir de um dia
pré-determinado (aquele famoso 6 de junho de 1956 que aparece nos
computadores com a pilha da placa descarregada…) e, eventualmente, vão
seguir contando sem problema (como os Macintosh), desde que não tenha
sido pré-programada sua obsolescência: a lógica atual é que você já deve
ter jogado fora seu “quatro-oito-meia” e atualizado a máquina para um
“pentium qualquer coisa” porque não apenas a data, mas tudo o mais não
funciona tão bem ou tão rápido quanto o “indispensável” para este
momento da civilização. Num certo sentido, os publicitários, porque
pragmáticos, conhecem melhor os meandros da alma humana do que os
psicanalistas: usam e abusam do “princípio do prazer” que vigora nas
profundezas do inconsciente, apelando para as compras por impulso,
enquanto os psicanalistas tentam penosamente fazer seus analisandos
amadurecerem para viver segundo o “principio da realidade”, o que
termina por ser dificultado pela realidade que anda por ai…
Este é o objetivo de todos os mitos: esconder uma
realidade difícil por dura ou por incompreensível, aterrorizadora:
prefiro atribuir o apagão a um raio e os raios a Zeus ou Tupã do que
admitir que não sei de onde vêm ou porque. Bion mede a maturidade de
seus pacientes pela tolerância deles à incerteza e mostra quanto é
angustiante o “não saber”, investigando cientificamente o que os
filósofos já diziam sobre as religiões serem curto-circuitos para
encobrir o desconhecido. É muito mais fácil afirmar que os maus serão
punidos e os bons recompensados no céu ou na próxima encarnação, do que
realmente punir os corruptos nesta de agora. Aquela “pobreza com
dignidade” que nossos avós tiveram, acabou-se: agora é mesmo “cada um
por si”, “não existe isto que vocês chamam sociedade”; é a miséria da
competição desenfreada, eventualmente ajudada por bombardeios que
destroem tudo, inclusive a vida.
E o bug do milênio, o que esconde? Basta olhar os
noticiários de TV ou ouvir os das rádios… Ainda que estejamos vivendo
um momento de grandes descobertas (como por exemplo a da riqueza da
vida emocional dos fetos dentro do útero!) com conseqüentes mudanças de
paradigma, uma época que talvez os pósteros identificarão como um “Novo
Renascimento”, ainda assim os atuais parecem ter pouco de que se
orgulhar por pertencer a esta família de “homo sapiens”, mas que não são
sábios o suficiente para conviver em paz.
E o “bug”, afinal, vai existir mesmo? Sim, vai acontecer em algumas casas com velhos PCs: os programas de contabilidade doméstica talvez se atrapalhem, os e-mails vão para o lugar errado na seleção por data, e pouco mais. Vocês acham que algum banco vai pagar cheque em dólar com a cotação de 1900? E também acreditam em Papai Noel e nas histórias da carochinha?
__ * Wilfred Bion – Psicanalista inglês que levou às últimas conseqüências os achados de Sigmund Freud e Melanie Klein, estudando o psiquismo dos grupos e os aspectos mais primitivos do inconsciente, trazendo o místico (diferente de religioso!) para o campo da investigação científica.
Glosando o mote
Por Luiz Pellanda
(Carta ao Editor – Boletim da ABP)
Desejo
cumprimentar os editores de “ABP Notícias” Ano XI,
Nº 35 pelo belo trabalho apresentado e pelas instigantes
questões levantadas. Tantas que não consigo me furtar
de tentar uma continuação: acho que todos nós
estamos “deitando fora o nenê junto com a água do
banho” na medida em que seguimos ignorando as mudanças de
paradigma que ocorrem em torno de nós e nos afetam, queiramos
ou não.
