“Consciência”: um olhar complexo

(Traduções do autor, salvo Freud da S.E., quando uso a da Imago, com o original em nota ao pé.)

Resumo

Neste texto é retomada uma idéia de Freud pouco mencionada, seguindo os passos de Mark Solms (1997) e na qual ele, Freud, afirma ser a atividade mental inteiramente inconsciente, sendo a consciência apenas uma percepção parcial, limitada e não confiável do que realmente se passa na mente. Examinando-a à luz do paradigma da complexidade, parece ser uma postura compatível com idéias de Espinosa, Maturana, Varela e outros pensadores provenientes de campos tão dispares quanto física, matemática, cibernética e neurociências. Um histórico destes outros campos mostra que a psicanálise influenciou e foi influenciada por eles, participando na evolução de conhecimentos sobre a mente humana. É discutido o pressuposto de que a consciência tem o mesmo estatuto de outros sentidos, como visão e audição, não havendo distinção entre “corpo” e “mente”, pois são expressões de uma unidade funcional. Aceitar a mudança de paradigma, a rigor, poucas diferenças trará na prática psicanalítica, desde sua origem impregnada das noções de complexidade, mas a compreensão dos fenômenos estudados, sim, merecerão novas abordagens e explicações decorrentes da impossibilidade de “transmissão de conhecimentos” o que leva a trazer à baila a constituição interna dos participantes e suas respectivas autopoiéses.

Descritores

Consciência, complexidade, autopoiese, psicanálise como experiência autopoiética.

Abstract

In this text, reading Mark Solms, the A. returns to Freud’s idea about the mental life being completely unconscious and only a part of it is untrustworthily perceived as conscious. Confronting it with the Complexity Paradigm, it seem compatible with ideas of Spinoza, Maturana, Varela and other present scientists from so disparate fields as physic, mathematic, cybernetics, and neurosciences. Revising these entire field shows that psychoanalysis affected and was affected by all, considering participation about human mind knowledge. The A. discuss about the conscious having the same statute of other senses, as vision and hearing without distinction between mind and body by the simple reason that they are expressions of the same functional unity. Accepting the Complexity Paradigm change will cause few differences to psychoanalytical technique, because Psychoanalysis deals with complexity from its beginning. The comprehension of phenomena, yes, this must be rethought, as it is now well established that there are no “transmission of information”, so what matters is the internal constitution of subjects and their respective autopoiesis.

Keywords

Conscience, complexity, autopoiesis, psychoanalyse as autopoietic experience

Resumen

En este texto es retomada una idea de Freud poco mencionada, siguiendo los pasos de Mark Solms (1997) y en la cual Freud afirma ser la actividad mental enteramente inconsciente, sendo la conciencia apenas una percepción parcial, limitada e no confiable de lo que realmente se pasa en la mente. Examinándola a la luz del paradigma de la complejidad, parece ser una postura compatible con ideas de Espinosa, Maturana, Varela e otros pensadores actuales provenientes de campos tan dispares cuanto física, matemática, cibernética y neurociencias. Un histórico de estos otros campos muestra que la psicoanálisis ha influenciado y fue influenciada por ellos, participando en la evolución de los conocimientos sobre la mente humana. Es discutida el presupuesto de que la conciencia tiene el mismo estatuto de otros sentidos, como visión e audición, no habiendo distinción entre “cuerpo” y “mente”, pues son expresiones de una unidad funcional. Aceptar el cambio de paradigma, a rigor, pocas diferencias traerá en la practica psicoanalítica, desde su origen impregnada de las nociones de complejidad, pero la comprensión de los fenómenos estudiados, si, merecerán nuevas abordajes y explicaciones decurrentes de la imposibilidad de “transmisión de conocimientos” lo que lleva a traer a la baila la constitución interna de los participantes y sus respectivas autopoiesis.

Palabras llave

Conciencia, complejidad, autopoiesis, psicoanálisis como experiencia autopoietica.

Introdução

Após séculos de conflitos sobre a natureza da consciência, da divisão dualista que se inicia com os gregos e culmina com Descartes, parece que hoje em dia se pode pensar de modo diferente, redimensionando o problema e extinguindo o paradoxo pela mudança de vértice de observação. Em primeiro lugar, é necessário resgatar o pioneirismo da Psicanálise como ciência complexa a partir da inclusão de um objeto de estudo complexo, o inconsciente, e da concepção de multi-causalidade das neuroses, que Freud adotou desde cedo em suas pesquisas como solução para a insuficiência explicativa da cadeia de causa única – efeito único. Mais uma vez somos obrigados a nos render à sua genialidade e reconhecer que idéias tidas como sendo muito atuais, já haviam passado por sua mente: a consciência como estatuto do resultado de um sentido dirigido ao interior é uma delas e será abordada neste texto. Logo, é necessário também levar em conta o fato de que a ciência é uma só, embora as diversas denominações de seus aspectos particulares. Com isso, incluo aí os achados recentes  das neurociências, biologia cognitiva, cibernética e processamento de imagens, assumindo sempre o meu lugar de psicanalista.

A nossa experiência cotidiana de existir, ver, ouvir, estar consciente de si, faz com que pareçam banais e por demais conhecidas tais tipos de vivências, por serem comuns a todos nós. Mas basta um pouco de atenção para que comecem a aparecer as dificuldades. Algo tão simples como “olhar o poente”, por exemplo. Vejo o sol se pondo por detrás dos morros da cidade de Guaíba, refletindo-se nas águas barrentas do rio de mesmo nome, que não é rio, mas uma ria ou um lago, sinto emoções que a luz refletida nas nuvens me evoca de velhos tempos vividos nessa Porto Alegre de toda a vida. As cores que vejo são, na verdade, decomposição da luz branca do sol pelos prismas formados pela atmosfera sobre nós. Só isso? Tem mais: o fato de haver três tipos de células receptoras da luz leva a uma metáfora ligeira e fácil da tricromia das impressões em papel, mas uma coisa é depositar pigmentos sobre uma folha, outra o estimulo na retina, e outra ainda a percepção disto ao longo do trajeto percorrido desde aí, seguindo pelo córtex visual, onde cada elemento vai sendo destacado: cor relativa aqui, contraste mais adiante, a integração de todos os elementos no córtex frontal, que me dá a consciência do que estou vendo. Não há no cérebro um lócus onde se forme uma imagem como aquela na retina. Essa mesma é origem de comparações enganosas: tudo parece ser como em uma “câmera obscura”, mas a  retina está longe de ser um filme ou chip de CCD dos que hoje “sentem” a luz nas câmaras digitais modernas. É um sistema vivo que transmite impulsos, mas apenas isto não basta para que haja visão. Dependemos de ações sobre o real para desenvolver o que depois chamamos “visão”. Gatinhos privados de deambular por serem carregados em um carrinho por outros gatos comportavam-se como se cegos fossem, batendo contra objetos, caindo pelas bordas de seu tablado (Varela et al., 1993 pág. 174-5). Tinham olhos e cérebros funcionais mas não “sabiam” ver por haverem sido impedidos de mover-se e estabelecer relações de acoplamento com seu meio. Com isto, quero dizer que os órgãos dos sentidos são apenas parte do processo inteiro da percepção, dependentes de uma integração com o restante do organismo de forma complexa e inextrincável. Diz Solms (1997):

 “As comparações [que levam à visão] e seus resultados são propriedades do cérebro e não do mundo externo, mesmo que todas as informações necessárias para levar a cabo essas comparações estejam contidas no mundo externo.” 

Na perspectiva da Biologia da Cognição, poderíamos considerar que o estimulo externo não determina o efeito sobre o ser, mas sua estrutura o faz (Maturana e Varela, 1984, pág. 130), logo, nem todas as comparações estão no mundo externo, quem sabe, nem mesmo a maioria delas. Aceitar esta proposição como verdadeira implica em aceitar uma mudança de paradigma: já não há algo “lá fora” que eu descrevo objetivamente, mas tudo se passa na interação com o observador – desistimos de buscar um conhecimento “positivo” para buscar entender o fenômeno estudado desde o ponto de vista do observador implicado. “Tudo o que é dito, é dito por um observador” é outra máxima dos referidos autores, que expressa esta mudança de foco.

Um bom exemplo das dificuldades em se mudar paradigmas pode ser encontrado neste dialogo entre Gerald Edelman (1992, pg. 210) e Jacques Monod:

“Freud sugeriu que certos acontecimentos ameaçadores podiam ficar retidos na memória a fim de não estarem acessíveis à evocação consciente.

Não podemos esquecer que estes são termos psicológicos e não estruturais. O meu falecido amigo, o biólogo molecular Jacques Monod, costumava discutir energicamente comigo a respeito de Freud, insistindo que ele era anticientífico e muito possivelmente um charlatão. Eu tomei a posição de que, embora talvez não fosse um cientista no sentido que nós damos à palavra, Freud foi um grande pioneiro intelectual, particularmente nos seus pontos de vista sobre o inconsciente e o papel que ele desempenha no comportamento. Monod, de rígida formação huguenote, retorquia: “Sou absolutamente lúcido a respeito dos meus motivos e inteiramente responsável pelas minhas acções. Todas elas são conscientes”. Certa vez, exasperado,, acabei por lhe dizer: “Jacques, ponhamos as coisas então assim. Tudo o que Freud disse se aplica a mim e nada do que ele disse se aplica a ti”. Ele replicou: “Exactamente, meu caro amigo”.

Neste trabalho me proponho a discutir que, tendo a vertente dualista esgotado os esquemas lógicos de seus argumentos, a “complexidade” é um  caminho possível tendo em vista seu projeto de “juntar o que foi desconjuntado”, como diria Morin. (Morin, 1990)

A emergência da complexidade

A revolução paradigmática começou a se desenhar a partir dos anos 30 com os estudos de Alan Turing. Ele criou as condições lógicas  para a grande virada da cibernética dos anos 40 e 50, trazendo para a investigação científica objetos que até então estavam em mãos de meras especulações da filosofia. Objetos tais como a mente, a cognição e a consciência não eram investigados de forma sistemática e empírica com exceção feita aos estudos de Freud, estes mesmos pouco considerados entre os praticantes das “ciências duras”: Monod não estava só, na verdade, estava com a maioria…

A importância da “máquina de Turing” foi mostrar que o cogito cartesiano não era tão transparente assim, pois a resposta obtida em determinado passo dependia também do estado interno da maquina nesse momento.  Esse matemático brilhante causou uma verdadeira revolução conceitual ao oferecer soluções lógicas para a questão da relação entre a mente e a matéria, atingindo em cheio o dualismo clássico. Os cibernéticos vão usar esse apoio  a partir do princípio de que “o que a máquina é capaz de gerar está alem do mecânico” (Dupuy, 1994, p. 34). Assim nasceram a cibernética e, em sua esteira, as ciências cognitivas. Daí emergem também as condições para o desenvolvimento das neurociências de origem cibernética, o que as permitiu avançar em direções inusitadas e, com isso, possibilitar uma aproximação mais consistente em relação aos estudos da consciência.

