Autoanálise: construindo minha subjetividade

 

“Nunca mais fomos os mesmos depois de tropeçar na pedra do meio do caminho.”

— Mario Quintana, glosando Drummond…

 

(Artigo publicado na Revista de Psicanálise da SPPA, v. 30, n. 1, p. 1-27, abril 2023.)

Resumo

Esse trabalho trata do meu processo de subjetivação com implicações na minha prática psicanalítica ao longo de sessenta anos à luz do paradigma da complexidade. Na perspectiva da complexidade, que substitui o paradigma da fragmentação, meu olhar junta as diferentes dimensões da realidade e assim, minha subjetividade é inseparável de minha práxis e do meio ambiente do qual fiz parte, a SPPA.

Palavras-chave: Psicanálise, complexidade, autopoiese.

Abstract

This paper deals with my process of subjectivation with implications in my psychoanalytic practice over sixty years in the light of the complexity paradigm. From the perspective of complexity, which replaces the fragmentation paradigm, my gaze joins the different dimensions of reality, and thus my subjectivity is inseparable from my praxis and the environment of which I was a part, the SPPA.

Keywords – psychoanalysis, complexity, autopoiesis.

Resumo

Este trabajo aborda mi proceso de subjetivación con implicaciones en mi práctica psicoanalítica a lo largo de sesenta años a la luz del paradigma de la complejidad. Desde la perspectiva de la complejidad que sustituye al paradigma de la fragmentación, mi mirada une las diferentes dimensiones de la realidad y por lo tanto mi subjetividad es inseparable de mi praxis y el entorno del que formaba parte, la SPPA.

Palabras clave – psicoanálisis, complejidad, autopoiesis.

A guisa de introdução: O caminho que fiz ao andar

Descrevo aqui o percurso de uma análise, que se inicia tradicional, baseada na modernidade de um paradigma cartesiano e que, de susto em susto, vai percorrendo novos caminhos na descoberta da complexidade e da autopoiese, o que implica em levar em conta o fato de que todos os envolvidos são seres humanos vivos, obedientes às leis da biologia. Com isto quero mostrar o quanto a construção de si ocorre também pela ação no mundo e com o mundo.

O paradigma da Complexidade, definitivamente instalado em meados do século passado, embora muitos de nós ainda não o reconheçamos, muda basicamente a proposta Newtoniana-Cartesiana de como ocorre o “conhecer”: muda o ponto de vista desde o sujeito que observa uma realidade externa a ele para aquele do observador incluído no fenômeno observado. Há uma nova epistemologia a ser desvendada, a ser construída. “Tudo o que é dito, é dito por um observador para alguém que pode ser ele mesmo” (Maturana, 1978, p. 128) e como tal, proponho, a seguir, algumas linhas para me situar como um observador incluído ao me observar a mim mesmo, enquanto ia tomando conhecimento dessas novas que a todos modificavam de dentro para fora.

Relato um caso de psicanálise que se desenrola intrinsecamente ligado com a história de nossa sociedade por ser parte importante do meio ambiente em que vivo: o meu caso, e com isto fico autorizado a quebrar o sigilo de mim mesmo. Pretendo uma revisão do caminho que fiz desde os morros do Partenon até esta provecta idade atual como membro jubilado da SPPA. Será um resumo de mim mesmo, necessariamente um texto em primeira pessoa. Faço aqui a cartografia das relações afetivas que me construíram, na minha intra, inter e trans subjetividade, inclusive no desenrolar de uma simbiose com minha parceira de sessenta anos de convívio, com a construção de nossa “inteligência coletiva” e coautoria.

Freud entrou lá em casa pelas mãos de minha mãe, ainda antes de ela fazer o curso de Psicologia na primeira turma da PUC-RS e mesmo antes de completar o de Filosofia (1945), também na primeira turma da mesma Universidade, e que fez depois de bacharelar-se em Direito (1939) naquela Faculdade que veio a formar o núcleo da UFRGS. Essa trajetória foi acompanhando as progressivas possibilidades que a então pequena Porto Alegre ia propiciando, visando um desejo íntimo de conhecimento da natureza humana, talvez impelida pelo fato de ter seis irmãos mais velhos, e ver nascer outros três depois dela e ainda, ao casar-se, faze-lo com um viúvo que tinha dois filhos então menores de dez anos. No fim daquele ano havia mais um na família: eu.

Meu pai, filho de imigrante italiano, nasceu no interior onde meu avô era “posteiro1” em uma fazenda, e fez sua vida em Porto Alegre onde estudou na Escola Superior de Comercio e logo entrou no Serviço Publico Estadual por concurso em que tirou primeiro lugar. Ao fim de sua curta vida (para meu gosto) era Professor Catedrático de Estatística Econômica e Financeira da Faculdade de Economia da UFRGS, além de jornalista, crítico de arte e historiador com diversas obras publicadas sobre imigração alemã e italiana no Rio Grande do Sul, algumas coletadas em www.pellanda.com.br/Ernesto.

A nossa era uma família da classe média que morava numa casa de madeira no fim-da-linha do bonde Partenon. Vivíamos com os modestos ganhos dos dois, de um fim-de-mês ao outro, sem maiores poupanças ou reservas. Sempre estudei em colégios públicos e nosso meio de transporte era o bonde. Houve mesmo um episodio em que me neguei a comprar um livro indicado no colégio, terceiro ou quarto ano primário “porque era fim de mês” e o dinheiro devia estar curto… Houvesse Twitter nessa época, teria virilizado o episódio, muito comentado entre direção e professores. Eles trabalhavam e nós outros, crianças, tínhamos um morro inteiro quase desabitado entre o Partenon e a Gloria e fazíamos uso dele jogando futebol morro acima e morro abaixo (mudança de lado no intervalo…), descendo gramados em trenós de madeira e colhendo frutas silvestres e vergamotas e ameixas amarelas num capão de mato existente nas margens de um regato que, na planície, formava a “fonte da Passarinha”, onde navegávamos em uma mala velha de madeira. Éramos felizes e sabíamos disso.

Adolescente, acompanhei meus pais em viagem de trabalho ao Rio de Janeiro e fui levado a fazer “Teste Vocacionais”, então muito em moda, na Fundação Getúlio Vargas, sob orientação do Dr. Mira y Lopes, psicanalista espanhol, a quem conheci nessa ocasião. Depois de semana inteira de testes ele me comunicou a decisão, para mim muito decepcionante, de que não havia contraindicação para nenhuma profissão e que eu poderia escolher a que desejasse. Muitos anos depois, em análise, fui entender que o que eu queria na verdade é que decidissem por mim, aliviando-me da responsabilidade de faze-lo. Na época as duas opções que se propunham era ou Engenharia ou Psicanálise e havia uma indicação de ter a primeira mais peso. Hoje penso que foi mais produtivo ter escolhido ser psicanalista profissional e “engenheiro prático não licenciado” do que o inverso… Mas, como veremos, isso teve consequências…

Enquanto a “engenharia amadora” se limitou a montar rádios de FM, selecionar aparelhos de “Hi-Fi” para os amigos e gravar os concertos do Trio Porto Alegre no Salão Mourisco da Biblioteca, aparentemente não houve maiores consequências, mas quando aderi ao novo campo da informática pessoal, depois de comprar meu primeiro computador em 1979, aí parece que algo de sagrado foi atacado. Como dizia um colega, velho companheiro de primeira hora nessas incursões, “Perdemos muito amigos, intimidados pela nova tecnologia e que nos viam como ETs perigosos para seus respectivos modos pacatos de viver”.

Aqui estou falando de “técnica” como integrante da experiência vivida, na autopoiese de cada um e não apenas como “prótese” de que falava McLuhan. Como diz Nicolelis, a bola faz parte do pé do Pelé, a raquete faz parte da mão do Gustavo Kuerten, passam a fazer parte do corpo na percepção do sistema nervoso central, do mesmo modo como o rastelo passou a fazer parte da mão do macaco (Nicolelis, 2011, p 290, p 341). Todo conhecimento amplia a capacidade de pensar sobre tudo – tudo é ligado com tudo.