Aristóteles
dizia que as coisas caiam porque era da natureza delas quererem cair,
logo algo mais pesado cairia mais depressa do que uma leve. Nisso
acreditamos por mais de um milênio, até que o chato do
Galileu jogou duas bolas de mesmo tamanho mas de diferentes materiais
pelo bordo da Torre de Pisa e… tanto a de ferro quanto a de madeira
caíram igualmente velozes. Descartes dizia que mente e corpo
são de diferentes naturezas e que somente “res
extensa” pode ser objeto de ciência, enquanto a outra,
“res cogitans” só o pode ser da Filosofia. Mesmo em
seu tempo já Espinosa discordava, mas não só
não foi ouvido como foi providenciado para que não
pudesse sê-lo: excomungado, posto no Índex, impedido de
publicar… Ainda assim, hoje cá estamos a nos perguntar como
teria sido o mundo se, em vez de Cartesiano, tivesse podido ser
Espinosiano… Einstein, que após dar início à
revolução quântica, rejeitava as
conseqüências de seus estudos, afirmando que “Deus
não joga dados”, levou seu amigo Niels Bohr a contestar:
“Einstein, pare de dizer a Deus o que fazer”. Ou seja,
não é a “autoridade” de quem diz que
estabelece o que é “verdade”.
Freud,
querendo ser um cientista (e isso implicava em ser Cartesiano) na
verdade rompeu com esse paradigma ao introduzir um objeto complexo, o
inconsciente, no âmbito de seus estudos, tornando a
Psicanálise uma pioneira nesse novo campo. Ele dizia que a
verdade acaba por se impor ao cientista sério, mesmo que passe
por ela inúmeras vezes sem o perceber. A “verdade”
neste contexto é que já não podemos esconder que
conhecimentos não se transmitem e, portanto, necessitamos
encontrar respostas a “como se aprende”. Isso a que
chamamos “Escolas” ensinam apesar delas, porque na verdade
estão programadas para transformar todos em seres uniformes e
submissos, além de acabar com qualquer veleidade ao
“novo”, isto é, ao progresso. Kernberg relacionou
trinta maneiras de impedir a formação de candidatos,
mas a questão é ainda mais grave: muitos de nossos
ensinadores nem percebem que os candidatos aprendem
“apesar” da autoridade deles que se intitulam
“professores”, isto é professam uma cartilha de
sujeição.
Então,
se transmitir conhecimento é impossível, mas aprender
acontece como acontece? O novo paradigma representado pelo
“Movimento de auto-organização” (MAO) do qual
fazem parte os que estudam a “Teoria da Autopoiese” tem uma
resposta a ser considerada. Este movimento possui muitos focos,
inclusive o representado por Prigogine e seus estudos dos sistemas
longe do equilíbrio, que lhe valeram o Nobel, e Maturana e
Varela que cunharam o termo “Autopoiese” para designar o
modo como os seres vivos se organizam espontaneamente em
congruência com seu meio envolvente do qual dependem e com o
qual co-evoluem, criando novidade. Como exemplo basta lembrar que a
atmosfera atual é o resultado de milhões de anos de
produção de oxigênio por bactérias
cianofíceas inicialmente e plantas verdes depois. Neste
sentido, importa menos a natureza do estímulo do que a
estrutura do ser: a mesma luz solar que causa fotossíntese em
folhas verdes é a responsável por queimadura em peles
humanas claras.
Mostram
os neurocientistas que o cérebro é uma “maquina de
aprender” em dois anos, apenas por estar imerso em um ambiente
propício, uma criança aprende os rudimentos de sua
língua materna, suas regras de formação de
palavras e é capaz de criar novas (se a parte de traz de um
carro é a traseira, então a outra parte éa
“frenteira”…). É assim que se aprende:
estando imerso por tempo suficiente em um ambiente que
favoreça o uso das ferramentas inatas de que dispomos e que se
baseiam principalmente na curiosidade pelo que o outro faz,
mobilizando nossos neurônios-espelho, criando novas sinapses
nessa rede neuronal que nunca está pronta, está sempre
em construção. Igualmente nossos pacientes melhoram
(aprendem) muito mais por partilhar vida conosco no
“setting” do que pelo poder mágico de nossas
interpretações mutativas…
Que
muda na Psicanálise com esse novo Paradigma? Nada e tudo. Nada
que este século de observações bem descritas nos
mostram serem consistentes; tudo, porque podemos re-interpretar
muitos dos fenômenos estudados à luz da complexidade que
é inerente a eles, acrescentando uma “nova camada”
de compreensão a esta cebola de significados que somos todos
os seres humanos.