A primeira fase da cibernética, que surgiu com o projeto de estudar as questões de comunicação e controle em máquinas e seres vivos, ainda está muito próxima do behaviorismo. No entanto, se distingue deste por praticar uma lógica não-linear, conseqüência do principio da recursividade. A chegada de Heinz von Foerster ao grupo, anos mais tarde, determinou uma outra virada conceitual, que é conhecida como “cibernética de segunda ordem” e cujo núcleo lógico é a presença do observador como parte integrante do sistema observado. Há uma mudança evidente e profunda na ciência que passa dos sistemas observados para os sistemas observantes. Aliás, essa intuição já estava presente em Freud ao tratar das relações analista/analisando, transferência/ contratransferência, confirmando seu pioneirismo nas ciências complexas.

Os desdobramentos da complexidade e os estudos da consciência

Em tempos de complexidade, cabe a nós conferir em que ela altera nosso modo de ver a Psicanálise. Podemos discordar do diagnóstico que Freud faz, por exemplo, do “Homem dos Lobos”, mas sua descrição minuciosa nos permite outras hipóteses derivadas de diferentes pontos de vista. Isto não invalida o que ele disse, mas completa ou complexifica, na maioria dos casos. Freud era um cientista que tinha presentes as limitações da tecnologia disponível em seu tempo, afirmando aceitar a hipótese de que um dia se poderiam curar neuroses de uma forma diferente, quem sabe com mediadores químicos. Nos dias que correm, os exames não invasivos de seres vivos nos aproximam de seu ideal de criar uma “Psicologia Científica”, mas ainda estamos longe de concluir a tarefa. É interessante notar que nosso pioneiro tinha uma idéia clara de que a mente não flutuava no ar, mas dependia de seu substrato anátomo-fisiológico: “O Ego é antes de tudo corporal” é uma de suas frases mais citadas. Se ele abandonou este viés foi justamente por sentir a fragilidade dos conhecimentos de fisiologia cerebral disponíveis em sua época, optando então por uma abordagem puramente psicológica. A rede neuronal que ele concebe no “Projeto” tem características computacionais de excitação e inibição que só vão fazer sentido muitas décadas depois.  É somente em 1943 que McCulloch apresenta

“um modelo de cérebro sob a forma de uma rede de neurônios idealizados. Cada neurônio recebe ou não de seus vizinhos impulsos e ele próprio é acionado se e somente se uma soma ponderada do 1 ou 0 que codificam a existência ou ausência de um impulso nas sinapses aferentes for superior a um certo limiar, chamado limiar de excitação.” (Dupuy, op.cit. pág. 60)

Uma aproximação desse tipo é feita por Humphrey (2000):

“… cérebros humanos e mente são […] um único estado do mundo material que, de fato, em principio, pode ser completamente descrito em termos de seus componentes micro-físicos. Assumimos que todo e cada um dos estados mentais é idêntico a um estado do cérebro, estado mental m = estado cerebral c, significando que o estado mental e o estado do cérebro expressam a mesma coisa neste nível micro-físico.”

A discussão que se segue é que, mesmo admitindo essas correlações de estado, isto não nos aproxima do porque ocorrem, havendo mesmo quem duvide que sejam algum dia acessíveis à mente humana. (McGinn, 1989, apud Humphrey).

“Um estado mental é um estado cerebral. Assumindo isto, o recordar de um determinado evento na memória poderia ser descrito também como a atividade simultânea de um determinado, ao menos determinável, conjunto de neurônios.” (Harth, pág. xxi, 1993)

Harth continua afirmando que esta seria uma descrição que agradaria a um físico clássico, mas a Física também mudou, incluindo agora a Física quântica e a Relatividade, fazendo que alguns declarem que o “materialismo está morto” – “A máquina que funciona com precisão determinística como se fosse um relógio perfeito não é mais uma descrição adequada para a maioria dos processos na natureza.” E isto se aplica também ao cérebro.

Ele faz uma pesada critica aos behavioristas mostrando que muitas vezes podemos observar situações em que há apenas ou “inputs” ou “outputs”, ou ainda nenhum dos dois, ainda que, evidentemente, o cérebro esteja funcionando a pleno, como expresso na figura de um “Pensador”. Chama ainda a atenção para o fato de que não existem neurônios isolados, todos pertencem a redes muito complexas onde se observam trajetos de realimentação entre grupos funcionais. O córtex visual occipital, que recebe informações da retina e remete para o córtex frontal, dele também recebe um “feedback” que permite ligações com o “já visto”, a experiência de vida. Como este “loop”, milhares de outros, que ele designa como os “Creative loops”, culminam na percepção de si mesmo – na consciência – segundo seu modo de ver.

“A consciência tem limites imprecisos e tentar impor nitidez não acrescenta insight.” (op.cit.) Mas reconhece pelo menos dois sentidos distintos: após um trauma grave, podem ocorrer diferentes níveis de perdas de consciência, ou, numa segunda acepção, “posso estar consciente da presença de algo ou alguém”. Neste sentido é chamada de “subjective awareness” – sem que tenhamos uma tradução suficientemente boa para esta locução.

Entretanto, foi um psicanalista (!), na época neurologista, quem chamou  a  atenção para:

“Esses loops haviam sido postulados pelo neurologista Lawrence Kubie já em 1930, num artigo publicado na revista Brain, com o titulo “A theoretical application to some neurological problems of the properties of excitation waves which move in closed circuits.  […] Em 1941, Kubie, que se tornara psicanalista, conjecturou que o rebaixamento neurofisiológico das neuroses reside nesses circuitos fechados reverberantes, em que as seqüências de impulso se deixam cair na cilada de um circulo sem fim.” (Dupuy, op.cit.)

Kubie era o único psicanalista participante das “Conferências Macy”​*​ e foi saco de pancadas dos cibernéticos, que consideravam a psicanálise uma “disciplina amaldiçoada”. Mas a inversa também é verdadeira em certa medida, pois psicanalistas como o próprio Kubie, além de Emanuel Peterfreund e outros que se interessavam por cibernética, sempre foram tidos como malditos entre os psicanalistas… De qualquer forma, convém ressaltar que a Psicanálise estava representada nesse momento de virada epistemológica das ciências.

Um salto de setenta anos e chegamos ao nosso compatriota Miguel Nicolelis (2008), que ficou mundialmente conhecido por implantar um conjunto de eletrodos na região volitiva motora do cérebro de uma macaca, Aurora, de modo a registrar a atividade de centenas de neurônios simultaneamente. Logo passou a usar esses registros para comandar simultaneamente os movimentos de um braço robótico. Aurora usa um joystick para comandar um jogo eletrônico, mas logo percebe que pode dispensar o joystick e comandar o jogo apenas pelo pensamento.Se ela tem ou não “consciência” do que faz é uma outra questão. A idéia básica é poder utilizar estes conhecimentos de “interface cérebro-máquina” para permitir que um paraplégico comande algum tipo de robô, como um exoesqueleto,  que o auxilie em seus movimentos.

Em janeiro de 2008, em seu laboratório nos EUA, o Dr. Nicolelis (op.cit.) observou um macaco, que tinha um conjunto de eletrodos implantados no cérebro, ao caminhar sobre uma esteira rolante, controlar remotamente um robô que caminhava sobre uma outra esteira em Kyoto, no Japão. O macaco podia ver o robô caminhando sincronicamente com ele em uma tela. Desligada a esteira do macaco, o robô continuou caminhando por minutos, apenas pela “intenção” do macaco, como se aquele fosse uma extensão de si mesmo. Imagino o quanto Francisco Varela gostaria de saber disto: parece mais uma evidencia de sua intuição sobre “enação”. Voltarei a isto mais adiante.

É o próprio Nicolelis quem diz que dentro do crânio temos tantos neurônios quantas estrelas existem no céu, de onde devemos procurar conhecer este universo interno ainda tão pouco entendido. Mas algo já sabemos. Por exemplo, sabemos que se trata de uma rede neuronal fechada, que só  se comunica com o exterior pelos sentidos de um lado e pelas placas motoras de músculos e glândulas de outro (Maturana, 1996). Disto decorre que qualquer padrão de atividade que seja observado no cérebro, não é “o” mundo externo, nem sua representação, mas o resultado do acoplamento estrutural entre este ser vivo e o meio em que vive. Ademais, se “mente” implica em rede neuronal, ela não está adstrita ao crânio, pois existem neurônios fora dele e fibras nervosas que mapeiam toda a superfície do corpo e de órgãos internos, inclusive vasos sanguíneos. Disso resulta o “mapa do corpo” de que nos fala Damásio (1999) e que é componente dessa percepção de nós mesmos, que resulta em ser consciente de si. Maturana (1996, pág. 605) chama a atenção de que se tratam de fenômenos recorrentes, que ele diferencia de repetidos:

“Ocorre uma recursão sempre que o observador puder afirmar que a reaplicação de uma operação ocorre em conseqüência de sua aplicação prévia. Há uma repetição sempre que o observador possa afirmar que uma dada operação é realizada independente das conseqüências de sua previa realização. […] …sempre que o observador vê uma repetição, verifica que tudo continua o mesmo, mas sempre que vê uma recursão, vê a aparição de um novo domínio fenomenológico. Exemplo: se as roda motoras de um carro giram e ele não se move, permanece no mesmo lugar, o observador vê o mover das rodas como repetitivo. Entretanto, se as rodas do carro rodam de modo que os pontos de contato com o solo mudam e, em cada novo giro as rodas o iniciam em um novo ponto, diferente do anterior, o observador vê um novo fenômeno, o movimento do carro, e considera o movimento das rodas como recursivo.”