Hoje, quase quarenta anos depois, reconheço que a ameaça era bem mais do que apenas ao pacato modo de viver: era posta em questão toda a estrutura paradigmática que sustentava os campos de poder intra e inter-societário, locais e extra muros… Serem excluídos desses campos levou a uns quantos coetâneos, movidos por ressentimentos e mal-entendidos, a desejar separar-se e criar novos grupos, para terem seus próprios mundos de poder, mas eu decidi permanecer onde estava e buscar meu espaço, porque descobri que saber é ser e ser é saber e o mais importante de tudo é esta satisfação pessoal ter haver construído uma relação amorosa entre aqueles que me cercam e que formam a família estendida. Descobri de forma autônoma, no próprio corpo, isso que Maturana (1996) tanto salienta: seres humanos são neotênicos, isto é, dependentes de amor pela vida inteira.

Aonde vou? Onde quero chegar?

Tenho uma formação psicanalítica standard, padrão IPA, treze anos de análise “didática” pessoal com Dr. Roberto Pinto Ribeiro, quatro sessões de cinquenta minutos por semana, onze meses por ano, e mais quatro anos de seminários teóricos e clínicos, e duas “analises de controle”, a primeira com o Dr. José Maria Santiago Wagner e a segunda com o Dr. Mario Martins, que era meu analista de eleição, mas que ponderou levaria muitos anos até que ele tivesse uma nova vaga para candidato, sugerindo “um colega mais novo”, no que resultou ser uma boa escolha. Fui o primeiro da minha época a ser qualificado como “psicanalista”, ao ser aceito como Membro Associado da SPPA, título obtido com a aprovação de trabalho clínico sobre paciente homossexual. Fiz uso de prerrogativa vigente, não só não imprimindo como tampouco o distribuindo previamente na assembleia onde apenas li o texto na íntegra, tudo para preservar a identidade do paciente, o que consegui. Aprendi muito com essa análise, especialmente no respeito à individualidade do paciente, bem como a necessária convivência com meus próprios aspectos “trans”, durante a autoanalise de meus preconceitos pessoais, verdade que com a ajuda de meu analista.

Ainda nessa condição de Membro Associado, que, à época, se equivalia estatuariamente a de Membro Efetivo, porque estes eram em número menor do que dez, fui eleito tesoureiro da SPPA numa chapa em que o presidente era o Dr. Santiago Wagner. Olhando retrospectivamente, essa experiência de participar do CTA da Sociedade, com seus segredos e mistérios, partilhar de intimidades dos mais velhos explicitou para mim um lado humano de meus heróis que eu ainda não estava preparado para ver e de algum modo deve ter resultado traumática, porque em nenhum momento posterior cheguei a pleitear qualquer cargo administrativo em nossa Sociedade.

Durante o meio século que se seguiu, descobri que a análise é mesmo interminável e tenho procurado uma reformulação necessária para adequar a teoria e prática da Psicanálise ao cambio de paradigma ocorrido no fim do século XIX e representado pela constatação da complexidade nos fenômenos humanos.

Parto do princípio de que o Paradigma da Complexidade muda profundamente o modo como nos relacionamos com a “realidade” que não está dada a priori, mas é construída ao viver: seres vivos são seres autopoiéticos, isto é, produzem a si mesmos, física e mentalmente, como um todo, no processo de viver. Para isto dependem de sua estrutura interna e de sua relação com seu meio, com o qual trocam energia, mas não informação. A estrutura muda com as trocas de energia (alcalose pós-prandial, por exemplo), mas a organização permanece. A luz solar que me faz pegar uma cor é a mesma que faz uma folha verde produzir açúcar e água na fotossíntese – é a estrutura do ser que proporciona o resultado e não o que costumamos chamar de “estímulo” externo. Ora, isso tem implicações epistêmicas importantes, pois o que vem de fora não determina qual o resultado, que depende da estrutura do ser vivo. Se ela, estrutura, ficar comprometida, o ser vivo adoece ou morre.

O sistema nervoso, formado por células independentes chamadas neurônios, do qual resulta o que chamamos “mente”, é um sistema fechado que só se comunica com o exterior por via de seus órgãos de sentido e placas neurais em glândulas e músculos. Tudo indica (Solms, 2021, Damásio, 1999) que o cérebro é uma máquina de antecipar resultados e corrigir o rumo ao funcionar, mas trata-se sempre de uma interpretação pessoal resultado da experiência prévia daquele ser em especial. “Só se pode ver o que se aprendeu a ver” (Maturana, 1984, 1994).

Existe uma experiência muito esclarecedora sobre isto: discípulos de Varela dividiram uma ninhada de gatinhos em duas metades: metade podia explorar o ambiente andando, outra metade era levada pelos primeiros em um carro atrelado a eles. Depois de certo tempo, postos todos sobre a mesa do laboratório, os primeiros eram gatinhos normais, os segundo se comportavam como se cegos fossem batendo nos objetos, caindo da mesa, se não impedidos disso. Varela (1991, p. 174/5) Conclusão: não basta ter olhos para ver, é necessário que se “aprenda” a fazer isto em ato. Mais, como somos dependentes de nossa estrutura, uma pessoa que nasceu cega ou surda, terá necessariamente um mundo interno diferente, onde os valores de tato ou sensibilidade cutânea, terão predominância sobre sua visão de mundo, com um acoplamento diferente dos que podem e sabem ver.

Tive oportunidade de constatar isso, muito antes de entender o que presenciava, com um amigo de meu pai, cego e absolutamente apto para viver, inclusive identificando em que ponto de uma rua estava pelos ruídos e cheiros locais. Seu relógio de bolso “batia as horas” ao se pressionar a coroa e ele ganhava sua vida cantando com bela voz de tenor.

Nenhum neurônio fica inativo, se o ser vivo for cego, a área correspondente é adjudicada a outra função vicariante, por exemplo maior acuidade do tato. Isto tem sido usado, por exemplo, para criar uma “visão artificial” (MIT – retina artificial)1 por projeção de estímulos elétricos de imagens simples sobre a pele ou por implantes no cérebro, como fez o pioneiro Miguel Nicolelis com Aurora, macaca que aprendeu a usar um joystick com os pensamentos (Nicolelis, 2011). Se o cérebro se organiza de modo diferente, como nos autistas ou áspergers, então, mais ainda, necessitamos compreender essa nova epistemologia necessária para acompanhar o que se passa com eles. (Pellanda, 2022)

Além disso, como salienta von Foerster (2003 é preciso levar em consideração o que ele chama de conceitos de segunda ordem: “compreender o compreender”, ver, não com os olhos, mas através deles. Embora tenhamos pontos cegos em ambos os olhos, vemos um campo contínuo, sem falhas ou lacunas, porque o processo de ver é resultado de ação secundaria do cérebro, o que levanta de pronto a questão platônica: “o que é a realidade”. Se a visão precede à “realidade”, então talvez cada um tenha a sua e particular realidade. Ele lembra trabalhos de Maturana, Uribe e Frenk (1968) que

“… demonstram a existência de fibras centrifugas que se originam na porção central do cérebro e se dirigem à retina, distribuindo-se ao longo desta de tal modo que exercem controle sobre o que a retina vê. Por conseguinte, a retina está sujeita a um controle central e é por isto que devemos crer para ver.”

Então isso que chamamos “informação” é o resultado do funcionamento do organismo em relação com o seu meio em um processo que Maturana chama de “acoplamento estrutural” de modo que para um observador externo “parece haver transmissão” de conhecimento, quando na verdade, ele é recriado por cada um em seu viver, de tal modo que ele afirma “Conhecer é viver, viver é conhecer(Maturana, Varela, 1984). Se o ser vivo para de aprender, ele morre.

Duas consequências básicas para a Psicanálise: a diferença entre “análise” e “supervisão” se esfuma na medida em que se trata de um mesmo processo de aperfeiçoamento pessoal decorrente da relação com analista e supervisor. Outra é que o psicanalista deixa de ser o “autor” da análise, para ser o parceiro privilegiado num processo que é comum aos dois (Pellanda, 1996).