Por que Internet, banda larga por quê
Por Luiz Pellanda
Acompanho esta revolução que vem
acontecendo com a humanidade, sem que ela mesma perceba claramente, graças a um
insight de que tampouco eu avaliei o alcance, mas que me levou a planejar em
1978 e a efetivar no ano seguinte
a compra de um computador pessoal por ocasião do Congresso da IPA em Nova York
e a fundar um clube de usuários que existe até hoje. Ao longo destes anos
todos, foi nele que encontrei exemplos de solidariedade não competitiva do tipo
que Humberto Maturana afirma ser característica do legitimamente humano e que
nos separa dos chipanzés e demais símios. Graças a isto vejo-me acompanhando de
perto este novo Renascimento que agora não se limita a Florença ou a Itália,
mas floresce no mundo inteiro de forma simultânea.
Pierre Lévy em sua “World Philosophie” diz:
“ O mundo que se edifica hoje em dia não é “perfeito”, no sentido de que não corresponde a nenhuma idéia pré-concebida. Não é nem assegurador nem protetor. Surpreendentemente, vive permanentemente no limite do caos e da desorganização, mas é exatamente nessa fronteira entre a ordem e o caos que se situa a invenção e a energia espiritual máximas.”
E, logo adiante:
“Mas a unidade da humanidade está hoje acontecendo. Depois de tantos esforços, eis que enfim ocorre a unificação da humanidade de um modo jamais sequer pensado: não se trata de um império, não é uma religião que a todos conquista, uma ideologia, uma raça pretensamente superior, uma ditadura qualquer, são imagens, as canções, o comércio, o dinheiro, a ciência, a tecnologia, as viagens, as mesclas, a Internet, um processo coletivo e multiforme que se espraia por toda parte. […] Tento discernir a unidade desta corrente que nos porta e dar um nome a esse processo: a expansão da consciência”.
(Pierre Lévy, 2000)
Tenho repetido em meus textos que a ciência é uma só, que as divisões ocorrem por necessidades práticas de delimitar campos de atividade, mas que tem por conseqüência limitar simultaneamente o pensamento do pesquisador. Estes novos paradigmas que agora vivemos retomam essa unidade do saber, em que vemos psicanalistas estudando física quântica e convivendo com o princípio da incerteza que nos remete a Bion e ao incognoscível que tende para “O”; em que vemos biólogos como Maturana postulando natureza da vida mental e propondo novas abordagens para a psicoterapia (1996). Este autor vai mais adiante e mostra a inseparabilidade do ser e seu meio, criando o conceito de autopoiese. Em muitos sentidos há uma retomada do Freud impossível do “Projeto”, agora com conhecimentos de fisiologia inexistentes então, em que se reafirma a genialidade de muitas percepções de nosso fundador, como por exemplo de que o “Ego é antes de tudo corporal”: as neurociências vem mostrando na atualidade como o processo psicanalítico modifica o cérebro, criando novas sinápses, alterando a estrutura proteica da rede neuronal (Vaughan, S. 1997).
Com isto penso que agora podemos levar adiante a questão proposta por Strachey em 1934, quanto à “natureza da ação terapêutica da psicanálise” e concluir que ela decorre exatamente dessa reorganização da rede neuronal que dá o suporte para o que chamamos de “mente”, por consequência da metacognição que decorre do processo de pensar o pensamento. Como observa Maturana, muda a estrutura de forma congruente com o meio e se mantém a continuidade funcional.