Essa distinção é fundamental para seu conceito de consciência:

“…considero que consciência ocorre como uma dinâmica relacional particular, quando um organismo opera como participante em um domínio de distinções recursivas na linguagem, e que isso não é uma entidade ou propriedade de uma entidade.” (op. cit., pág. 601)

Damásio (1999) diz que para entender a consciência é preciso entender dois problemas relacionados:

“O primeiro é entender  como o cérebro no organismo humano engendra os padrões mentais que denominamos, por falta de um termo melhor, as imagens de um objeto. Objeto designam aqui entidades tão diversas quanto uma pessoa, um lugar, uma melodia, uma dor de dente, um estado de êxtase; imagem designa um padrão mental em qualquer modalidade sensorial, como, por exemplo, uma imagem sonora, uma imagem tátil, a imagem de um estado de bem-estar. Essas imagens comunicam aspectos das características físicas do objeto e podem comunicar também a reação de gostar ou não gostar que podemos ter em relação a um objeto, os planos referentes a ele que podemos ter ou a rede de relações desse objeto em meio a outros objetos. […] e o problema de como obtemos um “filme no cérebro […] nessa metáfora tosca…”

Mais adiante:

“Como, paralelamente ao engendramento de padrões mentais para um objeto, o cérebro também engendra um sentido do self no ato de conhecer?” E na pagina seguinte: “…vejo com certo ceticismo a idéia de resolver o problema da consciência.”

Aparentemente ele persiste em um paradigma dualista no qual, realmente, não há solução para o problema da consciência. Não concordo com Edelman (1992) que pensa que o Freud “tardio” praticava um certo dualismo, não de substância, mas de propriedades, ao considerar que propriedades psicológicas devem ser consideradas exclusivamente nos seus próprios termos.  Restringir-se aos aspectos psicológicos, naquele momento, era na verdade uma estratégia decorrente das poucas informações disponíveis sobre a fisiologia cerebral.

A Psicanálise chega ao problema vinda da direção oposta, e, quem sabe, está na hora de podermos partilhar nossos achados com os demais cientistas da área. Para isso, é imprescindível que façamos uma abertura em direção aos grupos multi- e trans-disciplinares, sob pena de ficarmos isolados em nosso discurso. Qual a nossa contribuição, então? Temos uma longa experiência em lidar com objetos complexos, mesmo que eventualmente não nos tenhamos apercebido disto. Quando Freud introduz o inconsciente como tema de estudo, lança a base do rompimento com o paradigma Cartesiano, ainda que tentando ser fiel a Descartes. Se o inconsciente não reconhece contradições, se não admite a negação, se tempo nele não há, e distância, tampouco, como nos mostra Matte-Blanco (1975), então estamos diante de um objeto complexo, mesmo na raiz de nossa disciplina. Os primeiros discípulos também perceberam isso, tanto que propuseram o nome “complexo” para o conjunto de fatores causais de determinado quadro clínico. Freud não gostava desta palavra, temendo que seu uso dispensasse a procura pelos detalhes das múltiplas causas, dentro da idéia de que se “algo tem nome, então é porque se sabe o que é…” Na verdade, enquanto estudamos o inconsciente o fazemos com a convicção de que faz parte de um sujeito que é na verdade o nosso objeto de estudo, ainda mais complexo, portanto.

Ampliando a idéia de Solms (op.cit.), penso que a consciência é uma propriedade do mesmo estatuto da visão e da audição: um sentido dirigido para o interior e que faz uso do mapa do corpo e outras fontes ainda não bem estudadas​†​, para organizar estas imagens internas que chamamos pensamento. Esta idéia é compatível com a posição de Maturana (1996) quando ele diz que a consciência se produz na interação do funcionamento da rede neuronal. É interessante lembrar aqui que já Espinosa pensava ser a consciência uma “idéia das idéias”. (Dupuy, op.cit. pág. 61), de onde Freud ao pretender ser Cartesiano, na verdade estava sendo Espinosiano… Que outro mundo muito melhor teríamos hoje se o sistema filosófico dominante tivesse sido o deste autor excomungado…

Consciência e Educação

Uma questão que se acrescenta aqui é o de quanto de consciência se necessita para educar. Nicolelis (2008) parece concordar com Maturana e Varela (1984) ao propor a criação de “Cidades de Ciência” onde jovens de regiões as mais pobres e discriminadas do Brasil são incluídos em projeto de “Fellowship for life”, de comprometimento por toda a vida (ver http://www.natalneuro.org.br/). Quando  os últimos demonstram que não há “transmissão de conhecimento” mas este só ocorre por ação do sujeito em interação com seu “milieu”, estão afirmando que “conhecer é viver” e “viver é conhecer”. Uma criança aprende a falar em cerca de dois anos apenas por estar imersa em um meio amoroso que a acolhe. Neste sentido o cérebro é uma verdadeira “máquina de apreender” e com isso “aprende”, isto é, muda, modifica-se sujeito e mundo. Na verdade aprendemos frequentemente “apesar dos professores” como diz, de certo modo, Kernberg (1996) ao relacionar trinta maneiras de impedir a criatividade dos candidatos em Institutos de Psicanálise, ou como afirma Pellanda, N. (1996, pág. 227) ao descrever uma professora que reclamava de um aluno que desenhara uma árvore: “Mas onde se viu árvore roxa?”, quando bastava olhar pela janela da sala de aula para observar um lindo jacarandá inteiramente coberto de flores roxas.

Ou ainda, como eu disse em Rovereto (2007):

“Não há transmissão de conhecimento como uma transmissão de um programa de TV que é capturado em um aparelho de TV. Conhecimento é re-criado cada vez, dentro da mente de cada aprendiz, por meio da ação de cada sujeito, e é extremamente dependente dos afetos que existem em sua origem. Fazendo isto os seres vivos mudam a si mesmos – inclusive a nível das proteínas: fazendo novas sinapses, mudando a arquitetura de seu cérebro – de um modo que descobrimos estar o poeta Mario Quintana cheio de razão quando diz “Já não somos os mesmos depois de tropeçar na pedra do meio do caminho”. Sim, mudamos física e emocionalmente. Sim, nós re-inventamos a roda cada vez  que acrescentamos um algo mais em nossa memórias”.

De modo que, na verdade, para que ocorra aprendizado, o fundamental é a existência de um ambiente propicio, onde as perguntas não estejam já respondidas e onde a curiosidade seja incentivada em vez de criticada. Estamos longe disto em quase todas nossas escolas públicas e privadas e também em nossos Institutos (como nos afirma Kernberg, acima). Volto a ressaltar a importância de iniciativas como a de Nicolelis, sensibilizando a comunidade internacional de modo a obter fundos expressivos para concretizar a sua já vitoriosa proposta de inclusão social por via do ensino de ciências.

Quanto a nós, o fato de que exista na SPPA um Grupo de Estudo de Epistemologia Psicanalítica, entre outros, mostra a evolução em direção a uma visão de ciência mais abrangente e integradora.

O lugar da Psicanálise na complexidade e a questão da consciência

Consciência, consciente, estar consciente, são palavras que parecem expressar coisas de nossa experiência cotidiana, que não necessitam maior esclarecimento. Entretanto, compreender o que seja mesmo “consciência” tem resistido a uma descrição cientifica rigorosa. Que haja uma relação entre consciência e atividade cerebral, parece evidente. Que o aparecimento de consciência entre os seres vivos seja uma decorrência da evolução no sentido da complexificação dos seres, não parece haver  dúvida entre os cientistas de hoje. Que existe uma relação entre o aumento do cérebro e a  progressiva capacidade computacional dele, tampouco. Que seres humanos possuem um status único entre os seres vivos, menos ainda. Mas o porque e o como são ainda temas de muita discussão.

Das inúmeras vezes que Freud usou a palavra “consciência” em seus escritos, não parece que tenha havido alguma para definir o que seja, sendo que em muitas das vezes a usou no sentido de “consciência moral”. Como tantos outros, deu por assentado que consciência todos conhecíamos por experiência própria, sendo necessário advogar pela existência de um inconsciente, considerado impossível por definição, uma vez que “pensamento só podia ser consciente”, segundo a psicologia vigente no fim do século dezenove. Que “consciência” seja um axioma primário em psicanálise parece ser indicado também pelo fato de que Etchegoyen (1987) não tenha achado necessário usar esta palavra no titulo de nenhum dos sessenta capítulos ou 409 sub-capítulos de seu monumental tratado. Mas é evidente que quando um psicanalista dirige uma interpretação a seu analisando, o faz para o consciente deste, ainda que visando efeitos inconscientes. Ainda hoje isto causa desconforto para alguns cientistas que preferem admitir “processos mentais não conscientes” evitando usar o termo “inconsciente” que remete a Freud.

Mark Solms (op.cit.) chama  atenção de que Freud tinha uma concepção diferente de atividade mental, partindo de que se tratava sempre de algo inconsciente e apenas indiretamente percebido, de forma secundaria e distorcida, pela consciência. Citando Freud (s/d):

“Na psicanálise, não temos outra opção senão afirmar que os processos mentais são inconscientes em si mesmos, e assemelhar a percepção deles por meio da consciência à percepção do mundo externo por meio dos órgãos sensoriais”.​‡​

 “Essas duas descobertas — a de que a vida dos nossos instintos sexuais não pode ser inteiramente domada, e a de que os processos mentais são, em si, inconscientes, e só atingem o ego e se submetem ao seu controle por meio de percepções incompletas e de pouca confiança”.​§​

A continuação desta citação talvez contenha um indício de porque esta parte tenha sido tão negligenciada: Freud segue: “—, essas duas descobertas equivalem, contudo, à afirmação de que o ego não é o senhor da sua própria casa. Juntas, representam o terceiro golpe no amor próprio do homem, o que posso chamar de golpe psicológico.” (ênfase do autor)​¶​

Provavelmente esta é uma de suas cinco frases mais citadas na literatura e nas revistas de divulgação cientifica em todo o mundo, tendo servido para reforçar as defesas contra este choque no narcisismo de todos nós. Entretanto, Solms faz uma afirmação surpreendente ao dizer que

“A proposição fundamental da psicanálise não é meramente que uma região da mente é inconsciente. É que a atividade mental é inconsciente em si mesma [ênfase minha]. Isto implica que a consciência não é meramente uma porção da atividade mental; mas um reflexo da atividade mental, ou a percepção da atividade mental (que é em si mesma inconsciente). De acordo com esta proposição, a atividade mental não consiste em uma cadeia causal continua, com alguns elos conscientes e outros não, antes, a proposição é de que a atividade mental consiste em uma cadeia causal continua que é inconsciente em sua essência, e que a consciência representa este processo de uma forma ‘incompleta e não confiável’.” (Solms, 1997)

Logo antes afirmara que não partilha da opinião de que estados mentais particulares resultam em consciência:

“Espero mostrar que a questão ‘Como exatamente os processos no cérebro causam a consciência?’ contem  uma concepção fundamentalmente falha da natureza da consciência. Como resultado disso, a pergunta deste modo nunca poderá ser respondida.”