Certamente não sou um psicanalista freudiano ortodoxo, muito embora o profundo respeito que tenho por este senhor a quem, acompanhado por vários outros, atribuo o rompimento com o paradigma cartesiano, talvez apesar de si mesmo; não sou um psicanalista kleiniano, apesar de considerar esta senhora como uma pioneira chave no desenvolvimento do pensamento psicanalítico; tampouco sou um psicanalista bioniano, mesmo que considere este senhor da mesma estatura do fundador de tudo, Sigmund Freud; e muito menos sou um psicanalista lacaniano, porque penso que este senhor ao retornar à Freud, o fez de modo muito particular, fundado num estruturalismo que dispensa o sujeito e joga fora o nenê junto com a agua do banho, no dizer de Freud, ainda que em outro contexto. Aqui uma ressalva: nem todos os lacanianos de hoje em dia seguem à risca os preceitos estruturalistas da igreja dos primeiros tempos. É importante levar em conta o avanço das todas as ciências nesses mais de cento e vinte anos de existência da Psicanálise, inclusive dela própria. Eu sou psicanalista e pronto. É possível que a Psicanálise seja hoje uma Psicanálise “dois-ponto-zero”, mas isto é para outro momento3, entretanto, desde já reafirmando, a Psicanálise “ponto um” continua válida, tão válida quanto a Física Newtoniana o continua sendo em relação à Física quântica. Trata-se de uma questão do contexto em que se trabalha.

A pandemia de Covid trouxe um benefício secundário ao nos fazer pensar sobre nós mesmos, nossa trajetória de vida, perdas e ganhos. Foi aí que percebi que devo agradecer aos inimigos que tive, que foram poucos e cordiais, mas os tive, por me haverem bloqueado alguns caminhos tidos como obrigatórios para um sucesso profissional e que me teriam levado a tarefas para as quais não tenho gosto ou não sou propriamente apto. Meus primeiros textos eram rejeitados por alguns alegando serem “pouco psicanalíticos” (“Imagina! Ele cita Piaget!”), tendo mesmo ouvido que eram mais trabalho jornalísticos do que psicanálise (“parece que tu disfrutas dessas narrativas”, insinuando voyeurismo de minha parte…), como se fosse possível fazer algo de que não se goste. Aqui agradeço a Oliver Sacks haver restituído à medicina o “status científico” das narrativas clínicas, aliás, tão caras ao próprio Freud. Assim, restou-me seguir meu próprio caminho, que o fiz ao andar, como indica o poeta.

E, como disse antes, havia ainda mais uma estranha questão na minha biografia: em 1979, aproveitando o congresso da IPA em New York, comprei o que talvez tenha sido o primeiro computador pessoal a entrar no Brasil. Dos milhões de computadores que a Apple fabricou, o meu tinha número de serie 00949, ou seja, inferior a um mil (!) … e o manual que o acompanhava, o grosso “Livro Vermelho”, tinha páginas escritas à mão (!) impressas nele. Quando o mostrei para Steve Wozniak, criador do computador vendido pela Apple, durante um evento na PUC-RS, perguntando se a caligrafia era dele, disse “Wow – yes”, confirmando.

Esse computador, muito primitivo para os olhos de hoje, obrigou-me a me abrir para outras áreas do conhecimento que incluíam a cibernética com suas filhas mais velhas, a informática e as ciências cognitivas, mas não só, muito mais em decorrência da necessidade de criar os programas para fazê-lo funcionar: lógica, rigor cientifico, recursão, realimentação positiva e negativa, lógica não linear, a lógica paraconsistente de Newton da Costa (1980), a bi-lógica de Matte-Blanco (1975) me conectando com a Psicanálise e com a complexidade, fundando novo paradigma. Ainda a preconcepção de Bion (1962a) antecipando a moderna neuropsicanalise de Solms (2021) e a “embodied mind” de Varela (1991). E ainda, básico, mudar do ponto de vista do observador de fenômenos externos a mim, para esta outra posição de ser eu um observador incluído no fenômeno que observo, atendendo ao demonstrado por von Foerster (2003).

Neste momento, vejo a Psicanálise, uma ciência complexa, como sendo capaz de, para quem dela faz um uso adequado, propiciar a possibilidade de instalar em si um processo de complexificação individual que se dá simultaneamente a outro, o do psicanalista, numa iteração construtiva crescente para ambos. Lembra Bion que a mãe também se beneficia com a interação com seu bebê (Bion, 1962 a, p. 109) porque, do mesmo modo, se trata de um processo que inclui a ambos os autores. Penso mesmo que este seja o modelo do qual deriva posteriormente o que chamamos processo psicanalítico.

Com esta perspectiva muda toda a questão do “setting” o que explica porque tratamentos que continuaram via internet durante esta pandemia que nos assola seguiram sendo uteis a seus participantes, às vezes inclusive e paradoxalmente sentida como “mais intima” do que no consultório regular. (Pellanda, 2023). Manter o ritual do “setting” faz sentido porque estes mais de cem anos de experiência nos mostram que este ambiente é favorável a essa mudança que ocorre nas pessoas que se submetem ao processo psicanalítico, mas não é o uso do divã ou a frequência semanal que determinam a qualidade do processo, tanto que podem ser alterados sem prejuízo graves como demonstrado nesta pandemia corrente.

O “sistema operacional” desse processo é o da autopoiese, caracterizado pelo acoplamento estrutural ao meio e não pela adaptação a uma realidade externa dada. Em (Pellanda, 2019), trato mais extensamente dessa “desubstancialização” do setting, resumida acima, mas é necessário acrescentar que o conhecimento trazido pelas neurociências tem ratificado muitas intuições geniais de Freud, enquanto muito pouco tem se mostrado inadequado ou inexato, ainda que necessitando uma revisão dedicada. No contexto atual é possível buscar o entendimento que Freud abandonou em 1895 por falta de substrato de conhecimentos sobre fisiologia cerebral, hoje disponíveis, coisa a que Mark Solms se dedica explicitamente como se lê em seu livro “The Hidden Spring” lançado em 2021.

Um novo paradigma em meio à minha autoanálise…

É Thomas Kuhn quem diz que um novo paradigma se estabelece quando o anterior já não consegue abarcar fenômenos que estejam sendo estudados. Ele comenta que na medida que um paradigma não consegue explicar um determinado fenômeno, vai-se abrindo uma fenda por onde se infiltra um outro modo de explicar, um remendo, no paradigma vigente. Ao se acumularem, esses remendos acabam por instituir um novo paradigma que concorre com o anterior por validação (Kuhn, 2000). A troca se completa pelo desaparecimento dos velhos proponentes do antigo restando afinal apenas os do novo… Entretanto, números complexos, equações não lineares, física quântica e o objeto de estudo da Psicanálise, inefável e complexo, o inconsciente, decretaram a necessidade de um novo modo de considerar todos esses fenômenos, com uma rapidez e predominância que atropelou muitos “velhos” que não tiveram tempo para se adaptar aos novos tempos.

Tenho para mim que Sigmund Freud foi um pioneiro neste novo Paradigma da Complexidade, apesar de si mesmo, ao se pretender um cientista cartesiano4, mas, como introduziu um objeto de estudo inefável, o inconsciente, trouxe para cima da mesa um novo tipo de conhecimento, que não se podia reger pelos critérios lineares das ciências ditas “exatas”, que dependia de novos modelos para encarar a visão de mundo de cada um.