A Internet libera o saber para uso
de todos, rompendo os feudos dos que se pretendem donos da ciência e das
práticas decorrentes. Assim como o tipo móvel de Gutenberg instrumentou a
disseminação dos saberes da Idade Média e propiciou o Renascimento, a Internet
agora instrumenta a mudança de paradigma e a disseminação das fontes de
informação que geram o que Pierre Lévy chama de inteligência coletiva da humanidade, essa “noosfera” antevista por
Teilhard de Chardin. Partilho de seu otimismo em relação à humanidade, também
reafirmado por Humberto Maturana quando diz que “viver é fácil” e que “o
ser humano se caracteriza por ser
neotênico”, isto é, dependente do amor por toda sua vida, mas reconheço que
estamos falando em termos estatísticos, com Heisenberg, e que alguns indivíduos
em particular são desviantes desse padrão, de onde o sofrimento e a doença.
Dentro dessa globalização seria
demasiada onipotência pretender manter o monopólio da psicanálise apenas porque
nossa IPA foi “fundada por inspiração Freud” e nossa formação é mais rigorosa
(por que parâmetros, mesmo?) do que as demais que se dizem psicanalíticas.
Muitos dos que fizeram suas formações dentro de nossas sociedades hoje militam
em outras entidades e os conflitos seguem se alastrando e fazendo baixas.
Atitudes simplistas de afirmar que são colegas mal analisados ou que necessitam
re-análise não mudam em nada os fatos.
E a Internet, onde entra nisto
tudo? Justamente como instrumento de construção de conhecimento que globaliza
sem preconceitos, onde todos podem fazer parte de uma comunidade de comunicação
que já está sendo explorada por outros mais atentos: vários de nós receberam
notícia de estatísticas de acesso ao site de uma outra entidade que também, como nós, se intitula
psicanalítica, com números expressivos de “hits” no mês de agosto deste ano:
total de acessos: 128.737, média por hora: 17, máximo em um dia: 6.202.
E nós, nossa ABP? Ainda estamos
discutindo. Nossos membros pouco usam a comunicação por correio eletrônico,
muitos sequer conferem sua caixa postal ao menos uma vez por dia, não falando
daqueles que se recusam a tê-la. Dados os altos custos de nos mantermos
psicanalistas, a Internet é opção muito econômica para buscar a formação
continuada de que necessitamos, bastando possuir o critério para saber separar
o joio do trigo nesse mundo infinito da www e nisto pretendemos auxiliar por via de um
“portal” de serviços, em fase de organização, que fornecerá subsídios para as
discussões científicas e espaço para que possamos trocar experiências, como
centenas de grupos atuantes o fazem pela rede todos os dias.
Computador é feito para estar
ligado vinte e quatro horas, como a geladeira ou relógio, por exemplo, (se o
monitor está escuro como o deixam certos “salva-telas”, o consumo de energia
elétrica é absolutamente desprezível, da ordem de centavos por mês), e deve ser
mantido conectado à Internet via “banda larga”, isto é, aquela que permite a
passagem de grande quantidade de dados por unidade de tempo e que independe de
discar o telefone a cada vez que se deseja checar e-mail ou navegar (e ainda:
não paga minuto conectado, mas uma taxa geral por mês que resulta muito mais
barata do que a tradicional). Nessas condições ele estará sempre pronta para
acolher uma idéia que ocorre, como o velho bloco que deixávamos ao lado da cama
para anotar os sonhos. Foi bem isso que me aconteceu hoje quando às quatro
acordei com a idéia deste texto e às cinco voltei a dormir com a consciência
tranqüila de que não o perderia para o recalcamento… Minha velha tia Morena, que faleceu aos
95 anos de idade, não se conformava de ver acesa a luzinha do freezer, queria
desliga-la para “poupar luz” — quantos de nós estamos ainda atados a
preconceitos semelhantes? Minha experiência pessoal é de que a conta do
telefone diminuiu de 400 para 100 reais depois do “Turbo” que é a marca
comercial da ligação ADSL por aqui. Mas de qualquer modo que se chame é a opção
que deve ser preferida por todos os que desejam entrar a sério nessa aventura
do conhecimento que é navegar pela rede.