Neste momento ele abandona, como Freud já o fizera, qualquer tentativa de unir os dois campos, ainda que afirmando pretender fazer uma contribuição a ele, desde um ponto de vista psicanalítico. Na minha opinião, não há conflito entre estas duas propostas, desde que sejam vistas do vértice proposto por Varela (1993), como resultado de uma “enação”: este autor afirma que o conhecimento ocorre por ação sobre o mundo, como referido no exemplo dos gatinhos “cegos” por não haverem aprendido a ver, ou melhor, não haverem constituído o aparelho de ver em sua plenitude. “Na construção de sua teoria, ele defende a noção de cognição como sendo um produto tanto da vivência ontogenética, quanto das possibilidades inatas advindas da herança filogenética.” (Terra et al. 2004) Nossa estrutura no momento atual é resultado de uma evolução filogenética, que nos deu olhos sensíveis a três cores, por exemplo, (diferente de pássaros ou outros animais que possuem olhos para duas ou quatro cores primarias) e nossa evolução ontogenética: aprendemos a ver com esses olhos que nos foram dados com nossa ação sobre o mundo.

Sacks (1984) dá uma descrição vigorosa desse fenômeno ao relatar as seqüelas de um acidente  sofrido por ele mesmo, onde rompeu o tendão do quadríceps crural fugindo de um touro, ao escalar uma montanha na Noruega. Distante de socorro medico, levou dias até ser operado e muitos outros até ser liberado para mover-se pelo cirurgião que o atendia. Relata então a experiência aterrorizante de sentir como alheia sua perna engessada, imóvel. Somente percebeu que se tratava dele mesmo ao “jogar aquilo para fora da cama” e resultar que ele foi junto e caiu no chão. Vinte anos depois aconteceu-lhe de ter seccionado o tendão do quadríceps da outra perna, desta vez em Nova York, com pronto atendimento e deambulação precoce. A ausência do efeito de estranheza lhe fez repensar o fato anterior, deduzindo que a imobilidade “apagara” a existência de sua perna do “mapa do corpo” (Damásio, 2000), ou do “Homúnculo de Penfield” motor. A nova percepção, então, é de que esse “homúnculo” não é estático, mas altamente dinâmico, bastando a oclusão arterial de um membro por alguns minutos, obtida com um esfigmo-manômetro, para que se produza essa sensação de estranheza. A percepção de nós mesmos depende de estarmos em movimento, porque estes é que acionam os mecanismos de “feed-back” que mentem o mapa atualizado. Esta é mais outra evidencia, na minha opinião, do quanto a “mente é corporificada” (embodied), de quanto não só o ego, mas todo o resto é “antes de tudo, corporal”.

Ainda hoje a maioria dos que tratam deste tema procuram evitar uma “definição” de consciência, exatamente por se tratar de fenômeno complexo que abrange muitas dimensões, nem sempre fáceis de explicitar.

A grande novidade da Psicanálise foi explorar os aspectos inconscientes da mente, advindo daí seu principal mérito. Freud, como já dito, tampouco se dá o trabalho de definir o que seja “consciente” ou “consciência” mas faz uso dessas palavras com o sentido que o dicionário dá, por exemplo, quando diz que o Ego é consciente e possui uma parte inconsciente, e o Super-Ego é totalmente  inconsciente. Na década de cinqüenta do século passado havia, tanto na SPPA onde testemunhei, quanto na maioria de outras Sociedades, uma divisão nítida entre os professores que afirmavam assim como escrevi acima e outros que diziam que o Super-Ego possuía uma parte consciente, identificada com a consciência moral, o que insinuava o livre-arbítrio, e outra inconsciente que promovia a repressão.

Receio que nós, psicanalistas, quando dizemos que não nos interessa isso de neurociências, que só psicanálise é psicanálise e o resto é o resto, ou seja, nada, receio que estejamos tendo uma atitude à lá “o que não conheço não existe”. Mas já Freud (s/d) dizia

“A dificuldade do trabalho de pesquisa em psicanálise demonstra-se claramente pelo fato de ser-lhe possível, apesar de décadas inteiras de observação incessante, desprezar aspectos de ocorrência geral e situações características, até que, afinal, elas nos confrontam sob forma inequívoca.”​#​

A Psicanálise nascida na Viena do século dezenove, tem lugar neste admirável mundo novo? A resposta depende de os Psicanalistas estarem dispostos a  abandonar seus refúgios seguros de uma teoria puramente filosófica, mental, para aceitar que a mente não existe sem o corpo.  Não se trata de saber qual a relação “mente-corpo”, como se fossem duas entidades independentes, separadas, capazes portanto de estabelecer uma “relação”. Mas se considerarmos, por exemplo, que se trata de diferentes manifestações de uma mesma coisa, não cabe mais tal questão. A pergunta correta então é outra: como faço para conhecer isto que chamamos “mente”?

Perspectivas

Ao mudarmos de vértice de observação e passarmos e ver o mundo pela perspectiva da complexidade, o que muda na Psicanálise? Provavelmente menos do que se poderia esperar, pelo simples fato de que a psicanálise já lida com a complexidade desde seu inicio. Muda certamente a maneira de explicar certos fenômenos mentais, de compreender as dificuldades de assumir a autoria de si que vemos em nossos analisandos, muda a compreensão de que nossa interpretações são na verdade perturbações que exigem deles uma reorganização autopoiética que leva a construção de conhecimento e portanto, conhecimento de si. Mas isto não as exime de consistência teórica em relação ao rigor epistemológico do referencial praticado pelo analista. Convém sempre lembrar como faz Klimovsky (1987, pág. 276):

 “por muito que uma hipótese haja tido boas conseqüências praticas, clinicas e observáveis, isso não a demonstra como certa; a razão é que os lógicos sabem que, infelizmente, raciocinando corretamente, do falso se pode deduzir o verdadeiro.[…mas…] a lógica não garante nada em relação ao que ocorre se alguém parte de falsidades.”

Com isto quero dizer que estes cento e tantos anos de experiência acumulada em casos clínicos descritos com rigor, estes subsistem, ainda que eventualmente tenhamos que reformular os “porquês” de porque tenham dado certo ou errado. O fato é que o “setting” como proposto tradicionalmente, tem evidenciado ser uma ambiente propicio para as mudanças autopoiéticas de amadurecimento pessoal e de ampliação da autonomia por parte de ambos os participantes de uma análise. Do mesmo modo como se pode aprender “apesar” do professor, pode-se “curar” um sintoma “apesar” do psicanalista, embora, evidentemente, não seja esta a situação desejável. De qualquer modo o importante é ter sempre presente que é a estrutura do analisando que é determinante para sua percepção de seu psicanalista e que ambos formam um “time” que ou aprende a trabalhar em conjunto ou está determinado a estancar como processo. Cada interpretação, cada intervenção ou até mesmo a ausência de ação só adquire sentido pela elaboração autopoiética do analisando, na medida em que ele mimeticamente reproduz os processos mentais que intui estarem acontecendo na mente do analista. Por sua vez, as respostas, conscientes ou não, supra e subliminares do analisando propiciam a realimentação do sistema fazendo progredir a auto-analise do analista, que se desdobra em conjunto com a do analisando (Pellanda, L.E., 1996), num processo que Maturana chama de “acoplamento estrutural”.

Retomando o inicio, realimentando o processo de complexificação iniciado por Freud ao romper com o cartesianismo, mesmo apesar de si, podemos afirmar que já não cabe esperar que interpretações, mutativas ou não, sejam capazes de, por si só, determinar o desenvolvimento de uma psicanálise. Hoje vemos esse processo como determinado pelas estruturas de analisando e analista, em um interjogo de perturbações que desencadeiam as modificações pessoais pela autopoiese de cada um. Sendo a atividade mental inconsciente e a consciência apenas uma informação parcial e distorcida dos processos que ocorrem no organismo inteiro, deixa de haver a dicotomia “mente-corpo” na medida em que o observador implicado percebe uma totalidade indivisível.

Bibliografia

Damásio (1999) O mistério da Consciência. Trad. Laura Teixeira Motta, Companhia das Letras, 2000.

Dupuy, J-P. (1994) Nas Origens das Ciências Cognitivas. Trad. Roberto Leal Ferrreira. Editora UNESP.1995.

Edelman, G. (1992) Biologia da consciência. As raízes do pensamento. Trad.  Jorge Domingues Nogueira. Piaget, Lisboa, 1995.

Etchegoyen, R.H. (1987) Fundamentos da Técnica Psicanalítica. Trad. Cícero Fernandes. Artes Medicas, Porto Alegre.

Freud, S. (1915). The unconscious. In: Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud. London: Hogarth, 1962, v. 14:166-215.

———-  (1917). A difficulty in the path of psychoanalysis. In: Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud. London: Hogarth, 1962, v. 17: 137-144.

———- (1923) The Infantile Genital Organization. In: Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud. London: Hogarth, 1962, v. 19:141-145.

———- (s/d ) Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Imago Editora, Rio. CD-ROM.

Harth, E. (1993) The Creative Loop – How the brain makes a mind. Penguin Books, London, 1995.

Humphrey, N. (2000) “How to solve the Mind-Body Problem” – Journal of Consciousness Studies, 7, No. 4, 2000, pp 5-20. Imprint Academic. Thoverton, UK. ISBN 0907845088

Kernberg, O. (1996) Thirty methods to destroy the creativity of psychoanalytic candidates. Int.J.PsychoAnal. (1996) 77, 1031-1040.

Klimovsky, G. (1987) Aspectos epistemológicos da interpretação psicanalítica. In: Etchegoyen, R.H., Fundamentos da Técnica Psicanalítica. Trad. Cícero Fernandes. Artes Medicas, Porto Alegre.

Matte-Blanco, H. (1975) The Unconscious as Infinite Sets. London, Duckworth.

Maturana, H. (1996) Biologia da autoconsciência. In: Pellanda N. E Pellanda L. (Org.) Psicanálise Hoje: Uma Revolução do Olhar. Vozes, Petrópolis. Pág. 599-623

Maturana, H. & Varela, F. (1984) El Árbol del Conocimiento. Las bases biológicas del entendimiento humano. Editorial Universitaria, Santiago de Chile, 7ª Ed. 1990.