Em “O Caminho desde a Estrutura” ele (Kuhn, 2000) desenvolve e corrige seus próprios pontos de vista em relação ao que seja um “Paradigma” e como ocorre a substituição de um antigo por um novo. Ele chama à atenção para o fato de que “estar dentro do paradigma” é fundamental para perceber a coerência dos discursos, comentando de como achou Aristóteles “não apenas ignorante de mecânica como um físico terrivelmente ruim” (p. 26) até que percebeu que ao falar de “movimento” ele estava falando de “mudança” e, continua:

… subitamente, os fragmentos em minha cabeça rearrumaram-se de uma nova maneira e encaixaram-se todos juntos em seus devidos lugares. Meu queixo caiu, pois, de repente, Aristóteles parecia, na verdade, um físico realmente muito bom, mas de um tipo que eu jamais havia sonhado possível (p. 27)

Vejo este episódio como o relato honesto e sincero de um cientista se reconfigurando em um verdadeiro “insight”, em que “subitamente todos os fragmentos se encaixam”, indistinguível daqueles que ocorrem em uma sessão analítica. Aos puristas que pretendem reservar esta palavra apenas para esta última situação, lembro que o paradigma mudou, e com ele, o sentido das palavras, como segue demonstrando Kuhn, ao discutir a questão da “incomensurabilidade”, isto é, nas linguagens peculiares de cada teoria, eventualmente não passível de tradução direta uma em outra. Então, como neste novo paradigma estou considerando que se trata de um mesmo fenômeno de complexificação pessoal, penso que cabe usar a mesma palavra no mesmo sentido original, porque o que muda é o entendimento do fenômeno como sendo idêntico ao ocorrido no “setting”, mas que se entende como não dependente dele.

Meu exemplo pessoal preferido para este tema é de como não faz sentido falar em “estímulo” ou “inputs e outputs” se entendo que “o que vem de fora não determina”, isto é, que entendo ser a natureza do ser vivo o que determina o resultado. Até pode-se pensar em usar a palavra “estímulo” para dizer que houve uma mudança no ambiente externo, à qual deve reagir o ser vivo, mas implica em dois sentidos para a mesma palavra, o que, certamente, não contribui para a clareza do discurso.

Entre nós, vale lembrar o quanto foi preciso para que Bion fosse tomado a sério em nossa SPPA: ouvia-se, e não a sotto voce, que era pura bobagem isso de “não ter memória nem desejo” ou que “trata-se de uma aventura a dois” – “o paciente que chega hoje não é o mesmo que saiu daqui ontem” eram tratadas como desdém e arrogância de quem “sabe das coisas”. Ainda na recente (julho de 2022) Reunião Virtual que iniciou a comemoração dos 60 anos da Sociedade, ouviu-se claramente que houve quem questionasse essa abertura para o social, atualmente em curso com as atividades junto a pessoas carente e escolas municipais, alertando “para o perigo de desvirtuar a pureza da psicanálise”…

Como se deu a mudança do paradigma

Vendo retrospectivamente, já no fim do século XIX começam a surgir teorias que fogem ao determinismo newtoniano-cartesiano, como a noção de números complexos, as equações não lineares de Poincaré e a Psicanálise, e depois da virada para o XX, a Física Quântica, a cibernética e as neurociências. Como disse acima e repito agora, quando Freud inclui no estudo do ser humano o seu inconsciente, leva o problema para um outro patamar, pois, sendo inconsútil, o inconsciente não pode ser estudado pelos meios tradicionais de tentativas e erros, que, aliás, os condutistas-comportamentalistas continuam a tentar validar.

Freud usa seu próprio inconsciente como ferramenta para intuir o de seus pacientes, embora nos começos, o que ele chamou de “contratransferência” fosse tido como não desejável. Foi necessário esperar por Henrique Racker (1953) e Paula Heimann (1950) para que fosse reconhecido o potencial de poderosa ferramenta no entendimento do processo inconsciente de ambos, paciente e analista.

É interessante notar que vários psicanalistas já haviam intuído, de modo difuso, a necessidade de admitir uma mudança paradigmática, ainda que lhes tenha faltado este último passo de identificar qual o paradigma adequado para pensar a Psicanalise. John C. Foehl (2008, p. 1234), por exemplo, examina ideias de Edgar A. Levenson em que ele propõe que há sempre mútuas influências inconscientes entre analisando e analista durante o trabalho clínico. O autor reconhece a precedência de Racker em 1953 e outros, mas omite Paula Heimann, que lhe é anterior, dentro do eclipse que autores Kleinianos tem ou tinham na zona da “Psicologia do Ego”. Levenson, continuando, “sugere que uma mudança de paradigma oferece uma diferença fundamental no modo de pensar a experiência humana” e propõe, então, focar no processo e não na estrutura do que se pretende explicar, reconhecendo que o observador faz parte do fenômeno observado.

A Psicanálise seguiu seu curso de ciência independente, rejeitada pelo establishment e negada pela medicina, até que os médicos americanos se apropriaram dela, declarando que apenas médicos poderiam praticá-la, no que foram seguidos por muitos, mesmo que de forma pouco clara. Esta situação se resolveu após processo aberto por psicólogos que acusavam de monopólio a Sociedade Americana de Psicanálise, APsaA, e a International Psychoanalytical Association, IPA, processo este de longa duração e elevados custos de que cada um de nós, associados desta última, pagamos uma parcela.

No Brasil, cada Sociedade tinha sua própria posição, com São Paulo permitindo a “análise leiga” e Porto Alegre exigindo diploma de medicina, por exemplo. Fui dos primeiros a contestar essa posição, até por ter tido mãe profissional da área, não menos competente do que muitos dos que vi exibirem sua arrogância ao seguir impedindo a entrada de Psicólogos na SPPA, o que acabou acontecendo pela pressão econômica.

Também a Medicina de modo geral e a Biologia, em particular, seguiram suas evoluções no sentido de irem relatando situações que desafiavam o paradigma cartesiano. Por causa de estranha doença da filha do Sr. Macy, foram convocadas reuniões transdisciplinares que incluíam não só médicos, como físicos, engenheiros, biólogos, epistemólogos e mesmo um psicanalista, na tentativa de encontrar uma resposta ao sofrimento da moça. Essas conferências se repetiram a cada ano e ficaram conhecidas como as Macy’s Conferences. Delas resultou o que se conhece por “primeira cibernética” com a demonstração de mecanismos de realimentação e controle, basicamente por parte de von Neumann e Norbert Wiener.

Em um primeiro momento foi reconhecido o fenômeno de realimentação dos sistemas, de modo que um determinado fato repercutia no modo como de desenrolavam os seguintes, sendo que no caso de a influência ocorrer em partes anteriores do processo, resultava em um controle do fluxo processual, [feedback] ou profundas e inesperadas consequências se o efeito fosse a posteriori, [feedforward] podendo resultar em perda total do controle do sistema.

A entrada de Heinz von Foerster no grupo trouxe uma nova abordagem à questão dos sistemas porque passou a incorporar a percepção de que o observador está sempre implicado no sistema observado. “De que posso falar senão de mim mesmo?” (von Foerster, 2003, p 283). Desse momento em diante se pode falar de uma “Segunda cibernética”, caracterizada por ser o observador incluído no fenômeno observado e alterando a percepção por partir das experiências pessoais dele. Trata-se de uma “ciência complexa”, na verdade um conjunto de ciências, um saber transdisciplinar, que forma um dos pilares do que hoje se conhece pelo “Paradigma da Complexidade”.

Aqui uma questão derivada de fundamental importância – ética em Psicanálise:

No momento em que surge a noção de responsabilidade, temos a noção de ética. Vou então desenvolver a noção fundamental de uma ética que contradiz os princípios ordenadores que pretendem organizar o outro com o mandamento: “Tu deves”, e o substituir por um princípio organizacional, que implica organizar-se a si mesmo com o mandamento: “Eu devo” (op. cit., p 112 – ênfase minha).

Decorre daí que nem deveria ser posta a questão de ser obrigatória a análise pessoal para fazer a formação que leva a ser psicanalista – a obrigação tem que vir “de dentro”. É impossível ser psicanalista e praticar fraudes como aquela do “homo de Piltdown” ou se o analista desconsidera um impasse ideológico: neste momento eu não seria capaz de aceitar em meu divã um sujeito que se declare nazista, por exemplo: me dou o direito de não ter mais paciência com esse tipo de negacionismo patológico não suscetível a acesso racional ao menos para aquela dúvida inicial que permite discutir uma posição. Do mesmo modo, não é análise aquela em que o analisando esconde deliberada e sistematicamente uma falta de conduta ou atitude discriminatória. A sinceridade e transparência é condição básica de manutenção do processo psicanalítico.