Precisamos oferecer serviços
dignos de nossas pretenções científicas a nossos clientes, sejam eles os
psicanalistas que buscam apoio na ABP (e os há por todo este interior imenso do
Brasil) ou sejam os potenciais clientes de nossos divãs que temos a obrigação
de orientar bem para que saibam reconhecer um Psicanalista com “P” maiúsculo,
distinguindo-o das aves de arribação que proliferam por ai. Para começar por nós mesmos, façamos
uma campanha por generalizar entre nós o uso deste instrumento já indispensável
que é a Internet e em banda
larga, por favor!
Bibliografia
Lévy, P. (2000) World Philosophie, Editions Odile Jacob, Paris.
Maturana, H. (1996a) Biologia e Psicanálise: o amor como interface. In: Pellanda, N. & Pellanda L. E. Psicanálise Hoje: Uma Revolução do Olhar. Ed. Vozes, Petrópolis.
Vaughan, S. (1997) A Cura pela Fala . Tradução de “The Talking Cure – The Science behind Psychotherapy” por T.B. Santos. Objetiva, Rio, 1998.
__ Este texto esteve publicado na pagina da SBP (http://www.abp.org.br) durante mais de seis meses em 2002.
Psicanálise e Pensamento Complexo
Por Luiz Pellanda
O Paradigma Newtoniano-Cartesiano
reinou de forma absoluta desde o Século XVII até o
início do vigésimo, ocasião em que se tornou
cada vez mais evidente que não podia dar respostas aos
fenômenos complexos.
Freud descobre e tenta mapear o
inconsciente; há uma explosão de conhecimento do mundo
infinitesimal; a emergência do conceito de
“auto-organização” que remete à inversão
da entropia nos seres vivos (que não seguem a segunda lei da
termodinâmica – na verdade nem deveriam – pois são
sistemas FORA
do equilíbrio); tudo isto abala o edifício do velho
paradigma. Aparecem então as ciências da complexidade:
Psicanálise, Física Quântica, Termodinâmica
dos sistemas dissipativos (fora de equilíbrio), e assim por
diante. A assunção básica de todas elas é
a complexidade, cujo conceito, para Edgar Morin é “… aquilo
… que é tecido junto”.
A vida é fenômeno
complexo, mas o paradigma clássico tenta se aproximar dela com
instrumentos cognitivos lineares. A Psicanálise segue outro
paradigma porque o inconsciente possui uma lógica diferente
(lógica simétrica, para Matte-Blanco) e muito distante
da lógica formal (Aristotélica ou assimétrica,
para o mesmo autor). Esta nova lógica é relacionada com
o modelo de rede que caracteriza o paradigma da complexidade, a
auto-organização e a autonomia, que interagem
dinamicamente no inconsciente sem nem confundir-se uma com a outra
nem se excluirem (Bi-lógica, para Matte-Blanco).
Este momento especial das
ciências em expansão, para usar uma
expressão tão querida por Bion, é um momento de
turbulências que, ou nos permite construir uma metodologia do
fenômeno complexo, dando à questão
epistemológica uma aproximação
psicanalítica, construindo sujeito e conhecimento ao mesmo
tempo, interagindo no setting no tecer de narrativas, ou corremos o
risco de permitir que a Psicanálise seja domesticada pela onda
de neo-positivismo e caia de novo no formalismo que suga a vida do
processo psicanalítico, como visto em algumas partes do
mundo.