Morin, E. (1990) Introdução ao pensamento complexo. Trad. Dulce Matos. Publicações Instituto Piaget, Lisboa, 1991.

McGinn, C. (1989) “Can we solve the mind-body problem?” Mind, 98, pp 349-66

Nicolelis, M. (2008) http://www.sciam.com/podcast/episode.cfm?id=835EFB22-D4E1-ADD9-068213BE0712AA2C (acessada em Nov. 2008)

Pellanda, N. (1996) “Onde se viu árvore roxa?” Conhecimento e subjetividade. In: Pellanda N. E Pellanda L. (Org.) Psicanálise Hoje: Uma Revolução do Olhar. Vozes, Petrópolis. Pág. 227-246

Pellanda, L.E. (2007) Personal Formation and Psychoanalytical Cure: a complex perspective approach. Proceedings of the 2007 International Human Science Research Conference, Rovereto, 2007. ISBN 978-88-8443-218-6.

———— (1996) Auto-análise pós Psicanálise In: Pellanda N. E Pellanda L. (Org.) Psicanálise Hoje: Uma Revolução do Olhar. Vozes, Petrópolis. Pág. 227-246

Varela, F. Thompson, E., Rosch, E. (1993) – The Embodied Mind.  Cambridge, MA: MIT Press.

Sacks, O. (1984) Com uma perna só. Companhia das Letras, Rio, 2003.

Solms, M. (1997) What Is Consciousness? Journal of the American Psychoanalytic Association, 45:681-703

Terra, D., Grandi, A. e Borges, H. (2004) A abordagem enaction para a cognição e suas implicações na modelagem de sistemas inteligentes.  Acessado em http://www.lsi.cefetmg.br/publicacoes/files/Terra-Grandi-Borges-SBRN-2004.pdf em janeiro de 2009.


N.B. – Este trabalho é um capítulo de um projeto maior sob o titulo geral de “Psicanálise em tempos de Complexidade” e inclui insights obtidos ou ampliados no seio das discussões do Grupo de Estudos de Epistemologia Psicanalítica da SPPA, bem como nos 45 anos de construção de saberes que partilho com Nize, o que faz dela uma co-autora autopoiética de tudo o que escrevo. Grazie a tutti.


  1. ​*​
    Com o nome de The Macy Conferences, aconteceu, entre os anos de 1946 e 1953, uma série de dez conferências interdisciplinares que levou à fundação do que hoje conhecemos como cibernética. Sob os auspícios da Josiah Macy Foundation, uma organização filantrópica dedicada a problemas do sistema nervoso, foi promovido o encontro de importantes cientistas da época em um vasto leque de áreas para discutir causalidade circular e feedback em sistemas biológicos e sociais – Circular Causal and Feedback Mechanisms in Biological and Social Systems. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Macy_conferences)
  2. ​†​
    Como por exemplo, o papel dos neurônios espelho no aprendizado humano, provavelmente importantes também para a possibilidade de “pôr-se no lugar do outro”, identificar-se com o outro.
  3. ​‡​
    “In psycho-analysis there is no choice but for us to assert that mental processes are in themselves unconscious, and to liken the perception of them by means of consciousness to the perception of the external world by means of sense-organs [S.E. 1915, p. 171]
  4. ​§​
    “But these two discoveries – that the life of our sexual instincts cannot be wholly tamed, and that mental processes are in themselves unconscious and only reach the ego and come under its control through incomplete and untrustworthy perceptions” [S.E. 1917, p. 143].
  5. ​¶​
    these two discoveries amount to a statement that the ego is not master in its own house”. Together they represent the third blow to man’s self-love, what I may call the psychological one (op.cit.)”(ênfase do autor).
  6. ​#​
    “The difficulty of the work of research in psycho-analysis is clearly shown by the fact of its being possible, in spite of whole decades of unremitting observation, to overlook features that are of general occurrence and situations that are characteristic, until at last they confront one in an unmistakable form.” [S.E. 1923, p. 141]

Freud era mesmo um mentiroso?

(Artigo publicado no jornal Zero Hora, em 4 de junho de 2000.)

Fico triste ao ver um conterrâneo, cujos escritos tanto respeito, entrar nesse vagão do ataque indiscriminado a tudo o que se move ou tem valor, tão ao gosto deste fim de século. Não tenho procuração para defender Freud, nem preciso: sinto-me suficientemente incluído no ataque para agir em legítima defesa. É verdade que Décio se diz apenas reprodutor do resenhador de um certo holandês Israëls, um outro Borsh-Jacobsen. Dito assim, parece apenas uma briga de família, mas o que está por baixo é o mais grave: trata-se de um ataque sistemático e orquestrado contra os avanços do conhecimento sobre a alma humana, previsto desde o início pelo próprio Freud.
Freud advogava o silêncio como resposta a estes ataques, alegando não serem estas pessoas capazes de perceber a extensão das verdades psicanalíticas por não disporem da experiência pessoal, única forma capaz de gerar convicção. Até por isto foi acusado de incluir o “insight” psicanalítico entre as revelações religiosas… Rebater uma por uma das acusações de “mendacidade” de Freud seria tudo o que estes detratores desejariam: ficar-se-ia discutindo a rama sem penetrar no cerne. Poucos cientistas, em todas as épocas, tiveram suas vidas tão dissecadas quanto Sigmund Freud. Pode-se acusá-lo de tudo: de ingênuo ao se despir tão completamente diante de seu público, única forma de mostrar a universalidade dos seus achados sobre a existência do inconsciente. De idealista, ao tentar a solução de tanto sofrimento humano com tão poucos instrumentos. De pretensioso, ao se perceber em um campo inteiramente novo, onde só ele foi o desbravador, a ponto de até hoje não se poder escrever sobre qualquer tema em Psicanálise que não tenha sido ele o primeiro a abordar, mesmo que superficialmente, de modo que se hoje avançamos bastante, o foi sobre a base que ele deixou. Mas, mentiroso? Porque pensava ser “cura” o que hoje percebemos como etapa em um desenvolvimento sem fim? Ele mesmo foi extremamente pessimista em seus últimos escritos, como “Análise terminável e interminável”, quanto a possibilidade de uma “cura” real. Seria o mesmo que tachar de mentirosos os cientistas que defenderam a existência do “éter” no espaço e desconhecer todo o esforço de milhares de outros que contribuíram para um melhor entendimento do tipicamente humano em tantas áreas do conhecimento.
E que estranho edifício este da Psicanálise que a tantos vem beneficiando, se construído sobre mendacidades… E que belas mentiras estas, que permitiram o avanço da humanidade na compreensão dos seus mecanismos mentais. Que Deus tenha feito o mundo em sete dias também é uma mentira… tomado pelo ponto de vista deste senhores. Mas que lindas conseqüências o acervo destas e de outras, reunidas em um Livro, pode gerar. Pode-se acrescentar, quem sabe, que mesmo sobre isto avançamos e podemos re interpretar como simbólicas essas “mentiras” o que delas faz outra coisa que não mentiras. Se todas as “verdades” estão contidas em um único livro, corremos o risco de que todos os outros sejam ou redundantes ou deletérios, como já aconteceu em momentos desta nossa humanidade. Por isto respeito o direito de “pensar diferente” que todos temos, mas atacar por atacar é apenas tentar obter um pouco da glória de quem atacamos, como o assassino de Lincoln pretendia.
Freud é muito mais importante para a ciência em geral do que apenas para a psicanálise: graças em grande parte a ele foi possível a mudança paradigmática, vivida hoje em dia, que rompe com a dicotomia cartesiana entre corpo e mente e que considera a emoção um impedimento ao conhecimento. Ele mostrou que, ao contrário, a emoção é condição para saber, como aliás vem sendo amplamente demonstrado pelas neurociências modernas. De modo que, na minha opinião, Décio não é um mentiroso, apenas se deixou levar pela ilusão, conduzido ao engano num destes momentos de obnubilação que nos acomete a todos, a alguns com maior freqüência.

Complexo de Édipo

(Artigo publicado no jornal Zero Hora, em 14/5/2000.)

Os psicanalistas que nos visitam ficam admirados de como os conceitos básicos de nossa ciência são de conhecimento geral da população. Qualquer brasileiro sabe que “complexo de Édipo” corresponde aos complexos sentimentos que ligam o garotinho à sua mãe, fazendo com que inconscientemente deseje matar o pai para ficar com ela. Chocante, dito assim, não? Chocante porque uma simplificação de um olhar de adulto sobre a mente de uma criança.

Conta Ernest Jones, o biógrafo oficial de Freud, que este, certa vez, recebeu um paciente com as seguintes palavras: “Já sei que tiveste pai e mãe. Agora me conta o resto.” O que cada um de nós faz desse “resto” é que marca a diferença. Que este resto era muito complicado, logo ficou evidente. Diferentemente da física onde uma causa era sucedida por um efeito que por sua vez era causa de um efeito seguinte, em Psicologia, esse modelo não se aplicava e muitas causas colaboravam para um determinado efeito que junto com outros resultavam em influências mais adiante, ou seja, muito antes da “complexidade” entrar em moda com Edgard Morin, já a Psicanálise convivia com esses conceitos, embora Freud mesmo não gostasse da expressão “complexo”, usando-a apenas na situação edípica.

Certos conhecimentos são condição para a aquisição de outros: de início o nenê não percebe que é um ser separado de sua mãe. Precisa entender que ela é outra pessoa para poder sentir sua falta (o que sente “antes” disto, é outra questão). Só depois de perceber que mãe e pai são pessoas diferentes pode optar por um ou outro, conforme o momento. O amadurecimento ocorre por etapas sucessivas, mas sem a linearidade que os positivistas lhe atribuem. É perfeitamente comum amadurecer-se em uma área enquanto outra permanece “infantilizada”.

Freud chamou a atenção para o fato de que o desenvolvimento é diferente para meninos ou meninas, e se ocupou principalmente do primeiro, confessando (cerca de 1930) que a feminilidade era um continente desconhecido para ele. Achava que os meninos deviam competir com o pai para com ele se identificar, aprendendo com a frustração de não conseguir batê-lo. Uma francesa, Chasseget Smirgel, mostrou a participação de certas mães que tomam seus meninos como se fossem realmente seus companheiros, passando uma mensagem sub-liminar de que não é preciso crescer, ser adulto, para conquistá-las, mantendo-os infantilizados. A relação amorosa de ambos os pais leva este conflito a outro desfecho: o menino descobre que pode “ser como o pai” sem precisar “ser o pai”, ocupar o lugar dele na realidade factual, buscando então outros objetos de amor, mais adequados, nas meninas de suas relações.