Neste momento paradigmático em que passamos a considerar os sistemas e sua organização, em vez de estruturas fixas e funcionamento mecânico, convém lembrar que Freud ainda nos anos 1800s, no dizer de Sacks (1998): “ficou convencido de se necessitar de uma nova maneira de ver o cérebro. Um modo mais dinâmico de vê-lo foi tomando conta dele”. Dando ênfase na organização e não na diferença entre neurônios, Freud antecipa de um século os achados de Maturana que afirma ser a organização do ser vivo o que o torna tal e não a natureza de seus componentes.

O processo de complexificação na Biologia: o eixo Neurociências – Psicanálise

Penso que Neurociências e Psicanálise são ciências irmãs que partilham o mesmo objeto de estudo, o homem como ser autopoiético e não apenas nervos ou emoções. Sendo assim, partem de lados opostos sobre o mesmo eixo, uma vinda da biologia celular, outra do aporte das emoções que geram sentido e não há como não se encontrarem a meio caminho.

A Psicanálise, criada por um neurologista inconformado com as limitações terapêuticas de seu tempo, tem uma teoria sobre as mudanças que vão ocorrendo nos seres humanos ao longo de sua vida, decorrentes do desenvolvimento orgânico, inclusive do sistema nervoso central, e das relações com pais ou cuidadores. Inicialmente Freud pensou em termos de que zona erógena predominava em determinados momentos, e mostrou etapas de predomínio oral, anal ou fálico, com suas consequências na formação pessoal. Melanie Klein chamou a atenção para o fato de que existe um Ego primitivo desde um primeiro momento e focou nas defesas desse ego no lidar com suas ansiedades paranoides ou depressivas.

Mais tarde Freud em O Ego e o id (1966 [1923]) acrescenta um novo modo de organização da pessoa ao comentar que o Ego, sendo aquela parte da mente que se relaciona com o exterior, é influenciado pelo meio, como se num processo de oxidação, descrição que se aproxima, e muito, com a de Maturana e sua autopoiese.

Seres humanos parecem ter um modelo de rede no buscar suas identificações constituintes de si mesmo. Os nós da rede representando pais ou cuidadores certamente serão predominantes, mas nunca se sabe que tio ou avó vai ser decisivo no constituir um traço de caráter predominante mais adiante na vida. Diz Nize Pellanda (2022, p. 112) sobre elementos epistêmicos e ônticos:

O primeiro deles é o princípio da rede como modelo de tudo o que existe. Esse princípio é epistêmico e ontológico ao mesmo tempo, pois está relacionado com o processo de construção do conhecimento e de si, que passa, necessariamente, pelas interações e afecções.

Quando Aristóteles diz que o Homem é um animal político, ele não está falando de política partidária atual, mas do fato reconhecido de serem os humanos gregários e dependendo uns dos outros para construírem seus próprios modos de viver. Maturana retoma isso e afirma que humanos, em uma metáfora com animais que não completam sua metamorfose para a fase adulta, são “neotênicos”, dependentes de amor por toda a vida… Que seres humanos são amorosos e solidários, quando em pequenos grupos. Freud chama a atenção do como nos comportamos de modo muito diverso quando participamos de uma turba, seja num piquete ou na torcida por um jogo de futebol, como se constata hoje em dia, cada vez mais.

Este modelo de complexificação de cada um, essa história de vida, parece faltar às neurociências e um dos mais proeminentes de seus representantes, Mark Solms (2021), concluiu ser necessário ir para Londres fazer uma formação psicanalítica standard para integrar as duas em sua “Neuropsicanálise”. Os exames não invasivos que permitem inferir que zonas cerebrais estão mais ativas, nem por sonhos imagináveis no tempo de Freud, hoje trazem novos desafios para interpretarmos aquilo que esses exames nos dizem. As tractografias nos mostram os caminhos dentro do cérebro, que se comunica com o que, e, como sempre, as respostas são muito mais globais do que se supunha nos tempos dos “localistas” mais puros que estavam à procura de que neurônio guardasse a lembrança de “vovó”.

A Teoria de Santiago e o Movimento de Auto-organização extrapolaram seus propósitos iniciais que se referia a células vivas para incluir seres multicelulares, organismos complexos e, mesmo, sociedades vistas como entidades autônomas: onde há referência à vida, necessariamente está a autopoiese. Tentando desfazer um mal-entendido epistemológico: a questão não é negar a existência de um mundo material – (sim, se eu jogar um copo de vidro no chão ele se quebrará, com toda probabilidade) – mas de como nos relacionamos com esse mundo. Certamente não por “representação” dele (Mondrzac et all, 2013)

Aqui uma questão em aberto: se admitimos como correta a Teoria de Santiago ou, ao menos, adequada a este momento de evolução da ciência que postula não haver um mundo dado, lá fora, e tudo o que sabemos dele depende do acoplamento estrutural ao viver esse mundo, então penso que o mesmo ocorre em relação ao mundo interior, constituído pelo feedback da “autopoiese consigo mesmo”, ao aprendermos a nos distinguir dos demais. Entendo que os sonhos fazem parte deste acoplamento com o interno, contribuindo na elaboração dos conflitos inconscientes e antecipando decisões tomadas de modo inconsciente e só reveladas ao acordar… É celebre o sonho de Keculé com o símbolo do Uroboro, uma cobra comendo a própria cauda, e que o levou a criação da fórmula do anel de benzeno.

Se nossos pacientes são seres humanos –vivos – então devem seguir as leis da biologia, incluindo, e principalmente, o fato de que somos seres autopoiéticos, logo sujeitos às leis gerais da biologia de tal modo que nada do que vem “de fora” é causa de uma modificação do ser, mas sua estrutura determina como e o que muda, como já disse e repito.

Além da Neuropsicanálise que tenta aproximar os aspectos funcionais do sistema nervoso com os conceitos psicanalíticos de Freud, por via de “voltar ao Freud do ‘Projeto’, mas com outras ferramentas”, como vimos, devemos agregar agora mais um elemento constituinte do humano, que é sua natureza biológica, que determina o como chegamos a mudar a nós mesmos e a nossos pacientes por via da análise. A mudança de paradigma, como já dito, impõe uma nova postura diante dos fatos que observamos na clínica, para incluir aí o modo como o organismo muda ao conviver com novos ambientes mentais proporcionados pelo “setting” que usamos desde um começo e que se mostrou adequado para nossos fins.

Faz diferença que uma compreensão possa ser quase instantânea e a incorporação desse saber no organismo, dependa de novas sinapses e mudança estrutural dos circuitos neuronais, o que demanda tempo para modificações proteicas complexas e que envolvem o sistema nervoso como um todo. A rigor, o que fazemos é proporcionar um ambiente amoroso e seguro para que cada um faça sua complexificação como ser humano, pelo acoplamento estrutural nesse novo ambiente propicio.

Para esse processo complexo e integrado, neurologia de um lado, psicanálise de outro, sustentados pela natureza biológica de nossa espécie, proponho o nome de Neurobiopsicanálise (Pellanda, L. 2022).

Como nos tornamos autônomos (que alguns chamam “adultos”) por acoplamento estrutural com nosso meio, que diverge substancialmente conforme o estrato social em que estamos, penso que o sistema econômico-político que nos rege está assim justamente para manter o “status quo”. Filho de marceneiro aprende a usar ferramentas ao natural, enquanto os filhos de intelectuais aprendem a usar “as letras” sem mesmo perceber que o estão fazendo.

Tenho para mim que a Neurobiopsicanálise tem um compromisso de romper com essa estrutura ao propor uma equalização de experiências desde os primeiros anos de ensino formal, propiciando a uns o uso das letras e a outros os instrumentos que vão necessitar para lidar com as lâmpadas e tomadas elétricas de sua casa… Entendo que experiências alternativas são importantes para que todos tenhamos oportunidade de conviver com um mundo diferente daquele que há em casa, propiciando uma formação pessoal mais rica. O período escolar inicial é o mais importante e deveria propiciar o maior número possível de oportunidades de contato com música vocal e instrumental, jogos da vida real e cibernéticos, de realidade aumentada, que tragam para dentro da escola algo que a maioria das crianças só teria mesmo aí, especialmente dando ênfase aos aspectos colaborativos em contraste com os competitivos. Muito mais importante do que “aprender conteúdos” é “aprender a aprender”, este sim, o verdadeiro papel da escola em qualquer nível. Na “Formação Psicanalítica” não lembro de haver sabido de algum local onde se discuta como escrever um trabalho publicável ou sobre ética do relacionamento entre os envolvidos no processo.