Já com as meninas ocorre uma complicação a mais: da ligação primeira com a mãe, deve deslocar seu interesse para “o sexo oposto” em uma etapa de seu desenvolvimento edípico. Hoje em dia em que as crianças são mais ouvidas, fica se sabendo de algumas tiradas de efeito, como daquela filhinha de um colega que lhe propôs casamento. “E que fazemos com mamãe”, ele lhe perguntou. E ela, “Ora, um churrasquinho!…” No mundo de magia em que se encontra o desenvolvimento de sua mente, pode-se fazer um churrasquinho com ela agora, e daqui a pouco pedir para ela fazer a mamadeira… Nada tem essa transcendência e gravidade que os adultos põem nas palavras.

Como diz Humberto Maturana, somos todos animais dependentes do amor pela vida inteira. Ninguém morre de excesso de amor, mas de falta, certamente.

Y2K – Um novo mito moderno

(Artigo publicado no jornal Zero Hora.)

Que o “bug do milênio” existe, nenhuma dúvida. Nada comparável aos homenzinhos verdes marcianos ou aos discos voadores que Jung identifica como “Um Mito Moderno” pelas suas características de lenda universal. O terreno aqui está mais para Freud e Bion*: sobre um substrato de limitação tecnológica instala-se uma histeria coletiva catastrofista – Vai faltar luz no mundo! Os sistemas bancários mandam pagar todo o mundo, ou não pagam mais ninguém! Os computadores incluidos nos aparelhos médicos se confundem e retornam aos tratamentos de 1900 em vez de dispensar os do novo milênio!

Publicidade de conhecido fabricante explora este viés: Hall, o computador de 2001 conversa com seu dono: “Dave, você se lembra do ano 2000, quando os computadores começaram a funcionar mal e se perderam, causando prejuízos incalculáveis? A culpa não foi nossa, Dave, estávamos mal preparados. Só os Macintosh estavam livres desse “bug” e salvaram bilhões de unidades monetárias. Dave, você gosta mais de seu Macintosh do que de mim, não? Dave?! Está me ouvindo, Dave?…” Faz parte de nossa natureza “personificar” os objetos, num resquicio de animismo que persiste nesta humanidade recém-civilizada. Designamos com um nome os objetos mais queridos: meu primeiro automóvel se chamava “Adélia” , corruptela de “Adler” a marca rara de um ante-diluviano (isto é, de antes da guerra…). Atribuimos sentimentos aos computadores: o ciúme de Hall, a turrice do PC que se recusa a obedecer ao que penso que estou comandando… Ele não “entende” que eu queria ponto, embora tenha teclado vírgula… É a dissociação entre criador e criatura, sujeito e objeto que proporciona esse distanciamento, como se a tecnologia não fosse estensão do humano, mas outra coisa. Disto decorre um temor de que um dia os computadores sejam mais inteligentes do que nós e dominem o mundo… No fundo, ainda o desejo infantil de não crescer, de possuir alguém (a mãe, o pai, nem que seja o pai do céu) que tome conta de nós sem que necessitemos nos responsabilizar pelas conseqüências de nossos atos.

Se a data é “00” o que ele vai “entender”? Dois mil? Mil e novecentos? Não vai entender nada? Cada caso é um caso, nada é tão cartesiano quanto zero-zero igual a dois mil. Estamos interpretando o que o computador vai “pensar” sem saber como eles são na verdade. Muitos determinam a data contando os dias a partir de um dia pré-determinado (aquele famoso 6 de junho de 1956 que aparece nos computadores com a pilha da placa descarregada…) e, eventualmente, vão seguir contando sem problema (como os Macintosh), desde que não tenha sido pré-programada sua obsolescência: a lógica atual é que você já deve ter jogado fora seu “quatro-oito-meia” e atualizado a máquina para um “pentium qualquer coisa” porque não apenas a data, mas tudo o mais não funciona tão bem ou tão rápido quanto o “indispensável” para este momento da civilização. Num certo sentido, os publicitários, porque pragmáticos, conhecem melhor os meandros da alma humana do que os psicanalistas: usam e abusam do “princípio do prazer” que vigora nas profundezas do inconsciente, apelando para as compras por impulso, enquanto os psicanalistas tentam penosamente fazer seus analisandos amadurecerem para viver segundo o “principio da realidade”, o que termina por ser dificultado pela realidade que anda por ai…

Este é o objetivo de todos os mitos: esconder uma realidade difícil por dura ou por incompreensível, aterrorizadora: prefiro atribuir o apagão a um raio e os raios a Zeus ou Tupã do que admitir que não sei de onde vêm ou porque. Bion mede a maturidade de seus pacientes pela tolerância deles à incerteza e mostra quanto é angustiante o “não saber”, investigando cientificamente o que os filósofos já diziam sobre as religiões serem curto-circuitos para encobrir o desconhecido. É muito mais fácil afirmar que os maus serão punidos e os bons recompensados no céu ou na próxima encarnação, do que realmente punir os corruptos nesta de agora. Aquela “pobreza com dignidade” que nossos avós tiveram, acabou-se: agora é mesmo “cada um por si”, “não existe isto que vocês chamam sociedade”; é a miséria da competição desenfreada, eventualmente ajudada por bombardeios que destroem tudo, inclusive a vida.

E o bug do milênio, o que esconde? Basta olhar os noticiários de TV ou ouvir os das rádios… Ainda que estejamos vivendo um momento de grandes descobertas (como por exemplo a da riqueza da vida emocional dos fetos dentro do útero!) com conseqüentes mudanças de paradigma, uma época que talvez os pósteros identificarão como um “Novo Renascimento”, ainda assim os atuais parecem ter pouco de que se orgulhar por pertencer a esta família de “homo sapiens”, mas que não são sábios o suficiente para conviver em paz.

E o “bug”, afinal, vai existir mesmo? Sim, vai acontecer em algumas casas com velhos PCs: os programas de contabilidade doméstica talvez se atrapalhem, os e-mails vão para o lugar errado na seleção por data, e pouco mais. Vocês acham que algum banco vai pagar cheque em dólar com a cotação de 1900? E também acreditam em Papai Noel e nas histórias da carochinha?

__
* Wilfred Bion – Psicanalista inglês que levou às últimas conseqüências os achados de Sigmund Freud e Melanie Klein, estudando o psiquismo dos grupos e os aspectos mais primitivos do inconsciente, trazendo o místico (diferente de religioso!) para o campo da investigação científica.

Glosando o mote

(Carta ao Editor – Boletim da ABP)

Desejo cumprimentar os editores de “ABP Notícias” Ano XI, Nº 35 pelo belo trabalho apresentado e pelas instigantes questões levantadas. Tantas que não consigo me furtar de tentar uma continuação: acho que todos nós estamos “deitando fora o nenê junto com a água do banho” na medida em que seguimos ignorando as mudanças de paradigma que ocorrem em torno de nós e nos afetam, queiramos ou não.

Aristóteles dizia que as coisas caiam porque era da natureza delas quererem cair, logo algo mais pesado cairia mais depressa do que uma leve. Nisso acreditamos por mais de um milênio, até que o chato do Galileu jogou duas bolas de mesmo tamanho mas de diferentes materiais pelo bordo da Torre de Pisa e… tanto a de ferro quanto a de madeira caíram igualmente velozes. Descartes dizia que mente e corpo são de diferentes naturezas e que somente “res extensa” pode ser objeto de ciência, enquanto a outra, “res cogitans” só o pode ser da Filosofia. Mesmo em seu tempo já Espinosa discordava, mas não só não foi ouvido como foi providenciado para que não pudesse sê-lo: excomungado, posto no Índex, impedido de publicar… Ainda assim, hoje cá estamos a nos perguntar como teria sido o mundo se, em vez de Cartesiano, tivesse podido ser Espinosiano… Einstein, que após dar início à revolução quântica, rejeitava as conseqüências de seus estudos, afirmando que “Deus não joga dados”, levou seu amigo Niels Bohr a contestar: “Einstein, pare de dizer a Deus o que fazer”. Ou seja, não é a “autoridade” de quem diz que estabelece o que é “verdade”.

Freud, querendo ser um cientista (e isso implicava em ser Cartesiano) na verdade rompeu com esse paradigma ao introduzir um objeto complexo, o inconsciente, no âmbito de seus estudos, tornando a Psicanálise uma pioneira nesse novo campo. Ele dizia que a verdade acaba por se impor ao cientista sério, mesmo que passe por ela inúmeras vezes sem o perceber. A “verdade” neste contexto é que já não podemos esconder que conhecimentos não se transmitem e, portanto, necessitamos encontrar respostas a “como se aprende”. Isso a que chamamos “Escolas” ensinam apesar delas, porque na verdade estão programadas para transformar todos em seres uniformes e submissos, além de acabar com qualquer veleidade ao “novo”, isto é, ao progresso. Kernberg relacionou trinta maneiras de impedir a formação de candidatos, mas a questão é ainda mais grave: muitos de nossos ensinadores nem percebem que os candidatos aprendem “apesar” da autoridade deles que se intitulam “professores”, isto é professam uma cartilha de sujeição.

Então, se transmitir conhecimento é impossível, mas aprender acontece como acontece? O novo paradigma representado pelo “Movimento de auto-organização” (MAO) do qual fazem parte os que estudam a “Teoria da Autopoiese” tem uma resposta a ser considerada. Este movimento possui muitos focos, inclusive o representado por Prigogine e seus estudos dos sistemas longe do equilíbrio, que lhe valeram o Nobel, e Maturana e Varela que cunharam o termo “Autopoiese” para designar o modo como os seres vivos se organizam espontaneamente em congruência com seu meio envolvente do qual dependem e com o qual co-evoluem, criando novidade. Como exemplo basta lembrar que a atmosfera atual é o resultado de milhões de anos de produção de oxigênio por bactérias cianofíceas inicialmente e plantas verdes depois. Neste sentido, importa menos a natureza do estímulo do que a estrutura do ser: a mesma luz solar que causa fotossíntese em folhas verdes é a responsável por queimadura em peles humanas claras.

Mostram os neurocientistas que o cérebro é uma “maquina de aprender” em dois anos, apenas por estar imerso em um ambiente propício, uma criança aprende os rudimentos de sua língua materna, suas regras de formação de palavras e é capaz de criar novas (se a parte de traz de um carro é a traseira, então a outra parte éa “frenteira”…). É assim que se aprende: estando imerso por tempo suficiente em um ambiente que favoreça o uso das ferramentas inatas de que dispomos e que se baseiam principalmente na curiosidade pelo que o outro faz, mobilizando nossos neurônios-espelho, criando novas sinapses nessa rede neuronal que nunca está pronta, está sempre em construção. Igualmente nossos pacientes melhoram (aprendem) muito mais por partilhar vida conosco no “setting” do que pelo poder mágico de nossas interpretações mutativas…

Que muda na Psicanálise com esse novo Paradigma? Nada e tudo. Nada que este século de observações bem descritas nos mostram serem consistentes; tudo, porque podemos re-interpretar muitos dos fenômenos estudados à luz da complexidade que é inerente a eles, acrescentando uma “nova camada” de compreensão a esta cebola de significados que somos todos os seres humanos.

Por que Internet, banda larga por quê

Acompanho esta revolução que vem acontecendo com a humanidade, sem que ela mesma perceba claramente, graças a um insight de que tampouco eu avaliei o alcance, mas que me levou a planejar em 1978 e a efetivar  no ano seguinte a compra de um computador pessoal por ocasião do Congresso da IPA em Nova York e a fundar um clube de usuários que existe até hoje. Ao longo destes anos todos, foi nele que encontrei exemplos de solidariedade não competitiva do tipo que Humberto Maturana afirma ser característica do legitimamente humano e que nos separa dos chipanzés e demais símios. Graças a isto vejo-me acompanhando de perto este novo Renascimento que agora não se limita a Florença ou a Itália, mas floresce no mundo inteiro de forma simultânea.

Pierre Lévy em sua “World Philosophie” diz:

“ O mundo que se edifica hoje em dia não é “perfeito”, no sentido de que não corresponde a nenhuma idéia pré-concebida. Não é nem assegurador nem protetor. Surpreendentemente, vive permanentemente no limite do caos e da desorganização, mas é exatamente nessa fronteira entre a ordem e o caos que se situa a invenção e a energia espiritual máximas.”

E, logo adiante:

“Mas a unidade da humanidade está hoje acontecendo. Depois de tantos esforços, eis que enfim ocorre a unificação da humanidade de um modo jamais sequer pensado: não se trata de um império, não é uma religião que a todos conquista, uma ideologia, uma raça pretensamente superior, uma ditadura qualquer, são imagens, as canções, o comércio, o dinheiro, a ciência, a tecnologia, as viagens, as mesclas, a Internet, um processo coletivo e multiforme que se espraia por toda parte. […] Tento discernir a unidade desta corrente que nos porta e dar um nome a esse processo: a expansão da consciência”.

(Pierre Lévy, 2000)

 Tenho repetido em meus textos que a ciência é uma só, que as divisões ocorrem por necessidades práticas de delimitar campos de atividade, mas que tem por conseqüência  limitar simultaneamente o pensamento do pesquisador. Estes novos paradigmas que agora vivemos retomam essa unidade do saber, em que vemos psicanalistas estudando física quântica e convivendo com o princípio da incerteza que nos remete a Bion e ao incognoscível que tende para “O”; em que vemos biólogos como Maturana postulando natureza da vida mental e propondo novas abordagens para a psicoterapia (1996). Este autor vai mais adiante e mostra a inseparabilidade do ser e seu meio, criando o conceito de autopoiese. Em muitos sentidos há uma retomada do Freud impossível do “Projeto”, agora com conhecimentos de fisiologia inexistentes então, em que se reafirma a genialidade de muitas percepções de nosso fundador, como por exemplo de que o “Ego é antes de tudo corporal”: as neurociências vem mostrando na atualidade como o processo psicanalítico modifica o cérebro, criando novas sinápses, alterando a estrutura proteica da rede neuronal (Vaughan, S. 1997). 

Com isto penso que agora podemos levar adiante a questão proposta por Strachey em 1934, quanto à “natureza da ação terapêutica da psicanálise” e concluir que ela decorre exatamente dessa reorganização da rede neuronal que dá o suporte para o que chamamos de “mente”, por consequência da metacognição que decorre do processo de pensar o pensamento. Como observa Maturana, muda a estrutura de forma congruente com o meio e se mantém a continuidade funcional.

A Internet libera o saber para uso de todos, rompendo os feudos dos que se pretendem donos da ciência e das práticas decorrentes. Assim como o tipo móvel de Gutenberg instrumentou a disseminação dos saberes da Idade Média e propiciou o Renascimento, a Internet agora instrumenta a mudança de paradigma e a disseminação das fontes de informação que geram o que Pierre Lévy chama de inteligência coletiva da humanidade, essa “noosfera” antevista por Teilhard de Chardin. Partilho de seu otimismo em relação à humanidade, também reafirmado por Humberto Maturana quando diz que “viver é fácil” e que “o ser  humano se caracteriza por ser neotênico”, isto é, dependente do amor por toda sua vida, mas reconheço que estamos falando em termos estatísticos, com Heisenberg, e que alguns indivíduos em particular são desviantes desse padrão, de onde o sofrimento e a doença.

Dentro dessa globalização seria demasiada onipotência pretender manter o monopólio da psicanálise apenas porque nossa IPA foi “fundada por inspiração Freud” e nossa formação é mais rigorosa (por que parâmetros, mesmo?) do que as demais que se dizem psicanalíticas. Muitos dos que fizeram suas formações dentro de nossas sociedades hoje militam em outras entidades e os conflitos seguem se alastrando e fazendo baixas. Atitudes simplistas de afirmar que são colegas mal analisados ou que necessitam re-análise não mudam em nada os fatos.

E a Internet, onde entra nisto tudo? Justamente como instrumento de construção de conhecimento que globaliza sem preconceitos, onde todos podem fazer parte de uma comunidade de comunicação que já está sendo explorada por outros mais atentos: vários de nós receberam notícia de estatísticas de acesso ao site de uma outra entidade que também, como nós, se intitula psicanalítica, com números expressivos de “hits” no mês de agosto deste ano: total de acessos: 128.737, média por hora: 17, máximo em um dia: 6.202.

E nós, nossa ABP? Ainda estamos discutindo. Nossos membros pouco usam a comunicação por correio eletrônico, muitos sequer conferem sua caixa postal ao menos uma vez por dia, não falando daqueles que se recusam a tê-la. Dados os altos custos de nos mantermos psicanalistas, a Internet é opção muito econômica para buscar a formação continuada de que necessitamos, bastando possuir o critério para saber separar o joio do trigo nesse mundo infinito da www e nisto pretendemos auxiliar por via de um “portal” de serviços, em fase de organização, que fornecerá subsídios para as discussões científicas e espaço para que possamos trocar experiências, como centenas de grupos atuantes o fazem pela rede todos os dias.

Computador é feito para estar ligado vinte e quatro horas, como a geladeira ou relógio, por exemplo, (se o monitor está escuro como o deixam certos “salva-telas”, o consumo de energia elétrica é absolutamente desprezível, da ordem de centavos por mês), e deve ser mantido conectado à Internet via “banda larga”, isto é, aquela que permite a passagem de grande quantidade de dados por unidade de tempo e que independe de discar o telefone a cada vez que se deseja checar e-mail ou navegar (e ainda: não paga minuto conectado, mas uma taxa geral por mês que resulta muito mais barata do que a tradicional). Nessas condições ele estará sempre pronta para acolher uma idéia que ocorre, como o velho bloco que deixávamos ao lado da cama para anotar os sonhos. Foi bem isso que me aconteceu hoje quando às quatro acordei com a idéia deste texto e às cinco voltei a dormir com a consciência tranqüila de que não o perderia para o recalcamento…  Minha velha tia Morena, que faleceu aos 95 anos de idade, não se conformava de ver acesa a luzinha do freezer, queria desliga-la para “poupar luz” — quantos de nós estamos ainda atados a preconceitos semelhantes? Minha experiência pessoal é de que a conta do telefone diminuiu de 400 para 100 reais depois do “Turbo” que é a marca comercial da ligação ADSL por aqui. Mas de qualquer modo que se chame é a opção que deve ser preferida por todos os que desejam entrar a sério nessa aventura do conhecimento que é navegar pela rede.

Precisamos oferecer serviços dignos de nossas pretenções científicas a nossos clientes, sejam eles os psicanalistas que buscam apoio na ABP (e os há por todo este interior imenso do Brasil) ou sejam os potenciais clientes de nossos divãs que temos a obrigação de orientar bem para que saibam reconhecer um Psicanalista com “P” maiúsculo, distinguindo-o das aves de arribação que proliferam por ai.  Para começar por nós mesmos, façamos uma campanha por generalizar entre nós o uso deste instrumento já indispensável que é a Internet e em banda larga, por favor!

Bibliografia

Lévy, P. (2000) World Philosophie, Editions Odile Jacob, Paris.

Maturana, H. (1996a) Biologia e Psicanálise: o amor como interface. In: Pellanda, N. & Pellanda L. E. Psicanálise Hoje: Uma Revolução do Olhar. Ed. Vozes, Petrópolis.

Vaughan, S. (1997) A Cura pela Fala . Tradução de “The Talking Cure – The Science behind Psychotherapy” por T.B. Santos. Objetiva, Rio, 1998.

__
Este texto esteve publicado na pagina da SBP (http://www.abp.org.br) durante mais de seis meses em 2002.

Psicanálise e Pensamento Complexo

O Paradigma Newtoniano-Cartesiano reinou de forma absoluta desde o Século XVII até o início do vigésimo, ocasião em que se tornou cada vez mais evidente que não podia dar respostas aos fenômenos complexos.

Freud descobre e tenta mapear o inconsciente; há uma explosão de conhecimento do mundo infinitesimal; a emergência do conceito de “auto-organização” que remete à inversão da entropia nos seres vivos (que não seguem a segunda lei da termodinâmica – na verdade nem deveriam – pois são sistemas FORA do equilíbrio); tudo isto abala o edifício do velho paradigma. Aparecem então as ciências da complexidade: Psicanálise, Física Quântica, Termodinâmica dos sistemas dissipativos (fora de equilíbrio), e assim por diante. A assunção básica de todas elas é a complexidade, cujo conceito, para Edgar Morin é “… aquilo … que é tecido junto”.