A Questão da Pesquisa em Psicanálise

Tanto Bion quanto von Foerster alertam para o fato de que ciências complexas não podem ser avaliadas pelos critérios reducionistas de Popper. Tratando-se de um processo, não cabe avaliação de “performance”, de haver mais ou menos sintomas ou alterações de conduta. Somente o próprio analisando pode dar conta de seu progresso em termos de sua complexificação estrutural e maior resiliência diante das vicissitudes da vida, medidas por critérios íntimos, pessoais. Precisamos de “Um metro para medir” essa complexificação, como proponho. (Pellanda, 2010)

Ainda, psiquismo não existe no ar, autônomo e independente do corpo físico que lhe dá vida. “O Ego é antes de tudo corporal” (Freud, 1966 [1923] p 27) – sempre me pautei por esta afirmativa liminar de nosso patrono. Agora, com Maturana e Varela e em seguida com Nicolelis e Solms, vamos entendendo como ocorre essa atividade do corpo que dá origem aos pensamentos e ações que nos caracterizam como seres vivos.

Então, que estamos fazendo quando fazemos pesquisa em Psicanálise? Aqui sigo com minha parceira de vida, Nize Pellanda (2022) que chama atenção para as cartografias como modo de conhecer o que se dá num fluxo – estamos cartografando o desenvolvimento de complexificações que nos vão constituindo ao longo do acoplamento estrutural com nosso meio.

Penso que, como cientista, não tenho o direito de ocultar minhas andanças pela construção de uma psicanálise que inclua o Paradigma da Complexidade no dia a dia do fazer psicanalítico, mas, ao contrário, tenho o dever de submeter minhas experiências ao crivo dos pares e me submeter às críticas bem-intencionadas ou nem tanto, como condição de validação delas. Então, aqui vai.

Muito do que penso já está publicado em periódicos científicos, como a Revista da SPPA e em apresentações em Eventos e Congressos, mas é importante ressaltar que sou também o resultado de minhas vivencias, seja nesta cumplicidade de sessenta anos com Nize Maria Campos Pellanda, seja nos encontros do Grupo de Estudos de Epistemologia Psicanalítica que formamos na SPPA sob comando da Viviane Mondrzak5, seja ainda na interação com meus analisandos que propiciam minha própria autoanalise. Sem eles não seria quem sou. Muito grato a todos.

Psicanálise é uma ciência complexa, mesmo transdisciplinar, na medida em que trata seres humanos que são complexos, e não apenas seus “inconscientes” ou suas “neuroses”, mas um todo mente-corpo que se pretende harmônico. Não advogo que se deva ser “expert” em física quântica, por exemplo, mas saber que existem fenômenos quânticos influindo no funcionamento do cérebro e, por tanto, no estado mental de um momento, pode nos proteger de uma atitude arrogante de “já saber tudo o que interessa”.

Tampouco penso que se deva ter Ph.D. em Neurociências, mas é fundamental saber que o cérebro é uma rede fechada de neurônios, que só se comunica com o exterior por via de seus órgãos de sentido ou seus efetores em músculos e glândulas. Disso decorre que não existe “transmissão de conhecimento”, mas o conhecimento é inevitável, logo o mecanismo tem que ser outro – e, desde Maturana e Varela (1984) sabe-se que é o “acoplamento estrutural” o responsável por isso.

Penso que não existe contradição entre este modo de ver e a “Neuropsicanálise” de Solms (2021) e outros, que retomam a tentativa de “engenharia reversa” de Freud quando imaginava que dispositivos neurológicos seriam necessários para desempenhar as tarefas conhecidas do viver diuturno. Há certamente, muito espaço para novas pesquisas que completem ou complementem o que se sabe correntemente. Portanto, além de psicanálise e neurologia cabe lembrar que seres humanos são, basicamente, seres vivos que compartilham com todos ou outros seres vivos algumas particularidades que são expressivas e estudadas na Biologia, que também é, assim, base de ambas, psicanálise e neurologia.

Por exemplo: “seres vivos” nessa concepção da Teoria de Santiago, são unidades autônomas, autopoiéticas que trocam energia com o meio, mas não trocam informação, que é criada dentro da unidade vivente como expressão de seu modo de viver, ou seja, recriar a roda é nosso modo de ser e viver. Isto implica necessariamente em levar sempre em conta nossa condição se seres vivos e sujeitos às leis da biologia, com especial ênfase ao fato de que dependemos de acoplamento estrutural para nos constituirmos como pessoas.

Qualquer pesquisa em Psicanálise não pode deixar de fora o ambiente onde ocorre, inclusiva as pessoas do analista e do analisando: formam um sistema que, em funcionamento harmônico, leva à complexificação de ambos e a mudanças no ambiente. De qualquer modo, como em outras ciências complexas, nunca se poderá descrever todas as variáveis, de modo que resultados serão sempre estocásticos, não lineares, não aptos para descrever o futuro, salvo nos termos de probabilidades.

Freud e a complexidade: que intuições seguem válidas hoje em dia?

Sobre “Projeto para uma psicologia científica” (Freud, 1950 [1895]): trata-se de anotações de próprio punho de Freud feitas durante 1895 numa tentativa de entender o funcionamento do cérebro a partir de seus elementos constituintes, os neurônios. Estes haviam sido descritos por Golgi, que pensava que eram parte de uma rede anastomótica, tipo rizoma, mas que Ramón y Cajal demonstrou não haver continuidade entre eles, confirmando a teoria Neuronal de Waldeyer, apud Sacks, (1998).

Neste momento de seu percurso pessoal, Freud tenta compreender o fluxo de energia que intuía fluir no cérebro, “como estados quantitativamente determinados de partículas materiais especificáveis, tornando assim esses processos claros e livre de contradições” [Freud, (1950 [1895]) Vol. I, p 295] chamando “Q” o que distingue repouso de atividade e tomando neurônios como partículas materiais.

Introduz o princípio da inércia neuronal consistente em que os neurônios tendem a se livrar de “Q” para permanecer em um estado de mínima excitação. Num sistema nervoso elementar o arco reflexo representa essa descarga diretamente no sistema músculo-esquelético. Na medida em que o organismo se complexifica, “existe espaço para o desenvolvimento de uma função secundária”. [p 296] ou seja, postergar o efeito do arco reflexo.

O sistema nervoso se constitui de neurônios distintos e similares uns aos outros, que se conectam por intermédio de uma substância alheia a eles, de tal modo que recebem excitações pelos dendritos e as entregam via axônio. Entretanto, deve-se admitir que haja resistências à descarga, provavelmente nos contatos entre eles, formando “barreiras de contato”.

Ao conduzir a excitação de um neurônio a outro ocorre modificação da substância protoplasmática que existe entre eles, de modo que uma futura passagem seja facilitada. Neurônios que disparam juntos tendem a reforçar sua ligação, noção esta que apenas décadas depois será retomada por Hebb (1949).

Por hipótese deve haver dois tipos de neurônio: um formado por elementos permeáveis “φ” e outro por elementos impermeáveis “ψ”, capazes de armazenar “Q”. Diz então: “Se isto se confirmar, não os teremos inventado, mas apenas descoberto o que já existia.”

Faz considerações sobre “quantidade” e “qualidade” dessa energia e tenta entender a dor como um excesso que ultrapassa os limites de controle do sistema. Seguindo com o desenvolvimento de sua teoria, Freud encontra que é necessário conceber um terceiro tipo de neurônios, “ω”, constituindo um sistema perceptivo e que teria algum papel no estabelecimento da consciência, entendida como a percepção subjetiva de uma parte dos eventos neurais.

Ainda que seja produto de um raciocinado muito sofisticado, Freud se declara desiludido com os resultados, especialmente pela dificuldade de explicar a consciência e abandona este projeto, inclusive fazendo de tudo para que não fosse publicado quando tomou conhecimento, em seus últimos dias, de que ele havia sobrevivido entre os papéis de Fliess.

Resta perceber quanto um projeto abortado pode ser entendido como fazendo parte de um percurso pessoal do autor, levando-o a outros patamares de formulação teórica. Inúmeras “notas ao pé” ao longo dos vinte e dois volumes de suas obras completas remetem à origem de suas ideias já esboçadas no “Projeto”.

Mark Solms (2021) retoma esse projeto com a vantagem de se situar 120 anos após, instrumentado por diversas tecnologias não invasivas de imagens de cérebros funcionantes, e reconhece que o afluxo de oxigênio nos locais de maior atividade cerebral não deixa de ser um aporte energético aos neurônios em funcionamento, o que, pelo menos em parte, confirma intuições geniais de Freud.

Como penso a formação psicanalítica – Sociedades Psicanalíticas são Guildas?

Se mudamos de paradigma, isto precisa ser explicitado nos cursos teóricos dos Institutos das diversas sociedades porque é necessário reconhecer a necessidade de uma nova epistemologia para dar conta de novos fenômenos ou novas maneira de os ver.

Pressupõe-se que os candidatos a serem psicanalistas já possuam conhecimentos razoáveis de humanidades e de processo científico, mas nada impede que se faça um seminário de discussões sobre cultura conhecimentos humanísticos no início da formação. Certamente além de Freud, Melanie Klein e Bion, devemos rever os seguidores mais destacados, mas é imprescindível incluir um seminário de Biologia do Conhecimento, básico para poder acompanhar o desenvolvimento deste novo paradigma da Complexidade, bem como noções de Neuropsicanálise ou Neurociências, se não quisermos nos comprometer com um aspecto particular desse desenvolvimento.

Ética, neste paradigma da Complexidade, como diz von Foerster (op.cit.), decorre da noção de responsabilidade pessoal no processo, de modo que é preciso substitui o “tu deves” por um “eu devo”. Colegas didatas que se casaram com candidatas foram postos em ostracismo pelos restantes, embora estes aspectos de ética nunca tenham sido discutidos abertamente durante a formação, ou ao menos não era, no tempo em que a fiz. Não discuto que possa haver sentimento legítimo entre analistas e pacientes, mas, assim como detentores de cargos públicos passam por um período de impedimento antes de poderem se candidatar a cargos eletivos, penso que um período de afastamento e, quem sabe, reanalise dos dois com outros colegas possam tornar aceitáveis estas questões. Como está fica uma afirmação de que tudo o que se passa entre analista e analisado é transferência, o que seria absurdo.

Ética tem que ser amplamente discutida, inclusive para poder identificar aquelas pessoas com distúrbios de caráter que os tornam inadequados para a prática da psicanálise. Há uma necessidade de estabelecer uma ponte entre Epistemologia e a Ética, segundo Bateson, mais ainda de se tratar de uma Epistemologia Psicanalítica, que necessita uma revisão para se adequar ao novo paradigma. Na nossa Sociedade tivemos um Grupo de Estudos de Epistemologia Psicanalítica que atuou por mais de três lustros e produziu trabalhos publicados na nossa e em noutras revistas, como por exemplo “Sobre Representar” apareceu em letra de forma na Revista da SPPA, 20, n. 3, e que foi ponto de partida para uma intervenção da IRED6

A pandemia de Covid-19 decretou o fim de reuniões presencias e arrefeceu o entusiasmo do grupo, mas não está fora de questão um reaquecer de atividades, diante dos novos desafios que a Psicanálise, como parte das conquistas humanas, vai certamente enfrentar junto com as de­mais ciências nessa questão da sobrevivência mesma dos seres que habitam este pedaço do Cos­mos.

Quando Max Eitingon propõe o tripé de formação no Instituto da Sociedade de Berlim em 1925, estava antecipando o conhecimento trazido por Maturana e Varela (1984) de como ocorre a complexificação pessoas por intermédio do acoplamento estrutural com o meio. O “tripé” é caracterizado pelo conjunto de estudos teóricos nos seminários clínicos, embasados pela análise pessoal do analista em formação e pela sequência de tratamentos acompanhados por um supervisor qualificado, ou seja, pela ação de cada um numa relação consigo mesmo e com o seu meio, aprendendo por fazer.

Esse “tripé” vale para qualquer proposta de formação pessoal. Fico pensando em quanto disto tinham as “Guildas” medievais com seu modo de formação profissional pelo trabalho junto a um “Mestre” orientador. Que resultassem em um certo nepotismo, favorecendo pessoas de uma família para um determinado ofício, me parece mais a consequência de que eram os mais próximos os recrutados para integrar o “ofício”, filhos, primos, amigos da vizinhança, do que propriamente uma política de exclusão, embora o evidente desejo de preservação contra concorrentes desqualificados, algo como, hoje em dia, nos defendermos dos psicoterapeutas de TikTok e Twitter de hoje em dia…

Conhecimento decorre da ação sobre o meio. Se não existe “transmissão” de conhecimento, como ele necessariamente acontece? Sempre pergunto a meus analisandos: em que escola botaste teus filhos para que aprendessem a falar? Aprende-se por estar entre pessoas que falam. Para fornecer esse “meio ambiente” de partilhar ansiedades contratransferenciais, servem também as sociedades psicanalíticas aos psicanalistas proibidos por sua ética pessoal de “desabafar” com seus familiares em casa – recurso a supervisão não deve ficar limitada apenas aos casos de controle oficiais, recomenda David Rosenfeld (1992) sendo mandatória se o paciente mostrar componentes psicóticos importantes durante o processo psicanalítico.

Resultam serem as Sociedades Psicanalíticas ciosas da qualidade de seu saber, mantendo uma exclusão de quem não é do ofício, fazendo jus ao epíteto de torres de marfim. A escolha e quem está habilitado para partilhar conhecimentos, na chamada “Função Didática”, é outra questão a ser mais bem qualificada. Sabem de algum “didata” que tenha feito algum curso ou pós-graduação em Didática?

Repensando minha trajetória dentro da SPPA, penso que estes últimos anos foram os mais produtivos para mim, certamente por haver participado do Grupo de Estudos de Epistemologia Psicanalítica e ter tido uma acolhida afetiva que me faltava em tempos anteriores. Nas últimas décadas temos assistido a uma maior abertura para colaborações com entidades publicas em educação e saúde, propiciando uma melhor compreensão do que seja psicanalisar-se.

SPPA e abertura

No site da SPPA7, temos um belo exemplo de bom uso da internet e da necessidade de divulgarmos o que fazemos de modo mais afetivo e próximo dos leigos que nos procuram, ainda que apenas por curiosidade e mesmo que seja por um traço de curiosidade patológica, que também merece cuidados. Cabe a nós saber lidar com esses novos desafios das comunicações virtuais.

Recentemente uma parceria com universidades UFCSPA e UFRGS de Porto Alegre, via LIPSAM, Liga de Psiquiatria e Saúde Mental, que reúne profissionais e estudantes dessa área, fez conceitos de psicanálise chegar ao publico interessado, numa atividade pública muito produtiva. Parcerias SPPA-Pescar, SPPA-SMED, exibições de filmes e peças de teatro comentados por alguém da SPPA, Café Literário e o canal oficial no YouTube exemplificam essa abertura para o social.

O mais precioso desses serviços penso que seja o CAP – Centro de Atendimento Psicanalítico, que fornece possibilidade de analises a baixo custo para pessoas que dela necessitam. A SPPA possui uma Biblioteca bastante abrangente, mas as consultas são limitadas a membros da Sociedade. Ainda no site podem ser encontrados outros modos de interação com a sociedade, como contatos via aplicativos WhatsApp, Facebook, YouTube, Instagram e Twitter.