A vida é fenômeno complexo, mas o paradigma clássico tenta se aproximar dela com instrumentos cognitivos lineares. A Psicanálise segue outro paradigma porque o inconsciente possui uma lógica diferente (lógica simétrica, para Matte-Blanco) e muito distante da lógica formal (Aristotélica ou assimétrica, para o mesmo autor). Esta nova lógica é relacionada com o modelo de rede que caracteriza o paradigma da complexidade, a auto-organização e a autonomia, que interagem dinamicamente no inconsciente sem nem confundir-se uma com a outra nem se excluirem (Bi-lógica, para Matte-Blanco).

Este momento especial das ciências em expansão, para usar uma expressão tão querida por Bion, é um momento de turbulências que, ou nos permite construir uma metodologia do fenômeno complexo, dando à questão epistemológica uma aproximação psicanalítica, construindo sujeito e conhecimento ao mesmo tempo, interagindo no setting no tecer de narrativas, ou corremos o risco de permitir que a Psicanálise seja domesticada pela onda de neo-positivismo e caia de novo no formalismo que suga a vida do processo psicanalítico, como visto em algumas partes do mundo.

A “Teoria de Santiago” e sua importância mútua

Neste poster desejo enfatizar a relação entre as teorias de Sigmund Freud e Humberto Maturana naqueles aspectos em que descriminam humano de não humano: a formação da mente consciente. A assim chamada “Teoria de Santiago” defende que autopoiese é a única maneira de discriminar seres viventes de não viventes. [De Máquinas e Seres Vivos, 3ª ed., Artes Médicas, 1997 (1971)]

“A função faz o órgão” pode ser observada em seu máximo quando se fala a respeito de cérebro: em nenhum outro órgão foi demonstrada com tantos detalhes quanto a anatomia dos tecidos pode ser configurada pelo uso. Estar capacitado para viver em linguagem determina sinapses e evolução do cérebro, mesmo sem cair na “kintogenese” de Lamark.

A expressão de Freud “O ego é, primeiro e acima de tudo, um ego corporal” [S.E.B., XIX, pg 40] tem sua expressão mais dramática na interface entre corpo e psiquê, representada pelo cérebro, em um forma profundamente interpolada com a cultura. A anatomia está mudando, também a evolução está?

A autopoiese de Maturana é a chave para entender esta e outras afirmativas intrigantes de Freud, um gênio que viveu muito antes de sua época. Por exemplo, quando ele afirma que “…a diferenciação do superego a partir do ego não é uma questão de acaso (negrito acrescido); ela representa as características mais importantes do desenvolvimento, tanto do indivíduo quanto da espécie; em verdade, dando expressão permanente à influência dos pais, pois ela perpetua a existência dos fatores a que deve sua orígem” (idem, pg. 50), ele está antecipando Maturana por algumas décadas. É mérito de Maturana e Varela chamar a atenção para o fato de que herança mendeliana não é a única forma de hereditariedade, pois há outra a que eles chamam de “evolução por derivação”. Esta originou a diferenciação entre primatas que usam linguagem dos outros que não a usam. Neste sentido, construção de conhecimento é o mesmo que construção de sujeito, que é o objetivo principal da Psicanálise.

Sendo assim talvez Freud não tenha sido tão aberrante quando postulou a “herança de caracteres adquiridos”? Há mais do que Lamark e Darwin neste mundo?

Alguns avanços tecnológicos mudam o modo como as coisas são feitas. Depois da Internet, Congressos como este serão o local onde vamos encontrar as pessoas que aprendemos a admirar e a reconhecer como mentes científicas através dos grupos de discussão. Como disse Negroponte, “duas semanas de discussão na Internet parecem avançar mais o conhecimento do que um ano pelos métodos tradicionais.”

P.S: Onde mais ir para informar-se sobre autopoiese:

http://www.inteco.cl/biology/

http://www.oikos.org/maten.htm

Psicanálise “sem Ego” e supervisão como parte integrante da análise pessoal

(Tradução do texto de pôster apresentado ao Congresso Internacional de Psicanálise de Barcelona, 1997.)

O conceito de Ego progressivamente desaparece da obra de Melanie Klein, em função de seu crescente interesse nas relações de objetos na vida interna de infantes e adultos. O antigo pensamento oriental e a moderna biologia apoiam esta posição (Varela et al, 108, 1991). Estes, presentemente, vem questionando a noção de um “self” ou Ego localizado, de modo semelhante à Melanie Klein. Não há Ego ou self independente do objeto.

Revisando o conteúdo de uma revista científica dedicada aos “Mistérios da Mente”, encontramos muitos engenheiros, matemáticos, doutores em ciências da computação e em física. O físico F. Davis Peat (1991, pg 5) clama pela unificação da física e da psicologia. Porque? Ele explica: porque necessitamos “uma nova ciência que possa explorar (…) o lado objetivo da consciência humana e o lado subjetivo da matéria”. Os novos paradigmas já estão aqui: não ha mais fronteiras entre as ciências, entre fora e dentro, sujeito e objeto; não há ponto fixo de onde mover o universo – tudo são relações, todas as observações dependem do observador.

O rumo do fluxo de conhecimento afasta-se mais do modo tópico-cartesiano de ver os fenômenos psíquicos em direção a um modo holístico (no sentido de completude) pelos trabalhos de Wilfred Bion e Ignacio Matte-Blanco. A totalidade de uma pessoa não pode ser seccionada em pedaços, em orgânico e psíquico, consciente e inconsciente, etc., mesmo que apenas para descrição didática. Não é mais um absurdo descrever a “cura psicanalítica” como um processo que envolve tanto analista quanto analisando, transferencia e contratransferencia, de modo que posso dizer (1995, 1996), como muitos o fazem, que este processo existe não apenas durante a sessão, mas persiste vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, que é terminável como relação bi-pessoal, mas interminável como processo. Como diz Bion, é a “função psicanalítica” o que resgatamos em nossos pacientes. Se bem sucedidos, dura pela vida inteira, pois se trata de capacidade humana que todos possuímos e devemos desenvolver.

Um passo mais, e lembramos que a maneira como se organiza a formação de novos psicanalistas tem um tom construtivista desde os anos vinte no Instituto de Berlim, com o conhecido tripé: análise pessoal, supervisão e cursos teóricos, e muito antes que Piaget cunhasse esse termo. A palavra “formação” já indica a totalidade dos procedimentos que levam uma pessoa a amadurecer para se tornar psicanalista.

Nesta linha de raciocínio, o passo seguinte e obrigatorio, é considerar a supervisão como como uma parte integral da análise pessoal de cada candidato. É ainda um pecado dizer tais coisas em nossos espaços cartesianos de discussão, mas já Ferenczi e Rank (1924) pensavam que “Kontroll-Analyse” deveria ter a tarefa de lidar com os complexos não resolvidos do candidadto (…)”, mostrando que esta é uma discussão antiga. A voz corrente, seguindo a opinião de Eitingon, é de que não se deve interferir com os candidatos e que o supervisor deve abster-se de interpretar. Mas quando se mostra ao supervisionando, como fez Ralph Greenson (1967, pg. 220), que ele deixou de perceber uma manifestação do paciente e ele compreende e exclama “Era um ponto cego meu, eu tenho isto ou aquilo de muito semelhante com o paciente… (e sabemos que estas semelhanças determinam pontos cegos do terapêuta) … o que mesmo está fazendo o supervisor, senão interpretando?

Não posso obrigar alguém a saber como é o gosto de guaraná, para mim, ainda que este alguém já o tenha provado também. Experiencia não pode ser transmitida. Constrói-se pela ação sobre a realidade, mudando a ambos, sujeito e objeto. Em várias oportunidades tive ocasião de constatar ser a supervisão uma parte integrante da análise pessoal, a começar pela minha própria, mas uma paciente forneceu-me o melhor exemplo que poderia encontar. Durante um período de sua análise ela tinha “apenas” três sessões semanais, por diversas racionalizações, inclusive as financeiras de costume. Supervisionava com um colega que não só era velho amigo como partilhava comigo diversos pontos de vista teóricos, mas estes detalhes ela ignorava. Como com todos seu supervisionandos, ele é muito criterioso ao ajudá-la a entender seus pacientes, e, eventualmente, não podia deixar de assinalar seus pontos cegos, quem sabe até com palavras próximas das que eu usaria em situação semelhante. Na sessão seguinte comigo, ela costumava dizer que tudo se passava como se a supervisão fosse a quarta sessão, “que faltava”, pois obtinha insights não apenas sobre aspectos do tratamento de seu paciente como dela própria em sua contratransferência. Quando assumiu a quarta sessão, a supervisão passou a funcionar como uma quinta sessão, à la british, mesmo que com outro supervisor.

Reconhecer que o supervisor é também um “co-analista” (e não um rival edípico) pode nos ajudar a entender muitas relações perturbadas entre analistas, como tem sido salientado em tantos textos e contextos. Possivelmente os pontos cegos neste assunto sejam mais uma questão de poder e política do que algo mais. Estou convencido que este tema merece mais tempo de elaboração, quem sabe em um grupo de discussão em um segmento da Internet patrocinado pela IPA, como o que existe correntemente dirigido pelo Dr. Sandler para o International Journal.

Se observarmos sistematicamente como ocorrem os fenômenos, talvez cheguemos mais próximo de como a vida é e de como a Psicanalise deveria ser.

Bibliografia

David Peat, F. (1991) The Philosofer’s Stone. Chaos, Synchronicity and the Hidden Order of the World. Bantam Books, New York and Toronto.

Ferenczi, S., Rank, O. (1924) Die Entwicklungsziele der Psychoanalyse cit. by Fleming, J. & Benedek, T. (1966) Psychoanalytic Supervision. Grune & Stratton, New York and London., pg 11.

Greenson, R.R. (1967) The Technique and Practice of Psychoanalysis, Vol I, Int. Universities Press, New York.

Pellanda, L. E. (1995) Auto-análise pós Psicanálise IN Psicanálise Brasileira, Outeiral, J. & Thomas T. (org) Artes Médicas, Porto Alegre.

—————– (1996) Psicanálise hoje: ainda uma revolução? IN Psicanalise Hoje: Uma Revolução do Olhar. Pellanda, Nize, Pellanda L.E. (org) Vozes, Petropolis. http://www.portoweb.com.br/pessoal/olhar

Varela, F, Thompson, E., Rosh, E. (1991) The embodied Mind. The MIT Press. Cambridge, Massachusetts and London, England.