Revisando atas antigas que não estejam sob sigilo se poderá ver que cheguei a propor ao presidente, Dr. Roberto Pinto Ribeiro, ainda em 1986, que a SPPA comprasse um computador para fazer exatamente isso, mas nunca passou de projeto frustro, já que não foi encampado pelos da época.

Minha práxis complexa

Do mesmo modo como a análise é interminável, também a formação psicanalítica o é. Numa semana de abril de 2022 tive duas experiências contratransferenciais que me mostraram necessidade de supervisão de minha autoanálise, que, lamentavelmente, terei que fazer comigo mesmo, por falta de com quem fazer. Esse o ônus de seguir vivendo quando os mentores já deixaram de fazê-lo, e os que poderiam vir a ser ainda não se configuraram no meu horizonte.

Decidi, pôr em prática antigo plano concebido junto com minha mulher e anunciar minha intenção de parar de trabalhar em 18 de setembro do ano de 2022, data em que minha mãe faria 110 anos, numa aposentadoria voluntária, antes que uma compulsória se impusesse. Emoções e protestos eram esperados, mas a resposta de acting de um me surpreendeu pela primariedade de um golpe de internet em que se deixou envolver, como para me provar que não pode ser “abandonado na rua”, embora viesse há anos num progresso aparentemente consistente, muito embora sempre ressaltando “que nosso casamento era até que a morte nos separasse…” Não tive oportunidade de fazer o relacionamento de sua conduta com meu anúncio anterior, até porque foi só à posteriori, na minha auto supervisão, que percebi a ligação. Em sessões seguintes foi possível relacionar sua “ingenuidade” com a ameaça de abandono e pode retomar seu ritmo de aumento de autonomia, ainda que a contragosto… Seguem-se uma serie de episódios que reforçam esse sentido de uma chantagem afetiva para que eu não abandone o “pobre órfão desvalido”. Na medida em que vamos analisando essa conduta, vem mostrando um entendimento de que realmente prefere ser tutelado a tutelar e que por isso mesmo jamais se casou… Agora sua preocupação é com quem vai cuidar dele quando ficar sozinho…

Outra pessoa está em um ritmo crescente de percepções importantes a propósito de seu desenvolvimento precoce com mãe tóxica, eu diria que até com momentos psicóticos não identificados como tal pela família, e me percebi com pena de interromper esse andamento de sua análise… Relembrando aquela ocasião em que Freud deu um prazo para o “Homem dos Lobos” ficou evidente para mim que houve uma “aceleração” de todos os pacientes tentando uma elaboração prévia da separação. A sensação de abandono de uma, levou-a a recordar que não lembrava de ser olhada por sua mãe quando pequena, e que a sentia como tendo inveja dela, por ser a primeira neta dos avós e ter a atenção de todos na família, sentimento esse que despertava intensa culpa inconsciente, agora reconhecida como sendo a fonte de seus sentimentos de desvalia.

Não contei quantos foram os que estiveram em meu divã desde os tempos de analista principiante, mas sempre rebelde, até estes dias de mudança paradigmática em que tentei repassar esta questão de como e porque existimos, velha questão filosófica que não é responsabilidade da Psicanálise responder. Cabe a cada um, em sua autonomia, decidir qual trilha quer trilhar, quando e por quê. O analista é um ajudante nesse processo de complexificação pessoal, se ele próprio passou por essa experiência e tem consciência disso.

Propondo uma utopia complexa para um mundo distópico

Precisamos de uma Psicanálise que nos veja como entidades autônomas, inteiras, complexas, e não simplesmente um somatório de ossos, músculos e nervos. Seres profundamente ancorados em nossa biologia que agora sabemos condicionante de relações com nosso meio, de forma a construirmos a nós e a nosso mundo pela nossa autopoiese.

A ideia é resgatar o protagonismo dos seres humanos como agentes de sua própria transformação. Nessa perspectiva complexa é necessário tecer juntas as dimensões biológica, cognitiva e social da realidade humana.

Afirmo há muito que as ciências são na verdade uma só – o conhecimento – e que esta divisão em diversas disciplinas, se nos facilitou o entendimento de cada uma, tem impedido as sínteses que agora aparecem ainda com certa timidez. Mark Solms e seus companheiros propõem uma “Neuropsicanálise” em que os conhecimentos de uma e outra possam fertilizar o enriquecimento de cada uma. Mas, dada a fundamental relação com a biologia, pois todos os nossos pacientes são seres humanos vivos, como já disse, então acho que o adequado para este momento seria uma Neurobiopsicanálise, como propus.

Ao modo do Uroboro, retornando ao início ou, à guisa de conclusão

Como avisei lá no início, aqui se teria como que um resumo de mim mesmo, com todas as repetições e cabeçadas que me acompanharam ao longo deste percurso, mas que todas elas fizeram com que eu me tornasse isso que sou.

Os dinossauros viveram por aqui durante 140 milhões de anos, mas nossa humanidade provavelmente não chegue nem a meio milhão. Sempre pensei que esta humanidade fosse inviável na sua configuração atual e condenada a existir por muito menos tempo, basicamente por ser movida por ambições e prepotências, uma civilização baseada na concorrência e no lucro e não na solidariedade e consideração pelos demais. A guerra da Ucrânia está aí com sua ameaça de uso de armas atômicas, genocídios, sofrimentos inauditos e ódios disseminados, como que para ilustrar este parágrafo.

Estaremos mesmo muito perto desse desfecho final, caso se persista na ignorância da necessidade de viver em consonância com a Natureza. Ou achamos os dez homens justos ou damos adeus a Sodoma e Gomorra, “Terra nostra”.

Ultimamente, tendo conhecido, por seus livros, a Francisco Varela e Mark Solms, e pessoalmente, a David Rosenfeld, Marcelo e Maren Viñar, Humberto Maturana, a Pierre Levy do Fogo Liberador e da Inteligência Coletiva, a Peter McLaren, um educador de primeira e apreciador do Chê em plenos Estados Unidos, a Lia de Oliveira, Jorge Collus e Rosa Fontes da Equipe com que trabalhamos em Braga, Portugal, e mais a Karla Demoly, a Deisimer Gorczevski e a Maria de Fátima, sem esquecer esta turma toda de amorosos colegas do Grupo de Estudos de Epistemologia Psicanalítica da SPPA, citados acima, começo a pensar que talvez eu não tenha sabido valorizar o suficiente a quantidade de gente amorosa que existe neste mundo. E nem citei os que ainda estão por aqui e os que já se foram, pessoas muito queridas, médicos, amigos e colegas que são muito numerosos para individuar, mas que sou igualmente grato a todos.

É com gente como essa que conto para construirmos uma Psicanálise que dê conta das complexidades atuais, científicas, políticas e sociais.

Este é um texto que não termina enquanto eu próprio não terminar. Minha intenção até aqui foi mostrar que é possível viver no fluxo sem exigir uma “base sólida” para nos proteger das incertezas necessárias de um processo que está em constante mudança.

 

Aqueles que atravancam meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho

— Mario Quintana, glosando não ser eleito para a Academia de Letras.

 

Referências

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Von Foerster, H. (2003) Understanding Understanding Essays on Cybernetics and Cognition, Springer-Verlag, New York, 2003127-159 2

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1 Posteiro – Regionalismo gaúcho para empregado de estância que mora na periferia dela, encarregado de cuidar das cercas e impedir o extravio do gado.

2 Acessado em 21092022 – https://www.technologyreview.com/2004/09/01/232456/demo-artificial-retina/ e https://www.youtube.com/watch?v=bpCnMkMLfXk

3 Revista de Psicanálise da SPPA, v. 29, n. 2, p. 1-21, agosto 2022

4 Interessante notar que também Spinoza dizia seguir estritamente a Descartes ao demonstrar sua Ética “à moda dos geômetras”.

5 O grupo inclui ainda Alice Lewkowicz, Eneida Iankilevich, Gisha Brodacz, Anna Luiza Kauffmann, Sérgio Lewkowicz, Idel Mondrzak e Gustavo Soares, além de Viviane e eu, mas incluiu também outros colegas que participaram por algum tempo.

6 www.ipa.world/en/encyclopedic_dictionary/English/home.aspx

7 www.sppa.org.br